Arquivo do mês: maio 2011

Realidade filtrada

Como você se sente quando tem a impressão que alguém está fazendo as escolhas por você? Ninguém gosta de ser manipulado, pelo menos não conscientemente. O pior é quando isso acontece de maneira inconsciente, filtrando a realidade. Pois esta é a tese de Eli Pariser, que fez uma das melhores falas no TED 2011 (abaixo) e que hoje teve um artigo seu publicado no New York Times e reproduzido no Estadão (veja mais abaixo).

Segundo Pariser, os códigos da internet filtram a informação apresentando aquilo que a pessoa que criou os algoritmos acha mais importante. Uma busca feita no Google do Brasil é diferente daquela feita no Google da China, da República Dominicana ou do Japão. A informação é filtrada pela realidade local. Ou melhor, por aquilo que quem fez o código entende por realidade local. O programador vira o novo editor daquilo que você lê.

Há algum tempo, Nicholas D. Krystof, também do New York Times, publicou um artigo chamado de Daily Me, que falava justamente sobre o filtro da informação (veja aqui um post sobre isso). Mas, neste caso, um filtro pessoal. Cada vez que escolhe acessar um determinado site e assina newsletters com assuntos de seu interesse apenas, você está escolhendo ver o mundo a partir de um ângulo restrito. Por isso a importância de ler os pré-históricos jornais, cujas notícias são filtradas por gente treinada para isso. E não por um programador. Ok, G1, Terra, Uol etc também valem. O importante é não se deixar consumir por uma única visão do mundo. Do contrário, a informação e a realidade filtrada vai ser como fast food: tudo com o mesmo gosto, sem sabor — a fast info.

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Quando a internet acha que nos conhece

Os gigantes estão correndo para oferecer filtros especializados que nos mostram a rede que acham que devemos ver, controlando e limitando a informação que chega a nossa tela

24 de maio de 2011 | 0h 00
Eli Pariser, The New York Times – O Estado de S.Paulo

Era uma vez, reza a história, uma época em que vivíamos numa sociedade radiodifundida. Naqueles tempos ancestrais pré-internet, as ferramentas para compartilhar informação não eram amplamente disponíveis. Quem quisesse partilhar seus pensamentos com as massas, tinha de possuir uma impressora ou um naco das ondas aéreas, ou ter acesso a alguém que o tivesse. No controle do fluxo de informação estava uma classe de elite de editores, produtores e magnatas da mídia que decidia o que as pessoas veriam e ouviriam sobre o mundo. Eles eram os “guardiães”.

Aí veio a internet, que tornou possível a comunicação com milhões de pessoas com pouco ou nenhum custo. De repente, alguém com uma conexão de internet podia partilhar ideias com o mundo inteiro. Uma nova era de mídia noticiosa democratizada despontou.

O leitor pode ter ouvido essa história antes – talvez do blogueiro conservador Glenn Reynolds (blogar é “tecnologia solapando os “guardiães””) ou o blogueiro progressista Markos Moulitsas (seu livro se intitula Crashing the Gate, “Esmagando o portal”, em tradução livre).

É uma bela história sobre o poder revolucionário do meio e, na qualidade de um antigo praticante da política online, eu a contei para descrever o que fizemos na MoveOn.org. Mas estou cada vez mais convencido de que escolhemos a conclusão errada – talvez perigosamente errada. Há um novo grupo de “guardiães” por aí e, desta vez, eles não são pessoas, são códigos.

Os gigantes de internet de hoje – Google, Facebook, Yahoo e Microsoft – veem o crescimento notável de informações disponíveis como uma oportunidade. Se puderem oferecer serviços que vasculhem esses dados e nos forneçam os resultados pessoalmente mais relevantes e atraentes, eles conseguirão a maioria dos usuários e a maioria das visitas a anúncios. Por conseguinte, eles estão correndo para oferecer filtros especializados que nos mostram a internet que acham que devemos ver.

Esses filtros, aliás, controlam e limitam a informação que chega a nossas telas.

Por enquanto, estamos familiarizados com anúncios que nos perseguem online com base em nossas conexões recentes em sites comerciais. Mas, cada vez mais e de maneira quase invisível, nossa busca por informação está sendo personalizadas também. Duas pessoas que fazem uma busca com a palavra “Egypt” no Google podem receber resultados significativamente diferentes, com base em suas conexões passadas. Mas o Yahoo News e o Google News fizeram ajustes em suas home pages para cada visitante individual. E, no mês passado, essa tecnologia começou a fazer incursões nos sites de jornais como The Washington Post e The New York Times.

Tudo isso é bastante inofensivo quando a informação sobre produtos de consumo é filtrada para dentro e para fora de seu universo pessoal. Mas quando a personalização afeta não só o que se compra, mas como se pensa, surgem questões diferentes. A democracia depende da capacidade do cidadão de deparar-se com múltiplos pontos de vista; a internet limita essa possibilidade quando oferece somente informações que refletem seu ponto de vista já estabelecido. Embora às vezes seja conveniente ver-se apenas o que se quer ver, é decisivo que em outros momentos se vejam coisas que não se costumam ver.

Como os velhos “guardiães”, os engenheiros que escrevem o novo código do portal têm o enorme poder de determinar o que sabemos sobre o mundo.

Mas, diferentemente, dos velhos “guardiães”, eles não se veem como “guardiães” da confiança pública. Não há algoritmo equivalente à ética jornalística. Mark Zuckerberg, o presidente executivo do Facebook, certa vez disse a colegas que “um esquilo morrendo no seu jardim pode ser mais relevante para seus interesses agora do que pessoas morrendo na África”. No Facebook, “relevância” é virtualmente o único critério que determina o que os usuários veem. Fechar o foco nas notícias mais relevantes pessoalmente – o esquilo – é uma grande estratégia de negócios. Mas nos deixa olhando para o jardim em vez de nos informar sobre sofrimento, genocídio e revolução.

Não há volta atrás ao velho sistema dos “guardiães”, nem deveria haver.

Mas se os algoritmos estão assumindo a função de editar e determinar o que vemos, precisamos ter certeza de que eles pesam variáveis além de uma “relevância” estreita. Eles precisam nos mostrar Afeganistão e Líbia além de Apple e Kanye West.

As companhias que fazem uso desses algoritmos precisam assumir essa responsabilidade salutar com muito mais seriedade do que fizeram até agora. Precisam nos dar o controle sobre o que vemos – deixando claro quando estão personalizando e nos permitindo moldar e ajustar nossos próprios filtros. Nós, cidadãos, também precisamos preservar nosso fim – desenvolvendo a “literatura de filtro” necessária para usar bem essas ferramentas e cobrando conteúdo que amplie nossos horizontes, mesmo quando isso for desconfortável.

É do nosso interesse coletivo assegurar que a internet se coloque à altura de seu potencial como um meio de conexão revolucionário. Isso não ocorrerá se formos confinados em nossos próprios mundos online personalizados. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
É PRESIDENTE DO CONSELHO DA MOVEON.ORG, É O AUTOR DE “THE FILTER BUBBLE: WHAT THE INTERNET IS HIDING FROM YOU”

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O único lugar do mundo onde é ruim ter metrô

O pessoal dos bairros ricos de São Paulo, Rio, Porto Alegre, Recife e grandes cidades do Brasil adora ir para Londres, NY e Paris e dizer que o metrô é maravilhoso.

Aí, quando a prefeitura e o governo de São Paulo finalmente resolvem expandir a linha de metrô para um dia ser como nestas grandes cidades, a elite reclama. Mais do que isso, tiram a estação do plano original e “empurram” para longe. Simplesmente porque estavam com medo dos camelôs e da “frequência”.

Estação Higienópolis ou pode chamar de outro nome (fotomontagem - fonte: esquerdopata.blogspot.com)

Então, fica combinado assim: gente da classe C ou D é legal quando trabalha de babá, faxineira, doméstica ou motorista na sua casa. Mas não é legal quando vai pegar o metrô perto de onde a elite leva seus cachorros para passear (ou mesmo emporcalhar o bairro de cocô. Já morei em Higienópolis e lembro de uma vez tive que avisar um sujeito que o cachorro dele tinha feito cocô dentro do shopping chiquérrimo do bairro). Ou seja, é tudo questão de educação e visão de mundo. Egoísta, nestes casos.

Sinceramente, pessoal, vai ser provinciano assim lá em Nova York. É de dar vergonha. Enquanto as pessoas não pensarem no bem comum, vai ser difícil evoluir no projeto de país de primeiro mundo.

O artigo do Fernando Canzian, publicado na Folha, ficou muito bom. Veja abaixo.

PS: tenho muitos amigos em Higienópolis e não queria generalizar. Mas a associação envolvida representa o bairro. Então, turma inteligente, que sabe que metrô é solução urbana e não problema, chegou a sua hora de se mobilizar. 

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Droga de elite

Higienópolis (cidade da higiene) rechaçou a chegada do metrô. Haveria uma estação no local onde hoje funciona um supermercado Pão de Açúcar, na av. Angélica, esquina com a rua Sergipe. Morei anos ali.

Para quem não conhece, é um bairro rico e central de São Paulo.

Esse canto abrigaria a ex-futura estação do coletivo, agora deslocada para o Pacaembu, com bem menos concentração de pessoas.

O lobby dos ricos venceu. O governo tucano tucanou de novo diante da pressão dos moradores.

Empregadas, babás, porteiros, faxineiros, feirantes, garis, funcionários do Pão de Açúcar e milhares de empregados do bairro que servem diariamente os moradores continuarão sem a melhor, mais rápida, pontual, organizada e limpa opção de transporte público.

Temia-se o aparecimento de camelôs nas redondezas. De “uma gente diferenciada”, um morador chegou a dizer.

Reclama-se muito que São Paulo não consegue ser cosmopolita, democrática.

Vamos a Nova York e à Europa e voltamos deslumbrados. Carentes da não dependência do carro e saudosos de “civilização”.

Não conseguimos fazer o mesmo onde vivemos.

Conviver com o próprio povo é um porre.

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“Há um certo momento na trajetória de toda e qualquer nação em que ela se considera escolhida. É nesse momento em que ela dá o melhor e o pior de si.” (Emil Cioran, 1911 – 1995).

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Enriquecer antes de envelhecer: vamos conseguir?

Os operários de Tarsila do Amaral: a hora de enriquecer é agora

Excelente o texto abaixo de José Roberto de Toledo, que saiu no Estadão no início da semana

É alarmante, pois podemos estar perdendo a oportunidade de nossas vidas. E quem vai nos cobrar depois serão nossos filhos.

Como país, precisamos enriquecer antes de envelhecer. O momento é agora. É hora de educar, cuidar da previdência e investir em pesquisa e desenvolvimento. Não estamos fazendo o que deveríamos, mas ainda há tempo.

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Cinco meias e uma inteira

Cinco fatos que convém você saber sobre como o Brasil está amadurecendo:

1..: A idade média da população brasileira aumentou três anos na última década: pulou de 29 anos em 2000 para 32 anos em 2010. O envelhecimento está acelerando: a idade média era de 27 anos em 1991.

2..: Em duas décadas, o peso das crianças no total da população diminuiu de 35% para 24%. Há 5,1 milhões a menos de brasileiros entre 0 e 14 anos hoje do que havia em 1991. Esse grupo abriga os jovens em idade escolar obrigatória.

3..: O segmento que mais ganhou importância na distribuição etária nos últimos 20 anos foi o dos brasileiros em idade de trabalhar. O grupo daqueles de 25 a 60 anos cresceu de 38% para 47% do total da população. Há 33,5 milhões a mais de brasileiros nessa faixa etária.

4..: O segundo estrato populacional que mais engordou desde 1991 foi o daqueles em tempo de se aposentar. Há cerca de 10 milhões a mais de pessoas com 60 anos de idade ou mais velhas, em comparação ao que havia duas décadas atrás. Já são 11% dos brasileiros e continuam subindo.

5..: O estrato jovem da população, entre 15 e 25 anos, cresceu 5 milhões desde 1991, mas estabilizou seu peso no total da população. Era de 19% há 20 anos, passou a 20% em 2000, e agora está em 18%. Sua tendência é lentamente diminuir de importância.
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Qual o significado das mudanças no perfil etário do brasileiro e quais as implicações dessa nova dinâmica populacional para o País?

Menos crianças significa menos demanda por escolas até o ensino fundamental. É uma chance para os governos de todas as esferas melhorarem a qualidade da educação pública, já que o problema da quantidade e do acesso à escola está encaminhado para uma solução natural.

Entretanto, os passos de tartaruga que carregam a evolução do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) refletem o quão pouco foi feito pela melhoria do ensino.

Daqui para frente, será necessário um esforço cada vez maior para aumentar a escolaridade média do brasileiro. As novas gerações de estudantes, por mais tempo que passem na escola, são menos numerosas do que as anteriores. Terão, portanto, um impacto proporcionalmente menor no grau de instrução da força de trabalho quando se formarem.

Quanto mais tempo for perdido sem investimentos sérios em educação, mais difícil será para o Brasil alcançar os países que deram um salto educacional nos últimos anos, como a Coreia do Sul. A oportunidade está passando sem ser aproveitada. A perda de tempo é irrecuperável.

Os governos Fernando Henrique e Lula se beneficiaram da janela demográfica que fez aumentar em quase 20 milhões a força de trabalho brasileira apenas nos últimos dez anos. Mais gente produzindo significa mais riqueza e melhor distribuição do peso exercido pelos dependentes (crianças e idosos) sobre quem está em idade ativa.

O governo Dilma deve continuar usufruindo dessa tendência, bem como o(a) próximo(a) presidente. Mas, ao mesmo tempo, surgem demandas inerentes ao envelhecimento da população: mais despesas com saúde, com procedimentos médicos caros, e crescimento exponencial do número de aposentadorias e pensões, para citar alguns exemplos.

É preciso previdência para sustentar o conjunto crescente de pacientes e aposentados. Trata-se de uma preocupação que os governantes devem ter, senão pelo bem comum, ao menos para garantir seu próprio futuro. Afinal, os políticos recebem mais aposentadorias do que quaisquer outros brasileiros.

A estabilização da proporção de jovens que deveriam estar no ensino médio ou na faculdade recomenda comedimento na abertura de novas vagas no ensino superior. Em vez de uma expansão ilimitada, melhor seria fechar vagas de administração e jornalismo e aumentar as de medicina e engenharia.

Num futuro não muito distante, o Brasil corre o risco de enfrentar uma bolha universitária semelhante à que os EUA temem que estoure em breve: os custos para pagar a faculdade são tão altos que o recém-formado não consegue um emprego que compense o que ele gastou para obter seu diploma.

Outro risco associado a uma menor proporção de jovens é o País perder capacidade de inovar. Por isso, melhor aproveitar a juventude atual para estimular o desenvolvimento tecnológico e a pesquisa científica.

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