Arquivo do mês: março 2010

O fim da reputação?

New York City, 2003, upload feito originalmente por Rodrigo VdaC.

“O anonimato vai ser o próximo luxo da humanidade.” Ouvi esta frase bombástica de um amigo meu em um almoço que tivemos esses dias. Foi mais um daqueles almoços em que chego meio ‘zonzo’ no trabalho à tarde. De tanto que os neurônios trabalharam, de tantas ideias boas que surgiram. Mas essa foi difícil de digerir. Na hora, pensei em todas as informações que tenho no Facebook, Orkut, Linkedin, Plaxo, Flickr e aqui neste blog.

Se em algum momento eu quisesse o anonimato, seria quase impossível tê-lo. “Mas vai ser tão luxo que já há empresas contratadas para apagar os rastros digitais de pessoas na internet.”

Mas fica a dúvida. No mundo cada vez mais interconectado em que vivemos, a carreira, os projetos, as possibilidades se contróem mais e mais baseados nas conexões em que temos e que construímos. Como conciliar essa necessidade com a vontade de estar anônimo? Existe essa possibilidade?

É um dilema e tanto. Principalmente porque há outra tendência em ascensão: o gerenciamento da reputação. Mesmo que alguém queira ficar anônimo, mais e mais informações chegam às redes via conexões. Amigos de infância, escola, colegas profissionais – há muita gente com o potencial de falar sobre nós na web. Tanto que há até quem fale no fim da reputação. Li no TechCrunch que está chegando um momento em que relevaremos cada vez mais má notícias sobre reputação. E que não vai adiantar querer esconder aquela foto ou informação indiscreta que você faz questão de manter anônima.

O mundo é cada vez menos off e cada vez mais on. Parece que veremos cada vez mais em uma sociedade que aprende a conviver com os ‘deslizes’ pessoais. Talvez uma foto indiscreta ou uma frase negativa sobre você tenha menor impacto sobre a decisão de contratá-lo para uma empresa ou para um projeto. Ponto positivo para a transparência. Ponto negativo para o anonimato. Certo?

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Apague as luzes!

Para não passar em branco, amanhã é hora do planeta. Lembrem-se de apagar as luzes. Mais informações enviadas pelo Instituto Akatu pelo Consumo Consciente:

No dia 27 de março, sábado, entre as 20h30 e 21h30, faça uma experiência: abra as janelas da sua casa ou apartamento, apague as luzes e tente descobrir a beleza da luz natural. Além de viver um momento diferente e agradável, você estará participando de uma manifestação pacífica em favor da redução das emissões dos gases do efeito estufa – que causam o aquecimento global – e da conservação dos ecossistemas.

Segundo os organizadores, é uma oportunidade crucial que as pessoas têm de manifestar sua preocupação com as mudanças climáticas. Para este ano, o movimento já conta com a adesão de quase 2 mil cidades espalhadas por mais de 100 países (foram 88 na edição passada). No Brasil, já aderiram mais de 14 mil pessoas, 176 organizações e 1035 empresas de quase 30 cidades, entre elas 10 capitais. São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte e Rio Branco estão entre elas.

O ato simbólico de apagar as luzes foi escolhido por ser uma ação simples, que pode ser realizada por qualquer pessoa em qualquer lugar. Entretanto, alguns monumentos famosos pelo mundo como Torre Eiffel (Paris), a Grand Palace (Bangcoc), London Eye, (Londres), Empire State Building (Nova York), Fontana di Trevi (Roma). No Brasil, pontos famosos como o Cristo Redentor (Rio de Janeiro), Praça da Alfândega (Porto Alegre), Ponte Estaiada (São Paulo) e Estufa do Jardim Botânico (Curitiba) também vão chamar a atenção do público.

O Akatu acredita que ações como essa ajudam a conscientizar os consumidores sobre a necessidade urgente de medidas no combate às mudanças climáticas. Elas despertam a reflexão sobre as pequenas mudanças nos hábitos cotidianos, que provocam grande impacto quando praticadas por todos.

Junte-se a nós, o planeta conta com você!

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As pistas falsas para a felicidade

Butão - aqui se mede a felicidade

Eis que na última página da Veja desta semana, um rasgo de brilhantismo. Não poderia vir de outra pessoa que não o genial Roberto Pompeu de Toledo. Faz um contraste dramático com a tese questionável de que o Santo Daime foi o culpado pela morte do Glauco (teria o feitiço virado contra o feiticeiro?). Se o sujeito é um psicopata, qualquer droga vai potencializar seu problema. Desde droga de farmácia até o álcool. E aí, vamos proibir o álcool para que desajustados não causem estragos? Difícil…

E é de pistas falsas que trata a coluna de Pompeu. Ou melhor, de identificar as verdadeiras pistas que levam à felicidade. Não existe o Santo Graal da felicidade – ainda que pílulas consigam simular bem (antidepressivos). Mas existem estudos apontando caminhos diferentes para onde deveríamos olhar. E também para nortear nossas políticas públicas.

Já abordei esse assunto aqui, principalmente de que posses materiais (dinheiro aí incluso) não traz a felicidade per si. Isso já está no ditado, confirmando a sabedoria popular, comprovada por estudos recentes.

Alguns posts sobre o assunto:

Felicidade é contagiosa

Europa rumo à felicidade interna bruta

O que faz um país feliz?

O que faz um país feliz – parte 2

O fim da era do crescimento?

Por isso, é uma honra ver um articulista do nível do Roberto Pompeu de Toledo abordando este assunto. Quer dizer que agora ele entrou – de algum jeito – na mente dos mais de 1 milhão de leitores da Veja. Isso é bom. Segue o texto.

Será a felicidade necessária?

Por Roberto Pompeu de Toledo (Revista Veja)

Os pais costumam dizer que importante é que os filhos sejam felizes. Ora, felicidade é coisa grandiosa. Não há encargo mais pesado para a pobre criança.

Felicidade é uma palavra pesada. Alegria é leve, mas felicidade é pesada. Diante da pergunta “Você é feliz?”, dois fardos são lançados às costas do inquirido. O primeiro é procurar uma definição para felicidade, o que equivale a rastrear uma escala que pode ir da simples satisfação de gozar de boa saúde até a conquista da bem-aventurança. O segundo é examinar-se, em busca de uma resposta. Nesse processo, depara-se com armadilhas. Caso se tenha ganhado um aumento no emprego no dia anterior, o mundo parecerá belo e justo; caso se esteja com dor de dente, parecerá feio e perverso. Mas a dor de dente vai passar, assim como a euforia pelo aumento de salário, e se há algo imprescindível, na difícil conceituação de felicidade, é o caráter de permanência. Uma resposta consequente exige colocar na balança a experiência passada, o estado presente e a expectativa futura. Dá trabalho, e a conclusão pode não ser clara.

Os pais de hoje costumam dizer que importante é que os filhos sejam felizes. É uma tendência que se impôs ao influxo das teses libertárias dos anos 1960.

É irrelevante que entrem na faculdade, que ganhem muito ou pouco dinheiro, que sejam bem-sucedidos na profissão. O que espero, eis a resposta correta, é que sejam felizes. Ora, felicidade é coisa grandiosa. É esperar, no mínimo, que o filho sinta prazer nas pequenas coisas da vida. Se não for suficiente, que consiga cumprir todos os desejos e ambições que venha a abrigar. Se ainda for pouco, que atinja o enlevo místico dos santos. Não dá para preencher caderno de encargos mais cruel para a pobre criança.

“É a felicidade necessária?” é a chamada de capa da última revista New Yorker (22 de março) para um artigo que, assinado por Elizabeth Kolbert, analisa livros recentes sobre o tema. No caso, a ênfase está nas pesquisas sobre felicidade (ou sobre “satisfação”, como mais modestamente às vezes são chamadas) e no impacto que exercem, ou deveriam exercer, nas políticas públicas. Um dos livros analisados, de autoria do ex-presidente de Harvard Derek Bok (The Politics of Happiness: What Government Can Learn from the New Research on Well-Being), constata que nos últimos 35 anos o PIB per capita dos americanos aumentou de 17 000 dólares para 27 000, o tamanho médio das casas cresceu 50% e as famílias que possuem computador saltaram de zero para 70% do total. No entanto, a porcentagem dos que se consideram felizes não se moveu. Conclusão do autor, de lógica irrefutável e alcance revolucionário: se o crescimento econômico não contribui para aumentar a felicidade, “por que trabalhar tanto, arriscando desastres ambientais, para continuar dobrando e redobrando o PIB?”.

Outro livro, de autoria de Carol Graham, da Universidade de Maryland (Happiness Around the World: The Paradox of Happy Peasants and Miserable Millionaires), informa que os nigerianos, com seus 1 400 dólares de PIB per capita, atribuem-se grau de felicidade equivalente ao dos japoneses, com PIB per capita 25 vezes maior, e que os habitantes de Bangladesh se consideram duas vezes mais felizes que os da Rússia, quatro vezes mais ricos. Surpresa das surpresas, os afegãos atribuem-se bom nível de felicidade, e a felicidade é maior nas áreas dominadas pelo Talibã. Os dois livros vão na mesma direção das conclusões de um relatório, também citado no artigo da New Yorker, preparado para o governo francês por dois detentores do Nobel de Economia, Amartya Sen e Joseph Stiglitz. Como exemplo de que PIB e felicidade não caminham juntos, eles evocam os congestionamentos de trânsito, “que podem aumentar o PIB, em decorrência do aumento do uso da gasolina, mas não a qualidade de vida”.

Embora embaladas com números e linguagem científica, tais conclusões apenas repisariam o pedestre conceito de que dinheiro não traz felicidade, não fosse que ambicionam influir na formulação das políticas públicas. O propósito é convidar os governantes a afinar seu foco, se têm em vista o bem-estar dos governados (e podem eles ter em vista algo mais relevante?). Derek Bok, o autor do primeiro dos livros, aconselha ao governo americano programas como estender o alcance do seguro-desemprego (as pesquisas apontam a perda de emprego como mais causadora de infelicidade do que o divórcio), facilitar o acesso a medicamentos contra a dor e a tratamentos da depressão e proporcionar atividades esportivas para as crianças. Bok desce ao mesmo nível terra a terra da mãe que trocasse o grandioso desejo de felicidade pelo de uma boa faculdade e um bom salário para o filho.

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Dentro de um tubo

Os surfistas gostam de dizer que é impossível descrever a sensação de um tubo. E é mesmo.

A descrição mais próxima do real que vi até hoje foi no livro “Fôlego”, de Tim Winton, um escritor australiano de mão cheia que descobri no ano passado. Qualquer dia compartilho aqui o que ele escreveu. O som, as cores, as luzes, a experiência de estar em plena sintonia com a onda é algo difícil de ser explicado em palavras… Uma marca de surfe resume bem: “Only a surfer knows the feeling.”

Mas, já dizia a máxima, uma imagem vale por mil palavras. Então, seguem várias imagens do ex-surfista Clark Little, havaiano, que se especializou em fotografar as ondas de dentro delas. Ainda bem, porque são perspectivas do mundo que não podem ficar apenas para quem surfa. Na era do conhecimento, informação não é mais poder. É algo que pertence a todos. Um “valeu” ao Clark Little por compartilhar esse momento mágico da natureza.

Havaiano tira fotos do interior de ondas

Um ex-surfista americano agora se dedica a uma atividade inusitada: fotografar ondas de dentro delas.

Clark Little, de 39 anos, começou a fotografar depois que sua mulher manifestou o desejo de ter uma foto para decorar a casa do casal, no Havaí.

Há dois anos, ele vive do dinheiro que ganha com a venda das fotos.

"O mar é minha segunda casa e eu amo o que faço", disse Little.
"Não existe para mim aquela sensação de encarar o trabalho como uma obrigação."

O fotógrafo conta que, para obter as melhores imagens, ele utiliza uma câmera capaz de obter até dez fotos por segundo.

As ondas que ele encara variam entre 90 cm e 4,5 m.

Muitas vezes, ele chegou a ser arremessado a até 10 m de distância de sua localização original.

"Sempre existe um risco para mim, por conta da força e tamanho das ondas. Mas minha experiência como surfista me deixa à vontade para encarar as ondas sem medo", afirmou.

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Moradia em cartão postal à venda para muitos desligados

Na semana passada, recebi um e-mail do Instituto Akatu falando de um projeto que haviam acabado de lançar com a Globo, no Fantástico. No Twitter, brinquei que só o Akatu para reanimar, reavivar, ressuscitar o Fantástico, que vê a audiência em níveis para lá de baixos. E por quê o Akatu conseguiu essa façanha?

Por que lançou uma ideia genial: avaliar a percepção e reação das pessoas frente a projetos imobiliários em cartões postais de importantes cidades brasileiras. Um trecho do e-mail:

A reportagem mostrava empreendimentos imobiliários de luxo fictícios, ocupando e modificando cartões postais brasileiros nas cidades de Recife, Guarujá, Florianópolis, Brasília e Rio de Janeiro.

A matéria mostrou que a primeira reação das pessoas aos empreendimentos é de aprovação, ainda que o impacto sobre as localidades seja gigantesco. O objetivo da matéria era gerar reflexão e demonstrar da forma mais lúcida possível o impacto de uma compra no limite da caricatura.

Eis o vídeo (não funcionou para colocar direto aqui no blog…):

Link http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1221247-7823-EMPREENDIMENTOS+IMOBILIARIOS+SAO+UM+TESTE+PARA+GRANDES+CIDADES,00.html

Bom, fiquei chocado com o que vi. A reação de alguns ‘panacas’ (desculpe o termo, mas não consigo qualificar de outra forma), dizendo que “projetos ousados como aqueles são legais porque em Dubai está cheio” é de causar vergonha alheia. Pior que isso, só os números finais da pesquisa:

Empreendimento nas Areias da Boa Viagem, em Recife

61% aprovaram o empreendimento;

22% criticaram a idéia

17% não se manifestaram;

Empreendimento na Praia de Pitangueiras, no Guarujá:

59% das pessoas gostaram da idéia de construir o prédio na areia

31% foram contra o projeto

9% não deram opinião

Ilha artificial em plena Lagoa da Conceição, em Florianópolis

41% foram a favor da construção;

12% foram contra
46% não se manifestaram;

Ilha artificial no Lago Paranoá em Brasília

75% aprovaram a idéia

18% não deram opinião

7% foram contra

Duas torres no Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro

49% rejeitaram a idéia;

39% gostariam de morar no Pão de Açúcar

12% não se manifestaram

Ainda temos um longo caminho pela frente para conseguir mostrar os impactos negativos das nossas compras, assim como a importância do consumo consciente. Peças como essas do Akatu são um atalho nesta caminhada.

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O tamanho do buraco dos impostos no Brasil

Quem tem carteira assinada fica indignado em pagar 27,5% de imposto todo mês.

Quem tem empresa, fica igualmente indignado. São impostos e mais impostos em cascata.

E vejam só. Para quem acha que esses impostos não voltam em serviços adequados, uma certeza a mais com o estudo que acaba de ser publicado. O Brasil ficou em último lugar, longe do pobre Camarões, em segundo lugar.

Como diria meu filho pequeno: “Fala sério!” Está faltando eficiência – e emuita – em nosso governo.

Eliane Cantanhêde, na Folha de S. Paulo

ESTOCOLMO – Ok, o Brasil está na moda, mas isso tem custo: implica ficar sob holofotes. Os defeitos já conhecidos ficam mais evidentes, e os novos saltam aos olhos.
O principal deles, sob o olhar dos governos e companhias internacionais, é o “custo Brasil”, agora exposto à execração pública por um relatório do Banco Mundial intitulado “Paying Taxes 2010” -uma foto global sobre o pagamento de taxas mundo afora neste ano.

Está rolando de mão em mão entre as 30 empresas suecas que mandarão representantes a Brasília e a São Paulo no dia 23 e estará na mesa de discussões de associações empresariais europeias com o governo Lula e suas correspondentes brasileiras, em abril, no Brasil.

O Banco Mundial pesquisou 183 países, e o Brasil ficou em último lugar -último lugar! É o que mais cobra taxas trabalhistas e em geral.
Ou seja, é o que mais onera as empresas que produzem e investem. O estudo usou uma complexa metodologia para concluir que as empresas pagam o correspondente a 2.600 horas por ano em taxas variadas no Brasil. O segundo pior país do ranking é o pequeno e pobre Camarões -1.400 horas/ano.

E isso não inclui, pelo menos explicitamente, a percentagem extra para acomodar contabilidades públicas heterodoxas. Ou, para não levar um puxão de orelha da Madame Natasha, do Elio Gaspari: sem contar a “cota corrupção”.

Para os suecos, um dos fatores que atravancam o progresso e a entrada ou ampliação de investimentos estrangeiros é o excesso de burocracia e a longa cadeia (no bom sentido) de agentes públicos envolvidos no processo: do ministério tal e qual, da secretaria essa e aquela, do governo estadual, da prefeitura…

O Brasil precisa, enfim, adaptar sua legislação, suas regras e seus procedimentos ao mundo global do qual faz parte. Não é para melhorar a vida dos gringos, mas, sim, sofisticar os investimentos e a imagem internacional do próprio Brasil.

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Qual nosso tamanho correto no mundo? Pequeno, bem pequeno…

Excelente entrevista de Martin Rees no Estadão. Uma incrível capacidade de nos colocar em nosso lugar certo, como um estágio da evolução mais ou menos na metade dos 9 bilhões de anos de vida útil do sol.

Uma incrível dose de humildade.

Jornal *O Estado de S.Paulo* – Domingo, 7 de março de 2010

UMA TERRA DE NINGUÉM?

Para cosmólogo, a pior catástrofe não são os terremotos, mas a onda de desleixo que avassala o planeta

*MARTIN REES*

em entrevista para Christian Carvalho Cruz

Terremotos, inundações, nevascas, tsunamis e outros desastres naturais matando tantas pessoas pelo mundo seriam sinais do início do fim dos tempos?

Não há evidência sólida de que esses eventos sejam mais freqüentes agora do que no passado. Mas é claro que as sequências são mais severas, porque há mais pessoas e por causa da maneira como nós vivemos nas cidades.

Gelo diminuindo no Ártico, iceberg que se desprende da Antártida. O sr. crê em aquecimento global?

Acho que há indícios bastante fortes de que o mundo está se aquecendo por causa das atividades humanas. Mais importante: nós sabemos que a concentração de dióxido de carbono no ar é maior hoje do que foi por centenas de milhares de anos e, se continuarmos a depender da energia de combustíveis fósseis, no final deste século essa concentração terá duas ou até três vezes o nível observado no período pré-industrial. A física simples sugere, então, que há um risco alto e real de mudanças climáticas graves e irreversíveis.

A capacidade do ser humano de se adaptar a condições de vida adversas impede que ele reaja e faça algo para evitar o próprio fim?

Sim, nós podemos nos adaptar. Mas será que, em vez disso, não deveríamos tentar impedir que o mundo se altere a ponto de o meio ambiente ser irreversivelmente degradado e a biodiversidade, destruída? O mundo desenvolvido precisa ser mais eficiente no uso da sua energia. Uma enorme quantidade de calor é desperdiçada por ineficiência das edificações e (especialmente nos Estados Unidos) por conta do excessivo transporte rodoviário, extravagante na utilização de combustível. Temos de embarcar nas novas tecnologias do século 21 e garantir que o resto do mundo evite os erros cometidos pelos Estados Unidos e pela Europa.

Ainda temos tempo para evitar o fim ou devemos nos resignar?

A aplicação prudente da ciência e a distribuição justa dos benefícios da globalização entre o mundo desenvolvido e o mundo em desenvolvimento reduziriam o risco de danos à nossa civilização. A crise financeira nos fez lembrar do perigo de acontecimentos imprevisíveis – eles têm baixa probabilidade de acontecer, mas, quando acontecem, as consequências podem ser desastrosas. A ação internacional foi eficaz na prevenção de um colapso financeiro completo. Mas o foco sobre os bancos destacou as injustiças sociais decorrentes das enormes desigualdades em termos de riqueza. A crescente desigualdade, especialmente entre a elite financeira e o resto, é socialmente corrosiva. O prestígio dos banqueiros deve ser reduzido ao dos corretores de imóveis ou dos vendedores de automóveis.

Por que o sr. diz que temos 50% de chance de sobreviver ao século 21?

Eu não digo exatamente isso. Eu acredito que iremos sobreviver, mas há 50% de chance de nossa civilização sofrer um sério revés até lá. É difícil prever em que grau estará a evolução tecnológica 25 anos adiante. Lembre-se que décadas atrás a internet, o iPhone e a navegação por satélite (GPS) pareceriam bruxaria. Precisamos garantir que as inovações tecnológicas que virão sejam usadas para o bem, como essas que citei têm sido. E temos que aceitar que os riscos e os

desafios éticos da biologia sintética sejam tratados por um acordo internacional. Acima de tudo há o desafio político para evitar conflitos em um mundo no qual será cada vez mais difícil obter equilíbrio entre o autoritarismo e a anarquia.

Por que o sr. acredita nisso?

Porque pequenos grupos criminosos ou dissidentes (ou mesmo indivíduos) estarão mais habilitados pela tecnologia moderna, podendo causar perturbações muito maiores. Vai ser mais difícil preservar as liberdades tradicionais.

O sr. também diz que, se sobrevivermos, um futuro glorioso nos espera. Que futuro é esse?

Como astrônomo, eu sei que o Sol não está nem sequer na metade de sua existência. Levou 4 bilhões de anos para que nós evoluíssemos desde o primeiro sinal de vida. Mas, tendo em vista o que resta de tempo ao Sol, ainda há pelo menos 5 bilhões de anos pela frente para uma evolução “pós-humana”, sobre ou fora da Terra. Os seres humanos não são o ponto culminante da evolução, assim como não o era o primeiro peixe que rastejou para a terra seca.

O que é evolução pós-humana?

Não há mais tempo pela frente do que o tempo que foi necessário para evoluirmos até aqui, a partir do lodo primitivo. Assim, a vida pós-humana poderia ser diversa e maravilhosa – e tão diferente de nós como nós somos de um inseto.

Quais os três maiores perigos que enfrentaremos neste século?

Primeiro: que os seres humanos, coletivamente, devastem a biosfera, destruam a biodiversidade e mudem o clima de maneira nociva. Segundo: que possa haver uma guerra nuclear entre novas superpotências. Terceiro: que alguma tecnologia nova possa apresentar risco se for usada de modo equivocado ou por terroristas.

Afora as pessoas muito religiosas, gostamos de acreditar que a ciência sempre será a nossa salvação, sempre encontrará maneiras de nos manter aqui, num razoável bem-estar. Quando leio seus textos fico com a sensação de que a ciência, na verdade, possa se tornar o nosso maior algoz. O sr. é um cientista que teme o que a ciência pode fazer?

Eu tenho grandes esperanças, e também grandes medos. Acredito que a resposta para os problemas do mundo não seja parar a ciência, mas prosseguir com ela e conduzi-la melhor. As tecnologias que alimentam o crescimento econômico hoje – miniaturização, tecnologia da informação e medicina – são benéficas no modo como estão poupando energia e matérias-primas e beneficiam tanto os ricos quanto os pobres.

A ciência deve ser controlada? Quem estabeleceria os limites?

Os limites são fixados pela prudência e pela ética. As decisões sobre esses limites não devem ser feitas só por cientistas, mas pelo grande público em geral. É por isso que é importante que todos tenham algum interesse pela ciência. Do contrário não há debate político sério sobre os problemas (e há cada vez mais deles) nos quais a ciência desempenha um papel, como meio ambiente, energia, saúde, segurança.

A humanidade precisava da ovelha Dolly?

Nós não queremos a reprodução humana por clonagem, mas podemos obter reais benefícios médicos e agrícolas a partir da biotecnologia moderna. Na ciência sempre há riscos quando fazemos algo pela primeira vez. Mas, obviamente, devemos aceitar alguns desses riscos. Do contrário não avançamos.

O sr. mantém a aposta de que um evento bioterrorista ou de bioerro fará 1 milhão de vítimas até 2020?

Eu tenho esperança de perder essa aposta. Mas o risco é real.

Os ambientalistas repetem que a Terra não terá recursos suficientes para manter uma população mundial de 8 bilhões de pessoas em 2050. O sr. concorda?

A “capacidade de carga” do mundo depende do nosso estilo de vida. Ela nunca será sustentável se 8 bilhões de pessoas viverem como os americanos. Mas podemos viver de forma civilizada, com base nas novas tecnologias. Certamente seria melhor se, após 2050, a população mundial começasse a diminuir em vez aumentar. Há uma preocupação especial com o crescimento rápido na África, onde será difícil escapar da “armadilha da pobreza” a menos que as taxas de fecundidade caiam para os níveis de outras partes do mundo.

O que o fim da Terra e da raça humana significará para o Universo?

Depende se a vida inteligente é algo raro ou comum. Se é uma Exclusividade da Terra, nossa destruição seria uma catástrofe cósmica. Se ela está generalizada no Universo, seria uma catástrofe para a humanidade, mas uma trivialidade em perspectiva cósmica.

Nós devemos pensar em como manter a vida sem uma Terra para viver? Que opções teríamos?

Espero que algumas pessoas que vivem hoje possam caminhar em Marte. Mas acho que isso será alcançado por meio de um programa de alto risco e custo baixo (em vez do estilo atual da Nasa, mais voltado para a questões de segurança e, por isso, caro demais). As primeiras pessoas a irem a Marte poderão ter um bilhete só de ida e nunca mais voltar.

Em qualquer lugar no espaço o ambiente é mais inclemente do que na Antártida ou nos picos dos Andes. Só os aventureiros vão querer ir.

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