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Quando o líder falha – a briga dos jogadores do Palmeiras

O imponderável é o que há de mais incrível nos esportes, particularmente no futebol. Ontem, no jogo do Grêmio x Palmeiras aconteceu uma cena raríssima, dessas que deixam todos com a boca aberta, tentando entender o que aconteceu.

Aos 46 minutos do primeiro tempo, já nos descontos, o guerreiro argentino Máxi Lopez, livre na área, recebeu, virou e chutou. Marcos defendeu e sobrou para Marques, que empurrou para o gol. Até aí, tudo bem. O incrível veio depois, quando os jogadores do Palmeiras começaram a brigar. O ‘craque’ Obina foi tirar satisfação de Maurício, que deveria ter marcado Lopez. Claro que ele não gostou, mas a reação foi tentar acertar o Obina. Obina se esquivou e encheu a mão na cara do sujeito. Ai, veio a turma do deixa disso. Mas já era tarde demais. O juiz tinha visto e mandou os caras para a rua quando o jogo recomeçou.

O Palmeiras liderou o campeonato brasileiro por 18 rodadas. Aí, não conseguiu segurar o rojão e começou a ceder espaço para outros times. À medida que o time ia perdendo a distância, começaram a jogar mal, cada vez pior. O problema que estava em campo extrapolou para extra-campo.

Em um dos jogos, o juiz anulou um gol legítimo de Obina. O dirigente do Palmeiro, Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos economistas mais respeitados do país perdeu as estribeiras e chegou a dizer que ia dar porrada em Simon.

Pronto.

O Palmeiras se perdeu de vez. O destempero de Belluzzo passou para o campo no jogo seguinte, quando os palmeirenses empataram em casa com o Sport. E destrambelhou de vez com o episódio de ontem, no Olímpico.

É incrível o poder do exemplo, da liderança. Por mais que um líder precise colocar para fora suas emoções, ele nunca pode fazer isso de forma descontrolada — ainda mais via imprensa. Isso reflete claramente na equipe. Os jogadores do Palmeiras passaram a acreditar em conspiração, por meio de seu líder. Isso abala a moral, pois se há conspiração, não adianta você jogar bem, pois sempre darão um jeito de colocar você para baixo.

Dia desses, vi o filme Into the Storm, que mostra os dias em que Churchill jogou xadrez de guerra com Hitler na 2ª guerra mundial. Há vários momentos em que fica evidente o poder das ações e das palavras do líder. Muito simbolismo. Um grande craque com o qual a humanidade foi presenteada para derrubar Hitler (sobre isso há o fantástico filme “Cinco Dias em Londres”, do historiador John Lukácz, veja no Google Books ou na Livraria Cultura.)

O paralelo é abissal, eu sei, mas é de liderança que estamos falando. O Palmeiras perdeu o campeonato graças ao líder que não agiu conforme se esperava dele em um momento crucial.

Juca Kfouri escreveu sobre isso aqui. E o Belluzzo enviou uma resposta muito interessante para ele. Mostrando que voltou à razão, com estilo e verve apurada. Com a tranqüilidade e o distanciamento crítico que o escrever possibilita. Mas foi tarde demais…

(P.s.: Hoje, os jogadores do Palmeiras fizeram as pazes.)

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Um grande time só se faz com um grande rival

Estive em Porto Alegre para o casamento de um amigo nesse final de semana. Impressionante como a cidade e o Estado respiram rivalidade. Rivalidade que vem desde os imemoriais de Chimangos e Maragatos, imortalizados em O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. Mais recentemente, Chimangos e Maragatos se converteram em petistas e outros partidos (PMDB, PPS, PDT) ou vice-versa — já nem sei quem herdou o quê de quem. E atualmente, com a débacle petista no quesito ética (ainda que Lula e Dilma venham fortes por aí), o que resta é a polarização do futebol, do Grenal.

Grêmio e Inter estão por todo o lado, em bonés, chaveiros, adesivos (como há adesivos nos carros dos gaúchos) e, claro, camisetas. Por todo o lado, em toda a cidade. E calhou que esse meu amigo, o Luiz “Teta” Felipe, resolveu casar no dia do centenário do Inter. Não foi por acaso. Foi proposital mesmo. Ainda que o gremista mais doente que eu conheço, o César “Cecé” Krebs estivesse indignado com os conselheiros gremistas, da família da noiva, que haviam permitido aquele disparate.

E lá estava eu, inocente, na entrada da festa, quando adentram os noivos. O Teta portando uma flamejante bandeira vermelha. Empunhando com todo o orgulho. E ao passar por mim, esfregando na minha cara, com toda a empáfia.

De raiva, para me vingar, estava esperançoso que o Grêmio estragaria a festa do centenário ganhando o Grenal  no Beira-Rio no dia seguinte. Mas não rolou. (Pelo menos serviu para derrubar o técnico tricolor, que já estava incomodando à beça.)

E em meio a toda rivalidade, o Grêmio publicou o anúncio abaixo no jornal Zero Hora.

Anuncio-gremio-centenario-vermelho

anuncio-gremio-centenario-vermelho-2Achei bacana. Acolhedor. Reconhecedor da beleza do adversário. Lembro do Senna na Fórmula 1, cujo brilho sempre era exaltado pela habilidade e genialidade de Alain Prost. Privilégio que Schumacher nunca teve, pois foi um campeão sem rival à altura. Ao contrário de Grêmio e Inter. Na eterna gangorra, quando um está por cima, o outro está por baixo.

E de nada adianta colorados engraçadinhos falarem em freguesia, pois o Gremio é bicampeão da America e tem mais pontos nos rankings de futebol.

A rivalidade continua…

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25 anos atrás

Algumas memórias rápidas que me vêm à cabeça da época em que vivemos na gloriosa Cachoeira do Sul, a 190 quilômetros de Porto Alegre, dos meus 7 aos 10 anos: um abacateiro gigante no pátio, uma inundação em uma chuva torrencial que deixou dois dedos de água dentro de casa, um boco de jogar bolita no carpete de casa (era perfeito!) e duas noites marcantes. Na primeira delas, passava um jogo maluco na TV. O Grêmio jogava contra um time de branco. Um bando de argentinos ensandecidos que não aceitavam a derrota em casa. Ainda mais por 3×1. Deram o sangue e tiveram um bando de gente expulsa. Acabaram o jogo com sete em campo e com 3×3 no placar. Mas não foi suficiente. E o Estudiantes ficou fora e o Grêmio foi para a final contra o Peñarol. Eu tinha sete anos e estava aprendendo a ser gremista, ganhando à base de sofrimento. Da final eu lembro apenas que um tal de César fez o gol do Grêmio e fomos campeões da América. Depois veio a musiquinha… Só perguntar para o Augusto (Grêmio, Grêmio, Nós somos campeões da América).

E então veio a segunda noite. Essa já era em dezembro. O Grêmio ia jogar a final do campeonato mundial. Quem ganhasse seria o melhor time do mundo. Embora tivesse sete anos, já sabia dar a importância para isso e fiz todo o esforço do mundo para ficar acordado até a meia-noite, horário que o jogo começaria lá no Japão. Aguentei firme. Por 15 minutos… Estava na casa da minha avó (meus pais foram ver o jogo sei lá onde) e acordei correndo no outro dia pedindo para passar em casa, louco para tomar a primeira providência: perguntar quanto tinha sido o jogo! Quando meu pai falou que o Grêmio tinha ganhado por 2×1 do Hamburgo, com dois gols do Renato Portaluppi e que portanto tinha sido campeão do mundo, senti meu corpo esquentar, meu peito inflar e minha garganta clamar: “Mãe, cadê minha bandeira?” Obviamente, eu queria ir para a rua balançá-la, cheia de orgulho. Em cidade pequena do interior isso seria perfeitamente possível, não fosse por um detalhe: um colorado tinha passada a mão na bandeira.

Verdade. Na noite anterior, depois do jogo meu pai e minha mãe saíram de carro para comemorar o resultado do jogo. Meu pai ainda não era, argh, colorado. Torcia para o Cruzeiro, um falecido time de Porto Alegre. Na janela do carro, minha mãe tremulava a tricolor. Ao que um invejoso colorado — e assim, com muita inveja ele permaneceria por mais 23 anos — passou a mão na bandeira.

Tudo bem. Eu fiquei sem bandeira. Mas não sem voz. E fui para frente da casa gritar: Grêêêêêêêêêêmioooooooooo, Grêêêêêêêêêêmiooooooooooo. De uma vez por todas. Exatamente 25 anos atrás.

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Dia de estréia no Olímpico

Aproveitei um dia de trabalho em Porto Alegre para levar o Augusto para passar o final de semana comigo, com os avós e com o tio. A programação foi intensa e mesmo assim não deu tempo de visitar a todos os amigos. Teve churrasco todo dia (essa é uma parte muito boa!) e visita-churrasco rápida à Cachoeira do Sul, onde moram os familiares. Teve ainda passeio no Museu da PUCRS (sensacional para crianças), visita à prefeitura (Gutão sentou até na mesa do prefeito!), mais churrasco com amigos e o grande programa: jogo do Grêmio!

Foi a estréia do Gutão num estádio. No Olímpico, é claro! Começou na sexta-feira, quando passamos lá rapidamente para pegar os ingressos que minha mãe conseguiu para que toda família pudesse ir (inclusive o avô colorado!). Eu, como gremista e sócio-torcedor assíduo, tinha direito a uma camisa do time, por pagar 24 meses de associação. Dei para meu irmão, que havia acabado de falar que precisava de uma camisa nova. Ainda que a que estivesse usando (da década de 80) já valesse 300 reais no mercado underground de colecionadores. Depois de pegar minha carteirinha nova e dar a antigo para o Augusto (que recebeu como um trófeu), entramos no estádio. Estava vazio e pronto para receber 43 000 torcedores dali a dois dias. Gutão correu e pulou, boquiaberto de conhecer o Olímpico. Tão ou mais do que o pai, é verdade, que realizava ali um sonho.

No Domingo, dia de jogo, passamos no aniversário do Luiz Felipe, filho da Vanda, que trabalhou anos em nossa casa. Foi uma espécie de irmã mais nova para mim e meu irmão. Faz parte da família. De lá, fomos para o jogo. Na chegada, aquela sensação indescritível de navegar em um mar azul de torcedores gremistas. Todos com o sorriso no rosto, confiantes na vitória. Gutão foi da garagem onde deixamos o carro até o portão do estádio na garupa do Tio Bru. Assistindo de cima a tudo aquilo. Lá dentro, pura festa da torcida.

Principalmente no momento em que o Tcheco fez o primeiro gol, ainda no primeiro tempo. Gutão pulou, comemorou e cantou músicas da Geral do Grêmio, a torcida que está reinventando o jeito de torcer no Brasil, com seguidores país afora. A cada música que ele conhecia, cantava olhando para mim, pedindo confirmação com o olhar. Nem precisava. Já havia treinado tantas vezes em casa que foi fácil, fácil cantar.

No segundo tempo, mais um gol do Grêmio e muita festa na arquibancada. Tudo supervisionado por meu amigo César, o gremista mais doente que conheço, que fez questão de ser o padrinho da estréia do Gutão. Valeu, Cecé! O Marcelo, companheiro de jogos na cadeira locada do Grêmio durante toda a infância, estava lá também. Não podia ter estréia melhor… Final: Grêmio 2×1 Coritiba.

Fomos para casa felizes da vida, tentar dormir o quanto antes para pegar o avião às 7h da manhã no dia seguinte. Na chegada ao aeroporto, a notícia que o vôo estava atrasado 1h. Fomos para o portão indicado e estava errado. Quando Gutão estava se aninhando para dormir no meu colo, tivemos que trocar de lugar. E eis que a caminho do outro portão, cruzamos com… Tcheco. Pausa para explicar. Desde pequeno,  no processo de ensinar ao Gutão porque ele deveria torcer para o Grêmio, ele sempre ouviu que o Tcheco era o camisa 10 do Grêmio, o craque etc. Sempre que jogamos futebol ele é o Tcheco. Pois ontem, o primeiro gol foi dele e hoje damos de cara com o sujeito no aeroporto.

Não tive dúvidas e pedi para tirar uma foto. Gutão estava emburrado, dizendo que queria a mãe e choramingando. Tcheco mostrou que além de craque, é gente boa. Pegou o guri e perguntou porque ele estava chorando. Trocou uma idéia e saiu a foto abaixo. Da cara de sono e emburrada não deu para fugir!

Gutão e Tcheco

Ainda falei para ele: “Gutão, diz para o Tcheco que o Grêmio vai passar o São Paulo e vai ser campeão!”. A depender da sorte do Augusto, já temos um novo tricampeão brasileiro em 2008!

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Tricolur!

Quem me conhece um pouco sabe que não troco duas horas do final de semana quando o Grêmio joga por quase nada. Essa coisa de torcer para um time é um pouco inexplicável. O que justifica o fato de eu pagar R$ 38 por mês para ser sócio de um clube que joga há mais de 1 000 quilômetros daqui? Pior ainda, fazer de tudo para o filho ser gremista também… (Não venham os colorados dizer que é loucura mesmo torcer para o Grêmio porque eu tenho dezenas de argumentos para rebater…)

Em breve vou postar aqui o artigo de “Como fazer seu filho torcer para o seu time mesmo vivendo em outra cidade”. Pois o Gutão virou tão gremista que dia desses perguntou para o meu pai:

– Vovô, qual o time do tio Bru? O vô respondeu: Grêmio.

– E qual o time da vovó? Grêmio… respondeu o vovô.

– E você, vovô, porque não se junta ao Grêmio?

Acho que essa perguntou acabou com todas as esperanças de meu pai ao menos ter um neto simpatizante do Inter! E muito menos ainda ao ouvir Gutão cantar: “Tricolur, tricolur, tricolur!”, de um jeito todo peculiar em referência ao uniforme tricolor azul, preto e branco do Grêmio.

PS: Uma coisa legal em São Paulo é responder para qual time eu torço. Quando respondo Grêmio, os paulistas sempre perguntam: “E aqui em São Paulo, para qual time você torce?”. Juro que no início eu não entendia essa pergunta, mas acredito que ela vem da mesma fonte que faz muita gente aqui dizer: “Vamos combinar de você ir lá em casa” ou “Vamos combinar de almoçar” e nunca concretizarem o convite. É a tal da cordialidade do Sergio Buarque de Holanda, levada ao extremo. Por isso, o pessoal espera que eu diga que torço para um time de São Paulo. Sinceramente, não consigo. E desconfio de gremistas e colorados que vêm para cá e escolhem outro time para torcer.

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