Arquivo do mês: junho 2009

A luta – ou da relação entre fonte e jornalista

Qual a semelhança entre a famosa luta de Muhammad Ali vs Goerge Foreman (sim, o cara que hoje vende grills) e uma entrevista para um jornalista? Aparentemente, nenhuma. Mas, como tudo na vida fica mais claro, bonito e poético com um boa metáfora, o media training que participei hoje foi uma experiência memorável. Logo no início, a instrutora colocou para rodar um trecho do filme “When we were kings”, que conta os bastidores e o passo a passo comentado da luta. Os cinco minutos exibidos mostraram como Ali construiu sua tática para enfrentar o campeão – e até então considerado imbatível — Foreman. Em seu processo de treinamento na África, onde foi realizada a luta graças a um golpe de marketing genial do empresário do boxe Don King, Ali enfrentou sparrings que batiam forte. Batiam até não poder mais. E ele apanhava, apanhava, apanhava (ou assim parecia). E batia também.

Foreman, enquanto isso, treinava batendo até dizer chega. Pobres dos sparrings que o enfrentavam. Para ele, Foreman, seu adversário ria dançar na pista, como sempre fazia. Ali era conhecido por ser um peso-pesado leve, com um jogo de pernas incrível, que o fazia rodar pelo ringue, desnorteando os adversários. Ali, resolveu mudar a estratégia na luta, como só se pode descobrir – da forma mais bizarra possível – no dia.

Nos quatro primeiros rounds, Foreman o massacrou. Na maior parte da luta, Ali ficou esmagado nas cordas levando porrada. Ele ia para frente, para trás, para o lado, sempre protegendo o rosto (órgãos vitais no combate), enquanto Foreman desferia potentes bombas no rim e nos braços. A grande e esperada luta mais parecia um acerto de contas de moleques do colégio. E para saborear ainda mais a cena, durante a pancadaria Ali provacava Foreman dizendo que não estava batendo forte, que ele podia mais etc. E assim foi a luta por quatro rounds – o limite dos adversários de Foreman. Era o máximo que agüentavam. De tanto bater, Foreman cansou. E Ali reagiu levemente no quinto assalto, acertando alguns socos no campeão. A luta seguiu naquele curso até o oitavo assalto, quando Ali emergiu do nada, encaixou seqüências perfeitas até derrubar Foreman. O improvável virou realidade enquanto Foreman tentava se levantar do solo do ringue. Ali venceu a luta e tudo o que ele não tinha se tornado aos olhos americanos. Tinha dito não à guerra do Vietnã e perdeu tudo, inclusive o nome Cassius Clay, que trocou pelo muçulmano Muhammad Ali. E, só de birra, quis enfrentar o campeão. A contracultura contra o status quo. O povo contra a guerra. Os negros contra a elite.

Mais tarde, em entrevista sobre a luta, foi perguntado como tinha apanhado tanto e não tinha caído. Ali respondeu que não, claro que ele não tinha apanhado. Na verdade, havia absorvido golpes. Sim, isso foi verdade. No seu treinamento, ele ficava nas cordas levando soco de toda sorte, para exercitar a musculatura e agüentar melhor o impacto. Na sua estratégia para a luta, Foreman imaginava que Ali ficaria vagando pelo ringue. No início, parecia melhor do que ele imaginava. Afinal, estava do jeito que um boxeador em vantagem gosta, prensando o adversário contra as cordas. O que ele não esperava era aquela postura improvável — e vencedora — de Ali. Uma luta para não esquecer.

E a relação entre fonte e jornalista, tem o quê a ver com isso? Uma entrevista é um embate intelectual entre fonte e jornalista. Se a fonte tiver musculatura (ou seja, credibilidade, referência, pontos positivos na imprensa), vai absorver melhor os golpes. Uma bela metáfora. Valeu o dia.

Antes de acabar, indico um livro genial que conta a história dessa luta. Chama-se “A Luta” e foi escrito por Norman Mailer, genial escritor americano que morreu recentemente. A luta é só um pretexto para Mailer contar o contexto e tudo o que essa incrível luta que representou.

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Apertando o cerco contra a devastação da Amazônia

A pressão da sociedada contra práticas consideradas ‘inaceitáveis’ nos dias de hoje, como o desmatamento da Amazônia, está cada vez maior.

Recentemente, a Associação Brasileira dos Supermercadistas, disse que não vai mais comprar de empresas que produzem carne provenientes da destruição da floresta (ou desmatamento para ‘plantar’ gado). O poder econômico ainda é a melhor via em muitos casos… 

Veja abaixo a nota do Greenpeace. Tem gente que só entende mexendo no bolso.

 

*Supermercados suspendem compras de fazendas envolvidas no desmatamento da Amazônia*

*ABRAS repudia práticas denunciadas pelo Greenpeace*

*Manaus (AM), 10 de junho de 2009* – Os três gigantes do setor de supermercados Wal-Mart, Carrefour e Pão de Açúcar suspenderam as compras de fazendas envolvidas no desmatamento da Amazônia e deverão trabalhar com auditoria de origem. A decisão é uma resposta do setor ao relatório do Greenpeace “A farra do Boi na Amazônia” divulgado há 10 dias, e à ação civil pública (ACP) do Ministério Público Federal (MPF) no Pará

Veja abaixo a íntegra da nota divulgada pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras) no início da noite desta quarta-feira:

*ABRAS repudia práticas denunciadas pelo Greenpeace.*

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*Wal-Mart, Carrefour e Pão de Açúcar suspendem as compras de fazendas envolvidas no desmatamento da Amazônia e deverão trabalhar com auditoria de origem. *

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*Em reunião realizada na Associação Brasileira de Supermercados (Abras), no dia 8 de junho, as três maiores redes de supermercados do País, Carrefour, Wal-Mart e Pão de Açúcar decidiram suspender as compras das fazendas  envolvidas no desmatamento da Amazônia. A ação é um repúdio às práticas denunciadas pelo Greenpeace. O setor supermercadista, através da Abras não irá compactuar com as ações denunciadas e reagirá energicamente. *

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*A posição definida pelas empresas inclui notificar os frigoríficos, suspender compras das fazendas denunciadas pelo Ministério Público do Estado do Pará e exigir dos frigoríficos as Guias de Trânsito Animal anexadas às Notas Fiscais. Como medida adicional, as três redes solicitarão, ainda, um plano de auditoria independente e de reconhecimento internacional que assegure que os produtos que comercializam não são procedentes de áreas de devastação da Amazônia. *

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*Trata-se de uma resposta conjunta setorial ao relatório publicado pelo Greenpeace no início deste mês e conseqüente ação civil pública do Ministério Público Federal do Pará, que encaminhou recomendação às grandes redes de supermercados e outros 72 compradores de produtos bovinos para que deixem de comprar carne proveniente da destruição da floresta. *

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“Estamos felizes com o anúncio dos supermercados”, disse André Muggiati, do Greenpeace. “Esta decisão expressa a opinião do consumidor final, que não quer comprar a destruição da Amazônia. Agora, é a vez dos frigoríficos que atuam na Amazônia assumirem sua responsabilidade de não mais comercializar gado de fazendas que desmatam”.

Outra boa notícia é que o Ministério Público Federal pretende ampliar as ações de combate ao desmatamento com responsabilização da cadeia produtiva da pecuária para outros estados da Amazônia, como Mato Grosso e Rondônia.

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Harvard Business Review e o labrador Marley

Hoje fiz duas coisas dignas de nota. Na verdade, fiz mais, mas queria falar dessas duas. A primeira foi ler na revista Harvard Business Review uma matéria sobre Confiança, que parece ser o tema da moda no mundo corporativo. Aliás, estou lendo um livro bacana sobre isso. Chama-se “Construindo Confiança”, de Fernando Flores. Fala da importância disso para as relações e o que se pode fazer para construí-la. Li a matéria acompanhada de um vinho Chardonnay Santa Carolina. Nem de longe dos melhores, mas considerando que sobrou de uma receita recente, valeu a pena. O ponto da matéria era a transparência. Ficou uma frase no resumo do artigo: “As organizações que falharem em atingir a transparência acabarão sendo forçadas a tal.  Não tem jeito de de guardar muitos segredos na era da internet.” No final, o vinho já tinha feito algum efeito e eu já estava achando a matéria genial, muito legal etc.

E de fato era, mas ficou um tanto irrelevante depois que começou a segunda coisa que fiz e para a qual eu gostaria de chamar a atenção. Tudo começou no último dia das mães, quando fui dar uma volta no bairro para encontrar algo para a mamãe-de-dois-moleques Juliana. Entrei numa loja, vi algo que interessou, mas decidi não comprar. Fui ver mais. Vi roupas, acessórios e sapatos. Como minha esposa é muito fashion, é um tanto arriscado comprar roupas para ela. Acho que acertei uns 50% até hoje e naquela ocasião eu não estava a fim de errar. Continuei procurando e resolvi apostar num presente inusitado: um DVD do filme Marley & Eu. E voltei para comprar o que tinha me interessado antes: três baldes kitsch de pipoca. A ideia era fazer uma sessão de cinema família, mais de um mês depois (as prioridades mudam rapdidamente numa família com filhos pequenos!). Um presente-experiência, ideal para o dia das mães.

E o presente se fez realizou apenas hoje. Começamos os quatro a ver o filme. Vicente dormiu no início e acordou no minuto final. E durante as quase duas horas da história da família com cachorro, demos boas risadas e nos emocionamos quando Marley se foi. O melhor do filme veio quase no final. Em uma das cenas, a família toda se joga no chão em meio a uma partida de futebol americano. Nesse momento, Augusto abre um belo do sorriso, me olha e se atira em cima de mim e da Juliana, num abraço tão apertado quanto espontâneo.

Entre a Harvard Business Review e o Labrador Marley, fico com o último por larga vantagem nesse sábado. Marley & eu não sustenta uma conversa-cabeça em um bar. Mas também uma conversa-cabeça em um bar não vem acompahada do abraço apertado de um encantador moleque de 5 anos. E no fundo, é isso o que realmente importa. (Ah, a Harvard Business Review importa, claro. E eu recomendo a edição sobre Confiança. Mas amanhã, o momento e o tema serão outros. E a revista vai para a pilha, junto com todos os conceitos que sustentam a pilha.)

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Confraria dos Surfistas – o link

Dia desses fui até a TV Ideal participar de uma conversa no programa Confraria. O tema era surfe. Minha ex-chefe me indicou. Vai, não vai, resolvi ir. Achava que seria legal no mínimo para conhecer pessoas interessantes.

Dito e feito. O mais figura de todos foi o Oswaldo Pepe, sobrem quem já escrevi aqui. Ainda temos um almoço para marcar, mas o encontro já rendeu frutos legais. Indiquei para o cara um possível tradutor para o livro que ele está escrevendo sobre o surfista rebelde Miki Dora, conhecido como “Da cat” e mais recentemente para um jornalista que queria fazer uma matéria sobre a primeira vez de coisas marcantes. Se topar, Pepe vai falar de como começou a pegar onda. E de minha parte, tive acesso ao melhor boletim de ondas de surfe jamais produzido no Brasil, o LiquidDreams, sobre o qual já falei aqui. Para receber, envie um e-mail para  liquiddreams78@gmail.com

Segue aí o link da matéria para terem uma ideia de como foi. Gostei da experiência.

E segue aqui o link para o primeiro post sobre o assunto.

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Troca de livros 2.0

A vida não tem sido fácil. Dia-a-dia corrido pacas. Para o blog não ficar parado, segue aqui uma dica da Estante Virtual, uma genial invenção para quem não conhece. É uma rede de 400 sebos espalhados pelo Brasil. É claro que não é a mesma coisa que vasculhar in loco, mas quebra um bom galho quando você precisar achar algum livro fora de catálogo. Agora, lançaram uma promoção bacana. Vejam o e-mail que recebi:

“Caros leitores,

A escalada dos números da Estante não é novidade. Todos crescem exponencialmente sem parar, desde o lançamento, há 3 anos. Livros, sebos, livreiros virtuais, leitores, leitores vendedores, vendas, acessos, buscas.Também não é novidade que além de números, chegam também histórias muito interessantes. Pessoas que encontraram livros de familiares escritos há décadas, livros esgotados imprescindíveis às suas teses de doutorado, ou mesmo livros seminovos ainda em edição por uma fração do preço das livrarias convencionais. Chegam histórias também de sebos recém-inaugurados, fundados por livreiros virtuais que começaram suas atividades na Estante e viram seus negócios darem tão certo que se motivaram a abrirem uma loja física.

“Então, Estante, tem alguma novidade?” Sem dúvida, temos sim! Vamos a ela então! Esta semana estamos lançando um serviço inédito no país: o Programa Nacional de Troca de Livros.

Você leva nos sebos os seus livros seminovos e ganha créditos para adquirir seu próximo livro. E a avaliação é justa, nada de 1 real por livro! Na troca por livros do acervo do sebo, seu livro vale 25% do preço atual nas livrarias convencionais.

O programa marca uma inovação no mercado editorial – interligando sebos e leitores em um fluxo virtuoso de troca de livros seminovos. A aquisição do próximo livro se torna muito mais acessível, uma vez que o livro que se acabou de ler pode ser usado como forma de pagamento.

Mas não é só. A inovação vai além disso! O programa marca também uma inovação no comércio brasileiro:

Em alguns sebos você pode também fazer a troca por um vale-compras virtual. Seus créditos são remetidos pelo sebo a uma carteira virtual, administrada pelo Pagamento Digital e vinculada ao seu email. Você pode então usá-los para adquirir livros aqui na Estante, nos mais de 400 sebos Brasil afora que aceitam o Pagamento Digital! Nessa modalidade de troca seu livro vale 20% do preço das livrarias.

A relação dos já mais de 100 sebos participantes, bem como o regulamento completo do programa, você confere neste link: http://www.estantevirtual.com.br/programadetrocas

Abraços e boas trocas!

André Garcia
Criador / Diretor
http://www.estantevirtual.com.br

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