Colaboração, vida e diversão – o segundo bloco do TEDx Amazônia



Preparação para espalhar ideias, foto por Daniel Deak

Uma semana depois do TEDxAmazônia ainda continuam ecoando as mensagens, ideias, sacadas e  conversas. É impossível ficar indiferente. Fica sempre no ar a vontade de continuar em contato com a energia que emerge de uma reunião de 550 pessoas com o objetivo comum de espalhar ideias que valem a pena. Simples assim…

Há quatro meses, quando começou a preparação do evento, havia uma parede em branco, cheia de nomes para preencher. Com o tempo e a cada uma das duas reuniões semanais que deveriam começar às 20h, mas não raro começavam às 21h, os nomes foram surgindo na parede, o hotel ia sendo definido, o orçamento ia ficando mais apertado com tantas passagens aéreas para comprar e com tanta gente para hospedar e alimentar. Mas se a ideia era deixar as pessoas mais próximas da floresta para conhecê-la melhor, esta seria a contribuição do TEDxAmazônia para isto.

Aos poucos, as reuniões começaram a acontecer em paralelo: curadoria dos palestrantes, curadoria da audiência e logística. A grande maioria das pessoas trabalhando ali, voluntariamente. Peter Drucker tem uma frase que explica a razão: “What motivates – and specially what motivates knowledge workers – is what motivate volunteers. Volunteers, we know, have to get more satisfaction from their work than paid employees, precisely because they do not get a paycheck. They need, above all, challenge. They need to know the organization’s mission and to believe in it. They need continuous training. They need to see results”.

Não poderia ser mais verdadeira. Suficiente até para fazer bem-vinda uma reunião de três ou quatro horas na 2ª feira à noite. Simplesmente porque não era uma reunião, mas sim uma oportunidade de dividir causas, motivações e ideias. Outro dia vi na parede da sede do TEDxSP, TEDxAmazônia, Busk e Webcitizen — praticamente uma usina de ideias –, a seguinte frase,  ouvid em um dos TEDx:  “Aqui nos reunimos para fazer juntos aquilo que não conseguimos fazer sozinhos.” Perfeito: o ideal do TEDx é coletivo e o que aquele time de cerca de 20 ou mais pessoas fez foi um marco. Para a floresta, para o TEDx, e para quem esteve por lá.

Hotel Jungle Palace, sede do incrível TEDxAmazônia

O primeiro bloco encerrou com a emoção em alta. A ideia da curadoria era causar isso. Depois que todos os nomes foram para a parede em cada um dos blocos, olhamos um a um para tentar prever que tipos de emoção causariam. Digo tentar prever porque uma das mágicas da curadoria do TED tem a ver com o momento. Palestrantes que seriam as estrelas podem não estar tão inspirados no momento e decepcionar um pouco. Por outro lado, aqueles de quem se espera uma palestra boa, mas não espetacular, de alguma maneira crescem no espírito TED e entregam palestras matadoras. Tentar adivinhar as conexões é como construir uma revista em cada bloco. Como esta pauta (palestrante) vai se conectar com o próximo e como vai complementar ou contrapor o tipo de emoção que está sendo valorizada ali. Construir este quebra-cabeças é como tecer um texto (lembrando que a palavra texto tem sua origem etimológica em tecer. Tecer fios, tecer palavras, descobrir o fio da meada etc).

O segundo bloco, que chamamos de colaborar melhor, teceu vida, colaboração e diversão. Começou com Aaron Koblin, artista que transforma informações em arte. Koblin é mais um adepto da datavisualização, disciplina que vem emergindo nos últimos anos com o claro propósito de nos ajudar a enxergar o mundo melhor. Em um de seus trabalhos, representou vôos nos Estados Unidos como se fossem feixes de luz, transformando a malha aérea em gigantes fogos de artifício. Koblin também mostrou também o tributo colaborativo para Johnny Cash, feito com pessoas do mundo inteiro via web. (No TED Global deste ano, David McCandless mostrou também a arte de seus infográficos. É uma boa referência para quem quiser saber mais sobre este assunto. )

De certa maneira, a grande maioria dos palestrantes ajuda a plateia do TED ou TEDx enxergar melhor. Joan Roughgarden, que falou em seguida a Koblin, é uma especialista em diversidade. Apesar de ter sido um pouco técnica demais, sua tese ficou mais clara depois de conversar com algumas pessoas. E aqui valem umas palavras sobre isso.

Conversar sobre as palestrantes freqüentemente ajuda a enxergá-las sobre um novo ângulo. Não à toa, os intervalos do TED são um pouco maiores do que o normal, para dar tempo para alimentar as ideias. Faz toda a diferença. No caso de Roughgarden, bióloga que estuda a diversidade, captei da palestra dela a tese de que as relações íntimas existem para aumentar os laços e a colaboração entre as espécies. Nas conversas pós-evento, veio a sacada. Com um gráfico complexo, Roughgarden deu a entender que estamos todos juntos por uma grande “sacanagem”. Ela, que já foi ele antes de se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo, tem documentado cerca de 300 casos de homossexualismo entre animais. Todos criando laços de colaboração. Ao final, Roughgarden disse que a “família é uma empresa cujo produto é a prole”.

Já ouvi que o casamento é um negócio, um contrato. Mas confesso que ficou difícil pensar nestes termos frente à sensibilidade que a parteira Suely Carvalho trouxe para a entrega da vida, o parto. Com fotos cruas de partos naturais, Suely foi firme para dizer que é preciso dignificar a vida como um milagre e recebê-la como tal. “A cesariana salva vidas, mas deve ser usada como tal, e não como uma escolha para receber a vida.” Depois dela, veio a cineasta Diana Whitten, que durante três anos acompanhou o trabalho da Womenonwaves.org, conhecida como o “barco do aborto”, filmando o documentário Vessel. A entidade leva a possibilidade do aborto para lugares onde isso é proibido, apoiadas na crença de que mulheres que querem o aborto acabam fazendo isso de qualquer maneira, muitas vezes colocando em risco à própria vida.

André Abujamra, divertindo a plateia, foto de Daniel Deak

Depois de Whitten, era mesmo necessária uma pausa para sentir. O músico Andre Abujamra, um fã do TEDx, que aceitou com o maior prazer o convite de palestrar, subiu ao palco e ajudou a descontrair. Ele tocou “na unha” depois de tentar três vezes que o retorno funcionasse. Abujamra cantou, simulou voar e divertiu.

“Duvião o rio é veia, du rio vião é passarim
Olha só aquele prédio, duvião é drops
Olha só o elefante, no Zimbabwe
Duvião é ratim, e as pessoas
Duvião é formiguim”

A diversão continuou no palco com a excelente palestra de Rafael Kenski, que acabou de voltar de Londres onde fez pós-graduação sobre análise, design e gestão de sistemas. A tese de Rafael é que o melhor jeito de trabalhar é se divertindo e que é possível mudar o mundo, fazendo isso. “O contrário de diversão não é trabalho, é depressão”, disse. Na seqüência, o carismático Edgard Gouveia Jr contou sobre o Oásis, projetos colaborativos baseados em jogos entre equipes para a cuidar de localidades, como ajudar na recuperação de desastres, como Santa Catarina na enchente de 2008. Com o sucesso, o Oásis se espalhou por outros 90 projetos no Brasil e no mundo.

Colaboração, vida e diversão. O segundo bloco do TEDx Amazônia trouxe três assuntos que não deixam ninguém indiferente.

(CONTINUA)

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3 Comentários

Arquivado em Colaboração, Ideias

3 Respostas para “Colaboração, vida e diversão – o segundo bloco do TEDx Amazônia

  1. Pingback: Viver é aprender a dançar na chuva – o primeiro bloco do TEDxAmazônia « A Ficha Caiu

  2. Rodrigo, sempre agradecerei pra vocês a oportunidade de ter participado do TEDxAmazônia. As trocas, as expectativas superadas, o entendimento, as susrpresas tudo foi mágico.
    beijos

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