Seres políticos


Desde que me conheço por gente estou metido em política. Aos meus quatro anos, quando morávamos na rua José do Patrocínio, na Cidade Baixa, em Porto Alegre, meu pai aprontou com os militares. O ano era 1980 e ele dirigia o CooJornal, uma experiência de jornalistas cooperativados que deu certo, foi referência em vários países, e foi eterno enquanto durou, já diria Drummond. O jornal era um dos mais ativos a denunciar as barbaridades dos milicos na ditadura militar e deu alguns furos (notícia em primeira mão, no jargão jornalístico) importantes na época. Pois bem, naquele dia, a família estava voltando da casa do saudoso tio Carlos, irmão do meu impagável avô Paulo (dono do glorioso Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, que recebia os políticos da cidade com uma daquelas almofadas que simula um ‘pum’ quando alguém senta), quando ao chegar em casa, minha mãe subiu para amamentar meu irmão Bruno. Meu pai acabava de tirar as coisas do carro.

De repente, minha mãe ouviu na janela uma série de gritos. Quando se deu conta, era meu pai batendo boca com a Brigada Militar, que havia sido chamada para guinchar o Karmann-Ghia dele da frente da garagem da casa de um milico. “Era perseguição”, pensou ele, achando que alguém tinha empurrado o carroo propositadamente para a frente da garagem a fim de criar um fato que o pusesse na cadeia. Fértil mente de jornalista, em tempos agitados na década de 80. Não era nada disso, mas meu pai ficou furioso o suficiente para dar um chute no carro da polícia, só para acabar na delegacia. Minha mãe ficou em pânico, sem saber o que fazer comigo e com meu irmão. Ligou para alguns familiares e tempos depois meu pai voltou para casa – teve a sorte de encontrar um delegado ex-colega de faculdade…

Meu pai ainda foi secretário de governo, minha mãe subchefe de gabinete de governador e prefeito. Tenho um tio deputado federal (o Vieira da Cunha) e meu primeiro trabalho foi colar etiquetas em envelopes de mala direta pedindo votos para um político em primeiro mandato. Nesse mundo, minha mãe fez grandes amigas, como a Fátima, a Duda e a Marilésia. Meu pai fez grandes contatos e amigos e segue fazendo a vida em volta da política. 

Hoje é um dia de baixa para ele, que fez parte da equipe, como consultor, da equipe que fez a campanha de uma candidata que não passou para o 2o turno em Porto Alegre. Para ele e para meu irmão, que coordenou a produção da campanha de um candidato também derrotado, em Floripa. Foi a primeira experiência dele na área.

Como em tudo na vida, vale olhar para a metade cheia. Para o meu pai, é fim da briga doméstica com minha mãe. Afinal de contas, eles estavam em trincheiras opostas (minha mãe está trabalhando com o prefeito atual) e no calor da campanha, estavam se deixando levar pela emoção. (Aliás, política sem emoção não é política). E para o meu irmão é a chance de conhecer o afilhado Vicente! Se der certo, estará aí nos próximos dias.

E será que a próxima geração vem nessa onda? Hoje Gutão estava preocupadíssimo em saber de qual prefeito o pai e a mãe gostavam… E foi ele que apertou o botão verde da urna eletrônica para mim hoje. Sinal verde para a política. Hoje e sempre!

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3 Comentários

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3 Respostas para “Seres políticos

  1. Fátima Dias

    Rodrigo (nosso Digo) que emoção ao ler meu nome no teu blog.
    Amo esta família, esta amizade com tua mãe que nasceu antes de ti, que foi crescendo junto contigo e o Bruno, sempre acompanhada pelo teu pai, cara parceiro, pessoa admirável.
    Hoje me fizeste relembrar todo este tempo até aqui, culminando na tua família que claro também tenho acompanhado através dos contos da vovó Lilica.
    Abraço carinhoso,
    Fátima Dias

  2. Ju De Mari

    É, meu amor, político, com toda a sua diplomacia, Gutão já é. Vamos ver é se envereda pela política, né? Bjos, Ju

  3. Bruno

    Mano, muito bom esse post. Bem completo. Legal esse ‘revival’ da José do Patrocínio também.
    Só uma correção nas tuas informações: eu não fui o “que coordenou a produção da campanha de um candidato”. Longe disso. Fui um produtor do programa de TV da campanha eleitoral de um candidato.
    Beijo.

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