Arquivo da categoria: Arquitetura

O único lugar do mundo onde é ruim ter metrô

O pessoal dos bairros ricos de São Paulo, Rio, Porto Alegre, Recife e grandes cidades do Brasil adora ir para Londres, NY e Paris e dizer que o metrô é maravilhoso.

Aí, quando a prefeitura e o governo de São Paulo finalmente resolvem expandir a linha de metrô para um dia ser como nestas grandes cidades, a elite reclama. Mais do que isso, tiram a estação do plano original e “empurram” para longe. Simplesmente porque estavam com medo dos camelôs e da “frequência”.

Estação Higienópolis ou pode chamar de outro nome (fotomontagem - fonte: esquerdopata.blogspot.com)

Então, fica combinado assim: gente da classe C ou D é legal quando trabalha de babá, faxineira, doméstica ou motorista na sua casa. Mas não é legal quando vai pegar o metrô perto de onde a elite leva seus cachorros para passear (ou mesmo emporcalhar o bairro de cocô. Já morei em Higienópolis e lembro de uma vez tive que avisar um sujeito que o cachorro dele tinha feito cocô dentro do shopping chiquérrimo do bairro). Ou seja, é tudo questão de educação e visão de mundo. Egoísta, nestes casos.

Sinceramente, pessoal, vai ser provinciano assim lá em Nova York. É de dar vergonha. Enquanto as pessoas não pensarem no bem comum, vai ser difícil evoluir no projeto de país de primeiro mundo.

O artigo do Fernando Canzian, publicado na Folha, ficou muito bom. Veja abaixo.

PS: tenho muitos amigos em Higienópolis e não queria generalizar. Mas a associação envolvida representa o bairro. Então, turma inteligente, que sabe que metrô é solução urbana e não problema, chegou a sua hora de se mobilizar. 

======

Droga de elite

Higienópolis (cidade da higiene) rechaçou a chegada do metrô. Haveria uma estação no local onde hoje funciona um supermercado Pão de Açúcar, na av. Angélica, esquina com a rua Sergipe. Morei anos ali.

Para quem não conhece, é um bairro rico e central de São Paulo.

Esse canto abrigaria a ex-futura estação do coletivo, agora deslocada para o Pacaembu, com bem menos concentração de pessoas.

O lobby dos ricos venceu. O governo tucano tucanou de novo diante da pressão dos moradores.

Empregadas, babás, porteiros, faxineiros, feirantes, garis, funcionários do Pão de Açúcar e milhares de empregados do bairro que servem diariamente os moradores continuarão sem a melhor, mais rápida, pontual, organizada e limpa opção de transporte público.

Temia-se o aparecimento de camelôs nas redondezas. De “uma gente diferenciada”, um morador chegou a dizer.

Reclama-se muito que São Paulo não consegue ser cosmopolita, democrática.

Vamos a Nova York e à Europa e voltamos deslumbrados. Carentes da não dependência do carro e saudosos de “civilização”.

Não conseguimos fazer o mesmo onde vivemos.

Conviver com o próprio povo é um porre.

*

“Há um certo momento na trajetória de toda e qualquer nação em que ela se considera escolhida. É nesse momento em que ela dá o melhor e o pior de si.” (Emil Cioran, 1911 – 1995).

5 Comentários

Arquivado em Arquitetura, Educação, Questões

Aqui é a capital do Brasil, pô!

Vamos lá, de volta ao blog, depois de uma leve quebra na rotina. Estive em Brasília, a trabalho, na última semana. Deu tudo certo na labuta e melhor ainda no final de semana com o meu amigo/irmão Ale. A esposa dele, a Evelyn, está grávida de 40 semanas. O filhote deles, o Rico, vai ganhar um irmãozinho. Estava o maior bafafá na família por conta do nome, mas deve ficar Ângelo, um nome muito bonito.

Foi a terceira vez que fui a Brasília. Na primeira, com a Juliana, visitar os dois, ainda sem o Augusto e o Rico. Fomos à Chapada dos Veadeiros e nos divertimos naquela terra de loucos, observadores de OVNIs e seres abduzidos perseguidores de anões de jardim. Uma loucura.

Em Brasília, passeamos muito de dia naquela vez. Fomos à Catedral de Brasília, Congresso, Câmara etc. Dessa vez, tive a chance de ver melhor a cidade à noite. Fiquei embasbacado com a iluminação maravilhosa nas obras de Oscar Niemeyer. Segundo o Ale, ele faz escultura e não arquitetura. De fato é. Algumas coisas chegam a ser engraçadas, onde a estética ganha da ética, a forma vence o conteúdo. Como por exemplo no novo museu, recém inagurado, que, dizem, se mostrou um problema para pendurar os quadros… Um museu que não dá para pendurar quadros… Mas dá para perdoar, afinal estamos falando de um dos maiores arquitetos de todos os tempos, que marcou época com uma cidade que mais parece uma maquete gigante.

Recentemente, o governador de Brasília quis construir uma mureta entre as largas pistas da cidade, que estão separadas por um espaço vazio. E como há espaços vazios na cidade. Acontece que ele esqueceu que Niemeyer está vivo – muito vivo. Não é que ele enviou uma carta ao governador dizendo que se fizesse isso iria interferir sobremaneira na paisagem da cidade. Para pior. Projeto arquivado. E sorte dos brasilienses que Niemeyer ainda está entre nós.

Mas estava eu tão embasbacado com aquela quantidade de luz que meu lado ecochato (ou biodesagradável, um novo termo) logo perguntou: “mas essas luzes ficam acesas a noite inteira?” Ao que o Ale respondeu: “Mas é claro! Isso aqui é a capital do Brasil, pô!” Só me restou rir da resposta. As luzes até poderiam ser apagadas, mas a cidade sem dúvida não ficaria tão bonita. Há vezes que precisamos abrir mão dos radicalismos. Ou não?

1 comentário

Arquivado em Amizade, Arquitetura, Sustentabilidade