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Transparência e diálogo: tendências do TED2011

Nesta era de dados que trafegam na velocidade da luz, ainda estamos tentando dar vazão e compreender o que se faz com tanta informação. Principalmente quando ela é capaz de derrubar regimes e sistemas complexos e estabelecidos há anos. Não à toa, o tema transparência esteve muito presente no TED 2011.

Ainda no primeiro bloco, Wadah Khanfar, diretor da Al-Jazeera, falou sobre a revolução na Tunísia, e como a transparência sobre o que estava acontecendo via disseminação da mensagem pela televisão e outros meios ajudou a dar força ao movimento. Emocionado, ele disse que: “uma nova geração conectada e inspirada por valores comuns criou uma nova realidade para nós. Estamos testemunhando história, o nascimento de uma nova era”.

O executivo do Google Wael Ghonim, que teve papel-chave na mobilização via redes sociais que acelerou a queda do ditador egípcio é um exemplo marcante do nascimento desta nova era. Ele repetiu sua frase que já se tornou a marca desta revolução colaborativa: “Não houve um herói, porque todos foram heróis.” E também disse: “O poder das pessoas é muito mais forte do que as pessoas no poder”.

As marcas e a transparência

Morgan Spurlock, o autor do filme SupersizeMe, foi direto ao ponto transparência. Sua nova empreitada que vai sacudir o mercado publicitário, que não é o que se pode chamar de grande exemplo de transparência… A ideia foi criar um filme chamado “The greatest movie ever sold”, ou o “maior filme já anunciado”. O objetivo foi fazer um filme cujo único propósito era anunciar o próprio filme. Uma grande sacada. Ele foi atrás de marcas para ajudar a financiar, mas obviamente ninguém topou. É claro que durante todo o processo, Spurlock abusou do bom humor para mostrar como funciona o mundo da publicidade. Hoje, em média, uma pessoa recebe cerca de 1500 mensagens publicitárias por dia (procurei estudos sobre isso, quem quiser pode me pedir a fonte que variavam entre 800 a 3000 mensagens por dia – fiquemos na média). Faz-se de tudo para chamar a atenção para uma marca, muitas e muitas vezes prometendo aquilo que não pode ser cumprido… Spurlock disse que tem esperança que seu filme faça com que as companhias pratiquem mais a transparência, um elemento que ele disse ter sentido falta em suas viagens pelos Estados Unidos na produção.

Spurlock e sua nova empreitada: uma balançada no mercado publicitário

No mesmo bloco de Spurlock, coincidentemente ou não, falaram dois executivos responsáveis por grandes empresas, Indra Nooyi, da PepsiCo, e Bill Ford, da Ford. Bill Ford estava mais à vontade do que Indra, mas só no início da palestra. Bill mostrou que a Ford está sim preocupada com o impacto ambiental dos carros, mas partiu da premissa que o número de carros não vai deixar de crescer exponencialmente. Fiquei um pouco frustrado. Achei que ele apresentaria opções para um transporte mais eficiente e não apenas para carros mais eficientes. Segundo ele, temos hoje 800 milhões de carros, número que saltará para algo entre 2 e 4 bilhões em 2050. Assustador.

Indra perdeu uma grande oportunidade também ao focar demasiadamente no seu negócio. Ironicamente, ela começou dizendo que fez uma pesquisa e descobriu que apenas um pequeno percentual dos palestrantes do TED eram CEOs e que achava isso curioso e cuja explicação pode ser o fato de que os CEOs em geral não são confiáveis. Então, começou a falar (bem) sobre sua visão de negócio, sobre como uma grande empresa pode contribuir com o mundo e conquistar confiança dos consumidores desta maneira . E aí no segundo terço em diante, a palestra desandou. Indra se pôs a falar do Pepsi Refresh, um projeto muito bacana, mas que não tem nada a ver sobre a reinvenção do negócio em busca de sustentabilidade.

A plateia do TED não gostou nem ao vivo e nem nas redes sociais. Muitos criticaram a visão excessiva do produto. Eu fiquei particularmante incomodado com a visão onipresente da marca Pepsi nos slides. Enquanto muitas pessoas estão lá falando de projetos incríveis de vida ou da construção de um mundo melhor, o foco excessivo em um projeto de uma marca não caiu bem. No último bloco, num primor de transparência e abertura ao feedback, Chris Anderson deu espaço para que as pessoas fizessem falas de feedback de 1′. Uma delas foi dirigida à Ford e outra a Indra. A crítica à Ford foi a que mencionei (falta de visão do todo) e a da PepsiCo foi mais dura. No lugar de chamar a atenção para a reinvenção do processo produtivo, ao expor a marca em demasia, Indra atraiu a antipatia das pessoas. Então alguém disse que por mais que falasse bem da marca, não tinha como amenizar o fato de que a PepsiCo vendia água açucarada para as crianças.

Críticas à Pepsi: água açucarada para crianças

 

O caminho: diálogo

A mensagem foi mesmo dura, até radical, mas o ponto nem é este. O ponto é que as marcas e empresas ainda estão aprendendo a lidar neste mundo. O fato de um CEO do porte da Pepsi não entender como fazer uma fala em um evento de vanguarda como o TED mostra uma certa desconexão com o momento. E até explica porque não há tantos CEOs por lá. Será pelo fato de não falarem a mesma língua? A cobrança e interação das pessoas será cada vez maior. Definitivamente não será fácil a vida das grandes marcas daqui para frente se não conseguirem provar sua relevância.

O importante, principalmente para as marcas, é manter o diálogo. Depois de sua fala, o documentarista Spurlock ainda disse ao Huffington Post, que acredita que a transparência será algo cada vez mais necessário frente à vontade de as pessoas em saberem e trocarem mais informações via redes sociais. E de novo caímos no tema redes sociais e web. A crescente procura por transparência está crescendo graças à web e ao momento da civilização. Um site como o Wikileaks não existiria se não fosse tão fácil espalhar informações. As revoluções no Oriente Médio têm muto de sua força e rapidez graças à troca de informações. Apesar de ainda não ser livre e transparente em todos os lugares, como na China, por exemplo, de onde veio um vídeo gravado por Ai Weiwei, artista dissidente chinês cujo nome foi banido dos serviços de busca na web chinesa.

Ai Weiwei fez uma das reflexões mais profundas, que toca diretamente também no tema da transparência. Sobre sua situação e de outros na China, ele disse que as nações ocidentais estão tolerando aquilo que está acontecendo. “É uma visão curta. (…) Todo o sistema está se tornando corrupto e nossa sociedade está sacrificando o meio-ambiente, nossa cultura, para se tornar rica.” A frase de Ai Weiwei traz muitas reflexões. Uma delas pode ser a própria capa da Wired que está nas bancas neste mês, questionando o modelo de produção chinês para produzir gadgets como iPods e iPads, entre outros. A revista questiona qual a responsabilidade de cada um neste processo e se já não é hora de olhar mais a sério para isso.

Wired e a capa polêmica: você deve se preocupar?

Vício de jornalista, fui conversar com o outro lado, um amigo chinês que fiz lá em Palm Springs. Professor de universidade importante, intelectual, não bateu palmas ao final do vídeo gravado clandestinamente por Ai Weiwei e enviado ao TED. Aquilo me intrigou e mais tarde, em uma festa de confraternização da conferência, fui perguntar a opinião dele sobre o vídeo. Com semblante sério, disse que não gostou de ver “roupa suja sendo lavada em público”. Segundo ele, o governo chinês está fazendo tanta coisa, tirando tanta gente da miséria, que achava melhor dar crédito e tratar estas questões internamente antes de expôr o país nesta situação. Confesso que fiquei surpreso com esta reação, que carrega um sentimento de patriotismo maior até que a causa da liberdade de expressão. Respeito, mas acho difícil entender.

Países como a China abusam dos filtros na internet, mas eles não estão presentes apenas nas escolhas de agentes do governo. Eli Pareser, autor do livro “The Filter Bubble” fez uma fala bastante intrigante sobre este assunto. Segundo ele, os algoritmos que filtram as buscas do Google, Yahoo ou de qualquer outro serviço que apresente informações a seu pedido ou não, estão filtrando a realidade, escondendo informações desconfortáveis. “Os algoritmos não tem a mesma ética que os editores. Nós precisamos que os editores de informações coloquem um senso de responsabilidade nos algoritmos”, disse. “Eles mostram o que queremos ver e nem sempre o que precisamos ver.” Numa época em que se vive a busca por maior transparência, sem nem mesmo sabermos onde isso vai nos levar, não será surpresa a emergência de realidades mais cruas. É o que Morgan Spurlock falou em relação à transparência das marcas e o que começou a explorar em SupersizeMe e agora irá mais fundo no novo documentário. O mundo está cada vez mais em ON e com a definição de telas HD. Está cada vez mais difícil esconder as coisas.

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Na dúvida, pergunte à natureza

Emergência, Sociedade em Rede, swarm-effect (enxames), existem algumas palavras para falar da cada vez mais articulada sociedade  da era da informação. O caso que estamos vivenciando do WikiLeaks  é um excelente exemplo disso. (É um divisor de águas na maneira da sociedade lidar e se organizar com informações confidenciais – sem julgar a questão ética do que estão fazendo, tendo a achar que o movimento é bom para o jeito de nos organizarmos em sociedade, ainda que possa ser dolorido no início. Leia mais no post anterior). Assim que a PayPal, Visa e Mastercard bloquearam o fluxo de recursos para o WikiLeaks, hackers de todo o mundo se organizaram rapidamente para atacar estas empresas. Hackers independentes organizados sob um guarda-chuva chamado Anonymous, um caso exemplar de funcionamento de rede (de novo, sem julgar se o que fazem é certo ou errado).

Com a velocidade das mudanças, fica cada vez mais necessário ter velocidade para reagir rapidamente. Dentre as imagens para representar isso, conheci ontem esta abaixo, dos pássaros Starlings, da Inglaterra. Eles voam em bando ao final do dia com uma beleza estonteante. E é estonteante mesmo, inclusive porque este movimento também serve para afastar predadores (falcões). Até parecem os hackers do Anonymous confundindo os governos que aparentemente tentam bloquear o WikiLeaks a todo custo.

Mais: os starlings neste movimento trocam informações sobre onde podem encontrar alimentos durante um dia. Fazem isso com movimentos precisos, tanto que o responsável pelo registro dos vídeos disse que não viu nenhuma colisão em todas as vezes que observou os pássaros. É a rede, estúpido.

Ontem na palestra onde mostrou este vídeo @ricardo_thymus disse:

“Isto é sociedade em rede, não tem pirâmide, não tem um líder, mas cada um é líder dependendo da situação. Nesta sociedade, não há controle, e o dilema é como lidar com este mundo onde perdemos completamente o controle”

O maior impacto do vazamento do WikiLeaks foi até agora no governo americano, que está tentando se virar com o vazamento de informações. Inclusive este recente, grave, sobre o acordo EUA e China contra a Europa para boicotar Copenhague. Na sociedade em rede, vale quem você é e não quem você diz que é.

O mundo sem controle funciona? “Na dúvida, pergunte à natureza”, disse @ricardo_thymus. Pergunte aos Starlings.

 

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Causa e efeito – nossa maneira de se relacionar e pensar a vida – como foi o bloco 3 do TEDx Amazônia

(Fotos de Bruno Fernandes)

Design thinking é uma expressão que começa a ganhar força fora dos círculos onde ela nasceu. É a ideia de desenhar melhor o mundo em que vivemos. Cidades com trânsito caótico, superpopulação, lixo exacerbado, filas em aeroportos, desperdícios de logística etc – a lista é imensa – são todos problemas de desenho mal feito ou pouco pensado, sem visão de longo prazo.

Como tornar melhor nossas experiências de vida? Como aproveitar melhor nossos recursos naturais? Como viver colaborativamente devolvendo à natureza de maneira inteligente aquilo que produzimos? Há muita gente se preocupando com isso e a segunda metade do primeiro dia do TEDxAmazônia trouxe muitos insumos para esta discussão. Paul Bennett, diretor da Ideo falou do óbvio: a natureza é a maior fonte de inspiração, afinal “a Amazônia é a maior escola de Design Thinking do mundo”. Bennett não falou, mas poderia ter falado de biomimética, a nova disciplina que busca se inspirar na natureza como fonte de design. Isto não é novo, claro que não. As asas de aviões, por exemplo, foram inspiradas no vôo das aves. Há também uma borboleta do gênero Morpho que serve de inspiração para uma linha de maquiagem da L’Oreal . O próprio velcro foi criado pelo engenheiro suíço George de Mestral inspirado na natureza. O Estadão deu boa matéria sobre isso nesta semana.

O ponto é que ainda temos muito para aprender. O ecoeconomista Hugo Penteado foi ao palco depois de Paul Bennett para dizer que os economistas estão errados. Fiquei com a impressão de que a economia é o maior problema de design thinking já criado, à medida que impacta a maneira como vivemos há centenas de anos. “A economia é um bicho que não tem boca e não tem intestinos. Nada entra e nada sai”, disse Penteado para exemplificar que nos modelos econômicos não são considerados os recursos naturais como finitos. “Não existe jogar fora. O sistema é fechado (fechado nas fronteiras do planeta – debati recentemente esta questão no ResultsOn > veja aqui). O resultado é que transformamos o planeta numa grande lixeira, com a gente dentro”. E a pelo crescimento desenfreado que vivenciamos só tem feito piorar essa relação.

Não conhecemos a Amazônia, não conhecemos o fundo do mar, não conhecemos os limites de nossa relação com o planeta. E também pouco sabemos do que somos feitos, ainda que tenhamos avançado nessa descoberta nos últimos anos. Paulo Arruda falou da quebra do código da bactéria Xyllela Fastidiosa, responsável pela doença do amarelinho nos laranjais brasileiros. Os avanços da pesquisa genética, iniciados por Craig Venter com a primeira quebra de código de DNA ao custo de 2 bilhões de dólares em 2000 (fonte: Ciência Hoje), têm sido muito rápidos, ajudando a humanidade a se conhecer melhor. A previsão é de que em pouco tempo seja possível seqüenciar o genoma de uma pessoa por meros mil dólares. Que avanço! Paulo Arruda, assim como Venter, são entusiastas do que fazem, transformando a ciência com base no que acreditam.

Os palestrantes do TED e TEDx são escolhidos pela motivação, pelo entusiasmo, pela vontade e pelo que conseguem fazer com base nisso. Alguns nomes incríveis surgem nesta busca, como o de Zach Liebermann, uma das palestras que mais me prendeu a atenção. Liebermann costuma dizer que usa a tecnologia como forma de quebrar barreiras entre o visível e o invisível. O trabalho do qual mais se orgulha é o Eye Writer, que criou para ajudar um amigo, o artista plástico conhecido como Tempt1, que foi vítima de esclerose lateral amiotrófica e perdeu todos os movimentos do corpo, com exceção dos olhos (ele respira com ajuda de aparelhos). Com o Eye Writer, Liebermann conseguiu fazer com que Tempt1 voltasse a desenhar por meio dos olhos. Mais do que criar um aparelho, Liebermann ajudou a dar um novo sentido para a vida de Tempt1. Todo o esforço colocado no projeto se deu por uma causa simples e poderosa: a amizade.

Causas são incríveis combustíveis de mudança. Quando o castanheiro Zé Cláudio Ribeiro da Silva subiu ao palco e disse que enquanto tivesse força e vontade para andar e falar, ele não deixaria quieta sua indignação contra a derrubada da floresta. Jurado de morte algumas vezes, disse que cada vez que vê uma árvore sendo carregada em um caminhão era como se um membro da família estivesse sendo carregada em um cortejo fúnebre. A emoção da voz de Zé Claudio e sua conexão com a natureza têm a incrível força de mostrar o quando estamos longe da floresta nos centro urbanos. Não só fisicamente, mas emocionalmente também. A floresta é algo muito remoto para a vida urbana. Mas isso é só aparente. De onde vêm as madeiras das mobílias. A maioria da da madeira consumida no Brasil é ilegal, diz o Greenpeace. Quer dizer que provavelmente veio da natureza, sem qualquer controle. “Se as pessoas começaram a perguntar sobre a origem da madeira e rejeitar o que for ilegal, os madeireiros vão parar de derribar (sic) as árvores”, disse numa variação de português ingênuo, simples , mas com mensagem madura.

Depois da simplicidade de Zé Cláudio, veio a sofisticação escatológica de Michael Braumgart, se é que este oximoro é possível. O alemão subiu ao palco com uma cadeira simulando que ia ao banheiro. Um dos mandamentos para uma boa TED Talk é “começar forte”. Mais forte do que isso, impossível. Braumgart queria com isso ilustrar que o cocô, a merda, a bosta, é uma engenhosidade da natureza para realimentar o sistema. Então, num acesso de assertividade, Braumgart levantou da cadeira, pegou o crachá do evento, cheirou e disse num inglês com o cortante sotaque alemão: “This stinks. This is shit”, e jogou no chão. Não satisfeito com o choque que queria causar, fez o mesmo com o catálogo do evento. Chamou de merda o que na verdade não tem o mesmo sentido da merda. Uma confusão mental escatológica. E um posicionamento cristalino como a água de uma privada pós-descarga para dizer que nosso modelo de produção está errado. Os produtos que fabricamos não voltam à biosfera ou ao solo. Em suma: não são merda. Bom seria que fossem. Na minha opinião, a apresentação de Braumgart foi lendária, folclórica. Memorável. Assim como o terceiro bloco do TEDxAmazônia.

(CONTINUA)

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Colaboração, vida e diversão – o segundo bloco do TEDx Amazônia


Preparação para espalhar ideias, foto por Daniel Deak

Uma semana depois do TEDxAmazônia ainda continuam ecoando as mensagens, ideias, sacadas e  conversas. É impossível ficar indiferente. Fica sempre no ar a vontade de continuar em contato com a energia que emerge de uma reunião de 550 pessoas com o objetivo comum de espalhar ideias que valem a pena. Simples assim…

Há quatro meses, quando começou a preparação do evento, havia uma parede em branco, cheia de nomes para preencher. Com o tempo e a cada uma das duas reuniões semanais que deveriam começar às 20h, mas não raro começavam às 21h, os nomes foram surgindo na parede, o hotel ia sendo definido, o orçamento ia ficando mais apertado com tantas passagens aéreas para comprar e com tanta gente para hospedar e alimentar. Mas se a ideia era deixar as pessoas mais próximas da floresta para conhecê-la melhor, esta seria a contribuição do TEDxAmazônia para isto.

Aos poucos, as reuniões começaram a acontecer em paralelo: curadoria dos palestrantes, curadoria da audiência e logística. A grande maioria das pessoas trabalhando ali, voluntariamente. Peter Drucker tem uma frase que explica a razão: “What motivates – and specially what motivates knowledge workers – is what motivate volunteers. Volunteers, we know, have to get more satisfaction from their work than paid employees, precisely because they do not get a paycheck. They need, above all, challenge. They need to know the organization’s mission and to believe in it. They need continuous training. They need to see results”.

Não poderia ser mais verdadeira. Suficiente até para fazer bem-vinda uma reunião de três ou quatro horas na 2ª feira à noite. Simplesmente porque não era uma reunião, mas sim uma oportunidade de dividir causas, motivações e ideias. Outro dia vi na parede da sede do TEDxSP, TEDxAmazônia, Busk e Webcitizen — praticamente uma usina de ideias –, a seguinte frase,  ouvid em um dos TEDx:  “Aqui nos reunimos para fazer juntos aquilo que não conseguimos fazer sozinhos.” Perfeito: o ideal do TEDx é coletivo e o que aquele time de cerca de 20 ou mais pessoas fez foi um marco. Para a floresta, para o TEDx, e para quem esteve por lá.

Hotel Jungle Palace, sede do incrível TEDxAmazônia

O primeiro bloco encerrou com a emoção em alta. A ideia da curadoria era causar isso. Depois que todos os nomes foram para a parede em cada um dos blocos, olhamos um a um para tentar prever que tipos de emoção causariam. Digo tentar prever porque uma das mágicas da curadoria do TED tem a ver com o momento. Palestrantes que seriam as estrelas podem não estar tão inspirados no momento e decepcionar um pouco. Por outro lado, aqueles de quem se espera uma palestra boa, mas não espetacular, de alguma maneira crescem no espírito TED e entregam palestras matadoras. Tentar adivinhar as conexões é como construir uma revista em cada bloco. Como esta pauta (palestrante) vai se conectar com o próximo e como vai complementar ou contrapor o tipo de emoção que está sendo valorizada ali. Construir este quebra-cabeças é como tecer um texto (lembrando que a palavra texto tem sua origem etimológica em tecer. Tecer fios, tecer palavras, descobrir o fio da meada etc).

O segundo bloco, que chamamos de colaborar melhor, teceu vida, colaboração e diversão. Começou com Aaron Koblin, artista que transforma informações em arte. Koblin é mais um adepto da datavisualização, disciplina que vem emergindo nos últimos anos com o claro propósito de nos ajudar a enxergar o mundo melhor. Em um de seus trabalhos, representou vôos nos Estados Unidos como se fossem feixes de luz, transformando a malha aérea em gigantes fogos de artifício. Koblin também mostrou também o tributo colaborativo para Johnny Cash, feito com pessoas do mundo inteiro via web. (No TED Global deste ano, David McCandless mostrou também a arte de seus infográficos. É uma boa referência para quem quiser saber mais sobre este assunto. )

De certa maneira, a grande maioria dos palestrantes ajuda a plateia do TED ou TEDx enxergar melhor. Joan Roughgarden, que falou em seguida a Koblin, é uma especialista em diversidade. Apesar de ter sido um pouco técnica demais, sua tese ficou mais clara depois de conversar com algumas pessoas. E aqui valem umas palavras sobre isso.

Conversar sobre as palestrantes freqüentemente ajuda a enxergá-las sobre um novo ângulo. Não à toa, os intervalos do TED são um pouco maiores do que o normal, para dar tempo para alimentar as ideias. Faz toda a diferença. No caso de Roughgarden, bióloga que estuda a diversidade, captei da palestra dela a tese de que as relações íntimas existem para aumentar os laços e a colaboração entre as espécies. Nas conversas pós-evento, veio a sacada. Com um gráfico complexo, Roughgarden deu a entender que estamos todos juntos por uma grande “sacanagem”. Ela, que já foi ele antes de se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo, tem documentado cerca de 300 casos de homossexualismo entre animais. Todos criando laços de colaboração. Ao final, Roughgarden disse que a “família é uma empresa cujo produto é a prole”.

Já ouvi que o casamento é um negócio, um contrato. Mas confesso que ficou difícil pensar nestes termos frente à sensibilidade que a parteira Suely Carvalho trouxe para a entrega da vida, o parto. Com fotos cruas de partos naturais, Suely foi firme para dizer que é preciso dignificar a vida como um milagre e recebê-la como tal. “A cesariana salva vidas, mas deve ser usada como tal, e não como uma escolha para receber a vida.” Depois dela, veio a cineasta Diana Whitten, que durante três anos acompanhou o trabalho da Womenonwaves.org, conhecida como o “barco do aborto”, filmando o documentário Vessel. A entidade leva a possibilidade do aborto para lugares onde isso é proibido, apoiadas na crença de que mulheres que querem o aborto acabam fazendo isso de qualquer maneira, muitas vezes colocando em risco à própria vida.

André Abujamra, divertindo a plateia, foto de Daniel Deak

Depois de Whitten, era mesmo necessária uma pausa para sentir. O músico Andre Abujamra, um fã do TEDx, que aceitou com o maior prazer o convite de palestrar, subiu ao palco e ajudou a descontrair. Ele tocou “na unha” depois de tentar três vezes que o retorno funcionasse. Abujamra cantou, simulou voar e divertiu.

“Duvião o rio é veia, du rio vião é passarim
Olha só aquele prédio, duvião é drops
Olha só o elefante, no Zimbabwe
Duvião é ratim, e as pessoas
Duvião é formiguim”

A diversão continuou no palco com a excelente palestra de Rafael Kenski, que acabou de voltar de Londres onde fez pós-graduação sobre análise, design e gestão de sistemas. A tese de Rafael é que o melhor jeito de trabalhar é se divertindo e que é possível mudar o mundo, fazendo isso. “O contrário de diversão não é trabalho, é depressão”, disse. Na seqüência, o carismático Edgard Gouveia Jr contou sobre o Oásis, projetos colaborativos baseados em jogos entre equipes para a cuidar de localidades, como ajudar na recuperação de desastres, como Santa Catarina na enchente de 2008. Com o sucesso, o Oásis se espalhou por outros 90 projetos no Brasil e no mundo.

Colaboração, vida e diversão. O segundo bloco do TEDx Amazônia trouxe três assuntos que não deixam ninguém indiferente.

(CONTINUA)

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O poder das empresas de mudar o mundo

Abaixo, compartilho o material que prepararei para minha fala no TEDx Santos, no último 28 de setembro. Em breve, deveremos ter o vídeo da palestra. E aí voltarei ao assunto aqui. Espero que gostem.


O incrível potencial de conexão das pessoas pode provocar a mudança de prática das empresas, que podem mudar o mundo. É claro que ninguém resolve nada sozinho. As empresas precisam da ajuda de governos, academia, mídia, enfim, a sociedade como um todo. Mas quero focar aqui no poder das empresas.

A economia é o jeito pelo qual estamos organizados. Com honrosas exceções que confirmam a regra, como Gandhi, Martin Luther King e Madre Teresa de Calcutá, são os recursos financeiros que influenciam a mudança do mundo.

Nos últimos 10 anos encontrei casos de empresários e empreendedores que estão mudando o mundo com uma série de pequenas ações.

Esta história passa um pouco pela minha carreira. Sou jornalista e depois de alguns anos trabalhando na imprensa em veículos como Veja, Você s/a e Zero Hora, recebi o convite para trabalhar no Banco Real em 2003. Aceitei. Não porque sempre tive o sonho de trabalhar em um banco, mas porque achava que um banco que negava empréstimos de milhões de reais para alguns clientes por questões ambientais e na outra ponta fazia empréstimos de quantias como 1000 reais no microcrédito investia em algo que sempre acreditei: valores.

Tomei a decisão ir trabalhar no Banco e quando me dei por conta, eu, um surfista, estava usando terno, gravato e sapato e meia preta todo o dia. Depois de uma breve passagem pelo marketing, fui para a Diretoria de Desenvolvimento Sustentável para ajudar a estruturar a comunicação sobre o tema. Nestes últimos sete anos, tive a oportunidade de conhecer uma grande quantidade de empreendedores e pessoas que praticam a sustentabilidade como estratégia central de negócio.

Gostaria de apresentar a vocês aqui alguns destes nomes. Quero por meio disso mostrar que está ao alcance de todos e que podemos, sim, fazer um mundo melhor por meio do ambiente dos negócios.

Há um ditado budista que diz que não conseguiremos fazer um mundo melhor com 100 grandes ideias, mas sim com pequenas ações no dia-a-dia.

Há estudos mostrando que das 100 maiores economias do mundo, cerca de 50 são empresas (os dados variam ano a ano de acordo com o faturamento das empresas e PIB dos países). É reflexo de um processo que começou na revolução industrial e fez o poder mudar de mãos: da igreja e Estado para a instituição corporação.

As empresas têm o poder econômico e são capazes de influenciar até decisões de governo e mudanças nas cadeias de negócios.

E aqui fica a pergunta para reflexão: como usar bem este poder? O que valorizar? O que queremos construir com as empresas?

Vou citar alguns exemplos agora: há pouco anos, quando começou a olhar de forma estrutuada para o tema sustentabilidade, o Walmart, uma das maiores empresas do mundo, tomou a decisão de não mais comprar de fornecedores que não pescassem de de maneira sustentável. Isso provocou uma grande mudança em milhares de fornecedores ao redor do mundo que começaram a cuidar destas questões.

Farra do Boi na Amazônia, estudo do Greenpeace

Não precisamos ir longe. No ano passado, o Greenpeace lançou um relatório chamado a Farra do Boi sobre o avanço da pecuária sobre a Amazônia. Em seguida, três grandes varejistas decidiram que não mais comprariam carne de frigoríficos que não conseguissem provar que os animais abatidos não vinham de pastos criados com o desmatamento ilegal. A reação foi rápida e os frigoríficos mudaram suas práticas.

Está cada vez mais claro que as restrições financeiras ajudam a mudar algumas práticas. Mas será que é somente disso que precisamos ou que conseguiremos fazer a mudança necessária?

A resposta é não. E há exemplos disso. São os empresários e empreendedores, os heróis do dia-a-dia, que provam que não.

São líderes que reconhecem a importância da interdependência em nosso dia-a-dia. E sabem que suas atitudes são capazes de mudar o ambiente de negócios para melhor.

As empresas que estão conquistando mercados hoje estão deixando de lado a máxima cristalizada de Milton Friedman, prêmio Nobel, que o negócio dos negócios são os negócios. Sim, são os negócios, mas também algo mais: investir em modelos de negócios sustentáveis.

Peter Drucker, o grande guru da administração moderna, lembra que as empresas existem por uma finalidade: o cliente. Vamos pensar por um momento no cliente como sociedade, ousando criar algo em cima da obra de Drucker.

O aumento da percepção da interdependência e da relevância de todos interessados nas decisões do cliente, a empresa só existe se estiver de acordo com as vontades da sociedade. Regulações, disputas de clientes, multas ambientais – se a empresa fizer algo que não agrada ao cliente, à sociedade, será processada por isso.

Neste sentido, o lucro não é um fim, algo a ser buscado – mas sim uma medida de sucesso, o teste de viabilidade. Se atender ao cliente, à sociedade, o lucro será consequência.

Essa perspectiva tira o foco de resultados e leva para a visão de que é necessário gerar valor. O que importa cada vez mais quando olhamos para os resultados da empresa não é somente o quanto os resultados mostram, mas como eles foram atingidos.

Nos próximos anos, quatro tendências vão marcar o mundo dos negócios: colaboração, ética, transparência e sustentabilidade. De certa maneira, elas estão todas ligadas e as empresas que olharem para isso terão grandes vantagens competitivas.

Algumas empresas conseguem lucrar colocando estas questões no dia-a-dia dos negócios. Empresas que negligenciam ou ignoram estão virando pó.

Vale lembrar do que aconteceu com as grandes empresas em casos nem tão recentes, mas emblemáticos: Enron, WorldCom. Estas empresas manipularam os balanços para mostrar bons resultados para os acionistas. Acabaram desmascaradas.

A capa da Time com as mulheres que denunciaram os escândalos da Enron e outros


Pesquisas indicam que os seres humanos são movidos à reciprocidade. As redes sociais espelham isso. O famoso toma-lá-dá-cá. Se você fizer algo que eu gosto, devolverei isso a você. Se me fizer mal, farei mal a você também. Estas empresas trapacearam, tiveram falhas graves de gestão e tentaram esconder isso dos consumidores e da sociedade. A WorldCom entrou em processo de falência e foi adquirida por outra empresa. A Enron faliu em 2001 e levou junto a consultoria Arthur Andersen, que aprovara os balanços.

Aparte a visão maniqueísta, são exemplos claros da visão sistêmica, de que as empresas fazem parte de um todo e não operam de maneira independente.

Na outra ponta, temos empresas como a Natura, que alavancou sua marca investindo em questões relevantes para seus consumidores, fornecedores e sociedade, criando produtos que valorizam o meio ambiente e as relações entre as pessoas. Em 2005, depois de uma trajetória brilhante, a Natura abriu o capital, num processo muito bem-sucedido. Em 2007, no entanto, teve problemas de gestão de produtos e não conseguiu atender a demanda dos consumidores. O mercado penalizou as ações das empresas e o momento serviu para a Natura se apoiar firmemente nos seus valores. Não cedeu às pressões do mercado e deu a volta por cima e em 2009 foi escolhida a empresa do ano pela revista Exame.

A Natura, melhor empresa de 2009

Outro exemplo vem dos Estados Unidos. Em 1972, foi fundada a incrível Patagônia, empresa de roupas e materiais esportivos, que ajudou a criar uma rede de empresas chamada 1% para o planeta e entre outras coisas, deixa que os funcionários montem suas agendas de acordo com suas vontades, como surfar ou escalar montanhas em dias perfeitos para isso. O fundador escreveu um livro chamado Let My People Go Surfing. Nele, fala da maturidade de reconhecer a responsabilidade de cada um e valorizar isso para criar um bom ambiente de trabalho. Então, não se trata de ser ‘bom mocinho’, mas de apostar na maturidade.

O livro com a biografia de Yvon Chouinard e a história da Patagonia

Mas eu queria também falar aqui de outros casos nem tão conhecidos, mas igualmente relevantes. Nem só de grandes empresas é feito o mundo dos negócios. Muito pelo contrário. As pequenas empresas, que representam o maior contingente de empregos no Brasil. Hoje, de cada três novas vagas, duas são geradas nas PMEs.

Há empreendedores de pequenas e médias empresas que encontraram seus nichos e encontram eco para o que fazem no reconhecimento do mercado.

Ione Antunes é outro exemplo. Ela criou em 1996 a empresa Help Express, de entregas de materiais por meio dos famosos motoboys. Ione desde o início acreditou que os motoboys não precisariam ser maltratados ou que era necessário remunerá-los por entrega em vez de assinar suas carteiras. Sempre cuidou bem deles e até os estimulou a criar um código de ética, onde constam pérolas como: Não ficarás no fliperama e não chutarás o retrovisor alheio. Na última década, com estes cuidados simples, mas poderosos, Ione conseguiu fazer sua empresa crescer na faixa dos 40% ao ano.

Vamos pensar em outro exemplo. Academia de ginástica. Quem nunca começou a fazer academia e se sentiu incomodado com a barriguinha ou mesmo com o ritmo que os treinadores tentavam impor? E aquele ambiente 100% geração saúde… Tony, um empresário paulistano, percebeu que isso incomodava seus pais e por conta disso nunca encararam uma academia. Segundo ele, muita gente vai fazer atividade física por recomendação médica e precisa se sentir à vontade para continuar o ritmo de exercícios. Então, ele, que sempre gostou de esportes, criou um conceito diferente de academia, a Ecofit, para acolher estas pessoas. Cresce 30% ao ano…

(Este caso não entrou na fala por conta do tempo.) Agora, vamos pensar no turismo. Em pousadas em locais paradisíacos. Estes locais, quando viram moda, correm o risco de perder seu maior encanto, o caráter preservado. Em 1992, um empresário dono de pousada, decidiu reproduzir no Brasil o conceito de Relais Chateau, de pousadas de charme, que existe na Europa e em outros lugares do mundo. E criou por aqui a Roteiros de Charme. Para fazer parte da associação, a pousada precisa cumprir requisitos básicos de charme, sofisticação, estar em um lugar agradável e ter cuidados sociais e ambientais. Todos os associados passam por vistoria periódica. Mais do que isso: cada associado leva para sua região a preocupação com os cuidados das pessoas e do meio ambiente por meio de palestras para outros hotéis da região. A Roteiros de Charme vai muito bem, obrigado.

(Este caso também não entrou na fala por conta do tempo.) Em outro exemplo, o americano Ray Anderson, fundador da Interface, fabricante de carpetes, diz que mudou seu negócio por basicamente duas situações. Por que leu um livro chamado Ecologia do Comércio, de Paul Hawken e por que um consumidor perguntou a ele o que fazia com os carpetes usados… Ele não sabia a resposta. Mas não teve medo da pergunta e a levou para dentro da empresa, para transformar seu negócio.

Estes casos mostram empresas absolutamente afinadas com seu tempo. O Brasil e o mundo evoluem rapidamente, junto com o ambiente dos negócios. Os consumidores estão mais exigentes e cobrando seus direitos. Há muitos lugares para se fazer ouvir: além dos tradicionais rádio, TV e jornal, há sites de Procon, de estímulo a cidadania, sem falar das redes sociais: Facebook, Orkut, Twitter etc.

Os jovens e consumidores em geral já não prestam atenção somente às propagandas, mas cada vez mais naquilo que é dito sobre as marcas em diversos lugares, como nas redes sociais. É lá que eles buscam informações de compra.

O mundo é cada vez mais transparente, não há como empurrar uma imagem para o consumidor e entregar outra coisa. Este ano tivemos um episódio que já ganhou seu espaço na história. Foi o caso da British Petroleum, a BP, que estava querendo mudar seu nome para Beyond Petroleum, para ligar a marca ao desenvolvimento de energia limpa. O desastre com a plataforma Deepwater Horizon, um dos maiores da história, jogou tudo por água acima. Independente de quem tenha sido a culpa, este foi um abalo tremendo na imagem da BP. E uma perda de 70 bilhões de dólares em valor de mercado… Além do CEO que foi demitido.

O vazamento que custou 70 bilhões de dólares para a BP

Imagem é tudo neste novo mercado. A reputação está na lista principal das prioridades de CEOs mundo inteiro. Ignorar a voz dos consumidores é se fechar para este mundo. Ouvi-la é se conectar.

O que importa é o que fazemos no dia-a-dia. Cada decisão de negócio. Os empreendedores e empresários que são movidos por uma causa, querendo transformar o ambiente onde atuam suas empresas não buscam desculpas nos impostos ou na fiscalização antiética. Eles direcionam o foco dos seus negócios para colocar em práticas seus valores, sua visão de mundo. Estes empreendedores têm o lucro trabalhando a favor da causa.

Na década de 80, a indústria tabagista fez de tudo para esconder os impactos do cigarro no corpo humano, lembrou um artigo da Harvard Business Review recentemente. No início deste milênio, a indústria alimentícia foi pró-ativa para substituir a gordura trans na alimentação, para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Também no início desta década, os bancos começaram a analisar os impactos socioambientais dos empréstimos. Ou seja, o dinheiro que estou concedendo para clientes. Como ele vai ser usado? Se, por exemplo, em negócios como o desmatamento ilegal, além de prejudicial ao meio ambiente, pode virar uma multa que vai inviabilizar a empresa e vai impactar no pagamento do empréstimo. Uma incrível mudança de atitude num curto período de tempo.

Ao contrário da visão cartesiana, as empresas são cada vez menos vistas como sistemas mecânicos, mas sim como organismos vivos, que fazem parte de um todo. E organismos vivos possuem valores, que influenciam as atitudes na sua essência.

As empresas e os empreendedores não podem ser vistos como mal necessário, que precisa ser vigiado ou regulado. Mas para ganhar esta confiança, os líderes precisam expandir o alcance da empresa para além do lucro, criando um novo jeito de fazer negócios. E vejam só: empresas que se preocupam mais com estas questões têm uma melhor performance financeira. É o que temos percebido na análise de risco socioambiental das empresas elegíveis.

A preocupação com o novo jeito de fazer negócios está cada vez mais sendo valorizada pelo mercado, como na criação de índices e rankings. Um índice que mostra as 100 empresas mais éticas, feita pelo instituto Ethisphere, mostra que as empresas mais éticas tiveram performance até 50% superior comparado às empresas presentes no S&P 500, índice que reúne 500 grandes empresas. Outro estudo, da A.T. Kearney, mostrou que durante a crise financeira em 2008, as empresas que mais se preocupavam com sustentabilidade tiveram também performance melhor. A listas das melhores empresas para trabalhar tem retorno na bolsa maior do que as listadas nas maiores e melhores da Exame.

Ou seja, Respeito é bom – e dá lucro!

Pergunte para Ione e seu time de motoboys. Tony na Academia. Helenio no Roteiros de Charme. Ray na Interface. Yvon na Patagonia. Fábio Barbosa no Santander…

A causa de cada um deles é muito clara. É a mesma que a minha: acreditar que podemos transformar o mundo por meio da ação das empresas.

Para encerrar fica a pergunta: que mundo queremos valorizar com nossas empresas? Como podemos usar o poder transformador das empresas para construir um mundo melhor? Qual a sua causa?

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Felicidade, blogs, bancos, surfe, TED etc – a seleção da semana

Está cada vez mais difícil manter a regularidade neste blog em função do dia-a-dia atribulado no trabalho e mais as funções de família.

Estava pensando como equacionar esta questão neste final de semana e vou tentar fazer algo diferente. Como passo por dezenas (talvez centenas) de artigos, links, sites etc durante a semana e acho muita coisa legal, vou tentar fazer regularmente uma espécie de curadoria com aquilo que me interessa e que pode interessar a vocês que acompanham por aqui.

É importante ter o feedback porque não tem a menor graça escrever sozinho. Cada comentário, cada nova ideia, é um estímulo para seguir. Sem isso, vou ficar pelo caminho! Não é um pedido, é só um fato! (risos)

O que vi de legal por aí nesta semana:

Estudo da new economics foundation sobre bem-estar na Inglaterra

O gráfico abaixo (feito pela new economics foundation, organização do Nic Marks, a quem tive a honra de conhecer no TED Global, em Oxford) mostra como as pessoas se sentem em relação ao seu bem-estar. O resumo diz que as pessoas na Inglaterra se sentem melhor do que os europeus na média, mas que ficam para trás em termos de confiança e sentimento de ‘pertencimento’. Um dos pontos mais debatidos é sobre quanto o dinheiro teria impacto nisso. O que a pesquisa mostra é que mais dinheiro impacta mais na falta de sentimentos negativos e aumenta a percepção sobre uma vida satisfatória, mas não significa que aumenta a confiança ou o sentimento de pertencimento. E, aparentemente, traz a sensação de que a confiança aumenta com a idade.

Gráfico sobre o bem-estar inglês

Os melhores blogs de 2010, da Time

Este não é novo, mas sempre vale compartilhar. Lista da Time com os melhores blogs de 2010.

A experiência com blogs do Guardian

Ao contrário de querer resistir às mudanças da maneira como as pessoas se comunicam, o jornal Guardian, da Inglaterra, resolveu fazer uma experiência, reconhecendo o poder dos blogs como disseminadores de notícias. Se você é um blogueiro do wordpress, você poderá postar os artigos do Guardian diretamente na sua página. Ou seja, está liberando seu conteúdo de graça. Há algumas condições, porém: você precisa se registrar e terá que publicar o artigo por completo, com anúncios, inclusive. Desta maneira, o veículo reconhece que muitas pessoas republicam o seu conteúdo, estimulam isso, mas ganham a possibilidade de aumentar a exposição dos anunciantes. Muito engenhoso, transparente e sem querer brigar com o futuro, como estão fazendo os veículos que ‘fecham’ o conteúdo em um mundo que se abre cada vez mais.

O banqueiro das pessoas

Matéria sobre Simon Warburg, mostra que a vocação original dos banqueiros pode ter se perdido com a ganância por acumular dinheiro e que talvez não existem mais banqueiros, como Warburg, que acreditava ser sua principal missão entender, valorizar e satisfazer os clientes.

Editorial de moda e conteúdo da Patagonia

A Patagonia, a marca criada por Yvon Chouinard, faz sempre coisas incríveis. O último editorial de surfe apresenta as novas roupas em uma revista eletrônica, acompanhada por matérias e fotos excelentes. Os temas estão ligados à proteção de praias com excelentes ondas. É um misto de conteúdo editorial com propaganda muito bem-feito. Quem gosta de surfe, vai se deliciar. Quem não gosta, vai ver belas fotos e uma excelente referência de como vender sem invadir, se é que me entendem. O editorial faz ainda referencia à organização Save the waves, que ajuda a proteger as praias de bom surfe. Ou seja, propaganda com causa, um belo caso de branding.

Editorial de moda e conteúdo da Patagonia é um show de imagens

TED Talk da semana – Chip Conley – medindo aquilo que faz a vida valer a pena

“Nem tudo que pode ser medido, conta. E nem tudo que conta, pode ser medido.” Albert Einstein

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Por que o Cala Boca Galvão deu certo

Na primeira Copa do Mundo das redes sociais, a criatividade brasileira ganhou um troféu. E o potencial de disseminação de ideias neste mundo de hipervelocidade de informação ficou muito evidente, mais uma vez. O case do CALA BOCA GALVÃO ganhou os trending topics do Twitter e até atenção da mídia internacional, no NYTimes e no El País, para ficar em dois exemplos.

A brincadeira de juntar um tema que está com toda a atenção da mídia, o ambientalismo, como ‘cavalo de tróia’ para levar adiante a brincadeira de tentar calar o mais notável dos comentaristas brasileiros, ganhou o mundo.

A ideia foi disseminar a campanha de que para cada tweet enviado, 10 centavos de dólar seriam doados para o Instituto Cala Boca Galvão, que protege os raros Galvão Birds. Segundo a campanha, são 300 000 pássaros exterminados ao ano para que suas penas sejam usadas no Carnaval. Teve até filme no YouTube

Brasil (bola da vez), Carnaval (a maior festa do imaginário no planeta) e ambientalismo (preocupação planetária) foram as receitas para a brincadeira ganhar tanta força.

E como o evento ficou nos trending topics do Twitter, teve muita gente curiosa e outras tentando explicar que o Cala Boca Galvão não se refere a salvar pássaros. Como a Advertising Age

Também teve a história que o CALA BOCA GALVAO seria uma canção da Lady Gaga, mas essa não colou muito e não é tão elaborada assim.

Vale explorar ao menos dois aprendizados desta incrível brincadeira:

1. A reação, elegante, do Galvão Bueno, uma “máquina bombástica de clichês”, segundo o NYtimes (clique aqui). Galvão evocou Ayrton Senna (um mito) para mostrar que é maior do que isso. Disse que o Senna, seu amigo, já o chamava ele de papagaio há muito tempo e agora fizeram este link com o papagaio. Galvão se auto-assumiu um tagarela. Aqui, um trecho de sua fala. É claro que a campanha tem o seu motivo de ser. O Galvão é muito chato em algumas transmissões e me deixa particularmente irritado em transmissões de jogos entre Grêmio e um time paulista (e acho que isso vale para qualquer torcedor de time de fora de São Paulo) com a imparcialidade com que narra. Ele, que é esperto, deve tirar algum aprendizado desta história. Mas não quis ir contra e isso é o que vale no mundo das redes sociais. Simplificando as coisas, é mais ou menos como crianças na escola. Aquele que mais se irrita é quem mais sofre. E a própria Globo fez um jogo brincando com as principais frases do Galvão. O jornal El País publicou. (Recentemente, uma grande empresa de produtos alimentícios reagiu muito mal ao protesto de fãs da página do Facebook em relação a um problema em um produto. Conseguiu ganhar a antipatia das pessoas e um problema que estava restrito ganhou uma dimensão muito maior. O jeito de as marcas (considerando o Galvão Bueno e a Globo como marcas) faz toda a diferença neste novo mundo das redes sociais. Tem que entender espírito do tempo…)

2. A brincadeira coletiva. Teve gente dizendo: por que o Brasil não se mobiliza para calar o Sarney ou para fazer outras coisas para um país melhor. Poderíamos ter várias explicações. Eu arrisco uma: o prazer. Ter o sentimento de fazer uma pegadinha coletiva funcionar no mundo inteiro não tem preço. A reação é imediata, divertida. O prazer é instantâneo. Falar para o Sarney sair é chato. Política é chato para a grande maioria das pessoas. Fazer a sua parte para um Brasil melhor é algo muito mais profundo. Enviar um tweet falando CALA BOCA GALVÃO é algo descompromissado, leve. Ou seja, não são coisas comparáveis.

Mas ficou uma dúvida: que fim levou a faixa que estava no início do jogo, com um recado para o Galvão?

Leia mais: O TED, as ideias e o incrível potencial multiplicador da internet

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