Perder é diferente de entregar


Estou me divertindo com a polêmica do Brasileirão. Sobre se o Grêmio entrega ou não o jogo para o Flamengo.

Ora, colorados, que passaram a exaltar o Grêmio, é ingenuidade mesmo achar que por causa de palavras bonitas o Grêmio vai se esforçar para ganhar do Flamengo.

A questão é quase lógica, binária. O Grêmio está no pelotão do meio do campeonato. Não tem chance de vaga de Libertadores e não tem possibilidade de cair para a 2ª divisão. Ou seja, nada a fazer.

O Flamengo é candidato ao título. Só depende dele para ser campeão. Uma simples vitória e o Mengão é hexa.

Dito isso, a pergunta é: quem vai se esforçar para ganhar o jogo? Quem tem motivação para ganhar, jogando em um estádio lotado, com sede de título? E mais, contra um adversário que fez uma ridícula campanha fora de casa no campeonato inteiro, ganhando apenas de um time, o Náutico?

O campeonato já está decidido.

E o Grêmio não vai precisar entregar nada. Só vai perder o jogo. Pela lógica.

É engraçado ver os colorados apelando para o Grêmio, como se toda a responsabilidade pelo título estivesse no rival. São 38 rodadas de campeonato. A responsabilidade de o Inter estar 2 pontos atrás do Flamengo é toda colorada. Eu, se fosse jogador colorado, me preocuparia com o Santo André e não com o Grêmio. Seria lindo ver o Grêmio ganhar do Flamengo e o Inter perder do Santo André. A primeira hipótese é bem improvável pela lógica já descrita acima. A segunda eu não descartaria.

Segue abaixo um e-mail de um colorado desesperado pedindo para o Grêmio fazer o que eles não fizeram no ano passado contra o São Paulo, e perderam para o Grêmio perder a liderança.

Logo em seguida, vem a resposta de um gremista amigo meu.

É ou não é divertido?

— Email do colorado sobre o que teria sido o jogo mais importante da história do Grêmio (esse já aconteceu, foi em 1983, contra o Hamburgo, quando fomos campeões mundiais).

O Jogo Mais Importante da História do Grêmio

“Domingo, dia 06 de dezembro de 2009, o centenário Grêmio Futebol Portoalegrense joga o jogo mais importante de sua história. No próximo domingo o tricolor gaúcho não defenderá apenas seu azul, preto e branco. Neste dia, o Grêmio terá a honra de ser o Rio Grande na sua plenitude e terá a difícil tarefa de provar que existe um Brasil sério, comprometido com princípios éticos mais elevados, pelos quais há anos todos brasileiros clamam.

Todos sabem da dificuldade do jogo contra o Flamengo, que vai ter um Maracanã completo ao seu lado torcendo. A derrota do time azul é previsível. Sendo derrotado o Grêmio, sagra-se campeão o Flamengo. Acontece o lógico. Como conseqüência, o Grêmio evita o campeonato colorado. Por uma, duas semanas, o assunto tomará conta da província. Mas logo a polêmica se abrandará e vida voltará a normalidade. Entretanto, como uma brasa que jamais se apagará, sempre ficará a dúvida se o Grêmio se fez vítima para prejudicar seu arqui-rival. Essa dúvida será sempre uma mancha na história de honradez gremista e servirá sempre de centelha para fomentar debates vis e mesquinhos.

Mas e se o Grêmio evitar a vitória do Flamengo? Quem será o tricolor gaúcho depois disso? Quem será o Rio Grande? Que exemplo ficará para o Brasil?

Caso o Grêmio evite a vitoria flamenguista, o tricolor gaúcho será de vez eternizado. Viverá para sempre na memória, na estrela da camisa, na sala de troféus colorada. Obterá o respeito digno e absoluto que todo arqui-rival merece e que somente o Internacional o poderá dar. Para sempre o Inter reverenciará o Grêmio como mais honrado e leal oponentes.

Um saldo positivo gremista no Rio de Janeiro no próximo domingo será a expressão máxima da virtude gaúcha. Aquela que significa a força moral, a pré-disposição firme e habitual para prática do bem do povo gaúcho, e que por isso é cantada com máximo de orgulho e fervor em todos o rincões deste planeta quando entoam sempre alto e em bom som: “povo que não tem virtude, acaba por ser escravo”. O Grêmio domingo defende o hino, defende a liberdade rio-grandense!

Uma vitória ou até mesmo um empate do Grêmio domingo demonstrará ao Brasil que há neste País gente séria. Gente comprometida com valores mais altos que simples interesses pessoais. Uma vitória gremista significa o repúdio ao político que não conclui os projetos do seu adversário; que emprega seu filho quando tinha que fazer concurso público; que deixa de comprar merenda escolar para fazer viagem pro exterior; que muda a lei apenas para se beneficiar.

Dar esse exemplo de retidão, hombridade por meio do futebol é comunicar diretamente ao povo. É dar o recado da forma mais clara, é direitamente avisar que a Justiça e a honestidade ainda existem e são exercitadas aqui no Sul deste nosso País.

Que difícil a tarefa gremista, que tem colocado em jogo, sob sua responsabilidade: a sua honra, a virtude gaúcha e a esperança brasileira.

Domingo é o jogo mais difícil da história gremista.

Mas como diz o ditado: “Deus jamais dá o fardo mais pesado do que possa carregar”.”

— Resposta do Gremista:

“Nunca vi tamanho desperdício da língua portuguesa! Quem quer que tenha escrito isto, ou endossado, não demonstra a seriedade que exige do Grêmio. Parece um discurso do Pedro Simon: pretensamente rebuscado, recorrendo seguidamente a moral e a ética, mas sem efeito pratico. Tibieza e atribuir a possível perda do campeonato a uma derrota do Grêmio para o líder jogando como mandante… Ou não? O que aconteceu na vida do Inter nas outras 37 rodadas também e de responsabilidade do Grêmio?

O titulo do email (Programação do Grêmio para o próximo jogo) contradiz o hino e a pregação vermelha. No domingo o Grêmio defendera a liberdade, a sua liberdade: não se deixara intimidar, não se deixara influenciar pelos que maltratam a lógica e fazem péssimo uso do hino.

Viva o Santo Andre!”

Se for pouco, segue também o blog de outro amigo meu, o Adriano Silva, que escreve bem pacas, mas torce para o time errado.


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4 Comentários

Arquivado em Futebol

4 Respostas para “Perder é diferente de entregar

  1. Renato Simpson

    Charlata, belo post. Concordo com quase tudo e acho tambem que o Inter esta falando muito, mas muito pouco no Santo Andre. Tao dando o jogo como favas contadas e a gente sabe que nao eh assim.

    Apenas uma correcao: o gremio nao perdeu a lideranca por causa da derrota do Inter para o Sao Paulo (o Inter poupou 4 titulares, nao escalou um time inteiro de juvenis e reservas conforme escreveu um cidadao alterado em um link do terra que tu retwittou, pq estava decidindo a Copa Sul-Americana).
    O gremio perdeu a lideranca por conta propria ao levar 4 a 1 do Inter no Beira-RIo, lembra?
    Abracos!

    • Caríssimo Simpson, veja só o que diz no glorioso Correio do Povo de hoje:

      Da coluna de 1 de novembro de 2008: “Perguntei ao ex-presidente do Inter Arthur Dallegrave se, com ele no comando do clube, o time jogaria completo, amanhã, contra o São Paulo e ele devolveu com outra pergunta: ”Na guerra, inimigo ajuda inimigo?”. Quis saber se ele torcerá por uma vitória colorada: ”Olha, uma derrota heroica por 1 a 0 estará de bom tamanho””. Querido Arthur, que viria a falecer 16 dias depois.

  2. Eugênio Esber

    Rodrigo, meu caro, sobre esta história de colorados torcendo pelo Grêmio, tenho a dizer o seguinte:

    Não queremos saber de colorados torcendo pela gente. Vai que este troço cresce, colorado começa a gostar de torcer pro Grêmio e nós, tricolores, acabamos ficando 97 anos sem ganhar um título realmente importante!
    Nada disso, nada disso!
    Sequem-nos. Continuem a nos secar. A história do Grêmio é tão bonita que eu não gostaria de mudar nada, nadinha, dela. Muito menos este aspecto da secação.
    Onde já se viu colorado torcer para o Grêmio?
    Ó, vou dizer uma coisa a vocês, colorados dispostos a torcer para o Grêmio.
    Reprimam este sentimento. Reneguem. Sufoquem-no. Tá bem, eu sei que dói reprimir tão primal sentimento. Afinal, a gana de torcer para o Grêmio é algo arrebatador mesmo (a maioria dos gaúchos conhece esta sensação e não abre mão dela.)
    No fundo, o colorado é um gremista que não vingou. Sabemos todos que os fundadores do Inter tentaram entrar no Grêmio e não foram aceitos.
    Digamos que o Adão colorado tentou ingressar no paraíso tricolor e recebeu um “Não, obrigado”.
    Desde então, este amor não correspondido lateja, corcoveia, no peito dos colorados. E eles andam por aí, à procura de uma oportunidade para extravasá-lo. Querem a emoção de torcer para o Grêmio, ainda que de forma furtiva, negaceada, sôfrega, o que seja…
    Mas não. Para o Grêmio, só nós torcemos. Vocês têm que secar. É sua missão.
    É seu castigo.

    Um abraço fraterno aos bravos gremistas e também aos torcedores do nosso eterno desafiante.

    Eugênio

    PS: Ao Flamengo, meus cumprimentos. Ninguém merece mais do que ele o título. Em 2009, o Flamengo foi mais time que o meu e que todos os outros. O resto é conversa fiada. E dirigente fracassado, à falta de argumentos para se justificar, costuma praticar conversa fiada para sair da alça de mira dos torcedores frustrados. É o “se colar, colou”.
    Colará?

    • Eugenio, concordo em todos os aspectos. Vai ser campeão o melhor. Não acredito que o Grêmio entregará. Só não terá competência para vencer. Ainda mais com o time todo desfalcado.
      E sobre colorados torcendo para o Grêmio. Coisa estranha. Me senti mal essa semana inteira. Não combina. Ainda bem que só durou uma semana. Ô sentimento ruim!
      Abração

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