A importância da ausência em nossas decisões


Retomei a leitura do livro Stumbling on Happiness, do professor de Harvard Dan Gilbert, do qual já coloquei uma ou outra citação por aqui. O capítulo que peguei agora fala sobre a nossa incapacidade de avaliar as situações por meio da ausência. O cérebro humano percebe muito bem a presença, mas não consegue levar em consideração nas decisões aquilo que não aparece. Por isso, em nossos sonhos de viver de água de coco na Bahia, se aposentar em um iate ou de viajar pelo mundo pegando onda, consideramos somente essas possibilidades. E deixamos de lado na análise a falta de opções culturais da vida na beira de uma praia paradisíaca, a preocupção em fazer compras da semana (batata, cebola, desodorante, papel higiênico, sabão em pó) e a falta de amigos nas andanças pelo mundo (ver post O contágio da felicidade).

Em outras palavras, nossas previsões sobre eventos futuros somente consideram o efeito que imaginamos e não o resto das coisas que faremos. Exatamente por esse motivo, aceitamos convites que parecem interessantes com seis meses de antecedência e quando chega perto da data nos arrependemos amargamente.

Nas decisões sobre o futuro, consideramos pensar na razão, no ‘por quê’, de determinada decisão e não no ‘como’. O convite para jantar na casa de conhecidos daqui a 30 dias pode parecer excelente hoje porque pensamos em como pode ser bom o bate-papo, a comida etc. Entretanto, na véspera do evento, o ‘como” começa a impactar. Você pensa que vai ter fazer tudo correndo no trabalho e em casa, no  trânsito até chegar lá. Lembra também que que vai ter que acordar cedo no dia seguinte e que vai perder o jogo de futebol na tevê justamente no horário do jantar…

Em um estudo conduzido na universidade da Virgínia (EUA), um grupo de estudantes foi convidados a prever qual seria o impacto de uma derrota ou vitória contra outra universidade em um jogo de futebol americano e a descrever esses impactos. Outro grupo não precisou descrever. Mais tarde, chegou-se à conclusão que aqueles que não descreveram superestimaram o que aconteceriam (ou ficariam muito felizes ou sofreriam muito). Porque quando eles imaginaram os efeitos que a vitória ou a derrota causariam neles, deixaram de lado outras coisas que impactam no seu estado de felicidade, como beber com os amigos na derrota (que seria ótimo) ou ter que estudar para a prova de química, no caso da vitória (o que não seria tão bom).

A ficha caiu. Podemos sofrer ou ficar muito excitados por antecipação simplesmente porque focamos apenas em um aspecto do futuro, o evento em si. Pense nisso da próxima vez que sofrer por antecipação por conta de um evento de família no domingo justo na hora do jogo de futebol (pode ser que tenha TV por lá e isso fará com o que o evento fique melhor). Ou levar em conta só o lado bom de uma questão em uma decisão importante. Como se mudar para viver e trabalhar em uma cidade menor, mais tranqüila, e chegar lá e perceber que o mercado é muito pequeno, que a população local é pouca receptiva a estrangeiros e que o inverno pode ser muito deprimente.

1 comentário

Arquivado em Felicidade

Uma resposta para “A importância da ausência em nossas decisões

  1. Super interessante, mi amor. Gostei da reflexão. Bjos

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