O herói planetário e a sessão sustentável do TED Global



Fila para pegar lugar bom em um dos dois andares do Playhouse, em Oxford

Um dos temas que começa a emergir com maior relevância no mundo empresarial e acadêmico ganhou força com a apresentação de Tim Jackson na sessão 8 do TED Global, em Oxford. Jackson tenta responder a seguinte questão: existe um modelo de desenvolvimento sem crescimento econômico? Para ele, estamos em meio a um dilema do crescimento: “Não podemos viver com isso, mas também não podemos viver sem isso.” Afinal de contas, o modelo econômico hoje está baseado no crescimento. A sociedade precisa comprar, para movimentar a economia, para gerar mais renda, mais emprego, mais desenvolvimento. O único porém é que isso é feito por meio do uso intensivo de recursos naturais. ˜Gastamos dinheiro que não temos, para comprar o que não precisamos, querendo impressionar gente com quem nem nos importamos.”

Tim Jackson, na sessão 8 do dia 3 do TED Global

Ele vai fundo na questão (veja mais no livro Prosperity Without Growth) e argumenta que acabamos por criar uma economia que privilegia uma parte menor da alma humana, o egoísmo. Para Jackson, está na hora de construir uma economia baseada no altruísmo ecológico. Sua definição de prosperidade: “Consiste na habilidade de se desenvolver dentro das limitações ecológicas de nosso planeta.” Jackson não é sonhador, mas pragmático. Não estamos falando sobre acabar com o capitalismo. Estamos falando em tomar ações para construir uma economia que tenha um propósito e não apenas o objetivo de crescer.

E é exatamente isto que move a empreendedora Jessica Jackley, que emocionou a todos ao se emocionar sobre seu trabalho. Doar dinheiro ou dar oportunidade? Sem dúvidas, a última. Jessica criou o Kiva, uma plataforma que faz a intermediação de microempréstimos para empreendedores de países pobres. Ela aprendeu que mais do que doações, o que os empreendedores precisam é de uma chance. “Enquanto estive na África entrevistando microempreendedores na África, ninguém me pediu uma doação. Pediram, sim, empréstimos˜, diz ela. “Aprendi muito sobre lucros e receitas de agricultores, seamstresses e criadores de cabras.” Em 2005, o Kiva intermediou algo entre US$ 500 000 em empréstimos. Hoje, cinco anos depois, intermediou US$ 150 milhões em empréstimos em 200 países!

O novo projeto de Jessica Jackley é o Profounder, que tem o objetivo de levantar capital para novos empreendedores, principalmente recursos de famílias e de amigos. O projeto nasceu inspirado no fato de que 85% do dinheiro levantado para novos negócios nos EUA vem de família ou amigos. Em geral, essa tomada de recursos é confusa e o Profounder vai ajudar a organizar. Ao final, mostrando como algumas pessoas que receberam quantias por volta de 100 dólares conseguiram mudar suas vidas, Jessica chorou no palco. Acabou aplaudida de pé, homenagem reservada apenas às melhores falas.

Ainda sobre impacto da emoção, a audiência recebeu Auret van Heerden, ativista na área de direitos humanos. Van Heerden começou lembrando a todos que o celular de cada um foi feito com metais minerados no Congo, onde há péssimas condições de trabalho, e que 80% dos remédios consumidos no mundo vieram da China ou da Índia, onde há pouca regulação sobre segurança no trabalho. “Eu não vim aqui pregar em se ter a preocupação com a cadeia de trabalho˜, diz van Heerden. ˜Isto não é novo. Para mudar a maneira como a cadeia de fornecimento mundial está organizada, precisamos de um mecanismo diferente para fazer com que os produtos cheguem às lojas sem sacrificar nossa segurança ou ética.” Ele disse que talvez a única chance que um garoto de 15 anos tenha de trabalhar em um lugar com boas condições de trabalho em países em desenvolvimento seja o fato de a empresa multinacional ter um código de conduta exigindo isso.

Quem sobe ao palco do TED em geral é alguém com contribuições relevantes à sociedade, moldada com muita entrega e idealismo. E foi esta a história que Peter Eigen contou para as cerca de 600 pessoas que lotavam o teatro Playhouse, de Oxford. Não à toa, em sua apresentação ao chamar Eigen, o host Chris Anderson o chamou de ˜herói planetário˜. Eigen ganhou esta alcunha pela coragem que teve de enfrentar a liderança do Banco Mundial, onde trabalhava, ao descobrir que as melhores coisas que tentavam fazer eram arruinados pela corrupção. Indignado com a situação e de ver os esforços acabarem no bolso de dirigentes corruptos, pediu as contas e abriu a ONG Transparência Internacional, para estimular a abertura e transparência de instituições ao redor do mundo. “Transparência é crítico. Você até se chamar de responsável, mas responsabilidade sem prestação de contas não funciona. A corrupção é um fenômeno internacional que uma nação não consegue lidar sozinha”. Para ajudar a colocar luz nesta situação, todo ano, a Transparência Internacional publica o International Corruption Perception Index.(O Brasil está na 75a posição. Lideram a lista Nova Zelândia, Dinamarca e Singapura.)

Além de ser um herói planetário, Peter Eigen é um sujeito boa praça. Em uma das festas de confraternização da conferência, ele presenteou um dos participantes com um clássico nariz de palhaço vermelho que carregava. Afinal, palhaço ele nunca foi, principalmente ao não se conformar com o que via enquanto trabalhou no Banco Mundial.

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Arquivado em Mundo 2.0, Nova Sociedade, Sustentabilidade

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