“Bandidos fardados”? O chocante crime do AfroReggae


A história do crime do integrante do AfroReggae é muito chocante. Evandro João da Silva, um ‘guerreiro’, como o José Junior, coordenador e criador do movimento falou, levou um tiro de bandidos que levaram seu casaco e tênis. Alguns segundos depois do crime, os policiais (“bandidos fardados”, nas palavras de Junior) abordaram os bandidos e…  roubaram o casaco e o tênis que haviam roubando de Evandro. E passaram pelo corpo de Evandro, que agonizava no chão. E não fizeram nada! Isso mesmo: nada. Um outro integrante do AfroReggae diz que passou 50 minutos depois por ali e o coração dele ainda batia. Talvez tenha morrido por falta de socorro.

Certos da impunidade, não contaram com as imagens que estão circulando na mídia.

Amanhã certamente estará em todos os jornais.

Coração batia 50 minutos após o crime

Estou lendo um livro maravilhoso do Ítalo Calvino: “Seis propostas para o próximo milênio”. São seis lições dadas em Harvard, sobre as quais comentarei aqui em algum momento em outro post. A primeira dela é leveza e de lá tirei uma frase incrível: “A literatura tem função existencial. É a busca da leveza como reação ao peso de viver.” Genial. Diz tudo sobre esse momento. Longe de pensar que essas palavras são literatura, faço uma pobre comparação. A leveza das palavras, nesse caso, servem para elevar o espírito de indignação.

Enquanto houver indignação, haverá esperança. Principalmente de parar essa onda de má notícias do RJ. Mas para isso é preciso agir, fazer algo.

Segue o indignado desabafo da minha amiga Priscilla Navarrete, consultora de sustentabilidade, sobre esse caso.

Amigos,

Os que me conhecem sabem que sou mais de bastidores e jogo de xadrez do que de palco e karaokê, mas tem horas que a voz vem tão forte que não dá para segurar. Como não tenho site, blog ou revista, resolvi usar o “tradicional�” e-mail para colocar para fora o que está aqui dentro.

Li no Estadão hoje: “PMs são presos por roubar ladrões, deixá-los fugir e não socorrer vitima que agonizava�€. Vítima que agonizava??!!!

Todos os que trabalham com sustentabilidade sabem que hoje a “bola da vez” é a tal da materialidade que pressupõe o tal do engajamento. Eu mesma sou professora de engajamento, consultora de engajamento, facilitadora de engajamento…mas o que é e para quê serve esse engajamento mesmo?

E o que a morte do Evandro tem a ver com o raio do engajamento? Talvez essa ligação esteja só dentro da minha cabeça, mas aqui dentro essa ligação é tão clara!

Quando foi que começamos a nos preocupar mais com os fatos do que com as pessoas por trás desses fatos? Quando foi que começamos a nos relacionar com papéis e não com pessoas? Quando foi que começamos a engajar e “sustentabilizar�” para preencher questionário de Dow Jones, ISE e GRI sem de fato ouvir e considerar o que essas pessoas dizem? Por que mesmo estamos fazendo isso tudo? Será que viramos todos (“sustentabileiros�” ou não) burocratas da sustentabilidade?

Não era uma vítima que agonizava, NÃO ERA QUALQUER UM!!! E não que eu ache que uma vida vale mais do que outra, mas era o Evandro. Tive a oportunidade e o privilégio de trabalhar por um curto período de tempo perto do Junior e do Evandro. Eles sim sabem engajar! Eles sim sabem “sustentabilizar�”! Eles sim sabem conectar!

Quem conhece o trabalho do AfroReggae sabe do que eu estou falando. Eles sim tinham relacionamentos com indivíduos. Eles praticavam a tal da interdependência que nós teorizamos. Como diz o Junior “Tamo junto e misturado�”. Eles engajaram presidentes de bancos com presidentes de ONGs, traficantes, com paulistinhas bem nascidas (eu, no caso), artistas com a favela, facções inimigas do tráfico, policiais e bandidos, favelas do Brasil com favelas da ͍ndia, etc.”

Lembro que quando saí da empresa multinacional onde trabalhava e que apoiava um dos projetos do AfroReggae e liguei para o Junior para falar que uma outra pessoa cuidaria do projeto que tínhamos em parceria com eles, ele me disse uma coisa que eu nunca vou me esquecer: “O que me importa não é a doação. Para onde você vai? O que me importa é perder uma pessoa que de fato se importa. E agora, como vai ser?�€. Ele ficou bravo de verdade.

Isso é engajamento! Engajamento de pessoas, engajamento de propósitos, engajamento de valores. Não sei como, mas precisamos retomar o propósito da sustentabilidade, porque estou convicta que não há índice de sustentabilidade, prêmio, nova tecnologia, produto “verde�€ diretriz ou política que vai nos fazer mudar a rota com a velocidade que precisamos se não  voltarmos a nos conectar. Conexão com a nossa própria humanidade para que possamos então buscar o real engajamento com os outros.

E daí, talvez, não nos seja mais possível passar o ano todo preenchendo questionários para ganhar prêmios e selos sem lembrarmos de que é por causa das pessoas que estamos fazendo isso, fazermos belos discursos e humilharmos nossos funcionários, nos auto-intitularmos líderes de sustentabilidade e não conseguirmos trabalhar em rede, promover painéis de diálogo com stakeholder sem de fato ouvir e considerar o que essas pessoas nos dizem… ou passar ao lado de uma pessoa, um indivíduo, um ser humano, um líder, um guerreiro agonizante e ignorá-lo porque a nossa única preocupação é levar um casaco e um tênis de marca para casa.”

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