Entenda o impacto da construção da usina de Belo Monte


Artigo muito relevante sobre a construção da hidrelétrica de Belo Monte, escrito por Marina Silva.
É um projeto que pode ter um grande impacto ambiental e social, mas que está caminhando sem a devida atenção de quem pode influenciar. É a velha discussão do progresso e desenvolvimento, mas os tempos são novos.
Precisa mesmo construir algo nesses moldes e com o impacto que terá, sabendo que desperdiçamos boa parte da produção da energia do país graças a uma rede de distribuição obsoleta e cheia de falhas. Realmente não sei a resposta, mas talvez não estejamos discutindo o suficiente.

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Quinta, 4 de fevereiro de 2010 Pandora é aqui?

Marina Silva
De Brasília (DF)

Pandora é aqui?

O Ibama concedeu a licença prévia para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Trata-se de um projeto muito polêmico, localizado no rio Xingu, no Pará, próximo ao município de Altamira, numa região conhecida como Volta Grande do Xingu. O nome deve-se ao desenho do rio que, visto de cima, assemelha-se a uma “ferradura”.

Por meio de barragens, as águas do rio serão desviadas para um canal que unirá as pontas mais próximas dessa “ferradura”. Ao final desse canal, as águas passarão pelas turbinas antes de retornarem ao seu curso normal.

Como tudo na Amazônia, os números que envolvem a obra são gigantescos. A quantidade de terra e pedra que será retirada na escavação do canal é cerca de 210 milhões de m³ – um pouco menor da que foi removida na construção do Canal do Panamá. E ainda nem se definiu qual a destinação desse material.

Pelo leito do rio Xingu passa uma vazão de 23.000 m³/s de água no período de cheia. Um volume correspondente a quatro vezes a vazão, também nos períodos de cheia, das Cataratas do Iguaçu.

Os impactos socioambientais também terão essa mesma ordem de grandeza. E ainda não foram concluídos. Só sobre a fauna, segundo dados coletados durante o Estudo de Impacto Ambiental, podemos ter uma idéia. Na área existem 440 espécies de aves (algumas ameaçadas de extinção, como a arara-azul), 259 espécies de mamíferos (40 de porte médio ou grande), 174 de répteis e 387 de peixes.

Apenas a eficiência energética da usina não será tão grande. Uma obra colossal que custará certamente mais de R$ 30 bilhões – se somados todos os gastos, como o custo e a extensão da linha de transmissão, por exemplo – terá uma capacidade instalada de gerar, em média, 4.428 MW, em razão do que poderá ser suportado pelo regime hídrico do rio, nesta configuração do projeto. E não os 11.223 MW que estão sendo equivocadamente anunciados.

A energia média efetiva entregue ao sistema de distribuição será de 39% da capacidade máxima de geração, enquanto a recomendação técnica indica que essa eficiência seja de pelo menos 55%.

Para que Belo Monte possa apresentar um grau de eficiência energética
compatível com as recomendações técnicas, seria necessária a construção de outras três hidrelétricas na bacia do rio Xingu, que teriam a função de regularizar a vazão do rio. Por ora, a construção dessas usinas foi descartada pelo governo porque estão projetadas para o coração da bacia, onde 40% das terras pertencem aos indígenas.

No entanto, a insistência em manter o projeto nessa dimensão (apesar de haver alternativa de barragem com quase metade da capacidade instalada e perda de pouco mais de 15% na potência média gerada) provoca forte desconfiança, tanto dos analistas como das comunidades e dos movimentos sociais envolvidos, de que a desistência de construir as outras três hidrelétricas seja apenas temporária.

A população indígena – são mais de 28 etnias naquela região – ficará prensada entre as cabeceiras dos rios que formam a bacia, hoje em processo acelerado de exploração econômica e com alto nível de desmatamento acumulado. E a barragem, além de interromper o fluxo migratório de várias espécies, vai alterar as características de vazão do rio.

É incrível que um empreendimento com esse nível de interferência em ambientes sensíveis seja idealizado sem um planejamento adequado quanto ao uso e à ocupação do território.

A solução de problemas dessa dimensão não pode ser delegada exclusivamente a uma empresa com interesse específico na exploração do potencial hidrelétrico, com todas as limitações conhecidas do processo de licenciamento.

Com a obra, são esperadas mais de 100 mil pessoas na região. Não há como dar conta do adensamento populacional que será provocado no meio da floresta amazônica, sem um planejamento para essa ocupação e um melhor ordenamento do
território. Isso só pode ser alcançado através da elaboração de um Plano de Desenvolvimento Sustentável na região de abrangência da obra.

Essa foi uma grande omissão nesse processo, mas não a única. Não temos como deixar de indagar se não há outros aproveitamentos hidrelétricos que seriam mais recomendados, sob o ponto de vista dos impactos ambientais ou da eficiência energética.

No entanto, não há projetos com estudo de viabilidade técnica e econômica prontos para serem submetidos ao licenciamento ambiental. Apesar de o diagnóstico ser conhecido desde 2003, apenas em meados do ano passado foram finalizadas as primeiras revisões de inventário de bacia hidrográfica, como a do Tapajós.

Com isso, projetos polêmicos e com grandes impactos têm que ser analisados em prazos muitas vezes incompatíveis com o grau de rigor que deveriam ter, numa clara demonstração de como, muitas vezes, os ativos ambientais são afetados pela falta de planejamento de outros setores de governo.

Porém, nada foi mais afetado do que nosso compromisso ético frente à responsabilidade com o futuro de povos e culturas. Não foram sequer feitos estudos sobre os impactos que os povos indígenas terão. Só para exemplificar, o que significará para eles ter a vazão reduzida significativamente num trecho de 100km em função do desvio das águas para o canal? O plano de condicionantes tampouco menciona a regularização de duas Terras Indígenas (Parakanã e Arara), já bastante ameaçadas.

Estas e outras comunidades indígenas manifestam inconformidade por não terem sido ouvidas adequadamente, segundo os preceitos da Resolução 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil, mas nunca implementada para valer.

O Brasil possui um importante potencial de geração de energia hidrelétrica a ser desenvolvido. Mas as dificuldades em retomar o planejamento do setor na velocidade que possibilite escolhas e uma análise segura por parte do setor ambiental, somada à indisposição em discutir uma proposta de desenvolvimento sustentável para as obras de infraestrutura localizadas na Amazônia, à percepção de que o governo não faz o suficiente para melhorar a eficiência energética do sistema (não só na geração) e para desenvolver as energias alternativas, acaba por produzir conflitos agudos e processos equivocados, que poderiam ser evitados.

Apesar dos discursos em contrário, ainda estamos operando no padrão antigo, que considera o meio ambiente como entrave ao desenvolvimento. Temos ainda um longo dever de casa a ser feito para ingressarmos definitivamente no século 21. Quem pensa que a história relatada no filme Avatar só pode ocorrer em outro planeta, engana-se: Pandora também pode ser aqui.

* Marina Silva é professora de ensino médio, senadora (PV-AC) e ex-ministra do Meio Ambiente.*

*Fale com Marina Silva:
marina.silva08@terra.com.br<%20marina.silva08@terra.com.br>

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14 Comentários

Arquivado em política, Sustentabilidade

14 Respostas para “Entenda o impacto da construção da usina de Belo Monte

  1. Muito interessante, parabéns pela postagem.

  2. gil sóter

    a integridade da marina dos faz dar muita credibilidade às suas palavras. parabéns pelo post.

  3. hobinhood

    Falar oque ? Completamente ridículo, Imoral, Inconstitucional, visa somente um “lucro” comercial por parte do Governo, ou de Empreiteiras, mas é as centenas de indigenas que tem o Direito maior sobre essas Terras ?
    serão usurpados do seus direitos ? querem atropelar o direito deles ? qual o benefício para esses povos ? nenhum é a resposta. Simplesmente um absurdo e ainda mais patrocinado pelo próprio Governo, que gente é essa que quer destruir o nosso maior patrimônio , ou seja , o meio-ambiente e os povos tradicionais, e em troca, nós teremos que pagar por mais uma obra, mais contas de energia, enquanto a floresta morre, os índios são massacrados e o trabalho é apenas temporário gerando no futuro mais pobreza , miséria , falta de recursos, doenças , etc. que futuro é esse ? não aceitamos esse lixo !! Usina Hidrelétrica de grande porte é um desastre que os Países de 1o. Mundo já estão descartando à mto tempo, apenas Usinas médias, e outras formas de produção de energia vem tendo investimentos, agora os “Países” subdesenvolvidos insistem nesse tema, Africa, Brasil, China, mesmo, onde esses “projetos” tem afetado diretamente na vida das populações tradicionais, não para melhor mais sim para piorar, deslocando milhares de pessoas de seus locais tradicionais, para “Cidades” cheias de problemas sociais, violencia, etc…. é o caos …. esse tipo de visão de progresso…

    • Bruno

      Concordo plenamente com o texto da Marina, pois em nenhum momento foi pensado, sequer estudado os impactos que isso traria aos indígenas e principalmente à natureza. “30 bilhões!!!”, quem irá pagar por isso?; nós é claro, os trouxas, e tudo em impostos, acarretando em mais e mais corrupção. E cada vez o governo se mostra interessado no benefício próprio, e a população é que se dane…

  4. Pingback: O melhor de 2010 (final) + inspiração para 2011 | A Ficha Caiu

  5. luiz otávio

    O texto da Senadora Marina Silva instiga a uma profunda reflexão. Necessário ter clareza quanto ao legado que deveremos deixar às gerações que hão de nos suceder !

  6. Pingback: Amazônia tóxica, o documentário | A Ficha Caiu

  7. Olha, eu acho essa polêmica toda de Belo Monte uma bela mostra do quâo hipócrita é o ser humano. Nós chegamos aqui no Brasil, matamos 95% dos índios, desmatamos boa parte do país, extinguimos centenas de milhares de espécies de plantas e animais, e “tudo bem”!

    Ninguém quer impacto no meio ambiente, mas todos dizem isso de suas casas com energia elétrica e todo o conforto possível.

    Não estou dizendo que a Usina de Belo Monte deve ser construída ignorando o impacto ambiental e social como fizemos por 5 séculos. Eu acho que todos os problemas citados no texto da Sen. Marina devem ser levados em conta no que diz respeito à fauna, flora e índios.

    Devemos procurar alternativas para minimizar os prejuízos e colocar em prática todas as medidas possíveis para que os índios sejam os menos prejudicados! As espécies ameaçadas de extinção, devem ser realocadas para outras regiões, se isso for possível.

    Resumindo: Eu acredito que precisa de um planejamento sócio-ambiental muito grande para uma obra deste porte. Mas, a obra deve ser feita! Belo Monte deve ser construída. O potencial energético é enorme e a obra vai “se pagar” com 15 meses operando com uma média de 40% de sua capacidade, ou seja, um investimento extremamente rentável e inteligente.

    • Sabrina

      Concordo plenamente, e a questão é que todo mundo vira bonzinho numa discussão como essa, mas como você mesmo disse, ninguém quer largar o seu conforto em casa, estava pensando nisso agora mesmo, com meu notebook ligado o dia todo, entre outras coisas que gastam energia o tempo todo, isso ninguém quer mudar! Falar é fácil, mas ajudar a resolver o problema ninguém quer, todo mundo adora debater…

  8. Cris

    Inacreditavel e inaceitavel. Não entendo por que o Ser Humano sempre arruma um jeito de estragar tudo! O dia que não existir mais árvores, não existir mais animais, não existir mais água, o Homem vai perceber que não se pode comer dinheiro…

  9. Pingback: Os mais acessados de 2011 | A Ficha Caiu

  10. diego

    eu presisa de um emprego

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