Tempo, tempo, tempo


Fui pego de jeito pelo tempo. Não pelo tempo dos anos, mas pelo tempo das nuvens. Só que o tempo das nuvens falou para o tempo dos anos que sempre há tempo para dar tempo ao tempo.

Time flies. O tempo voa. Enquanto a neve voa, o tempo fica no chão.

O inglês não traz a confusão semântica do português. Em inglês, tempo é time. E tempo é weather. O português é mais poético nessa definição. Um acaba por se confundir com o outro.

O tempo (clima) me deu tempo (horas) para refletir sobre o tempo (vida).

Todo dia recebo um e-mail de um cara chamado Jonathan Harris. No site www.number27.org, ele compartilha ideias sobre a vida dele via fotos. Uma por dia. Em geral, se a foto não é boa, o texto é. Sempre vale a pena. No de hoje, Harris falou de Men at Forty um belo poema de Donald Justice e aplicou em sua vida. O poema fala que os homens de 40 anos aprendem a fechar suavemente as portas dos quartos da vida que foram abertos até então. Em outras palavras, você precisa deixar algumas coisas irem, por mais relevantes que sejam, e se realizar com as escolhas.

Pois, como o tempo é implacável, o importante é fazer as escolhas certas. Aqui em Washington DC, estou sendo presenteado com uma parada na vida. Longe da família, longe da rotina (boa) do trabalho, longe dos quartos que ainda estão abertos, ganhei tempo para pensar e refletir.

Estava aqui para uma conferência para escritores de discursos, que acabou cancelada em virtude do mau tempo. Ontem, meus planos eram os de viajar hoje. Além de não conseguir voos, hoje todos aeroportos da região estão fechados. A capital do mundo parou. Hoje, quarta-feira, marquei meu vôo para amanhã, quinta-feira. Para minutos depois receber a notícia de que o voo foi cancelado preventivamente. Ganhei mais 24 horas de reflexão. Bônus.

Sem opção de o que fazer, sem a escolha da angústia, minha ansiedade foi diminuindo gradativamente. Peguei um livro e depois uma National Geographic, onde li uma matéria sobre o povo Hadzas, que vive na região da Tanzânia, na África. Eles não contam horas, dias ou meses. Vivem como caçadores-coletores, como todos nós fazíamos 10 000 anos atrás. O repórter que contou a história disse que saiu de lá mais calmo, menos ansioso.

As infinitas possibilidades da vida moderna nos colocam em permanente estado de tensão. Viver para trabalhar ou trabalhar para viver? Para mim, esta é a pergunta-chave das escolhas que se impõe ao nosso atribulado dia-a-dia.

Numa dessas casualidades do destino, vim no avião ao lado de um renomado marqueteiro/estrategista político, que conheci há muitos e muitos anos em uma época que ainda estava abrindo as portas dos quartos da minha vida. Pensando agora, lembro o que queria ser e ter naqueles dias. Muitos anos depois, minha vida é radicalmente diferente do que eu imaginava ser. Deixei o tempo acontecer, apostei em algumas escolhas. E gosto delas.

Vou deixar o tempo acontecer por aqui. Refletir, enquanto a neve cai…

3 Comentários

Arquivado em Questões, Viagens

3 Respostas para “Tempo, tempo, tempo

  1. Rodrigo,

    Poesia em boa hora e mau tempo. Gostei muito!
    Curioso que a gente na cidade grande acostumou a ver o tempo da vida pelo tempo industrial e achar que a vida era, é e será assim.

    Marcelo

  2. julio

    bacana o texto hein Digo!

    Nem sabia que vc estava viajando!

    Até a volta!!!

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