Arquivo do mês: janeiro 2010

“É para isso que serve a vida? Eu disse que não.”

Muhammad Yunus pergunta em Davos: "É para isso que serve a vida?"

Depois da crise financeira que abateu o mundo em 2008, o famoso encontro dos mais poderosos capitalistas do mundo em Davos, Suíça, começou a tomar contornos diferentes. No ano passado, chegou-se até a questionar  o que seria sucesso. Uma frase de Charles Schwab, publicada nos jornais foi marcante:

“O que queremos é uma reforma do capitalismo. Temos de trazer de volta valores que foram perdidos. Trata-se de uma crise que irá transformar o mundo. (…) O sistema precisa ser menos ganancioso e mais profissional. (…) Precisamos fazer uma diferenciação entre empresas que geram valor e aquelas que apenas ganham fazendo transações. Lucros não podem vir a qualquer custo.”

Algum tempo depois, foi a vez de Jack Welch se arrepender de focar a estratégia da empresa na geração de valor para o acionista somente.

“A princípio, a geração de valor para o acionista é a ideia mais tola do mundo. (…) Numa entrevista sobre o futuro do capitalismo, em que foram discutidos diversos temas, o jornal me perguntou o que eu achava da “geração de valor para o acionista como estratégia”. Eu disse que a pergunta, a princípio, colocava em questão uma ideia tola. A geração de valor é resultado – e não estratégia.”

Davos e Jack Welch repensando o jeito de fazer negócios é algo para se comemorar. Parece que estamos chegando ao fim da era do capitalismo inconsequente, que nos fez avançar até onde estamos: para um mundo de incerteza em que correntes de pensamento de degladiam para ver quem tem mais razão, se os que dizem que a humanidade corre sérios riscos no planeta ou se aqueles que dizem que os ambientalistas são ansiosos desprovidos de razão ao mesmo tempo em que defendem que o aquecimento é um fenômeno natural cíclico e, portanto, frequente.

Mas, já diz o ditado, onde há fumaça, há fogo. E basta olhar para a janela para ver metrópoles ardendo em poluição. Isso não pode ser normal….

Não por acaso, novas correntes de pensamento estão emergindo. Há dois anos, Muhammad Yunus ganhou o prêmio Nobel da Paz, pelo trabalho à frente do microcrédito. Yunus dá as pessoas uma esperança de vida melhor, investindo na chamada base da pirâmide, despejando confiança em forma de microcrédito, pequenas quantias que fazem grandes diferenças na vida das pessoas.

Nessa edição de Davos, Yunus foi uma das estrelas para inspirar os participantes para um mundo melhor. Receber e dar voz a Yunus é um grande sinal de que os poderosos que se reúnem em Davos ano após ano estão, ainda que timidamente, abrindo os olhos para um novo modelo de convivência entre dinheiro e pessoas. Deixo uma passagem marcante dele por lá:

“Professores dizem vão às aulas, tirem boas notas, para assim entrar em uma boa faculdade, conquistar um diploma para ter um bom emprego, assim você pode trabalhar para um corporação, para então fazer muito dinheiro para a pessoa que é dona da empresa. É isso. Nada mais. É para isso que serve a vida? Eu disse que não. Não é para fazer dinheiro. É para ajudar pessoas.”

Para quê — mesmo — servem nossas vidas?

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O fim da era do crescimento?

Recebi uma entrevista interessante enviada pelo José Eli da Veiga, economista da USP, sobre a questão de crescimento vs desenvolvimento e os padrões de desenvolvimento que queremos.

Ontem estava discutindo com colegas que os modelos economistas prevêem os recursos como algo infinitos. Obviamente é uma conta que não fecha, já que sabemos que os recursos naturais são finitos.

Aos poucos, os economistas começam a perceber isso e a discutir mais o tema. Mais importante do que isso é o crescente número de pessoas falando sobre isso e manifestando sua opinião.

E quando vemos uma revista como a Veja, que fala para mais de 1 milhão de pessoas todo o mês, dar capas seguidas sobre sustentabilidade, acede-se a esperança de uma mudança rápida.

Ainda há pessoas falando que as mudanças climáticas são um fenômeno natural, que não foram ocasionados pelo homem. Mesmo que estudos como o do IPCC, o painel internacional de mudanças climáticas, com cientistas do mundo inteiro, tenham afirmado que o homem é responsável, sim, pelo aumento da temperatura do planeta com 96% de certeza.

É uma desconexão com a realidade que às vezes acho que essas pessoas fariam um bom diálogo com o Hugo Chávez, que teve a empáfia de dizer que o terremoto no Haiti foi culpa de um teste nuclear americano.

Ou mesmo teriam bons momentos de reflexão atravessando a cidade de São Paulo em um dia como 3a feira (26/01), às 16h, em meio a um temporal épico e de grandes vias alagadas. Ou mesmo em um passeio turístico em Machu Picchu.

Quem sabe uma boa dose de realidade ajudasse a entender os estragos do modelo de desenvolvimento que escolhemos no dia-a-dia do planeta.

Segue o artigo:

Tim Jackson e sua fúria ambiental

Stephen Leahy*

*A fúria às vezes é a resposta adequada*, afirma Tim Jackson, referindo-se à falta de compromisso dos líderes mundiais que não conseguiram articular um novo tratado climático na cúpula de Copenhague. Jackson entende que o Acordo de Copenhague, resultante da 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP15), revelou não apenas que a governabilidade ambiental global é uma ficção como também demonstrou um apego cego ao mantra do crescimento econômico.

Professor de Desenvolvimento Sustentável e diretor do Grupo de Pesquisas sobre Estilos de Vida, Valores e Meio Ambiente na britânica Universidade de Surrey, também é encarregado da direção econômica da Comissão de Desenvolvimento Sustentável da Grã-Bretanha. E é assessor do governo nessa área. Além disso, é dramaturgo e produziu numerosos roteiros de rádio para a rede BBC, com sede em Londres.

O Terramérica entrevistou Jackson por telefone sobre seu novo e controvertido livro, *Prospertiy without Growth – conomics for a Finite Planet* (Prosperidade sem Crescimento: Economia para um Planeta Finito), assunto sobre o qual já havia dado uma entrevista na capital dinamarquesa. Também abordou o Acordo de Copenhague e as perspectivas de um tratado climático real.

TERRAMÉRICA: Em seu livro, você afirma que o crescimento econômico nos países industrializados está deixando as pessoas menos felizes e destruindo a terra.

TIM JACKSON: A contínua busca pelo crescimento coloca em risco os ecossistemas dos quais dependemos para uma sobrevivência de longo prazo. Também há ampla evidência de que uma riqueza material maior nos países industrializados não faz seus habitantes felizes, muito pelo contrário. Além de determinado nível de renda, não existe uma correlação de que isso seja diretamente proporcional à felicidade.

TERRAMÉRICA: Se a era do crescimento terminou, o que ocupará seu lugar?

TJ: É necessário redefinir a riqueza e a prosperidade com base nos parâmetros de *capacidade de florescimento* de Amartya SEN (ganhador do Nobel de Economia em 1998). O florescimento se define como ter o suficiente para comer, ser parte de uma comunidade, ter um emprego que valha a pena, uma moradia decente, acesso a educação e serviços médicos.

TERRAMÉRICA: E o que acontece com os países em desenvolvimento?

TJ: As nações industrializadas precisam dar essa virada para criar um espaço que permita ao mundo em desenvolvimento melhorar o desempenho de sua economia. Este crescimento tem de ser sustentável e estar dentro dos limites ecológicos. A atual desigualdade entre nações ricas e pobres é uma razão primordial para que o mundo industrializado necessite fazer esta correção de rumo.

TERRAMÉRICA: Por que o desagrada tanto a COP-15 ter acabado em um acordo de dez páginas em lugar de um tratado internacional vinculante?

TJ: É um documento cheio de ar quente e promessas vazias, cozinhado pelas duas grandes superpotências mundiais. Realmente, isso é o melhor que temos para mostrar após 17 anos de negociações? É uma política climática dos canhões. O tratado climático não foi o único fracasso em Copenhague. A governabilidade mundial foi ao fundo do poço.

TERRAMÉRICA: Quais temas essenciais não fizeram parte das negociações da COP-15?

TJ: O debate sobre o crescimento não figurou. Tanto esta questão como uma distribuição justa do espaço ecológico têm de estar na mesa. De outro modo, as negociações não saem do lugar.

TERRAMÉRICA: O que pensa dos atuais esforços para reduzir as emissões de carbono usando mecanismos como a limitação de emissões contaminantes e o comércio de créditos?

TJ: Não é possível conseguir uma economia baixa em carbono sem uma mudança importante na própria economia. Pequenos ajustes não funcionarão. As corporações veem o clima como a nova oportunidade de negócios. Os mecanismos de mercado agora são as ferramentas predominantes percebidas como uma mudança e que são boas para as empresas, mas são ruins para o público. Consideremos a bastante divulgada ideia de que o crescimento pode continuar desde que suas emissões de carbono (e outros impactos ambientais) diminuam em grande proporção. Em 2050, em um mundo de nove bilhões de habitantes, onde todos vão querer um estilo de vida ocidental, a intensidade do carbono de cada dólar de produção deverá ser, pelo menos, 130 vezes menor do que agora. Isso é simplesmente impossível.

TERRAMÉRICA: O que acontecerá até as negociações da COP-16, em dezembro, no México?

TJ: Penso que deve haver maior pressão internacional e um impulso emrelação a questões políticas fundamentais, como a regulação dos mercados financeiros, os sistemas de contas nacionais e a óbvia pressão para criar um fórum viável para a governabilidade climática, bem como a medição do progresso social (no estilo do informe da Comissão de Medida do Desempenho Econômico e do Progresso Social da França, encomendado em 2009 a Sem e ao também Nobel de Economia Joseph Stiglitz). É necessário que Estados Unidos e China participem dos debates mais amplos sobre crescimento e justiça. É interessante que neste momento haja, por exemplo, um pouco mais de humildade e abertura no Fórum Econômico Social, como não ocorreu até agora. Sinais de esperança? Possivelmente.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

(Envolverde/Terramérica)

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Luz na vida inteligente da política: Votenaweb

O pessoal da Webcitizen vem fazendo coisas muito bacanas. Depois do TEDxSP e da revista Gotas, lançaram o Votenaweb, quase simultaneamente ao TEDx.

O Votenaweb é uma ideia muito simples – e por isso vencedora – de dar a chance de você conhecer de modo prático e rápido a atuação dos parlamentares, via projetos de lei apresentados no Congresso Nacional que estão esperando ou já passaram por votação. Como diz o site, “é para você se aproximar das decisões do Congresso Nacional que afetam diretamente a sua vida.”

Votenaweb mostra a vida inteligente (nem sempre) na política

Um dos grandes benefícios do mundo 2.0 é a possibilidade de disseminação de conhecimento para todos. O Votenaweb ajuda a dar uma olhada ‘básica’ na atuação dos parlamentares sem precisar esperar pelos debates pré-eleição que acontecem uma vez a cada 4 anos para cada exercício nos meios de comunicação.

Pois agora está lá, disponível para qualquer um analisar a performance de seus candidatos e ao mesmo tempo saber que tipo de lei está sendo colocado em votação no Brasil, em tempo real.

Coloquei no filtro os mais votados agora mesmo, e veja o que apareceu:

1. Deputada Vanessa Grazziotin- PLC – 5963 / 2009 – Propõe a criação do Selo Verde “Preservação da Amazônia” para produtos ecologicamente corretos da Zona Franca de Manaus.  (91% sim)

2. Senador Marcelo Crivella – PLS – 151 / 2009 – Extinguirá a prisão especial concedida a magistrados e funcionários do Ministério Público. (92% sim)

3. Deputado Sabino Castelo Branco – PLC – 5936 / 2009 – Proibirá a demissão do trabalhador cuja esposa, grávida, não trabalhe fora de casa para complementar a renda do orçamento familiar. (75% não)

4. Deputado Dr. Talmir – PLC – 5680 / 2009 – Aumentará para 85% o tamanho de reservas legais que devem ser preservadas em propriedades rurais localizadas na Amazônia Legal. (81% sim)

5. Senador Expedito Júnior – PLC – 6711 / 2009 – Fará com que os veículos apreendidos pela Justiça possam ser utilizados como transporte coletivo, e que sejam destinados para prefeituras municipais, como transporte escolar. (94% sim)

Já havia entrado algumas vezes no Votenaweb, mas esqueci de voltar. Talvez fosse legal ter algum atrativo para voltar ao site, como uma newsletter com as mais votadas, os destaques da semana. Algum tipo de alerta até criar o hábito de frequentar essa bela iniciativa Política 2.0. Como o próprio e-mail* que foi enviado agora para celebrar os 3 meses de vida do site.

Comentário de usabilidade à parte, esse site é uma prova de que existe vida inteligente na política. O que falta são oportunidades de expor isso. O problema é que a concorrência (as “antas políticas”) é muito melhor em chamar a atenção.Mas, como diria o nosso presidente, somos brasileiros e não desistimos nunca. Um dia, o Congresso vai ser conhecido pelo bem que faz e não pelas tramóias políticas.

P.S.: Lembrei de uma piadinha infame que traduz muito bem a índole do brasileiro, que fala mal da política, mas tiraria sua casquinha se pudesse, segundo pesquisas recentes publicadas no jornal. A piada: “Sabe qual a diferença entre ‘esquema’ e ‘sacanagem’? Esquema é quando você está dentro. ‘Sacanagem’ é quando está fora…”

*Recebi o e-mail abaixo da equipe do Votenaweb, que compartilho por aqui.

Caro usuário do Votenaweb,

Lançamos nosso site há 3 meses e estamos muito felizes pela grande participação. Queremos agradecer a você por ter passado por lá, por ter votado, comentado, por ter recomendado o site a alguém, ou enviado sugestões de mudanças. O Votenaweb não seria nada sem uma comunidade por trás dele, que nos dá representatividade e nos ajuda a melhorar. Obrigado, de coração.

Recebemos muitos e-mails com sugestões para melhorarmos a ferramenta e já começamos a implantar algumas delas. Por exemplo:

  • Agora é possível visualizar os projetos de lei por:
    • mais polêmicos
    • mais votados
    • mais comentados
    • projetos que você ainda não votou
  • No seu perfil, agora há uma lista dos parlamentares
    com maior afinidade com você.

Acreditamos que, com essas mudanças, o site tornou-se muito mais útil e relevante.

Mas há muito mais o que fazer. Garantimos que o Votenaweb ainda vai progredir muito – estamos trabalhando duro para isso. Contamos com sua colaboração para, juntos, quem sabe, melhorarmos a qualidade da democracia brasileira. Cada voto conta.

Um abraço,
Equipe do Votenaweb

Outra coisa que nos deixou felizes foi a bela repercussão na imprensa e na blogosfera. Um exemplo é o site Veja.com, que nos deu a oportunidade de conversar em profundidade sobre o site, numa longa entrevista com o veterano jornalista Augusto Nunes. Se você tiver 15 minutinhos, o link está aqui.

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Haiti e a solidariedade 2.0

Assim que  a notícia do terremoto eclodiu e mesmo que apenas 10% das 9 milhões de pessoas tivessem conexões no Haiti, a comunicação turbinou a web. O Twitter foi invadido por informações. Grupos foram criados no Facebook para ajudar. E o YouTube começou a ser abastecido de videos. Fotos postadas no flickr invadiram as telas dos computadores no mundo inteiro. A solidariedade foi alavancada de maneira impressionante:

  • Nos dias seguintes, cerca de 3% de todos os posts em blogs tinham algo a ver com o terremoto ou com as ajudas.
  • A conta do Twitter da Cruz Vermelha (Red Cross) ganhou mais de 10 000 seguidores. Até então, a média era de 50-100 por dia. Hoje, já estão com quase 15 000 seguidores (
  • Via celular, a Cruz Vermelha arrecadou mais de 8 milhões de dólares. A partir dos EUA, qualquer pessoa que escrevesse HAITI para o número 90999 doaria 10 dólares, debitados diretamente da conta telefônica.
  • O músico haitiano Wyclef Jean pediu para seus mais de 1 milhão de seguidores ajuda financeira
  • No Facebook, houve mais de 1 500 posts por minuto com a palavra Haiti. Até o jogo Farmville veio ajudar com um item especial (white corn) que deveria ser comprado com dinheiro real para doações.

Essa é a grande mudança quando se fala que o poder está indo das instituições para os indivíduos. Ajudar é algo muito mais fácil e possível para todos agora.

Veja como ajudar as vítimas do terremoto no Haiti

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O preço das decisões equivocadas

Qual dessas fotos abaixo é do Haiti?

Foto 1

Foto 2

Acertou quem disse a foto 2. Essa é uma foto da clássica apresentação de Al Gore e que está disponível também no primeiro livro dele sobre o assunto, batizado de “Verdade Inconveniente”. Mostrei aos colegas de trabalho. Apesar das brincadeiras de que as fronteiras não são assim tão bem definidas e que essa fotos poderia ser de qualquer ângulo no Google Earth, a foto chamou a atenção. É impossível ficar indiferente a ela quando se sabe que ela mostra a fronteira entre Haiti (lado esquerdo) e República Dominicana, na ilha caribenha Hispaniola.

Lembrei automaticamente do livro Colapso, de Jared Diamond. Neste incrível livro, Diamond apresenta um extenso estudo para mostrar porque algumas sociedades foram adiante e outras não. A tese dele é de que as sociedades que fazem pouco caso do meio ambiente acabam perecendo. Cedo ou tarde. A Ilha de Páscoa representa essa teoria à perfeição. Lá, os chefes das tribos entraram numa batalha estúpida para ver quem construía o maior Moai e deu no que deu. Ao consumir toda a floresta, a sociedade foi desaparecendo até sobrarem pouquíssimos nativos. Acompanhadas, ironicamente, de seus gigantescos moais que lá estão até hoje.

Entre Haiti e República Dominicana, aconteceu algo parecido. No século 20, alguns dirigentes dominicanos acharam que era importante preservar a floresta e começaram a cuidar do assunto. Hoje, a República Dominicana é um dos principais destinos turísticos do Caribe. Além de ter 74 reservas ambientais (o equivalente a 32% do território). Já no Haiti… São quatro parques… O descaso com o tema aliado a questões históricas importantes colocou o país no rol dos mais atrasados do mundo. Enquanto a renda per capita de um haitiano é de US$ 1,3 mil, a de um dominicano é de US$ 7,4 mil. No Brasil, a renda per capita é de US$ 9,4 mil, para comparar. Elio Gaspari abordou o tema comparando com o filme Avatar, num texto muito bom, na Folha de S. Paulo. Vale conferir aqui.

Ainda sobre o Haiti, outro texto relevante, desta vez do Estadão dá conta de que o país é o que é hoje graças a um sucesso no passado. O Haiti foi um dos  primeiros países colonizados a conquistar a independência no século 19, num movimento que ficou conhecido por haitianismo. A possibilidade da revolta de escravos espalhou o temor nos países colonialistas. E de tão bem sucedido na luta contra a escravidão, o Haiti gerou seu isolamente em relação a outros países das Américas, começando o esquecimento que dura até hoje (há teses que dão conta de que o haitianismo serviu no Brasil como uma liga para as elites regionais, uniu o país e evitou a fragmentação, como ocorreu na América Espanhola). Assim, de Pérola do Atlântico, o Haiti virou o exemplo mais bem-acabado de um país fracassado, assolado por altos índices de mortalidade infantil, baixa expectativa de vida e ditaduras tirânicas, entre outras mazelas.

(Sobre a foto 1:  é um exemplo de como as irresponsabilidades só podem aumentar com a velocidade da internet. A foto postada acima é um erro –grave. É de um terremoto que aconteceu na China, em maio de 2008. Repare nos uniforme vermelhos. O jornal Zero Hora identificou e corrigiu o erro num post muito interessante (clique aqui).)

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O que faz um país feliz – parte 2

Mais sobre o post de ontem sobre o que faz a Costa Rica ser um dos países mais felizes do mundo, se não o mais. Encontrei um contraponto do pessoal do Freakonomics, que levantou uma discussão interessante dizendo que há outras maneiras de medir e que não é bem assim. Não vou entrar aqui na questão, pois é uma muito técnica. Para quem quiser, vale ler aqui. O que fica, porém, é o seguinte: em todos os rankings analisados, a Costa Rica é o país que sempre está entre os mais felizes, mesmo que não seja o primeiro. Não há nenhuma fórmula mágica, mas vale, sim, prestar atenção na relação entre felicidade e cuidado ao meio ambiente. Mas, ao final, Justin Wolfers, autor do artigo, menciona que não se pode perder de vista que o desenvolvimento econômico, que é esmagadoramente a principal explicação para um país estar no topo das tabelas de felicidade.

Será mesmo? Não é o que diz o Happy Planet Index. Vejamos os dez primeiros: Costa Rica, Rep. Dominicana, Jamaica, Guatemala, Vietnã, Colômbia, Cuba, El Salvador, Brasil e Honduras! Não são todos reconhecidamente países exemplares em desenvolvimento econômico. A questão é: o que queremos medir? O desenvolvimento econômico apenas? Mesmo considerando que desastres de carro ou mesmo terremotos como o do Haiti são bons para o PIB, afinal a reconstrução vai mobilizar dinheiro para lá? Ou precisamos olhar as questões de forma mais abrangente, considerando itens como satisfação de vida, expectativa de vida, impacto no meio ambiente etc?

Para encerrar, resgato aqui um trecho de um discurso de Kennedy: Robert Kennedy: “O que faz a vida valer a pena é a saúde de nossas crianças, a qualidade de sua educação, a alegria de suas brincadeiras, a força de nossos casamentos, nossa devoção ao país, nosso humor, sabedoria e coragem. E nada disso se mede no PIB”.

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O que faz um país feliz?

Já havia escrito sobre a Costa Rica aqui e agora acho que vale voltar ao ponto. Principalmente, porque o tema felicidade volta a ser abordado. Na semana passada, o colunista Nicholas D. Kristoff, no NY Times, falou sobre o país depois de tê-lo visitado com a filha de 12 anos. Ficou impressionado com tudo o que viu e chamou a atenção para o fato de que o país é o mais feliz do mundo em três índices diferentes.

O primeiro é o World Database of Happiness, compilado por pesquisadores Holandeses a partir de pesquisas feitas pelo Gallup. Entre 148 nações, a Costa Rica é o país que fica em primeiro lugar a partir das respostas das pessoas à pergunta sobre qual o seu nível de felicidade em uma escala de 1 a 10. O Brasil está em 18º lugar, com média de 7,5. Os mais felizes são Costa Rica (8,5), Dinamarca (8,3), Islândia (8,2), Suíça (8,0) e Canadá (8,0). Veja a lista completa.

Pesquisadores também tentaram calcular a felicidade determinando “anos de vida felizes”, misturando felicidade autodeclarada com expecativa de vida. Costa Rica ficou em primeiro (66,7 pontos), Estados Unidos em 19º (58) e Zimbábue em último (12,5). O Brasil está acima da média com 53,6.

Uma terceira medida seria o “happy planet index,” da New Economics Foundation, que combina felicidade e longevidade, mas considera também o impacto ambiental. A Costa Rica também fica em primeiro. Nessa, o Brasil está bem, em 9º lugar. (Certamente esse índice não considera o ambiente político…)

Estive na Costa Rica por duas vezes. A primeira foi em 1997, na estreia em surftrips. Estava deslumbrado e era novo demais para me preocupar com a questão ambiental ou qual a importância dessas questões na felicidade das pessoas. Lembro bem de uma coisa, porém. E essa não escapa de nenhuma pessoa que pise por lá. O lema: “Pura Vida”. A felicidade era evidente na maioria das pessoas com as quais conversei. Obviamente, estar perto de turistas é sempre bom, pois significa fonte de receita, novidade, troca de experiências etc. De todo modo saí com a melhor das impressões.

Estive de volta lá em 2008. Desta vez, fiquei apenas no idílico lado do Caribe, no vilarejo de Puerto Viejo. Em um dos dias, depois de uma das intensas sessões de surfe que dão uma fome danada, parei para comer uma pizza de fatia. Achei que uma ia dar conta, mas precisei de outra. Quando fui pedir o segundo pedaço, a atendente olhou para a pilha de pratos plásticos e em seguida olhou para o balcão onde estava parado o prato que eu estava usando. Então, sem nem perguntar, ela pegou meu prato usado e disse: “Hay que cuidar del planeta”. E colocou ali o segundo pedaço de pizza.

Estou para ver consciência ambiental como essa em atendentes de pizzaria no Brasil ou mesmo em outros lugares. Não à toa, depois de 11 anos, o mesmo lugar, a costa caribenha, parecia absolutamente igual. Praias maravilhosas, algumas intocadas, sem especulação imobiliária à beira-mar. Gisele Bundchen, muita esperta, até comprou casa por lá, na costa do Pacífico, um pouco mais urbanizada, mas ainda assim bem cuidada.

E vale repetir aqui o que escrevi em outro post: A Costa Rica aboliu o éxercito na década de 40, e investiu toda a grana em saúde e educação. Um país bem educado, que valoriza a relação com a natureza e, não por acaso, está entre os países mais felizes do mundo.

Leia mais: O que fizemos de errado

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