Gêmeos para todo o lado


Tive um flashback hoje de manhã lendo o jornal. Lembrei de uma das das matérias mais excêntricas que fiz nos meus tempos de repórter (lá se vão quase 6 anos quando publiquei minha última matéria com carteira assinada de jornalista!). A pauta era: descrever a cidade dos gêmeos, Cândido Godói, no interior do Rio Grande do Sul. A 520 longínquos quilômetros de Porto Alegre.

Como sempre fazia nessas ocasiões, o motora Nilson (grande companheiro) me pegava junto com o fotógrafo ou fotógrafa que fosse encarar a viagem e lá íamos nós rodar centenas de quilômetros. Aproveitava para ler mais sobre o lugar para o qual iríamos ou mesmo para dormir. Também para comentar as curiosidades da estrada. Bares com nomes esquisitos, pastos a perder de vista com rebanhos de vacas malhadas, estâncias abandonadas que muito bem poderiam estar nas páginas d’O tempo e o Vento, de Erico Verissimo, um amanhecer cinza, um pôr-do-sol com tintas róseas e liláses que só os pagos do Sul conseguem pintar (sem piadinhas homofóbicas, por favor).

Era longe, mas sempre divertida, como naquela vez. Um repórter a serviço de um veículo de grande imprensa num lugar afastado de um grande centro era motivo de atenção especial. Éramos praticamente recebidos com a chave da cidade. Prefeito, entrevistados, empresários, todos queriam conhecer e se fazer conhecer. Com os gêmeos, foi um pouco diferente, pois nem todos queria ‘aparecer’ ou virar tema de revista. Mesmo assim, repórter insistente (para não dizer chato) e com um tanto de sorte, acaba conseguindo o que quer e dei um jeito de falar com as famílias. Em certo momento, estava entre 20 pessoas, sendo que 12 eram gêmeas.

Bom, matéria vai, matéria vem e ouço a história que fez valer os 520 quilômetros de distância: Josef Mengele, o médico nazista, conhecido como anjo da morte e autor de experiências bizarras com seres humanos, teria vivido lá… E teria feito experiências com os moradores de lá.

Um dos moradores, que foi o cicerone durante minha estadia por lá e ajudou bastante na produção da reportagem, contava detalhes da história que habitava o imaginário da pequena Cândido Godói. Havia uma casa quase no centro da cidade onde um carro preto vivia estacionado. A casa tinha os vidros escuros e ninguém sabia o que se passava lá. Segundo a lenda local, lá seria o habitát de Mengele. Esse morador me garantia que havia uma pessoa disposta a contar mais detalhes ainda, mas teria que ser com tempo e eu precisaria ganhar a confiança dela. Tempo era o que eu não tinha naquela viagem. Infelizmente, porque a história era para lá de fantástica e com certeza renderia um livro. Não sei se reportagem ou romance. Acho que muito mais para ficção… E essa história nunca saiu de minha cabeça.

Pois hoje, lá estava ela no Estadão. Um historiador argentino chamado Jorge Camarasa foi atrás da história e escreveu “Mengele, o anjo da morte na América do Sul”, onde fala das supostas experiência, todas desmentidas por especialistas ouvidas pelo jornal.

Havia um clima noir (se é que uma cidade descendente de alemães permite isso) nas histórias. Ninguém queria falar, ainda havia medo de perseguição. Era como se a 2a guerra mundial tivesse acabado ontem. E Mengele chamava-se Rudi Weiss, conforme registra a matéria do Estadão a partir do livro.

História para lá de estranha. Para não mais ser esquecida. Pesquisei no Google e achei a matéria “São todos gêmeos”, publicada em novembro de 1999. Vale o registro.

E segue a matéria do Estadão, para quem quiser ler.

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