Escrever é preciso


Fui acometido de uma sanha escrevedora nessas ‘férias’ ou nos dias em que fiquei em casa pós-nascimento do Vicente. Fazia tempo que eu não escrevia tanto. No meu dia a dia, costumo escrever muitas linhas, mas, com honrosas exceções, escrevo e leia tantas coisas quase iguais que acabo achando que estou sempre a escrever a mesma coisa. A repetição (ou coerência) é  importante para passar a mensagem que precisa, mas uma hora cansa!

A boa notícia é que há outras coisas sobre as quais escrever! Por exemplo, sobre o nascimento do Vicente, sobre as travessuras do Augusto, sobre livros etc. Um dos chefes que tive lembrou que mais importante era ficar escrevendo para não enferrujar… Sobre isso, achei um trecho genial num livro maravilhoso que ganhei da Juliana. O livro chama Carta a D. – História de um Amor (editora CosacNaify), de André Gorz, filósofo e jornalista austríaco, um dos principais inspiradores de Maio de 68 e autor de um texto que fala que a verdadeira missão humana é tornar o planeta mais acolhedor.

Gorz escreveu uma carta de amor a Dorine, sua companheira de mais de 60 anos e que de tanto se amarem cometeram o mais extremo ato de amor: o suicídio conjunto. É um livro bastante profundo e reflexivo. O trecho que destaquei:

“Você dizia que tinha se unido a alguém que não podia viver sem escrever, e sabia que quem quer ser escritor precisa se isolar, tomar notas a qualquer hora do dia ou da noite; que seu trabalho com a linguagem continua o mesmo depois de largar o lápis, e pode inesperadamente se apossar dele por completo, bem no meio de uma refeição ou de uma conversa. (…) Amar um escritor é amar que ele escreva, dizia você. ‘Então escreva!’  (…) O principal objetivo do escritor não é o que ele escreve. Sua necessidade primeira é escrever. Escrever, isto é, ausentar-se do mundo e de si mesmo para, eventualmente, fazer disso a matéria de elaborações literárias. É apenas num segundo momento que se põe a questão do tema a ser tratado. O tema é a condição necessária, necessariamente contingente da produção de escritos. Não importa qual tema é o melhor, desde que ele permita escrever. Durante seis anos, até 1946, eu mantive um diário. Escrevia para conjurar a angústia. Não importava o quê; eu era um escrevedor. O escrevedor só se tornará um escritor quando a sua necessidade de escrever for sustentada por um tema que permita e exija que essa necessidade se organize num projeto. Somos milhões a passar a vida escrevendo, sem nunca terminar nem publicar nada. Você mesma passou por isso. Você sabia, desde o início, que precisaria proteger meu projeto indefinidamente.”

Sábias palavras de Gorz. Lembro bem de um texto que escrevi sobre a importância do dedo mindinho da mão logo que aprendi a datilografar. Era justamente o caso. Não interessava o assunto (besta, besta), o importante naquele caso foi escrever alguma coisa… até para testar a destreza do mindinho!

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2 Comentários

Arquivado em Literatura

2 Respostas para “Escrever é preciso

  1. Ju De Mari

    Pois é, mi amor, somos, os dois, escrevedores, como diria o Gorz! Tomara que tu deslanche e vire escritor, como tanto desejo. Eu adoro ler tuas linhas, sobre qualquer que seja o assunto. Um beijo, Ju

  2. Bruno

    Cara,
    espero que mesmo com o retorno ao trabalho ainda tenhas tempo de continuar nos brindando com tuas idéias.
    Admiração,
    Teu mano.

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