Muito pele vermelha. E nenhum índio…


Acordei às 5h45 da manhã para pegar a estrada rumo ao Guarujá e fazer uma sessão de surfe. A previsão do site windguru.com (para quem não conhece, vale a pena. Dica: qualquer coisa acima de 0.8 m na de previsão já significa ondas surfáveis) para variar estava certa.

Eu e os dois amigos que estavam juntos ficamos impressionados com a quantidade de fumaça que sai das petroquímicas de Cubatão. Incrível saber que o lugar foi ‘despoluído’. Mesmo com aquelas chaminés largando tanta fumaça preta?, perguntou um deles. Uma maria-fumaça tamanho família. Impossível passar por lá e não lembrar do filme Mad Max, com aqueles torres gigantes queimando gás. Acabei de matar minha curiosidade sobre o que funciona lá. Trata-se da Refinaria Presidente Bernardes de Cubatão, uma planta de refino da Petrobras, responsável por 11% da produção de derivados do Brasil (lá fabrica-se a gasolina Podium, que deve ficar de fora da Fórmula 1 com a desistência da Honda, assim como Rubinho Barrichello…).

Na chegada ao Guarujá, no caminho para a praia, há uma ciclovia que acompanha toda a extensão da avenida. Muita gente pedalando lá. Mas, como sempre, um malandro pedalava do lado de fora, atrapalhando o trânsito… De pés-descalço, sem camisa. Ah, o jeitinho brasileiro… Um tombinho ali seria perda-total.

Na beira da praia, outra coisa para se impressionar: a quantidade de prédios. É muito esgoto gerado para uma praia só. Não à toa, algumas vezes depois de surfar, saio com uma coceira estranha na pele (hoje foi leve). E os prédios continuma subindo. De dentro do mar, eu enxergava os morros ‘roubando’ um pouco e se esgueirando em meio ao concreto. Um verde potente. Pitangueiras já deve ter sido uma praia bonita.

Entrei no mar pouco antes das 9h. A areia ainda estava tranquila. Meia hora depois, o caos. Nesse momento, passou o primeiro aviãozinho segurando uma faixa de propaganda. Era de um Banco falando para inovar em 2009. Aí, pensei: puxar uma faixa em um aviãozinho é uma tremenda inovação. Tão inovadora que em seguida passaram inúmeros aviãozinhos, cada um com uma faixa diferente:

– Onde passa, resolve. Governo do Estado de S. Paulo. (O problema é passar…)

– Açucar Caravelas – Lar, Doce, Lar. (Não entendi, dá para explicar?)

– Tripoli – Deputado Estadual (ué, a campanha já não acabou?)

E outras tantas, nenhuma digna de nota. Mas todas com uma buzinhadinho do piloto. Olha eu aqui.

No intervalo das  faixas, um helicóptero da polícia sobrevoava de um lado para outro. Deve ter salvado umas três pessoas, banhistas que insistem em achar que aquelas placas de advertência são para os outros. O helicóptero fazia um barulho danado na frente da arrebentação. Atrás, passava um banana boat 2.0, um troço redondo, estranho, com gente berrando. De repente, uma surpresa na paisagem. Uma mulher, a uns 200 metros de onde estouram as ondas, passa remando em pé em cima de uma prancha. Ela dá três remadas do lado direito, e troca a pá de mão. Mais três do lado esquerdo, e troca de novo. De repente: bammmmm! Bammmmmmm! Um barulho pesado de obra. Algo deu errado e caiu, ensurdecendo a praia. Dois segundos depois, volta a zoeira. Alguém liga o som em alto volume por cinco segundos. Música eletrônica. 15 minutos depois, de novo. Olho no relógio e já são 11h15. Vem uma onda boa para a esquerda. Desço, faço a curva lá na frente, calculo a manobra e volto para a crista da onda. Deu certo. Arrumo os pés, deslizo mais alguns metros e vejo que a onda vai fechar. Calculo de novo, vou para cima e acerto a crista da onda, meio de lado, já caindo, indo embora. E saio do mar.

Passo pelo esgoto desavergonhado, escancarado e descarado na beira da praia. Caminho mais uns metros e molho meus pés na água mais ‘limpa”, na esperança de “desintoxicar”.  Encontro um dos amigos sentado, tomando cerveja, escondido em meio a centenas de guarda-sóis. Passa um sujeito vendendo queijo coalho. Dois por cinco reais. Vê dois aí. Era de borracha, mas matou um pouco da fome. Embaixo de um guarda-sol, um casal briga. Em outro, uma família faz a festa do vendedor. Ele vende dez de uma só vez e embolsa 25 reais. Num terceiro, sujeitos alimentam a já avantajada barriga com mais cerveja.

O sol a pino. A praia lotada. Um dia Guarujá foi apelido de uma tribo indígena. Hoje tinha muito pele vermelha. E nenhum índio.

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3 Comentários

Arquivado em Surfe, Sustentabilidade

3 Respostas para “Muito pele vermelha. E nenhum índio…

  1. Bruno

    ta bom.
    Não foi uma daquelas trips clássicas, com praia virgem, altas ondas em local sem crowd… mas pelo menos foi um surf.
    Boa a descrição da atmosfera!
    abraço.

  2. O Gugo já diria: o que importa é deslizar!

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