A origem da Devassa


Na semana passada, o post sobre a Devassa deu o que falar offline (engraçada a dicotomia e a discussão que gera um assunto em meios diferentes. Me pergunto porque os comentários não aparecem online, mas sim offline – mas isso é outro assunto). Chegaram a dizer que o post foi reacionário, mas talvez eu não tenha me explicado direito.

Não sou necessariamente contra a propaganda em si (abaixo). Meu ponto era outro, uma pergunta: com tanto dinheiro para investir em campanhas, seria o caso de fazer uma deste naipe, vulgarizando o erotismo para vender cerveja? Haveria outro jeito de posicionar uma marca de cerveja. Deveria haver?

Eis que com uma clareza cristalina encontrei na Folha de São Paulo deste domingo, no caderno mais, uma excelente reflexão do filósofo Renato Janine Ribeiro. Ele começou assim:

“Provei a cerveja Devassa num dia no aeroporto. Mas quando na TV sua propaganda com norte-americana rica que deve a fama a um vídeo pornô que circulou na internet, achei de mau gosto e perdi a simpatia pela bebida. Ponto. Agora, quando o Conar retira a propaganda do ar, vale a pena discutir um pouco o assunto.”

O autor envereda no texto questionando a decisão sob diferentes pontos de vista e leva à conclusão de que quanto mais mobilizados forem os grupos ofendidos, mais fácil a chance de tirar o comercial do ar. Como quando aconteceu quando algumas propagandas colocavam enfermeiras como mulheres fáceis. Ao contrário do que aconteceu quando psicólogos reclamaram duas vezes de que sua profissão estava sendo ridicularizada, citando dois exemplos levantados pelo autor.

Segundo Janine Ribeiro, se as mulheres, mobilizadas, recusam o papel de objeto, a decisão do Conar pode ser uma conquista delas. Que estão tentando colocar limites a uma exploração vulgar do corpo. Esse é o ponto, a vulgarização. Tudo para vender cerveja. No mesmo caderno há ainda a citação de um estudo que fez uma comparação de propagandas de cerveja alemãs com as brasileiras. Os alemães teriam ficado chocados com outdoors gigantes de mulheres “gostosas” espalhadas pela cidade.

O estudo mostrava o quanto a publicidade estava entranhada nos valores culturais do país. Na Alemanha, os anúncios ressaltavam a origem natural dos produtos ou no prazer socializador da bebida, o de beber junto com os amigos.

A autora do texto, a professora da PUC-SP Lucia Santella afirma que o tiro do Conar saiu pela culatra, “como todo tiro moralista”. Isso porque, segundo ela, chamou mais atenção do que deveria para o comercial, que acabaria virando paisagem nos anúncios sem-fim de mulheres gostosas desfilando pela areia.

Vale a reflexão e a discussão volta ao ponto que levantei: fazer esse tipo de comercial só reforça valores ‘fracos’ no meu ponto de vista. Beber cerveja = mulher gostosa desfilando na areia. Que tipo de sociedade se constrói reforçando esses valores? Não se trata de tirar do ar o comercial, mas sim refletir sobre as escolhas – inclusive essa mesma do Conar.

Vale então reproduzir aqui o argumento da professora Santella:

“(…) às vésperas do Dia Internacional da Mulher (nesta 2a feira, 8 de março), é preciso lembrar que o respeito às mulheres e aos méritos — que vão além da superfície de suas curvas e recheios – não é algo que se incorpora na cultura por meio de decretos, censuras nem por seu oposto — as festividades –, mas pela educação e — acima de tudo -, pelo apreço à dignidadeque deve brotar da força íntima e das ações das próprias mulheres. Homens machistas só vicejam onde mulheres ainda não cresceram diantes de si mesmas e para o outro.”

É quase dizer que uma campanha como a Devassa só poderia surgir num ambiente em que as mulheres permitem. Neste sentido, a reação à propaganda (independente da ação do Conar) é um bom sinal.

PS: Um ponto interessante sobre a questão em si. A equipe da Paris Hilton declarou à Folha que o termo devassa para eles significa sexy… Tá bom…

5 Comentários

Arquivado em Comunicação, Nova Sociedade, Questões

5 Respostas para “A origem da Devassa

  1. Indignação devassa

    O veto à propaganda com Paris Hilton nasceu das melhores intenções e redundou numa trapalhada desnecessária. Parece inútil querer controlar o ambiente publicitário brasileiro (que alia excelência técnica e freqüente desprezo pelo interesse público) sem regulamentação sólida e indiscutível.
    A decisão do Conar insere-se numa tendência crescente de intervenção sobre as esferas individual e privada. A moda é relativamente contemporânea e costuma ser fantasiada de modernidade esclarecida. Olhando ao redor, podemos descobrir diversas de suas criaturas: a canetada antitabagista de José Serra, autoritária e inconstitucional; o patético banimento de bebidas alcoólicas dos estádios de futebol; a proibição da Marcha da Maconha, abuso que a cúpula do Judiciário impediria se tivesse verdadeira índole republicana; a criminalização do uso de drogas e do aborto e por aí vai.
    O espírito conservador desconhece bandeiras e ideologias. Agora é fácil atacar o governo federal, fingindo hipocritamente que a ingerência nasceu com o lulopetismo. Pois lamento, a reação veio tarde. A tesoura contra a publicidade de cerveja poderia ter sido evitada se os liberais de plantão reagissem lá atrás, quando seus ídolos políticos espalhavam as sementes da sanha estatal, sob aplausos das boas famílias.
    Não foi por falta de aviso.

    • Guilherme, me parece uma escalada da tentativa de tutelas o cidadão, a sociedade. Como na história da lei que quer obrigar os políticos a colocarem os filhos nas escolas públicas. Ora, a sociedade é que deve dizer qual é a melhor escola e o estado é que precisa garantir escolas boas. Não é obrigando os políticos a tomarem essa decisão. Isso é seguir uma pista falsa e mascarar o problema, com pinta de populismo. Concordo com a análise. No meio de tanta novidade, parece que a sociedade se perde de vez em quando em definir os padrões, os costumes e os limites. Estamos mesmo numa fase de transição, inundados de informação e ainda com poucos (ou errôneos) filtros.

  2. Gabi

    Ro,

    Nunca tinha parado para pensar, mas é isso aí comercial de cerveja na Alemanha é sobre a cerveja em si ou com amigos em mesa de bar.

    • Devem ser legais! Sem precisar ser apelativa. Isso parece piada de zorra total – estereotipando gays, anões, mulher loira burra… é buscar o humor mais tosco e pouco inteligente. Colocar mulher gostosa em propaganda de cerveja é mais ou menos a mesma coisa!

  3. Pingback: O melhor de 2010 – parte 2 | A Ficha Caiu

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