A malandragem do Galvão


Ontem, no final do jogo entre Brasil x Bolívia, chegou a informação de que uma favela estava queimando em São Paulo. Imagens impressionantes começaram a aparecer na televisão.

Fogo na favela do Jaguaré

Quando disseram que era em uma favela próximo ao Jaguaré, corri para a janela, de onde é possível enxergar um bom pedaço de São Paulo. Dava para ver o clarão laranja da favela ardendo. Chocante. E aí, vem a pérola do Galvão Bueno, que estava narrando o jogo. Disse algo como: “As imagens são impressionantes. Imaginem o pavor dos moradores dos condomínios residenciais.”

Fiquei duplamente chocado. Com as imagens e com a asneira do Galvão. Acredito que ele não tenha falado por maldade. Afinal, ninguém seria tão mauassim. Mas o significado que a simples frase carrega me deixou pensando. Quer dizer então que 200 famílias perderem o seu barraco não é nada perto do pavor que os moradores classe média estavam sentindo. Ô, Galvão, que coisa, hein?

E pensar que o cara vai ficar aí pelo menos até 2016, pós Copa no Brasil e ano das Olimpíadas. Enquanto o Brasil se moderniza, a Globo vai entronando o status quo perdido no passado. Volta e meia o Galvão ainda fala: “Ronaldinho, cheio de malandragem, levou o juiz na convesa.” Ou então: “É malandro, é experiente…” Estímulo à malandragem no sentido de levar vantagem é algo que não precisamos mais. Numa boa…

Essas bobagens que o Galvão fala e que impactam milhões de pessoas têm quase o mesmo apelo, o mesmo peso, que o sushi erótico que foi sabiamente banido do Faustão. Alguém lembra da bizarrice? Uma bonita modelo deitada, nua, servindo de bandeja para dezenas de peças de sushi e sashimi. Nem lembro para que serviam, mas lembro que tinham um mau gosto incrivel.

Uma história de bastidores diz que alguém da Globo, indignado, saiu a perguntar quem tinha criado aquilo. Não tinha sido o produtor, não tinha sido o diretor do programa, não tinha sido o Faustão, não tinham sido os Marinho. É claro que não. Ninguém com bom senso deixaria isso acontecer. O fato é que demoraram a se dar conta. Mas se deram. Alguém, agora, precisa ir lá e passar o recado para o Galvão deixar de usar o poderoso microfone que lhe serve para falar bobagens. Ele não chegou lá por acaso. Não foi por ‘maladragem’ (espero). Tem muito mérito, mas precisa lembrar que o Brasil não é feito só de classe média ou de time paulista.

O Brasil está evoluindo, a sociedade está amadurecendo. É bom os formadores de opinião acompanharem essa mudança para não ficarem para trás.

5 Comentários

Arquivado em Comunicação, Jornalismo, Mundo 2.0, Nova Sociedade, Sustentabilidade

5 Respostas para “A malandragem do Galvão

  1. Gabi

    Ro,

    Para mim mais assustador ainda é pensar que tem gente que mora no Brasil, mas vive em algum outro lugar imaginário. Um país que acaba na porta do condomínio. Pelo jeito este deve ser o mundo do Galvao Bueno também.

    Li o texto e fiquei pensando que tanto o Galvao quanto as novelas da Globo precisam acordar. Nao conheco a nova novela das 8h mas já ouvi falar que sao todos, como sempre, muito ricos.

    Enquanto continuarmos reproduzindo esses valores de malandragem e riqueza material como objetivos de vida, podemos até crescer no PIB, mas vamos continuar vivendo num país dividido e, conseqüentemente, violento.

    Segue o link com matéria de ontem no El País sobre o Brasil que vai pra frente. Espero que o próximo passo seja mais gente acordar para ver que a favela também faz parte do país:

    http://www.elpais.com/articulo/primer/plano/Brasil/va/todas/elpepueconeg/20091011elpneglse_2/Tes

  2. Marcia Davis

    Ola Rodrigo,
    Mandou bem. Aplausos para os que estao de olho aberto p/ o estimulo a malandragem. Me enoja profundamente o tal do “jeitinho brasileiro”.
    Abracos,
    Marcia

  3. Não vi, mas claro que o Galvão sempre solta as suas besteiras…. Impressionante.

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