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A mólecula do amor

Texto publicado originalmente na revista Vida Simples, edição de 12/2011.)

Mente: o desafio é fazer o elefante e o condutor conversarem

Livro recebido de presente vai para o topo da lista da cabeceira. Nunca me arrependo desta máxima em que resolvi apostar. Não foi diferente com “The Happiness Hypothesis”, de Jonathan Haidt (infelizmente sem tradução em português), que ganhei de presente de um amigo que conheci no TED Global, em 2010, em Oxford, na Inglaterra. Meio ano depois, tive a oportunidade de reencontrá-lo e falar para ele o quanto este livro havia transformado minha vida e o jeito de ver o mundo.

Haidt é um psicólogo que estuda a moralidade e as emoções ligadas à moral. Este é o pano de fundo do livro, que trata de 10 grandes ideias, uma para cada capítulo. Haidt descreve estas ideias com base no conflito diário que nossa mente trava entre o que ele chama de elefante e o condutor. A parte consciente da mente é o condutor, que tem apenas um controle limitado do elefante, o inconsciente. O desafio é fazer com que os dois trabalhem de forma integrada, controlando — ou tentando controlar — nossas reações.

Haidt acredita que hoje existem três maneiras de fazer a mente trabalhar de maneira diferente, ajudando pessoas com uma “constituição infeliz” a verem o mundo de forma mais positiva. Uma das três maneiras é uma prática milenar, a meditação. As outras duas são mais modernas: terapia cognitiva e Prozac. De certa maneira, apesar de uma delas ser remédio, para casos extremos, é reconfortante pensar que o bem-estar da mente e a felicidade dependem basicamente de três coisas que podem um dia estar ao alcance de todos. Mas talvez exista algo mais fácil e quase instantâneo.

Nos estudos que fez para o livro, Haidt descobriu o poder de conexão da oxitocina e foi lá a primeira vez que ouvi falar deste hormônio. O livro fala de um estudo que mostra como a oxitocina foi liberada em mães latentes mais do que o normal somente por verem um video inspirador de um músico que recebeu ajuda do professor para largar a vida de gangues de rua.

Até já havia falado aqui da oxitocina, mas a  boa nova é que agora a palestra do neuroeconomista Paul Zak está no ar (http://bit.ly/tpiAvx). Em pesquisas aprofundadas, Zak descobriu que a oxitocina se manifesta em relações de confiança. Ele fez testes envolvendo transferências de dinheiro, em casamentos e até em saltos duplos de paraquedas. Zak descobriu que quanto mais confiança, mais oxitocina, mais confiança… A oxitocina é liberada quando nos sentimos bem, quando nos sentimos parte de algo maior, quando a confiança está no ar.

Ao final de sua palestra, lembrou que existe um jeito muito fácil de fazer o corpo produzir oxitocina: por meio de abraços. Oito por dia, mais especificamente. Ele ainda brincou que é chamado de Dr. Amor por causa disso. Mas esta é uma brincadeira muito séria. O amor é a base da vida em sociedade, a base da confiança. É o sentimento que nos torna possíveis como grupo social. É o que em, última instância, nos faz feliz. Então, além da meditação, terapia cognitiva e Prozac, quem sabe abraços para nos sentirmos melhor?

(veja aqui a palestra de Paul Zak no TED)

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O que é importante

Texto publicado originalmente na revista Vida Simples, edição de 11/2011)

Aqui há muita coisa que importa

Em agosto passado, fui até a Ilha Grande, no Rio de Janeiro, para organizar um TEDx in a Box, programa piloto do TED para eventos com poucos recursos. O público foi a brigada mirim ecológica, formada por jovens na faixa dos 14 anos que realizam ações ambientais na ilha.

Estávamos preparando o evento na Vila de Abraão, a comunidade principal da ilha. Era um dia de semana, com céu cinza, contrastando com a água verde-esmeralda da baía. Um dia ordinário na Ilha Grande. De repente, no casarão onde o evento seria realizado, surgiu a Neuseli. Na casa dos 50 anos, por volta de 1,60 metro, cabelos curtos brancos, brancos, Neuseli roubou a cena quando chegou contando sobre o livro Onde Deixei meu Coração, que havia escrito sobre a praia do Aventureiro, a dez horas de caminhada dali (somente carros oficiais circulam na ilha).

Neuseli tinha acabado de chegar de Aventureiro e no dia seguinte já iria voltar, como se estivesse indo na esquina comprar pão. Ela esbanja vitalidade e – mais importante – felicidade. Aproveita como ninguém a liberdade de ir e vir, ainda mais porque já se discutiu a retirada de moradores para preservar a praia de Aventureiro. Mais recentemente levantou-se a discussão sobre transformá-la numa Reserva de Desenvolvimento Sustentável, assim os moradores não precisariam sair de lá.

Em entrevista a um site, Neuseli diz que a maioria da comunidade não quer se mudar. “Sabemos conviver com a natureza. Queremos o direito de permanecer nesta localidade e meios dignos de sobrevivência, como plantar, pescar, fazer turismo (…).”

Vendo sua disposição e alegria de pertencer àquele lugar, eu me lembrei, primeiro, de um amigo que escreveu no Twitter dia desses: “Onde tem natureza, não tem miséria”. Em seguida, me veio a imagem de uma família de balinesas com quem convivi por dois meses entre as sessões de surfe numa viagem para a Indonésia. Eram mulheres que tinham apenas roupas, uma casa humilde, comida e família. Sua fonte de renda eram as massagens que faziam em pequenas construções de madeira nas praias paradisíacas de Bali. Não pegavam trânsito, não se atrasavam para os compromissos, não tinham dívidas para pagar a TV de LCD e não queriam sair de lá. Mais conforto poderia ser bom para elas, mas, sem saber disso, viviam a vida com sorrisos no rosto.

Vendo a felicidade da Neuseli e lembrando-me das balinesas, comecei a pensar na vida agitada da cidade, na poluição das grandes metrópoles, no trânsito, na sedução do consumo… E continuei pensando, até pegar o avião de volta para São Paulo, entrar novamente na rotina agitada e encontrar um tempo para escrever este texto…

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De novo: o PIB não é índice de progresso

Felicidade é mais do que um PIB gordo

Felicidade é mais do que um PIB gordo

Não é novidade que este blog é fã de Eduardo Giannetti da Fonseca, um dos economistas (pensador) mais modernos destes trópicos, senão do mundo. Com sua brilhante simplicidade, Giannetti traz metáforas esclarecedoras sobre o modelo de desenvolvimento que temos baseado no crescimento e que traz  problemas como o das mudanças climáticas. No último 4 de setembro, o Estadão publicou uma entrevista excelente em que o economista repercutia a decisão de alguns bilionários pedindo para serem taxados para redistribuir renda. Mas este não era o ponto principal, e sim uma discussão sobre modelos de desenvolvimento, passando pelas decisões dos empresários, quase sempre de olho apenas no lucro, sem levar em conta como este lucro é obtido. E principalmente pela falta de visão da humanidade em geral para colocar na conta tudo o que é utilizado de recursos naturais para produzir o que consumimos. Vou reproduzir alguns trechos aqui:

A valorização do chamado ‘instinto animal do empresariado’ ainda tem lugar em uma sociedade que fala cada vez mais em sustentabilidade e consumo responsável?

Se tivermos que esperar a regeneração moral da humanidade para resolver o problema ambiental, estamos fritos. Ela não vai ocorrer. E quem imaginar que outro modelo econômico implantado de cima para baixo dará conta do recado, também está enganado. A pior experiência ambiental do século 20 é a da União Soviética. O que se percebe agora é que o mercado competitivo regido pelo sistema de preços padece de uma falha extremamente grave no tocante à relação entre o ser humano e o mundo natural. Ele não fornece uma sinalização adequada dos custos ambientais envolvidos em nossas escolhas de produção e consumo.

Explique melhor.

Por exemplo: vamos comparar duas opções de geração de energia elétrica. Na solar, na melhor tecnologia existente, o custo é de US$ 0,17 por quilowatt/hora. Ele está caindo e pode chegar US$ 0,10 nos próximos anos. Já uma termoelétrica a carvão gera um quilowatt/hora, igualzinho, por US$ 0,02 a US$ 0,03. Qual é a opção lógica de uma empresa que esteja no mercado ou de um país que queira ser competitivo? É o que a China está fazendo: termoelétrica a carvão. Só que essa comparação é tremendamente distorcida. E o custo da emissão de CO2 gerado pela queima do carvão? Não aparece na conta. É como se o custo imposto à humanidade e às gerações futuras não existisse. Outro exemplo: quando você come carne, paga a criação do gado, a pastagem, o transporte, a embalagem, mas não a emissão de CO2. Só que se você somar todo o rebanho mundial, bovino, suíno e aviário, a emissão de CO2 equivalente é maior do que de toda a frota automobilística do planeta. Os preços que pagamos pelo que fazemos não estão refletindo o custo total do que estamos consumindo. É essa a falha grave do sistema de preços a corrigir.

Essas coisas terão que custar mais?

Sim. O preço é um pacote de informação econômica: ele reflete, de um lado, o custo de produzir e, de outro lado, a satisfação que o consumidor tem ao consumir. Em nenhuma das duas dimensões hoje em dia está incorporado o aspecto meio ambiente, o uso de recursos naturais não renováveis, água, emissão de gases nocivos. Isso terá que ser incorporado. O problema é que se formos depender da boa vontade das empresas ou dos consumidores, isso não vai mudar. A British Airways introduziu recentemente, para o cliente de passagem aérea, a opção de pagar na emissão do bilhete o crédito de carbono correspondente ao trajeto. Imaginando que, como o mundo está aparentemente desesperado com o aquecimento global, os passageiros conscientes iriam aceitar pagar. Sabe qual foi a adesão? 3%. É a história do jovem Agostinho, que orava: “Dai-me, Senhor, a castidade e a virtude. Mas não agora”. (Risos.)

O sr. se alinha aos economistas que questionam o uso do PIB como índice de progresso.

É claro. Veja que coisa: se você vive em uma comunidade em que a água é um bem livre, como o ar que respiramos, isso não entra nas contas nacionais. Não há registro econômico. Se essa comunidade, ao contrário, polui todas as fontes de água natural e, para continuar sobrevivendo precisa purificar, engarrafar, distribuir ou importar água, o que ocorre com o PIB do país? Ele aumenta! É uma maluquice. A qualidade de vida piorou, você tem que trabalhar mais para beber água, e o sinal que a economia tal como é registrada emite é o de que a vida melhorou. Se você vai a pé para o trabalho, isso não entra no PIB. Mas se passa horas no trânsito, de carro, poluindo a cidade e prejudicando sua saúde física e, o PIB aumenta! Porque uma coisa que não era intermediada pelo sistema de preços passará a ser. As pessoas não têm noção de como os números distorcem a realidade.

Ter um cara como o Giannetti nesta trincheira é um grande alento. É como ter uma camisa 10 craque no seu time. O problema é que este pensamento ainda está fora dos grandes centros. É um jogo que não passa nos veículos de maior audiência – e portanto pouca gente ainda vê. Precisamos de mais Giannettis para este pensamento se tornar cada vez mais aceito e começar a fazer parte de movimentos maiores, como o do Butão e até da França, que querem incorporar a felicidade na maneira de medir o sucesso de um país — e não somente da economia, o velho e quase caquético PIB.

 

Veja aqui posts relacionados sobre PIB e Felicidade

Gerar mais valor para os acionistas ou jogar mais bola com a gurizada?

Só PIB maior não é receita de sucesso

No país mais feliz do mundo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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“Imagine se…”: o melhor do TED 2011 – parte 1

“Imagine se…” são as palavras que mais recheiam as conversas entre as pessoas que já participaram de um TED ou TEDx pelo mundo, os chamados TEDsters. Por mais maluca que seja a ideia de alguém, logo em seguida alguém vai construir em cima desta ideia para talvez transformá-la em algo melhor ou mesmo viável. Não à toa, a conferência tem fama de revelar as próximas grandes ideias (big ideas). Por isso, não se encontra por lá gente dizendo: “isto não vai dar certo”.  Aliás, em uma brincadeira, esta frase (a número 1 de burocratas) foi rebatizada em uma palestra no TEDActive, por Jack Sim, o fundador da World Toilet Organization (sim, a Organização Mundial dos Toaletes). Ele chamou este tipo de atitude de “bureaucrap”, em um trocadilho com com burocracia e merda, o que ele tenta tratar em seu trabalho…

A astronauta Cady Coleman abriu o TED 2011 falando do espaço. Foto do flickr, by Cr8it

Pois foi chutando a bureaucrap para longe que o TED começou. Falando enquanto girava em torno da órbita de seu próprio corpo, a partir da Estação Espacial internacional, a astronauta Cady Coleman  abriu o TED 2011. Uma bela ideia de abertura de evento! Em seguida, começou a falar a física Janna Levin, que estudo o som que os buracos negros fazem. E do espaço, o número 1 do TED Chris Anderson conectou a plateia com Sarah Marquis, exploradora que está caminhando da Sibéria para a Austrália e até hoje já caminhou 30.000 km. Marquis perguntou em determinado momento por qual motivo  não conseguimos nos conectar à natureza e teimamos em viver de maneira independente.

O colunista do NY Times David Brooks  subiu ao palco para falar do desenvolvimento de consciência e trouxe dois insights importantes:

1) as emoções estão no centro de nossos pensamentos e portanto não estão separadas da razão. São, sim, a fundação da razão porque nos falam aquilo que devemos valorizar. 2) Nós não somos indivíduos auto-resolvidos, mas sim animais sociais e não racionais. Assim, estamos profundamente interconectados uns com os outros. E Brooks falou ao final que “a eficiência de um grupo não é determinada pelo seu QI, mas sim por quão bem conseguem se comunicar”, algo que estaria bastante presente nas palestras seguintes.

Linguagem e comunicação

A curadoria do TED deste ano trouxe vários exemplos de trabalhos que tentam enxergar sentido na quantidade absurda de informações que trafega em nosso dia-a-dia. Padrões, signficado, relevância – o que importa realmente em tudo aquilo que recebemos de informação? Carlo Ratti, do MIT, mostrou o trabalho baseado em sensores para entender a atividade humana, como por exemplo mapear o que acontece com o lixo. No livro Cidades Invisíveis, Ítalo Calvino já lembrava da enorme quantidade de resíduos que é coletada todo dia, mas que precisa parar em algum lugar. Se ninguém mostrar, fica difícil de ver… No site TrashTrack está a pergunta: “por que sabemos tanto sobre a cadeia de suprimentos e tão pouco sobre a cadeia de remoção de lixo?”


Deb Roy do MIT fez uma das falas que mais me chamou a atenção. Durante os três primeiros anos da vida de seu filho ele gravou 24 horas do que se passava na sua casa com câmeras espalhadas por todos os cômodos da casa. 90 000 horas de video. O objetivo foi aprender o processo de aprendizado da linguagem. A primeira palavra que seu filho disse foi água (“water“). Não à toa, a babá andava atrás dele o dia todo pela casa perguntando se queria água, mostrando o quanto o ambiente influencia no aprendizado! À medida que ia crescendo e aprendendo novas palavras, ele buscou interpretar padrões de conversas e em torno de que elas aconteciam. A palavra “bye”, por exemplo, acontecia com muito mais frequência na sala, perto da porta de saída. A experiência de Roy também pode ser aplicada, como ele mostrou ao final, no entendimento dos padrões que emergem de na discussão de temas como eleições, política e futebol. Entendendo isso, é possível, por exemplo, poder influenciar ou ajudar a dar sentido às conversas que emergem na internet a partir de programas de televisão. Ao final, Roy mostrou que tecnologia pode, sim, ter emoção, quando exibiu os primeiros passos da vida de seu filho.

Milagres”

A emoção da descoberta apareceu outras vezes no TED, como no projeto do carro desenvolvido para ser guiado por cegos, de Dennis Hong.

Teve também o trabalho de exoesqueletos da Universidade de Berkeley, para aumentar o potencial de soldados e — muito melhor que isso — para fazer cadeirantes andarem, como Amanda, que caminhou no palco do TED.

O escavador de dinossauros Jack Horner foi ao palco em uma palestra divertida para mostrar como ele está reconstruindo o DNA de dinossauros a la Jurassic Park. Só que no lugar de pegar amostras de sangue de mosquitos presos em âmbar como no filme, ele está utilizando galinhas para reconstruir a sequência genética. Segundo ele, galinhas são bichos pré-históricos e que podem muito bem ajudar a construir o Galinhossauro. Ainda faltam alguns anos de pesquisa, mas o caminho já está sendo percorrido (veja mais).

E depois disso veio um dos momentos mais incríveis do TED 2011, quando o cirurgião Anthony Atala apresentou seu trabalho de medicina regenerativa e impressão de órgãos humanos. Sim, é isso mesmo. Nenhuma das pessoas com quem conversei nos últimos dias sobre isso conseguia acreditar no que ouvia. Para alguns, tive que enviar o link da palestra de Atala (abaixo), que já está no ar. É isso mesmo, já estamos conseguindo imprimir órgãos humanos. Atala fez duas coisas para deixar claro que não estava de bravata. 1) Ele terminou a impressão de um rim em pleno palco, ao final de um processo de 7 horas. Na definição dele, no lugar de tinto, o cartucho da impressora libera células humanas preparadas para este fim. Atala já desenvolveu a tecnologia para irrigar o rim com veias, mas o website da universidade informa que a tecnologia de impressão de órgãos humanos é promissora, mas que ainda existe muito a ser feito até que não se precise mais de doação de órgãos, por exemplo. 2) Atala levou ao palco um de seus pacientes que recebeu há 10 anos uma bexiga redesenhada em laboratório. O rapaz disse no palco com voz embargada que sua vida foi salva pelo cirurgião.

No dia seguinte a este choque o especialista em saúde pública Harvey Finneberg falou sobre evolução. Lembrou Darwin ao dizer que a sobrevivência depende de quem souber se adaptar melhor e não necessariamente aos mais fracos. E aí veio com sua tese: a “neoevolução˜. Com os avanços da medicina, ele falou que este novo tipo de evolução não será natural, mas sim guiado por nós humanos. Foi impossível não lembrar dos experimentos nazistas de Josef Mengele e conectar com o recém-mostrado poder de criar órgãos humanos. A pergunta de Finneberg ao final continua ressoando para mim: “Será que conseguiremos desenvolver a sabedoria para fazer as coisas certas para nossa evolução?”

Resposta: Humildade

Talvez a resposta estivesse no último bloco, que se chamou “Only if. If only”, mas podia muito bem ser chamado de humildade. Começou com a autodefinida “wronglogist” Kathryn Schulz, na que foi para mim uma das palestras mais sensíveis e delicadas dos quatro dias. Ela escreveu um livro sobre o “errado”, cujo título é “Being wrong: adventures in the margin of error” e será lançado em maio aqui no Brasil. Schulz diz que por volta dos 9 anos, aprendemos que as pessoas que fazem coisas erradas são irresponsáveis ou preguiçosas, mas que na verdade há muito mais sobre o erro do que este preconceito. “Santo Agostinho já dizia, ‘erro, portanto existo'”. Estar errado, para ela, faz parte de nossa humanidade e que isso é fonte de criatividade. “Abrace o erro e aprenda com ele. Faz mal confiar demais no sentimento de estar sempre “do lado certo” das situações. Olhe para a vastidão do e complexidade do universo e tenha a coragem de dizer ‘não sei’ ou ‘talvez eu esteja errado”.

O educador John Hunter veio em seguida. Dono de voz acolhedora transpirando sabedoria, ele mostrou o jogo “The World Peace Game”. Uma espécie de War ao contrário, falando da interdependência de países e do uso compartilhado de aspectos sociais e ambientais. Hunter sempre fala para as crianças durante o jogo, aplicado em escolas: “desculpem, meninos e meninas, nós deixamos o mundo em um estado tão ruim que vocês terão que consertar”.

E ao final, Hunter (com quem tive a sorte e inspiração de trocar rápidas palavras no corredor do hotel onde fiquei em Palm Springs) permaneceu no palco para a última e incrível fala de Robert Ebert, crítico de cinema americano que perdeu a fala graças a um câncer na tireóide. Com a mandíbula reconstruída, mas sem a possibilidade de articular sons, Ebert deu um show de bom humor e amor à vida ao sorrir incontáveis vezes pelos olhos durante a leitura de sua fala, ora pelo computador que simula sua voz, ora por sua esposa, ora por Hunter, ora por um terceiro amigo que dividia o palco. Em certo momento, sua esposa travou ao ler algo que ele tinha escrito. Ela não concordava e chegou a dizer: “desculpa, mas ele não quis  dizer isso.” E começou a chorar. Com dois dedos, Ebert fez o sinal característico para ela continuar e como já estava demorando, pediu que ela passasse o texto para Hunter. Então ela disse: “nunca peça a sua esposa ler algo assim”. E continuou o discurso de celebração da vida que Ebert preparou.

Tenho certeza que durante a preparação desta fala, alguém disse: imagine se outros falassem por Ebert, representando sua voz. Assim como muitos outros imaginaram as invenções, engenhocas e inovações que preencheram o palco de Long Beach nesta edição: impressão de órgãos, galinhossauro, exoesqueletos, carros guiados por cego etc. De Long Beach a Oxford, passando por Palm Springs e por mais de 1 000 TEDx ao redor do mundo, a comunidade TED é repleta de pessoas de perfis empreendedores. A mágica de fazer e contar é o que mantém unida uma comunidade que só faz aumentar ano a ano. Com tanta gente pensando e trocando ideias com o ˜imagine se”, não tenho dúvidas que será possível trocar conhecimento para termos um lugar melhor para se viver. Sem “bureacrap”.


PS: ainda há mais a ser dito sobre o TED 2011. Virá nos posts seguintes.)

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O TED 2011 em 280 tweets

TED 2011 e a redescoberta do encantamento

Enquanto continua o processo digestivo das falas do TED (que às vezes duram meses!), aí vai a cobertura completa via twitter (em português e inglês). Está cheia de links para os principais momentos das palestras. Quem tiver paciência, vai garimpar muita coisa boa. E quem não tiver, em breve vou começar a colocar aqui alguns posts com os assuntos “curados” com o que achei de conexões e relevância.

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O melhor de 2010 (final) + inspiração para 2011

Vamos lá, com a última parte do melhor de 2010 aqui no Blog. Seguem os cinco posts mais acessados do ano. Numa análise rápida e rasteira, vou tentar explicar o que aconteceu abaixo.

Os post #4 e #1 são um tanto aberrações. Aparecem aí mais pela busca no google do que por qualquer outra coisa. No post  #1, sobre Brasil, buscas sobre semana de arte moderna, arte moderna etc levam a ele. Somente porque coloquei uma imagem do Abaporu, com legenda Mas é um post legal (tem alguns “likes”, fala de perspectivas do Brasil, tem um video inspirador ao final. Enfim, mostra que se usarmos os termos certos, a internet faz aparecer! O do Obama também aparece pelas buscas. Ambos são de 2009 e continuam aí.

Bom, vamos descartar estes e considerar os outros como realmente campeões de 2011.

O post #5 fala dos impactos da construção da usina de Belo Monte. Tem a reprodução de um artigo escrito pela Marina Silva no período da eleição. Acho que ganhou ibope pela onda verde, mas não só por isso, também por ser muito didático e direto ao ponto. O #2 é bem legal, conta a aventura dos caras que surfaram no arroio Dilúvio, em Porto Alegre. Muito antes de eu conhecer a fundo a história do surfe na Pororoca, via o principal embaixador do assunto, meu amigo Serginho Laus. Pessoal do surfe sempre em busca de novas fronteiras.

Mas o post entre os mais populares e do qual mais gosto é o #3, que falou sobre a loucura da baleia Orca que matou um dos treinadores. Trabalhei no Sea World, onde isso aconteceu, e acho que entendo direitinho os motivos da baleia. Vai lá, é um post mais pessoal, gostei de escrever.

Antes de deixar os links, queria compartilhar aqui com vocês o e-mail que recebi do pessoal do WordPress, avaliando a “performance” deste blog em 2010. Veja o que escreveram:

“Números apetitosos

Imagem de destaque

Um navio de carga médio pode transportar cerca de 4.500 contentores. Este blog foi visitado 17,000 vezes em 2010. Se cada visita fosse um contentor, o seu blog enchia cerca de 4 navios.

Em  2010, foram 88 novos posts, aumentando para 283 posts o arquivo deste blog.

O dia mais ativo foi em 6 de novembro, quando foi publicado o post TEDxAmazônia e a seca do século.”

Achei meio boba a comparação com os navios, mas enfim, ficam os números.

E aí vão os post mais acessados de 2010.

5. Entenda o impacto da construção da usina de Belo Monte

4. Vitórias rápidas de Obama

3. A baleia Orca e a falta que faz a liberdade

2.O surf no arroio Dilúvio em Porto Alegre

1. Da arte de ver a floresta e não só as árvores

Inspiração para 2011

Já pensando em 2011, e lembrando que retorno à rotina daqui algumas horas, segue um video publicitário da RedBull para lembrar que neste ano, surfei em 85% dos dias!

Continuando na natureza e na inspiração, este video fala que o “crescimento é para sempre”. Desde que com renovação e na natureza, ok. Ao contrário do crescimento da economia, que se for para sempre, como querem os economistas, vai trazer muitos problemas (ainda mais que os que já temos) para a raça humana no planeta.

Economia, dinheiro, bancos. Encontrei agora este vídeo na internet, naquelas incríveis voltas que a web dá. Excelente trabalho, fechando o ciclo de inspiração. Vamos que vamos!

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Em 2011, viva o lado positivo da vida

É melhor sempre olhar para o lado positivo da vida

Em 2011, gostaria de melhorar isso, fazer mais daquilo e deixar de fazer isso ou finalmente parar de…

Em geral, as listas de ano novo têm a ver com fazer algo que fazemos pouco ou passar a fazer algo que não fazemos. Ou, como melhorar nossos pontos fracos. E quem disse que precisa ser assim? Que tal se a gente resolve focar em melhorar aquilo que já fazemos bem? Por que perder energia tentando melhorar algo que vamos precisar conhecer a fundo, que vai exigir dedicação e esforço (e talvez frustrações), quando talvez  a receita para a felicidade, que inclui um ano melhor, pode estar naquilo que já fazemos?

Ou seja, abaixo listas de ano novo pretensiosas e frustrantes! Nunca fiz nenhuma delas e (talvez por isso) sempre acho que meus anos foram bons. Excluindo as fatalidades da vida, acho que podemos, sim, fazer nossas escolhas e sermos felizes com elas. Ter consciência sobre a importâcia de escolher é meio caminho andado.

Acho que não por acaso, ontem mesmo encontrei menção científica a esta sensação. Foi no livro The Happiness Hypothesis, de Jonathan Haidt, uma espécie de bíblia para mim em 2010. Como diz o site do livro, não é um livro de autoajuda, mas se você quiser usar como tal, tudo bem? Usei mais como fonte para autoconhecimento do que qualquer outra coisa. Dica de um grande cara que conheci no TED Global, o Sandro, encontrei muitas referências bacanas para este blog e para o dia-a-dia.

 

O livro The Happiness Hypothesis: bíblia em 2010

Em 1998, um psicólogo chamado Martin Seligman fundou a Psicologia Positiva, quando ele caiu em si que a psicologia estava obcecada em identificar patologias e com o lado negro da natureza humana, deixando de lado tudo o que era virtuoso e nobre. Seligman viu que os psicólogos haviam criado manuais enormes de desordens mentais, mas ninguém havia criado uma linguagem ou padrão para identificar os grandes achados de saúde, talentos ou potenciais humanos. E aí ele resolveu criar um manual para diagnosticar forças e virtudes. Gênio!

Com o colega Chris Peterson, da Universidade de Michigan, fizeram uma lista exaustiva de todas as virtudes que conseguiram achar em lugares como os livros sagrados das principais religiões e até em juramentos de escoteiros. Compararam todas e tentaram chegar a uma lista comum. Acabaram achando seis virtudes ˜universais˜: sabedoria, coragem, humanidade, justiça, temperança e transcedência. São universais porque, como explica Haydt no livro, ninguém em nenhuma cultura irá dizer para os filhos serem covardes ou intrinsecamente maus.

Por serem um tanto abstratas, a análise destas virtudes permite uma visão mais aprofundada e que é usada para organizar forças de caráter mais específicas. Peterson e Seligman sugeriram que existem 24 princípios de forças de caráter dentro das 6 grandes virtudes. (Eles têm um site onde você pode fazer um teste, em inglês, sobre suas forças de caráter para ver quais você pode explorar melhor: http://www.authentichappiness.org)

Sabedoria

– Curiosidade, Vontade de aprender, Julgamento, Inventividade, Inteligência emocional, Perspectiva

Coragem

– Valentia, Perserverança, Integridade

Humanidade

Bondade, Amor

Justiça

– Cidadania, equidade, liderança

Temperança

– Autocontrole, Prudência, Humildade

Transcedência

Apreciação de beleza e excelência, Gratidão, Esperança, Espiritualidade, Perdão, Humor, Entusiasmo

Há quem sinta falta de algo e isso não é um problema, porque a lista é recente e ainda em desenvolvimento. Por exemplo, por que bom humor não está aí? Ou inteligência, respeito, senso de responsabilidade? A conversação está em aberto, mas o ponto principal na minha opinião é colocar luz nisto. Valorizar a metade cheia do copo.

Se tem algo que incomoda é a visão negativista da vida, gente reclamando, dizendo que não vai dar certo. Em 2010, mantive uma distância saudável destas visões de mundo. Não que eu não precisemos conviver com isso, afinal a diversidade é um dos grandes aprendizados da vida, mas certamente não irei procurar visões baixo-astral. Se a vida é feita de escolhas, então vamos escolher o que é bom, o que é legal. Gente de bem com a vida! Ou, como disse Jabor, a vida gosta de quem gosta dela!

A vida gosta de quem gosta dela!, disse Jabor no filme A Suprema Felicidade

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