As pistas falsas para a felicidade


Butão - aqui se mede a felicidade

Eis que na última página da Veja desta semana, um rasgo de brilhantismo. Não poderia vir de outra pessoa que não o genial Roberto Pompeu de Toledo. Faz um contraste dramático com a tese questionável de que o Santo Daime foi o culpado pela morte do Glauco (teria o feitiço virado contra o feiticeiro?). Se o sujeito é um psicopata, qualquer droga vai potencializar seu problema. Desde droga de farmácia até o álcool. E aí, vamos proibir o álcool para que desajustados não causem estragos? Difícil…

E é de pistas falsas que trata a coluna de Pompeu. Ou melhor, de identificar as verdadeiras pistas que levam à felicidade. Não existe o Santo Graal da felicidade – ainda que pílulas consigam simular bem (antidepressivos). Mas existem estudos apontando caminhos diferentes para onde deveríamos olhar. E também para nortear nossas políticas públicas.

Já abordei esse assunto aqui, principalmente de que posses materiais (dinheiro aí incluso) não traz a felicidade per si. Isso já está no ditado, confirmando a sabedoria popular, comprovada por estudos recentes.

Alguns posts sobre o assunto:

Felicidade é contagiosa

Europa rumo à felicidade interna bruta

O que faz um país feliz?

O que faz um país feliz – parte 2

O fim da era do crescimento?

Por isso, é uma honra ver um articulista do nível do Roberto Pompeu de Toledo abordando este assunto. Quer dizer que agora ele entrou – de algum jeito – na mente dos mais de 1 milhão de leitores da Veja. Isso é bom. Segue o texto.

Será a felicidade necessária?

Por Roberto Pompeu de Toledo (Revista Veja)

Os pais costumam dizer que importante é que os filhos sejam felizes. Ora, felicidade é coisa grandiosa. Não há encargo mais pesado para a pobre criança.

Felicidade é uma palavra pesada. Alegria é leve, mas felicidade é pesada. Diante da pergunta “Você é feliz?”, dois fardos são lançados às costas do inquirido. O primeiro é procurar uma definição para felicidade, o que equivale a rastrear uma escala que pode ir da simples satisfação de gozar de boa saúde até a conquista da bem-aventurança. O segundo é examinar-se, em busca de uma resposta. Nesse processo, depara-se com armadilhas. Caso se tenha ganhado um aumento no emprego no dia anterior, o mundo parecerá belo e justo; caso se esteja com dor de dente, parecerá feio e perverso. Mas a dor de dente vai passar, assim como a euforia pelo aumento de salário, e se há algo imprescindível, na difícil conceituação de felicidade, é o caráter de permanência. Uma resposta consequente exige colocar na balança a experiência passada, o estado presente e a expectativa futura. Dá trabalho, e a conclusão pode não ser clara.

Os pais de hoje costumam dizer que importante é que os filhos sejam felizes. É uma tendência que se impôs ao influxo das teses libertárias dos anos 1960.

É irrelevante que entrem na faculdade, que ganhem muito ou pouco dinheiro, que sejam bem-sucedidos na profissão. O que espero, eis a resposta correta, é que sejam felizes. Ora, felicidade é coisa grandiosa. É esperar, no mínimo, que o filho sinta prazer nas pequenas coisas da vida. Se não for suficiente, que consiga cumprir todos os desejos e ambições que venha a abrigar. Se ainda for pouco, que atinja o enlevo místico dos santos. Não dá para preencher caderno de encargos mais cruel para a pobre criança.

“É a felicidade necessária?” é a chamada de capa da última revista New Yorker (22 de março) para um artigo que, assinado por Elizabeth Kolbert, analisa livros recentes sobre o tema. No caso, a ênfase está nas pesquisas sobre felicidade (ou sobre “satisfação”, como mais modestamente às vezes são chamadas) e no impacto que exercem, ou deveriam exercer, nas políticas públicas. Um dos livros analisados, de autoria do ex-presidente de Harvard Derek Bok (The Politics of Happiness: What Government Can Learn from the New Research on Well-Being), constata que nos últimos 35 anos o PIB per capita dos americanos aumentou de 17 000 dólares para 27 000, o tamanho médio das casas cresceu 50% e as famílias que possuem computador saltaram de zero para 70% do total. No entanto, a porcentagem dos que se consideram felizes não se moveu. Conclusão do autor, de lógica irrefutável e alcance revolucionário: se o crescimento econômico não contribui para aumentar a felicidade, “por que trabalhar tanto, arriscando desastres ambientais, para continuar dobrando e redobrando o PIB?”.

Outro livro, de autoria de Carol Graham, da Universidade de Maryland (Happiness Around the World: The Paradox of Happy Peasants and Miserable Millionaires), informa que os nigerianos, com seus 1 400 dólares de PIB per capita, atribuem-se grau de felicidade equivalente ao dos japoneses, com PIB per capita 25 vezes maior, e que os habitantes de Bangladesh se consideram duas vezes mais felizes que os da Rússia, quatro vezes mais ricos. Surpresa das surpresas, os afegãos atribuem-se bom nível de felicidade, e a felicidade é maior nas áreas dominadas pelo Talibã. Os dois livros vão na mesma direção das conclusões de um relatório, também citado no artigo da New Yorker, preparado para o governo francês por dois detentores do Nobel de Economia, Amartya Sen e Joseph Stiglitz. Como exemplo de que PIB e felicidade não caminham juntos, eles evocam os congestionamentos de trânsito, “que podem aumentar o PIB, em decorrência do aumento do uso da gasolina, mas não a qualidade de vida”.

Embora embaladas com números e linguagem científica, tais conclusões apenas repisariam o pedestre conceito de que dinheiro não traz felicidade, não fosse que ambicionam influir na formulação das políticas públicas. O propósito é convidar os governantes a afinar seu foco, se têm em vista o bem-estar dos governados (e podem eles ter em vista algo mais relevante?). Derek Bok, o autor do primeiro dos livros, aconselha ao governo americano programas como estender o alcance do seguro-desemprego (as pesquisas apontam a perda de emprego como mais causadora de infelicidade do que o divórcio), facilitar o acesso a medicamentos contra a dor e a tratamentos da depressão e proporcionar atividades esportivas para as crianças. Bok desce ao mesmo nível terra a terra da mãe que trocasse o grandioso desejo de felicidade pelo de uma boa faculdade e um bom salário para o filho.

3 Comentários

Arquivado em Felicidade, Nova Sociedade, política, Questões

3 Respostas para “As pistas falsas para a felicidade

  1. concordo em gênero, número e grau.

    mas gostaria que todo o brilhantismo de Roberto Pompeu de Toledo estivesse a serviço de outra revista que não fosse a Veja.

    Veja (e esqueça)

  2. Renata, é verdade… o cara é muito maior do que a revista, que se apequena cada vez mais. A capa deste final de semana é deplorável… A da Época está muito mais inteligente. Faturar revista em cima de tragédia, desbragadamente, é jornalismo de mau gosto…
    Abraço

  3. Pingback: O melhor de 2010 – parte 3 | A Ficha Caiu

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