O outro lado da moeda


Gosto de temas contraintuitivos. Gente que vai na direção contrária para nos trazer uma nova visão de mundo. Em geral, vão contra o que todos estão falando. Ou derrubam mitos com dados. Embasam bem suas teses para causar polêmica, das boas. Livros como o Freakonomics fazem isso à perfeição. Malcolm Gladwell tem feito isso também em livros como “Fora de série”, que questiona mitos sobre como o sucesso está construído.

Por isso, vale destacar esta coluna abaixo, publicada ontem por Carlos Alberto Sardenberg, derrubando ideias preconcebidas sobre crédito. A tese de Sardenberg é que todos estão reclamando que as pessoas não sabem pegar crédito que são coitadas, que os juros são altos e que não sabem se programar e por isso se dão mal no final das contas.

O filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca escreveu um livro incrível sobre isso, “O Valor do Amanhã”. Fala sobre o dilema entre poupar hoje para viver amanhã ou viver hoje sem poupar para amanhã (formiga vs cigarras e os dilemas das escolhas). Fala também em juros, felicidade e trocas intertemporais. Em resumo, se você quiser mesmo algo (TV, carro, moto, viagem) hoje, vai pagar mais caro por isso e que esta propensão a escolher o ‘agora’ estaria na gênese do povo brasileiro. Vale a pena ler o livro de Giannetti para conhecer a tese e concordar (ou não) com os argumentos.

O fato é: nem tudo é preto no branco ou tão ruim quanto parece. Viva às pessoas que ajudam a trazer luz para debates complicados, como este do crédito. É claro que existe uma carência em educação financeira em larga escala no Brasil e este é o próximo passo no avanço do país, trabalhar melhor este tema. Mas esse é um dever da sociedade como um todo: universidade, órgãos reguladores, empresas, além de Bancos. Tem a ver com o bem estar e o desenvolvimento seguro e saudável da sociedade. Afinal, não queremos criar uma bolha de crédito como a do mercado imobiliário americano.

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“A gente somos inútil”

Carlos Alberto Sardenberg

A estabilização da economia permitiu, entre outras coisas, a volta do crédito. O volume do crédito concedido às famílias disparou, os prazos foram dilatados e cresceu o número de pessoas qualificadas para tomar dinheiro emprestado. Na outra ponta, juros caíram (em relação ao Brasil do passado) e o valor unitário das prestações ficou mais barato, cabendo em mais orçamentos domésticos.

As classes populares, com os novos nomes de classes C e D, entraram alegremente no mundo do crédito, da antecipação do consumo. Começa a voltar até o crédito para a casa própria, de 20 anos.

Para uma sociedade que se desacostumara do crédito, esta deveria ser uma ótima notícia, certo?

Depende. No Judiciário, nas entidades de defesa do consumidor,nas ONGs ambientalistas, em órgãos do governo, o que mais se ouve é que o consumidor está sendo ou pode ser iludido.

No Judiciário e nos Procons, é amplo o entendimento tácito de que o consumidor é “hipo-suficiente”, ou seja, presa fácil dos bancos que só querem empurrar crédito mesmo para quem não pode ou não precisa.

Nas entidades ambientalistas, dissemina-se a idéia de que esse novo agente econômico, o trabalhador com acesso ao crédito, cai facilmente na ilusão do consumo perdulário. Em vez de comprar o que “realmente precisa”, ele é levado pela propaganda e compra carro, moto, tevê de plasma, celulares. Em vez de poupar para comprar mais barato lá na frente, endivida-se hoje, antecipa consumo e acaba pagando duas tevês para adquirir uma.

Em agências do governo Lula, espalha-se a idéia de que o consumidor é vítima fácil da sanha do grande capital, representado pelo banco que empurra o financiamento extorsivo; pelas companhias farmacêuticas e redes de farmácia que empurram remédios desnecessários; pelas multinacionais de alimentos que fazem lavagem cerebral para as pessoas comerem porcarias; pelas empresas de seguro e planos de saúde, que enganam os doentes. E assim vai.

Exagero?

Talvez, mas tenho ouvido essas teses em seminários e debates. Aparecem todo dia na imprensa. E nos atos. Juízes, por exemplo, não hesitam em dar razão a um devedor, perdoando a dívida ou parte dela, mesmo que o contrato com o banco seja absolutamente correto.

Argumentam juízes que é preciso levar em conta a “finalidade social” do crédito e a atitude “abusiva” de bancos, que levariam a pessoa a tomar dinheiro emprestado mesmo quando não pudesse ou precisasse. Por isso, o Estado precisaria “tomar conta do consumidor”.

Repararam? Estão nos dizendo que as pessoas não sabem tomar conta de si, precisam de um tutor, um paizão.

Ora, de onde tiraram que o juiz, o membro do governo, o Procon e as ONGs sabem melhor o que o cidadão precisa ou não? Dizem que as pessoas só devem tomar crédito para comprar algo necessário.

Ora, como esses auto-designados tutores sabem o que é necessário para esta ou aquela família? Renato Meirelles, talentoso cientista social que toca o DataPopular, fez melhor. Foi perguntar às pessoas.

Ouviu, por exemplo, que a compra de uma tevê grande de tela plana, LCD e tudo o mais, é absolutamente necessária porque mantém a família reunida em casa às noites e nos fins de semana. As pessoas sentem orgulho de tê-la e, mais ainda, o supremo orgulho de ter nome limpo e crédito no banco para poder comprá-la.

Um jovem comprar uma moto em 36 vezes, para se arriscar no trânsito das grandes cidades?

Pois é uma decisão inteiramente racional. A alternativa: no mínimo quatro horas, em condução ruim, nos trajetos de casa para o trabalho, deste para a faculdade e daí de volta para casa. O custo das passagens quase empata com a prestação. E com a moto ainda dá tempo de passar na casa da namorada ou de levá-la para o serviço.

Idem para o carro. Por que as famílias compram o automóvel, no carnê, assim que podem? Para se livrarem do transporte público. Comparando, é racional entrar no crediário de 60 meses.

Computador vai para a sala, para o principal lugar da sala. E quem disse que a menina de 15 anos não precisa de um celular?

E é evidente que a família faria economia se poupasse e depois comprasse tudo à vista. Mas, gente, isso é uma bobagem sem tamanho. De onde tiraram que dá para esperar?

Imaginem: para esta Copa não vai dar, mas na Copa do Brasil estaremos de tevê; um ano depois, compramos o computador; mais uns seis anos e compramos os celulares para a família.

Ora, é a base do sistema, antecipar consumo via crédito. Para isso inventaram o sistema financeiro séculos atrás, para passar dinheiro de quem tem poupança para quem necessita para consumo ou investimento (uma moto comprada para trabalhar, por exemplo). É isso que permite atender às necessidades das pessoas – que elas mesmas definem.

Há um claro viés elitista nessa condenação do consumo a crédito das classes populares. Os ricos podem consumir à vontade porque têm o dinheiro. E os pobres? Que esperem até ter?

É preciso admitir que os juízes e os Procons são influenciados pelo que vêem. Afinal, só vão parar lá os casos que encrencaram. Os bancos abusam mesmo, me dizia recentemente um juiz, ao relatar casos de pessoas que haviam se endividado excessivamente.

Mas esse mesmo juiz ficou ao menos intrigado quando olhou os números gerais: o crédito dobrou no Brasil nos últimos seis anos e a inadimplência caiu. É isso mesmo. Há mais pessoas penduradas nos carnês e a pontualidade nos pagamentos é hoje maior.

Ou seja, o sistema está funcionando. As pessoas sabem fazer conta, sabem cuidar de seu dinheiro, sabem comprar. Tanto que estão fazendo isso, sem problemas maiores.

Quanto aos bancos, é claro que querem emprestar dinheiro. Mas querem muito mais receber seu dinheiro de volta. Por isso, depois da estabilização, todos aperfeiçoaram seus sistemas de avaliação de risco.

Assim como as seguradoras querem vender planos de saúde. Mas também precisam que o cliente pague em dia e seja bem tratado. Segurado morto não paga.

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Arquivado em Ideias, Interdependência, Questões

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