Arquivo do mês: abril 2009

Você ainda lê jornais?

No início de minha carreira, tive a oportunidade de trabalhar em dois jornais, ambos em Porto Alegre. No pequenino Já Bom Fim, de bairro, obra do lendário jornalista Elmar Bones, da velha guarda jornalística, repórter de mão cheia e no grande Zero Hora, do grande grupo RBS. Todo jornalista, diz-se, deveria cobrir o buraco da esquina, que sempre é mais importante do que o terremoto do outro lado d0 mundo. Afinal, afeta você diretamente. Pois, no Já Bom Fim, pude fazer isso à exaustão. Aos 18 anos, de bloco e caneta na mão, me sentia o arauto do mundo em movimento. Cobria (em uma coluna!) desde o grave atentado a um centro israelita em Buenos Aires (afinal, o Bairro Bom Fim é reduto de judeus) até a incrível história do fechamento do comércio na Osvaldo Aranha, a principal avenida do comércio do bairro.

Naquele micro, eu começava a entender o macro do mundo. Experiências memoráveis vêm de lá. Foi lá que recebi meu primeiro pagamento, 33 reais. Ainda consigo lembrar da editora do jornal, Lílian, à época, tentando me motivar com a fortuna que estava me pagando: “seu primeiro soldo é o mesmo valor que a idade de Cristo quando morreu, 33 anos”, dizia ela. A vida de Cristo não sustentou um final de semana na praia, mas valeu por toda a vida. Lembro também de negociar arduamente o acordar da siesta pós faculdade e almoço com o expediente do jornal. Afinal, caramba, não acontecia tanta coisa assim num bairro de alguns quarteirões.

Alguns 20 jornais depois (era quinzenal), pedi as contas e fui para a Califórnia trabalhar no parque temático Sea World. Enquanto dispensava um caminhão de água para lavar com uma mangueira o estádio dos golfinhos, emporcalhado de sacos de pipocas e cachorros-quentes dos turistas e americanos (principalmente) inutilizados pela festa dos golfinhos amestrados, pensava com doce ternura no bater de pernas atrás das notícias pelo Bom Fim. Definitivamente, eu queria um trabalho para pensar. Essa coisa de ficar contando as horas no relógio não era para mim.

De volta ao Brasil, comecei minha carreira nas revistas, abruptamente interrompida por um corte de custos. Frilas fixos da Veja foram para a rua. E lá voltei para um jornal, o Zero Hora, por obra do glorioso Altair, meu primeiro chefe-amigo, entre os vários que eu teria dali para frente. Fiquei ali por três meteóricos meses antes de receber novo convite para a Veja, mas o suficiente para chegar à conclusão que conhecia um jornal.

A toada alucinante de apurar, escrever e publicar notícias diárias me deu um ritmo de trabalho que valeu por toda a vida. Nada é mais rápido, atuante, explicativo e adrenalizante do que uma redação de um jornal diário. O zum-zum-zum das pessoas conversando energicamente, do telefone tocando (e não mais das máquinas de datilografar espocando) e do negociar entre editores e repórteres para ‘baixar’ as páginas e assim mandá-las para o papel na gráfica. Há um poder velado (o quarto poder) de escolher qual abordagem aplicar, quem destacar, que notícia publicar, coisas que conferem ao jornalismo essa aura glamurosa. Com a força da informação, os jornais podem mudar o mundo no dia seguinte, como fez o Washington Post e com o famoso caso Watergate, imortalizado nas páginas do jornal e no filme Todos os Homens do Presidente.

Revistas semanais são jornais com tempo diferido e revistas mensais são jornais com tempo a perder de vista. Se não têm a velocidade, o furor e a adrenalina do ‘furo’ do jornal diário, as revistas têm espaço para a análise aprofundada, o tempo para pensar e querer entender e explicar o mundo. Por isso e talvez por uma falta de oportunidade, não voltei para os jornais. E penso hoje se algum dia terei a possibilidade de fazer isso… porque parece que os jornais estão acabando.

Quando a internet ganhou corpo, começou a ser questionado o fim dos jornais. Mas logo o argumento perdeu força. Afinal, a televisão não acabou com o rádio e o vídeo não acabou com o cinema. Mas, ao ver a ampla discussão em torno do modelo de negócios dos jornais, a queda nos leitores, a dificuldade em cobrar por conteúdo na internet, acho que estamos perto do final de uma era.

A matéria “Inferno na Torre do Times”, na Veja dessa semana, sobre as dificuldades do jornal NY Times é muito precisa sobre o momento. Compartilho aqui um parágrafo:

O fechamento de um jornal é o fim de um negócio como outro qualquer. Mas, quando o jornal é o símbolo e um dos últimos redutos do bom jornalismo, não importa quanto isso custe, como é o caso do Times, morrem mais coisas com ele. Morrem uma cultura e uma visão generosa do mundo. Morre um estilo de vida romântico, aventureiro, despojado e corajoso que, como em nenhum outro ramo de negócios, une funcionários, consumidores e acionistas em um objetivo comum e maior do que os interesses particulares de cada um deles. Desde que os romanos passaram a pregar em locais públicos sua Acta Diurna, o manuscrito no qual informavam sobre disputas de gladiadores, nascimentos ou execuções, os jornais começaram a entrar na veia das socieades civilizadas. Mas, para chegar no auge, a humanidade precisou fazer uma descoberta até hoje insubstituível (o papel), duas invenções geniais (a escrita e a impressão) e uma vasta mudança social (a alfabetização). Por isso, um jornal, ainda que seja um negócio, não é como vender colírio ou fabricar escadas rolantes (….). Nos EUA, a agonia dos jornais tem impacto especial pelo papel histórico que tiveram na construção da democracia e na introdução de uma relíquia constitucional – a garantia da liberdade de expressão, que ocupa lugar vital nos valores americanos. O dramático é que muitos leitores não parecem incomodados com a ameaça sobre os jornais. Uma pesquisa mostra que 42% dos americanos sentiriam “pouco” ou “nada” se o seu jornal fechasse.

Essa estatística é perfeitamente compreensível para mim: vejo pelo meu círculo de relacionamento. Posso contar nos dedos as pessoas com quem trabalho que lêem jornal regularmente. Quando chego com o Estadão embaixo do braço no trabalho, as pessoas pegam o jornal e o folheiam como se fosse uma novidade. O caso mais sintomático que tenho é o da minha esposa, Juliana, jornalista. Em casa, muitas vezes ela se agacha e pega o jornal que larguei no chão depois de lido. Lê toda a capa do jornal do jeito que estava, agachada. Bate o olho e NÃO abre para ver o que há dentro. E mesmo assim, está sempre informada. Tanto que fico surpreso quanto comentamos sobre algo que para mim só poderia saber quem leu jornal. Ledo engano. Está tudo na internet.

Meu avô foi dono de jornal. Meu pai, diretor de jornal e ex-dono por opção. Eu fui repórter de jornal. Enfim, três gerações diretamente ligadas à tinta e ao inconfundível papel-jornal. Provavelmente, Augusto e Vicente serão leitores de internet e não de jornais como conhecemos hoje. É um privilégio – muitas vezes assustador – fazer parte dessa incrível transformação do mundo.

Quem aqui lê jornal? Você lê?

Leia mais

Quanto vale o NY Times?


Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Jornalismo, Nova Sociedade

Gripe suína – como se proteger

Depois da gripe aviária, a suína. Qual será a próxima: bovina, eqüina?? Bom, seguem algumas dicas para se proteger – e que não seja o caso!

Dicas

O contágio da doença é feito pela saliva, ao falar, tossir ou espirrar, e pelo contato das mãos com objetos contaminados e, posteriormente, com os olhos, nariz, boca ou ouvidos. Para os casos de contágio, o tratamento deve ser o mesmo utilizado contra a gripe comum e a medicação específica (anti-retroviral) deve receitada sob prescrição médica.

Os especialistas sanitários apontam os seguintes sintomas para a gripe suína:
– Tosse e dificuldade para respirar
– Espirros e secreção nasal· Febre alta, superior a 38 ºC
– Dor de cabeça
– Dores musculares e cansaço generalizado
– Alterações gastrointestinais

Vale prestar atenção em quatro recomendações básicas:

1. Se perceberem sintomas similares aos da gripe comum, dirija-se aos centros médicos de referência.

2. Procurar um centro médico e comunicar fato para sua identificação e acompanhamento.

3. Cumpram ao máximo as medidas de proteção pessoal e ambiental, detalhadas anteriormente.

4. Recomenda-se o uso de máscaras durante os dez dias posteriores ao regresso da viagem.

Como prevenir a transmissão da gripe suína?

Qualquer pessoa que apresente os sistemas da gripe suína pode evitar a sua transmissão no ambiente familiar e profissional com algumas medidas simples:
– Tapar a boca ao tossir ou espirrar, evitando assim a dispersão do vírus no ambiente.

– Lavar as mãos com frequência, evitando tocar os olhos, nariz ou boca.

– Cuidar da higiene pessoal, evitando compartilhar com outras pessoas copos, pratos e utensílios de higiene, e qualquer outro objeto que tenha tido contato com saliva e mucosas.

– Modificar os hábitos sociais de saudação: apertos de mão, abraços, beijos.

– Utilizar com mais frequência os meios de comunicação à distância: telefone, videoconferência, etc.

– Evitar ambientes fechados, aglomerados e lugares muito cheios.

– No ambiente familiar, o isolamento voluntário ou as medidas de proteção (máscaras) ajudarão a evitar o contágio.

Deixe um comentário

Arquivado em Nova Sociedade

A casa encolhe dia após dia

Fui ver nesse final de semana o documentário Terra com o Augusto e a coleguinha Bruna (já que o Vico ainda é muito pequeno para o cinema eu e a Ju nos dividimos para atender as crianças). Gutão e Bruna ficaram vidrados e curtindo cada cena, principalmente aquelas em que os bichos passavam por dificuldades (migração, caça & caçador, primeiros passos etc). E falaram para caramba – umas três ou quatro vezes fizeram pssshhhhhhh para eles. A Bruna, que quer ser veterinária, torcia em voz alta para os bichos escaparem do predador. E o Gutão (disse no carro que quer ser cantor de Rrrock ‘n’ Rrroll, com todas as letras devidamente enroladas), no auge da gostosa ingenuidade dos cinco anos, achava que o lobo só queria ajudar, quando cercou e preparou o bote no filhote de Rena que perseguia.

O que eles mais gostaram – ou sofreram – foi com o personagem Urso Polar que a equipe de aventureiros conseguiu filmar (vale ver os créditos do filme com os bastidores das filmagens). A grande mensagem do filme é a luta do urso para tentar encontrar comida no gelo cada vez mais escasso do Ártico. Na hora lembrei desse vídeo-sacada do Greenpeace.

O filme é um alerta esteticamente perfeito do impacto do aquecimento global no planeta maravilhoso em que vivemos (e precisamos conhecer melhor). E esse vídeo é uma sacada genial para falar de um jeito simples sobre algo complexo. Ponto para a comunicação da sustentabilidade.

Deixe um comentário

Arquivado em Sustentabilidade

Medo

Dez dias atrás, depois de um longo verão, consegui convencer meu principal brother de surfe em São Paulo, o Julio, a descer para a praia em busca do swell (ondulação) que estava previsto para encostar com força no litoral. O que para a maioria das pessoas se chama ressaca, para os surfistas é uma oportunidade de surfar altas ondas. A previsão no windguru.com era de 2,4m – tamanho suficiente para exigir preparo para entrar na água.

A noite anterior, como sempre acontece em dias que precedem surfe grande, foi de bastante expectativa. Certa vez li uma entrevista em que surfistas profissionais contavam que não dormiam quando sabiam que no dia seguinte enfrentariam ondas de 5, 6 até 7 metros (15 a 20 pés) em praias havaianas. Por mais que alguém goste disso, é sempre atemorizante saber que em um vacilo você pode ficar um bom tempo fora da água ou coisa pior.

Guardadas as devidas proporções, surfista de final de semana também tem suas aflições. Será que vou conseguir varar a arrebentação, entrar nas ondas ou ter coragem para descer as maiores? Em função da expectativa, não consegui dormir direito. Fui para cama à meia-noite e às 0h30 ainda tentando dormir. (Às 5h15 tocou o despertador. Cinco minutos depois eu estava em pé. Confesso que não é nada agradável acordar nesse horário, mas sei que a recompensa é matadora.)

Não era bem medo que eu sentia, era mais um certo receito das minhas condições e do que eu encontraria pela frente. Essa incógnita sobre o real tamanho das ondas e das condições do mar é um dos grandes chamarizes do surfe para mim. Nunca vai existir uma onda igual a outra. A onda perfeita está sempre por vir.

Medo eu já senti em Capão da Canoa, no mar marrrom, bravio e frio, a quase 500m da costa, com ondas de 2m. Já senti na Indonésia, com as séries entrando em Nungas (na ilha de Sumbawa), com 4m de altura. Já senti na Costa Rica, quando as ondas estavam crescendo no final da tarde e eu já não enxergava mais nada, esperando pela última do dia, que nunca vinha. Já senti na Califórnia, quando foi preciso entrar no mar pelas pedras para surfar em Steamer Lane, Santa Cruz, e dividir o outside (além da arrebentação) com leões marinhos defendendo seu território. Já senti também em Padang-Padang (Bali), quando minha prancha quebrou ao meio no dia de maior mar da temporada e o canal não me deixava chegar remando na praia. Já senti em El Barco, Punta San Jacinto, na Baja California, quando o furacão passou à margem da costa e trouxe ondas de 3m de altura. Já senti em Manzanillo, na Costa Rica, quando era preciso voar da onda antes que ela se esfarecelasse abruptamente na bancada de coral. Já senti em Yo-Yo’s (também em Sumbawa), no drop montanha-russa de 2m de altura em cima de um coral afiado, aparente através do mar translúcido. Já senti quando uma onda estourou na pedra e me jogou a três metros de distância, de costas numa rocha, em Camburizinho (São Paulo), num dia de muito amadorismo. Já senti quando não sabia a porta de saída da caverna de Uluwatu em dia de mar grande e muita corrente. E muitas outras vezes eu poderia contar aqui. Dentro e fora d’água, sempre em torno do surfe.

Mas e o que faz uma pessoa sentir medo assim, deliberadamente? Talvez a adrenalina, a vontade de superação que traz a sensação de vitória a reboque. Há um sentimento de estar vivo, que não se encontra em terra firme, não se encontra em uma baia corporativa, não se encontra num almoço em família, enfim, não se encontra no dia-a-dia. Sem desmerecer ou comparar. São simplesmente coisas diferentes. Sobre isso, separei aqui um trecho maravilhoso de “Fôlego”, de Tim Winton, que fala por si.

“A maioria das pessosa não gosta de sentir medo. Não dá exatamente para recriminá-las por isso. Alimentar-se do risco é algo perverso – a não ser que você esteja no mercado financeiro. Os empresários são corajosos, mas as pessoas que praticam BASE jumping são uns idiotas imprudentes. Pessoas que viajam sozinhas d ebarco são um desperdício dos recursos de resgate e os snowboarders que pulam de helicópteros são suicidas que gostam de aparecer. Os correspondentes de guerra, como todos sabemos, são gente bem esquisita. Alguns riscos, ao que parece, não merecem respeito. Enquanto isso, todos ficam aterrorizados com a ideia de que isso, o que quer que a vida tenha se tornado, é o que é e pronto. E o pior é que ela vai acabar logo. Com alguns medos – como dor de dente – é possível conviver. Bom, na maioria das vezes. ”

Em geral, tenho até um pouco de medo até de acordar cedo e pegar a estrada para ir surfar. Um pouco de receio do que vou encontrar pela frente. Nada mais do que o saudável medo do desconhecido. Um medo que vai e volta, controlado pela razão. Nada que se justificasse. O mar estava ok. Ondas de no máximo 1,5 m na série (onde era possível surfar, porque havia lugares maiores, mas insurfáveis). Fiquei quase três horas no mar, coloquei minha prancha maior na água, surfei cinco ondas, fiz minha meditação e saí com leves coceiras da água poluída (não se pode ter tudo, certo?).

E reforcei minha coragem e certeza de que nessa vida se pode tudo, menos ficar parado.

Deixe um comentário

Arquivado em Surfe, Uncategorized, Viagens

Confraria do surfe

Participei faz duas semanas de uma mesa redonda no canal Ideal (TVA). Era o programa Confraria, dedicado ao Surfe. Estava relutante no início sobre aceitar ou não o convite, mas o fato é que valeu a pena. Foi legal expressar em palavras o sentimento que o surfe evoca.

O contato com a natureza, o efeito terapêutico, as viagens com amigos, o
autoconhecimento e respeito aos limites, o localismo, a ética e as regras
de convivência dentro da água. Enfim, assunto para uma hora de conversa.

Foi muito legal conhecer também os participantes. O Luis Minoru, que trabalha em uma empresa de tecnologia, o Ariel (instituição financeira), eo Pepe (dono de empresa de comunicação).

O primeiro surfa nos finais de semana, enquanto os filhos brincam na areia
da praia onde têm casa, em São Paulo. O segundo busca a meta de viajar uma vez por ano para algum lugar onde possa surfar altas ondas. E o terceiro é o poeta do surfe. O figura começou a surfar aos 50 e hoje, aos 65, se não me engano — me corrija se for o caso, Pepe – surfa altas de pranchão. Tem uma ‘coleçãozinha’ de 97 pranchas no que chama de ‘barraco’ em Maresias. E está escrevendo um livro de surfe sobre o Micky Dora, o Da Cat, o primeiro dos rebeldes, lenda do surfe.

Da conversa saiu um presentão de Páscoa, o e-mail enviado pelo Pepe com a previsão do Liquid Dreams. Trata-se do melhor boletim que já vi de surfe, acessível somente para e-mail. Conversei com o Zé Luís, o autor da obra-prima, quando pedi para que ele me colocasse no mailing. Também combinei com ele que eu colocaria o e-mail aqui, para quem quisesse receber os boletins. Basta enviar uma mensagem para <liquiddreams78@gmail.com> com o título ‘previsão do surf’.

Amanhã vai ser transmitido o programa no canal Ideal, às 21. Está disponível nos canais 70 da TVA e do 367, da Telefônica. Depois coloco aqui o link do resumo que o pessoal coloca no site.

(Veja aqui o resumo dos outros programas.)

3 Comentários

Arquivado em Surfe

Trabalho num lugar…

Trabalho num lugar…

…em que as pessoas querem mudar o mundo.

…em que as pessoas falam que o trabalho delas não é beijar macacos ou abraçar árvores.

…em que as pessoas fazer curso para se tornarem ‘viabilizadoras’.

…em que as pessoas rodam o Brasil para compartilhar sonhos e aprendizados.

…em que o trabalho é tão legal que muitos ainda desconfiam que seja verdade.

…que o objetivo é acabar com o próprio trabalho quando a missão estiver cumprida.

…em que as pessoas são quase ecochatas ou biodesagradáveis!

…em que se toma café com o stakeholder.

…em que se toca um sino para anunciar as boas novas.

…em que as pessoas trabalham para os outros levarem os méritos ou ‘fazerem o gol’.

…cujo grande objetivo é ‘engajar’ as demais pessoas.

…em que o nível de exigência é muito alto, mas encontra abrigo na confiança mútua.

…em que as pessoas estimulam, entendem e valorizam projetos pessoais.

…em que todos se especializaram em driblar resistências.

…em que toda hora se tenta mostrar como isso tem a ver com o negócio.

…em que há espaço para advogados, administradores, psicólogos, educadores, cientistas sociais, biólogos e até para jornalistas.

…em que as pessoas muitas vezes não conseguem explicar o que fazem para amigos e família.

…em que pouco se copia e muito se cria.

…em que se criam sinceras amizades.

…em que até já me deu vontade de trabalhar depois de voltar de férias!

…que transformou minha vida.

…que vai me deixar saudades.

12 Comentários

Arquivado em Amizade, Sustentabilidade

O espírito do surfe

Acabei de ler recentemente o livro Fôlego, de Tim Winton, um escritor australiano. Trata-se de um romance de formação, que acompanha o crescimento e adolescência do personagem principal, Pikelet. Ele tem um amigo de sua idade,  Loonie, um sujeito experiente que serve de guru para ambos, Sando, e sua mulher Eva. O pano de fundo é o descobrimento do surfe e dos limites individuais. Winton é de uma linhagem de autores que torna universal aquilo que é peculiar ao seu habitat. Já foi comparado a Mark Twain e William Faulkner.

Li cada palavra com gosto e muita inveja branca. Me deu vontade de ter escrito aquele livro e me motivou a colocar a escrita em dia. Rabisquei as páginas, os parágrafos, as palavras colocadas no lugar certo. Gostaria de ter lido em inglês, mas como foi presente (o melhor que ganhei de Natal, da minha sempre certeira esposa), foi em português mesmo. Longe de ser um problema, pois a tradução é excelente.

Em cada descrição sobre o ‘surfar’ uma onda, sobre os diálogos, as dúvidas, as prioridades, eu me identificava nos tempos de Capão da Canoa, quando os três meses que passávamos no litoral giravam em torno da hora em que a gente cairia na água para surfar.

No livro, Sando é o guia de Pikelet e Loonie na descoberta do surfe. Isso eu não tive. Descobri sozinho com minha turma a maior parte dos prazeres do surfe. Lugares para ficar, praias novas para explorar, amigos cúmplices de um estilo de vida.

Lembro de uma vez que estava na casa de um amigo, o Duda, e chegou o Dênis, que tinha acabado de voltar de Santa Catarina. Para nós, com 13 e 14 anos, Santa Catarina era a fronteira a ser explorada. Praias em que era possível entrar no mar pelo canal, rios que desaguavam no mar, ondas perfeitas. Eu tentava imaginar como seria aquilo. Qual seria a diferença daquelas praias em relação às que eu conhecia? E tive de esperar um bom tempo até chegar lá, até ter a primeira oportunidade de ir.

Lembro da primeira surftrip com amigos, aos 17 anos, a bord de um Escort azul, do Simpson. Gugu pilotava e Pirica era o quarto integrante da trip. Chegamos em Florianópolis e fomos direto para o Camping da Lagoa. Ingenuamente, colocamos a barraca em cima da areia, preocupados com a ‘maciez’ da cama. Foram preciso apenas 12 horas para que já estivesse cheia de areia. A primeira praia que fomos conferir foi a Brava, ao norte de Floripa. Antes de chegar na areia é preciso vencer um morro alto que serve de mirante para o visual maravilhoso da Brava — ou era assim até a especulação imobiliária encher de prédios por lá. Lá de cima, vimos os riscos brancos simétricos preenchendo o mar azul. De longe, não dava para ver o tamanho das ondas, mas lembro de darmos pulos de felicidade com o visual e com a qualidade das ondas que nos esperavam. Em poucos minutos já estávamos dentro da água para o banho mais clássico que já dei na Brava até hoje. Nunca encontrei um mar igual ou parecido àquele por  lá, apesar das inúmeras vezes que voltei com tal esperança.

Aquela foi a primeira de muitas e muitas surftrips. Desde então, minha cabeça virou. E até hoje eu sigo planejando a próxima trip. Quando, onde e com quem. Algumas dúvidas e uma certeza: a de seguir sempre em busca da onda perfeita.

Como o personagem de Winton, Pikelet, que cresceu, virou paramédico, mas nunca abandonou o surfe. O poeta gaúcho Mario Quintana, fumante que era, cunhou uma frase tolerável na época (hoje politicamente incorreta): “Desconfie dos que não fumam: esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar.” Eu arrisco outra: “Desconfie daqueles que já gostaram de surfar, mas desistiram. Em alguma esquina, eles perderam a vida interior.” Queria poder tentar entender…

1 comentário

Arquivado em Amizade, Surfe, Uncategorized, Viagens