Viver é aprender a dançar na chuva – o primeiro bloco do TEDxAmazônia


No ano passado, ao final do TEDxSP, escrevi um post dizendo que tinha sido o evento mais incrível que havia participado. Foi uma grande iniciação ao mundo do TED, e um ano depois consegui participar de outros eventos tão incríveis quanto: o TED Global (link) e agora o fantástico TEDxAmazônia. Mais do que participar, tive a grande honra de ajudar a construir este verdadeiro marco dentro do fenômeno dos eventos TEDx, mais de mil encontros que aconteceram em menos de dois anos desde que as licenças independentes foram lançados pelo TED.

 

Os hosts do TEDxAmazônia, Helder Araújo e Denis Burgierman

Sem falsa modéstia ou perigo de errar, o TEDxAmazônia certamente marcou época. Ainda que falando de dentro do acontecimento e sem o distanciamento que só o tempo consegue dar, cerca de 500 pessoas presenciaram um momento especial no coração da Floresta Amazônica. Pela primeira vez, um TEDx teve dois dias de duração. Pela primeira vez foi organizado dentro de um dos maiores patrimônios naturais do Planeta Terra, a 4 000 quilômetros de distância da base da organização do evento, em São Paulo.

50 pensadores desfilaram ideias em larga escala, abasteceram de esperança e ideais uma comunidade que se torna maior a cada dia que passa. A quantidade de tweets e comentários pela internet, apaixonados, emocionados e cheios de motivação, ajudam a dar sentido a vozes que se unem mais e mais pelo objetivo romântico e sonhador de mudar o mundo. Em uma das dezenas de conversas animadas, meu amigo jornalista Oswaldo Pepe falou com muita segurança: “Eu participei do movimento hippie. Vi todas aquelas pessoas alimentarem o ideal sonhador de construir um mundo ideal. Mas aquilo acabou. O que vem agora e o que está acontecendo aqui é diferente. As pessoas que querem este ideal agora têm mais ferramentas e estão mais preparadas para fazer isso acontecer”, disse Pepe.

Não sei o quanto estão e o que será feito disto tudo, mas a vibração e vontade de fazer estão aí.

O palestrante Edgar Gouveia Jr despertou esta semente ao contar do projeto Oásis Santa Catarina, criado para ajudar a diminuir os impactos das enchentes que destruíram várias cidades catarinenses. O Oásis conseguiu criar, na base da diversão, em formato de jogo, uma mobilização que levou centenas de pessoas a direcionarem esforços para ajudar a reconstruir as cidades. Quando a plateia conheceu as histórias de assassinatos de povos indígenas para explorar madeira, apresentada pelo jornalista gaúcho Felipe Milanez, surgiu a vontade de agir e transformar a história. Voluntariamente, dezenas de participantes se reuniram para criar o desafio de salvar os últimos três índios Kawahiva que conseguiram escapar da matança. E foi lançado o Salve Kawahiva. O objetivo é influenciar três esferas de poder que podem ajudar a criar as condições para cuidar da vida destes índios. Se algo vai sair disso, é muito cedo ainda para dizer. Mas o fato é que a mobilização foi criada e repercutiu rapidamente na rede.

A inspiração e a motivação foram sentimentos constantes no evento. Ambas subprodutos do verdadeiro encontro que foi criado ali: uma volta à natureza. Brinquei em um tweet, com fundo de verdade, que havia uma pegada Avatar nas falas dos palestrantes. Enxergar a natureza como referência, como solução, como inspiração para o que pode e deve ser feito para criar um mundo mais seguro, saudável e agradável de se viver.

 

A ciranda de 500 pessoas puxada por Antonio Nobrega

O TEDxAmazônia começou, espontaneamente, com uma grande ciranda puxada pelo mestre Antonio Nóbrega depois de se apresentar com uma coreografia criada para sintetizar sua obra e manifestações genuínas da dança brasileira. 450 pessoas de mãos dadas em uma coreografia pulsante e alegre ajudaram a criar o senso de comunidade. E aí foi a vez do silêncio falar. O segundo palestrante, Lama Padma Samten, pediu para fazermos silêncio antes de sua fala. E durante dois minutos mirou firme o vazio, para em seguida revelar que estava, na verdade, olhando para dentro. Samten lembrou que para entender o que está acontecendo fora, precisamos enxergar dentro, antecipando que isso voltaria a surgir, forte ou fracamente, em praticamente todas as palestras.

Como na do próximo palestrante, o gentil e agradável Antonio Nobre, que nos fez lembrar que a Amazônia é uma imensa usina ambiental, “fabricando” ar limpo, disponibilizando água potável, e resfriando a temperatura do planeta. Nobre mostrou em gráficos que há um quadrilátero ao redor da Amazônia em que não acontecem furacões em função do resfriamento, um serviço da floresta serve.

“Podemos rejardinar de volta a atmosfera”, disse citando uma nova linha de pesquisa para valorizar o trabalho de recuperação do clima. E depois, lembrou do David, cacique dos Ianômanis: “Será que o homem branco não vê que se acabar a floresta, acabam as chuvas e assim acaba a comida e a bebida”, pergunta. “Nosso trabalho está conseguindo provar essa sabedoria ancestral”, tão óbvia para os índios. Índios que foram representados por Randy Borman, um branco que conviveu com o povo Cofan na sua infância e mais tarde voltou para fundar uma nova comunidade. Os índios dizem que o corpo de Borman é gringo, mas seu coração é Cofan.

A conexão com as raízes e com a natureza se deu de diversas formas no evento, inclusive pelo surfe. O surfista paranaense Sergio Laus mostrou o enorme potencial de surfe da pororoca, onde em uma temporada de quatro meses é possível deslizar o que um surfista normal demoraria 6 anos e 6 meses para fazer no mar. Laus viaja 18 horas para se conectar com seu sonho e ajuda a levar oportunidades de renda para os ribeirinhos, numa relação estabelecida depois de 65 expedições à foz do Rio Amazonas, onde se encontram as maiores ondas de rio do mundo, no havaí amazônico.

O mexicano Enrique Leff, um dos precursores da necessidade de conectar a economia ao meio ambiente, lembrou que escolhemos o caminho da separação, da bifurcação. “Se a economia se alimenta da natureza, por quê a dissociação?” Temos que aprender a viver em nossos limites e romper a obsessão de viver em um mundo unitário absoluto. Precisamos valorizar a diversidade.

O argumento foi reforçado por Chris Carlsson, criador do movimento Critical Mass Ino Brasil chamado de bicicletada). Segundo ele, vivemos em mundos que separam o trabalho do lazer. Trabalhamos para ganhar dinheiro e somente no nosso tempo livre fazemos aquilo que gostamos. Para quê, com qual objetivo?: 5 ligações, 25 SMS, 10 emails p/ marcar um encontro com um amigo daqui a 3 semanas. Onde chegaremos com isso?” Carlsson disse que nosso trabalho diário deveria transformar a vida em algo ainda mais maravilhoso do que ela já é. E fazer juntos. Evoluir do Do It Yourself (DIY) para o Do It Together (DIT). Nas oficinas de bicicletas do Critical Mass, ninguém conserta sua bicicleta. As pessoas te ensinam a consertar, criando relações de amizade e reconectando pessoas.

E a última palestra do bloco foi pura emoção. A bióloga Deise Nishimura contou como seu sonho de viver na Amazônia foi abortado por um ataque de um jacaré-açu – o maior predador da América do Sul. Deise conta que estava limpando peixe para o almoço, quando o réptil pulou na varanda de sua casa flutuante, a abocanhou na perna e levou para o fundo. No fundo do rio, ela disse que pensou em qual seria a parte mais sensível do jacaré, procurou os olhos e apertou com força, chegando a quebrar a unha. O bicho a soltou, mas já havia roubado sua perna. Ao final, Deise, já habituada a sua prótese e à nova vida anunciou em primeira mão que estava voltando a viver na Amazônia. E disse: “Viver não é aprender a esperar as tempestades passarem, mas aprender a dançar na chuva”. Ao final do primeiro bloco, caiu uma chuva torrencial, para a poética dança de alguns participantes do evento.

(Continua.)

6 Comentários

Arquivado em Ideias, Interdependência, Nova Sociedade, Sustentabilidade

6 Respostas para “Viver é aprender a dançar na chuva – o primeiro bloco do TEDxAmazônia

  1. Sobre:
    “Web aproxima quem tá longe e distancia quem tá perto. Verdade?”

    Resp: Depende das pessoas e seus interesses…

    PS: Vc não ve minhas respostas pois os meus tweets são bloqueados. =)

  2. Denis

    Grande Rodrigo,
    Valeu pela trabalheira no projeto, e pelas ideias decisivas pra curadoria!
    abs

  3. flcarvalhaes@bol.com.br

    Rodrigo,

    Sempre muito excitante!!!!!!!!!!!!!!!!

  4. Pingback: Colaboração, vida e diversão – o segundo bloco do TEDx Amazônia « A Ficha Caiu

  5. Pingback: O melhor de 2010 | A Ficha Caiu

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