Independência do marasmo


Em homenagem ao dia da Independência, que já está se indo, segue uma reflexão sobre a candidatura da Marina Silva, uma independência do marasmo político-intelectual que nos tem assolado. Em tempos de incríveis mudanças no mundo, assistir a toda a discussão em torno do pré-sal sem nenhuma reflexão de qual seria o impacto disso na qualidade do ar, na atmosfera, na saúde pública, é dureza. Pelo menos agora a Dilma ‘teve’ que falar em meio ambiente. Se não pensava, agora é obrigada ao menos a falar sobre isso.

Vamos lá, Independência da mesmice, ou morte!

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Marina Silva, um futuro sustentável para o Brasil
Por Denise Ribeiro, especial para a Envolverde
No sábado, dia 29 de agosto, um grupo se reuniu, sem alarde, num hotel paulistano para pensar o Brasil. E contribuir com ideias para a plataforma de um eventual governo da candidata do PV.
Que o sistema político brasileiro está vencido não é novidade alguma. Que a polarização da próxima disputa à presidência da República provoca bocejos, idem. Serra, o mal humorado, ou Dilma, a destemperada? Você prefere um gerente burocrata para nosso país que use calças ou saias? Totalmente inconformado com esse cenário desolador, que se pretende inescapável, um grupo de pessoas se reuniu nesse sábado no hotel Georges V, em São Paulo, disposto a interferir nessa paisagem.
Durante o sábado inteiro empresários, economistas, cientistas sociais, professores, lideranças políticas e sindicais, jovens estudantes, catedráticos da GV e da USP, jornalistas – éramos cerca de 40 pessoas – vivenciamos, num ambiente informal, denso de ideias e superdemocrático, um debate de princípios seguido da firme convicção de que podemos mudar o Brasil.
A saída para essa mesmice política, que nos envergonha e paralisa, para nós tem um nome: Marina Silva. Principalmente porque carrega uma história de 30 anos, marcada pelo bom combate em defesa dos princípios socioambientais. A trajetória brilhante da senadora a credencia para o cargo mais alto do país, porque hoje, mais do que nunca, precisamos da expertise de Marina. Porque, qualquer que seja o presidente escolhido, ele terá de enfrentar um dos maiores desafios da humanidade, desde que passamos a habitar e a modificar a Terra: o aquecimento global. E nos parece extremamente sintomático (e alarmante!), que nem Serra, nem Dilma – e nem FHC e nem Lula – tenham dado ao tema o sentido de urgência que ele traz embutido.
Como 95% da comunidade científica mundial não têm dúvida de que só decisões políticas sérias poderão nos tirar dessa bela enrascada em que nos metemos, é preciso coragem para tomá-las. E não podemos esperar 30 anos mais, embalados pela desfaçatez de interesses escusos, até que nossa classe política responda aos anseios da sociedade civil.
Queremos seriedade, honradez, ética, solidariedade; educação e saúde de qualidade; segurança, inclusão e justiça social; o fim da prevaricação, do nepotismo, da subserviência aos lobbies corporativos, do butim aos cofres públicos, da locupletação. Queremos a restauração do verdadeiro espírito
democrático, uma máquina estatal eficiente e transparência na distribuição dos tributos – afinal, para onde vão os 40% arrecadados de nossa renda?
Queremos discutir uma agenda que transcenda a pequenez de interesses meramente partidários ou eleitoreiros. Queremos uma campanha moldada por um ideário consistente, que resulte num novo perfil para o Brasil a longo prazo.
Queremos tudo isso, porque é isso o que a sociedade almeja. Uma amostragem de 500 mil brasileiros deixou bem claro o que deseja, na campanha Brasil Ponto a Ponto, capitaneada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Pessoas de diferentes faixas etárias, classes sociais e de todos os cantos do país responderam à seguinte questão proposta: “O que precisa mudar no Brasil para a sua vida melhorar de verdade?”. Em primeiro lugar, como sempre, ganhou Educação, mas em segundo, terceiro e quarto aparecem, respectivamente, Política Pública, Violência e Valores.
Foi consenso, na reunião, que os últimos 16 anos serviram para colocar o Brasil nos trilhos. FHC nos deu o prumo econômico, Lula deu ênfase à agenda social. Agora é hora de saber a direção que queremos dar para esse trem. Se queremos, de fato, ser exemplares no cenário de transição para o baixo carbono – inevitável nos próximos cinco anos –, precisamos, também, de uma sólida agenda ambiental. É hora de redefinir nosso modelo de desenvolvimento, de repensar nosso pacto federativo, de disponibilizar ferramentas para que a economia verde deslanche. Trazer para o centro da estratégia de governo a ciência e a tecnologia, para que a “química verde” prospere. É preciso investir em políticas públicas – como a criação de uma estrutura de incentivos – que proporcionem uma relação salutar entre a sociedade e o meio ambiente.
Por que não ter, a exemplo da Lei de Responsabilidade Fiscal, uma Lei de Responsabilidade Socioambiental? Por que não cruzar todos os indicadores produzidos por ONGs, Oscips e outras entidades, correlacioná-los, interpretá-los e usá-los como instrumentos de mudança? Por que não incluir na formação do preço do aço, dos minérios, do petróleo (e toda sua cadeia produtiva), da carne o custo da água, da degradação do homem e dos recursos naturais?
Não queremos um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), cuja finalidade é o “crescimento econômico”, em detrimento ao bem-estar do conjunto da sociedade. Na reunião, foi consenso que o Brasil vive um momento histórico único, em que pode desfrutar do protagonismo no cenário mundial. Temos uma matriz energética limpa, moeda estabilizada, pesquisas avançadas em biocombustíveis, um mercado interno de 100 milhões de pessoas. E ainda exportamos tecnologia em gestão social.
Para não perder o bonde da história nos próximos 10 anos, é preciso capacidade de enxergar o futuro. Aceitar a idéia de governança global, que vem ancorada num conceito mais amplo de soberania. Repensar o papel do mercado e o perfil de consumo. Enfrentar com mão forte a inércia dos burocratas educados sob a visão do controle e do planejamento centralizado.
A nova agenda brasileira pede a reestruturação da sociedade e a construção de uma competitividade autêntica. Será que é autêntica a pujança da indústria paulista que gasta mais energia hoje, por unidade de produto, do que gastava há 20 anos atrás? É uma boa escolha, para a maioria dos brasileiros, privilegiar o transporte individual e investir num trem-bala que consumirá recursos suficientes para construir 45 km de linhas de metrô? Enquanto patinamos em nossas escolhas, a China começa a ampliar sua rede ferroviária, que deverá se espalhar por 13 mil km até 2020.
Como disse um economista em sua exposição, “os próximos 10 anos serão estratégicos para calibrar nosso otimismo em relação ao século 21”. As dificuldades são imensas, mas também representam enorme abertura para negócios inovadores.
Para implantar a “economia do meio ambiente” a sociedade precisa se unir, se mobilizar na direção dessas oportunidades. As propostas serão legitimadas pela ampliação do raio de alianças. O desafio é sensibilizar sindicatos, entidades e associações, cooptar a imprensa, motivar os jovens. Usando para isso todos os fóruns de discussão disponíveis: blogs, sites, redes sociais, reuniões paroquiais, universidades, centros culturais, sedes de associações representativas. Vamos identificar “curadores de ideias”, homens e mulheres capazes de levar informação para as pessoas comuns. A degradação de valores na sociedade ocidental chegou a um ponto que preferimos a alienação – nos retirando do cenário – à tentativa de lutar em favor de um novo modelo de vida.
Marina Silva aparece não como salvadora da Pátria, mas como a curadora-mór, a que fará a ponte entre as inevitáveis regras políticas e os anseios da população. A senadora tem biografia e autoridade suficientes para liderar esse processo de construção de uma nova visão de desenvolvimento. Em que o crescimento elimine as mazelas da nossa crônica desigualdade social e da nossa aguda falta de sensibilidade em relação à diversidade cultural e biológica do país.
(Envolverde) * Denise Ribeiro é jornalista.
(Agência Envolverde)

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Arquivado em Nova Sociedade, política, Sustentabilidade

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