Fábula do tempo


A beira da praia de qualquer praia gaúcha é bastante inóspita no inverno. A água do mar é  marrom, a faixa de areia é extensa e dura o suficiente para os carros trafegarem sem nenhum problema. Ao contrário do verão, quando ficavam cheias, costumavámos invadir a faixa de areia durante dias gelados de maio a setembro para conferir a situação do mar. Num desses dias, estávamos eu e o meu parceiro de trips Cris Rosa olhando desoladamente para o mar, tentando criar coragem para entrar naquela ‘batedeira’ marrom, com vento uivando do lado de fora, o suficiente para levantar areia na beira da praia e fazer a água crispar, ficando com aparência de veludo.

Então, Cris solta a seguinte pérola: “Sempre pensei que nossa vida poderia ser ao contrário. A gente tá aqui com 20 anos, cheio de energia para aproveitar um monte de coisa, mas quando precisa sair, tem que pedir o carro, dinheiro e casa da praia para o pai. Quando a gente mais precisa menos tem. ” De tempos em tempos, aquele momento vem até minha cabeça. Nunca cheguei a uma conclusão definitiva sobre se aquilo faria sentido ou não. Com o tempo, fui dando valor às conquistas (formatura, trabalhos, viagens, casamento, filhos, amizades etc), cada passa dado , conquistado e desfrutado. E cada vez mais, aquela frase (que naquele momento fazia sentido) parece um devaneio juvenil.

Ontem, ela definitivamente ficou no passado. Exatamente no momento em que saímos da sala de projeção depois de assistir ao filme O curioso caso de Benjamin Button. São raras às vezes em que conseguimos ir ao cinema quando se tem nenê pequeno em casa. Por isso é importante acertar o filme. Ontem, foi em cheio.

Baseada em um conto de F. Scott Fitzgerald, a história de Benjamin Button é uma maravilhosa fábula sobre o tempo. Conta o caso de alguém, Benjamin, que nasceu velho e foi rejuvenescendo. Fez a vida ao contrário. É um jeito diferente de olhar o mundo que me provocou reflexões profundas sobre a importância do passo a passo. Benjamin sabia que sua vida era diferente e tratava de aproveitá-la da melhor maneira possível, conforme o corpo permitia. Pensando na história dele, lembrei do poeta espanhol Antonio Machado: “Caminante, no hay camino. El camino se hace al andar.” E lembrei também de Gandhi, que diz que “Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o próprio caminho.”

No mundo acelerado em que vivemos, quase não dá tempo de parar e perceber o tempo passar. Estávamos na casa de amigos hoje, visitando a Yasmin, com pouco mais de 1 mês de vida. Ao ver como era pequena, olhei para o Vicente e fiquei um pouco assustado de já não lembrar direito como ele era há apenas cinco meses atrás, tão pequeno como ela. E ao mesmo tempo lembrei de momentos gostosos que já vivemos com ele nos seus seis meses. A FICHA CAIU. O tempo passa rápido demais.  Por mais que algumas vezes a gente queira domá-lo. Como agora, no fim do horário de verão, em que o relógio acabou de querer empurrá-lo 1 hora atrás…

Carpe diem…

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