É nóis na Economist!


Há três semanas, estive no Economist Summit (veja post “Da Arte de ver a floresta e não só as árvores”), um seminário do semanário inglês cujo tema foi o Brasil. Havia muitos especialistas, empresários, acadêmicos. Todos discutindo os rumos do Brasil. As conversas foram muito boas. Conseguiram captar a essência do ambiente empresarial brasileiro, com toda sua vontade, dinamismo, defeitos e incongruências, mas que inegavelmente está em momento de decolada.

Não tenho dúvidas de que esse espírito que ficou evidente nas discussões foi o principal motivador da publicação dessa matéria de capa da Economist que foi lançada hoje (de tão tosca, chega a ser boa, diga-se de passagem).

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O editorial da revista é muito abonador para o Brasil. Um colega meu jornalista que morou em Londres por muito tempo e é fã da revista não se conteve é mandou o e-mail com o título: “É nóis na Economist”!

É nóis mesmo! A publicação começa dizendo que havia muito ceticismo quando o acrônimo BRIC foi criado, que o Brasil não caberia nesse B. Pois bem, no parágrafo seguinte, começa a enumerar os benefícios do Brasil.

Segundo os jornalistas, o ceticismo foi para o espaço. Diz que o país não evitou a crise, mas foi um dos últimos a entrar e um dos primeiros a sair. A economia está crescendo 5% em taxa anualizada e deve crescer mais com os campos de petróleo descobertos, enquanto a Ásia está ávida pela comida e minerais produzidos no Brasil. E todos sabem que asiáticos são mercadoria em abundância no planeta! E as  previsões indicam que em 2014 o Brasil deve ser a 5a maior economia, superando Grã-Bretanha e França. Motivo de orgulho brazuca! Para a revista, mais motivo de orgulho, o Brasil debutou no primeiro mundo com as Olimpíadas e com a Copa do Mundo.

Muito bem, isso é o que temos hoje, e que não foi conquistado do dia para a noite. Economist aponta o trabalho, a lição de casa, feita pelo país para ‘chegar lá’. Fala do controle da inflação, autonomia do Banco Central, lei de responsabilidade fiscal e privatização. Uma receita eficiente. Grandes empresas como Vale, Petrobras, Embraer, Gerdau e JBS são citadas como companhias de atuação mundial. E cita a imprensa forte e vigorosa (dessa parte eu me orgulho muito!).

Mas….

Mas – sempre tem o mas e isso é muio bom – tem o lado negativo também. Aumento dos gastos do governo, poucos avanços em educação e infraestrutura perto do que precisa e violência em algumas partes do país. E a revista lembra que o governo e a sucessora candidata Dilma pouco caso estão dando para a reforma trabalhista (ponto que emergiu com destaque no seminário em São Paulo).

E a parte que o presidente Lula não deve nada nada ter gostado de ouvir foi a de que é um presidente de sorte e que o crescimento do país nesses anos se deu na esteira das reformas promovidas pelo seu antecessor FHC. E que para manter o desempenho o próximo presidente terá de tratar de alguns problemas que foram deixados de lado. “O resultado da eleição pode determinar a velocidade com a qual o Brasil avançará na era pós-Lula.”

O melhor da matéria está reservado para o final, quando a revista diz que tudo isso foi conseguido em um ambiente livre e democrático, que o presidente Lula, apesar dos arroubos totalitários que de vez em quando lhe arrebatam (essas são palavras minhas), faz questão de manter e reforçar.

Certa vez estive em um almoço com FHC (sorte a minha) e não resisti a fazer a pergunta sobre qual tinha sido o maior legado dele para o país. Ele não pestanejou em falar que foi o de lutar para manter o ambiente democrático, conquistado a muitas penas. Mais estadista impossível. Senti o mesmo orgulho que ao ver essa matéria na Economist.

Mas — e aqui tem outro ‘mas’ — é bom que essa capa não seja pretexto para dizer que tá tudo bem, porque não tá. Provavelmente enquanto estava sendo impressa a revista, aconteceu o apagão (e sobre isso não há uma linha). Temos ainda tiro ao helicóptero e agora perseguição social, como na menina da Uniban.

Ou seja, é para ter orgulho, sim, mas não para esquecer que somos ainda uma sociedade em amadurecimento. Melhor lembrar disso pelos próximos sete anos para a maré boa não passar no pós Olimpíadas.

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Arquivado em Jornalismo, Nova Sociedade, política, Uncategorized

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