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Realidade filtrada

Como você se sente quando tem a impressão que alguém está fazendo as escolhas por você? Ninguém gosta de ser manipulado, pelo menos não conscientemente. O pior é quando isso acontece de maneira inconsciente, filtrando a realidade. Pois esta é a tese de Eli Pariser, que fez uma das melhores falas no TED 2011 (abaixo) e que hoje teve um artigo seu publicado no New York Times e reproduzido no Estadão (veja mais abaixo).

Segundo Pariser, os códigos da internet filtram a informação apresentando aquilo que a pessoa que criou os algoritmos acha mais importante. Uma busca feita no Google do Brasil é diferente daquela feita no Google da China, da República Dominicana ou do Japão. A informação é filtrada pela realidade local. Ou melhor, por aquilo que quem fez o código entende por realidade local. O programador vira o novo editor daquilo que você lê.

Há algum tempo, Nicholas D. Krystof, também do New York Times, publicou um artigo chamado de Daily Me, que falava justamente sobre o filtro da informação (veja aqui um post sobre isso). Mas, neste caso, um filtro pessoal. Cada vez que escolhe acessar um determinado site e assina newsletters com assuntos de seu interesse apenas, você está escolhendo ver o mundo a partir de um ângulo restrito. Por isso a importância de ler os pré-históricos jornais, cujas notícias são filtradas por gente treinada para isso. E não por um programador. Ok, G1, Terra, Uol etc também valem. O importante é não se deixar consumir por uma única visão do mundo. Do contrário, a informação e a realidade filtrada vai ser como fast food: tudo com o mesmo gosto, sem sabor — a fast info.

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Quando a internet acha que nos conhece

Os gigantes estão correndo para oferecer filtros especializados que nos mostram a rede que acham que devemos ver, controlando e limitando a informação que chega a nossa tela

24 de maio de 2011 | 0h 00
Eli Pariser, The New York Times – O Estado de S.Paulo

Era uma vez, reza a história, uma época em que vivíamos numa sociedade radiodifundida. Naqueles tempos ancestrais pré-internet, as ferramentas para compartilhar informação não eram amplamente disponíveis. Quem quisesse partilhar seus pensamentos com as massas, tinha de possuir uma impressora ou um naco das ondas aéreas, ou ter acesso a alguém que o tivesse. No controle do fluxo de informação estava uma classe de elite de editores, produtores e magnatas da mídia que decidia o que as pessoas veriam e ouviriam sobre o mundo. Eles eram os “guardiães”.

Aí veio a internet, que tornou possível a comunicação com milhões de pessoas com pouco ou nenhum custo. De repente, alguém com uma conexão de internet podia partilhar ideias com o mundo inteiro. Uma nova era de mídia noticiosa democratizada despontou.

O leitor pode ter ouvido essa história antes – talvez do blogueiro conservador Glenn Reynolds (blogar é “tecnologia solapando os “guardiães””) ou o blogueiro progressista Markos Moulitsas (seu livro se intitula Crashing the Gate, “Esmagando o portal”, em tradução livre).

É uma bela história sobre o poder revolucionário do meio e, na qualidade de um antigo praticante da política online, eu a contei para descrever o que fizemos na MoveOn.org. Mas estou cada vez mais convencido de que escolhemos a conclusão errada – talvez perigosamente errada. Há um novo grupo de “guardiães” por aí e, desta vez, eles não são pessoas, são códigos.

Os gigantes de internet de hoje – Google, Facebook, Yahoo e Microsoft – veem o crescimento notável de informações disponíveis como uma oportunidade. Se puderem oferecer serviços que vasculhem esses dados e nos forneçam os resultados pessoalmente mais relevantes e atraentes, eles conseguirão a maioria dos usuários e a maioria das visitas a anúncios. Por conseguinte, eles estão correndo para oferecer filtros especializados que nos mostram a internet que acham que devemos ver.

Esses filtros, aliás, controlam e limitam a informação que chega a nossas telas.

Por enquanto, estamos familiarizados com anúncios que nos perseguem online com base em nossas conexões recentes em sites comerciais. Mas, cada vez mais e de maneira quase invisível, nossa busca por informação está sendo personalizadas também. Duas pessoas que fazem uma busca com a palavra “Egypt” no Google podem receber resultados significativamente diferentes, com base em suas conexões passadas. Mas o Yahoo News e o Google News fizeram ajustes em suas home pages para cada visitante individual. E, no mês passado, essa tecnologia começou a fazer incursões nos sites de jornais como The Washington Post e The New York Times.

Tudo isso é bastante inofensivo quando a informação sobre produtos de consumo é filtrada para dentro e para fora de seu universo pessoal. Mas quando a personalização afeta não só o que se compra, mas como se pensa, surgem questões diferentes. A democracia depende da capacidade do cidadão de deparar-se com múltiplos pontos de vista; a internet limita essa possibilidade quando oferece somente informações que refletem seu ponto de vista já estabelecido. Embora às vezes seja conveniente ver-se apenas o que se quer ver, é decisivo que em outros momentos se vejam coisas que não se costumam ver.

Como os velhos “guardiães”, os engenheiros que escrevem o novo código do portal têm o enorme poder de determinar o que sabemos sobre o mundo.

Mas, diferentemente, dos velhos “guardiães”, eles não se veem como “guardiães” da confiança pública. Não há algoritmo equivalente à ética jornalística. Mark Zuckerberg, o presidente executivo do Facebook, certa vez disse a colegas que “um esquilo morrendo no seu jardim pode ser mais relevante para seus interesses agora do que pessoas morrendo na África”. No Facebook, “relevância” é virtualmente o único critério que determina o que os usuários veem. Fechar o foco nas notícias mais relevantes pessoalmente – o esquilo – é uma grande estratégia de negócios. Mas nos deixa olhando para o jardim em vez de nos informar sobre sofrimento, genocídio e revolução.

Não há volta atrás ao velho sistema dos “guardiães”, nem deveria haver.

Mas se os algoritmos estão assumindo a função de editar e determinar o que vemos, precisamos ter certeza de que eles pesam variáveis além de uma “relevância” estreita. Eles precisam nos mostrar Afeganistão e Líbia além de Apple e Kanye West.

As companhias que fazem uso desses algoritmos precisam assumir essa responsabilidade salutar com muito mais seriedade do que fizeram até agora. Precisam nos dar o controle sobre o que vemos – deixando claro quando estão personalizando e nos permitindo moldar e ajustar nossos próprios filtros. Nós, cidadãos, também precisamos preservar nosso fim – desenvolvendo a “literatura de filtro” necessária para usar bem essas ferramentas e cobrando conteúdo que amplie nossos horizontes, mesmo quando isso for desconfortável.

É do nosso interesse coletivo assegurar que a internet se coloque à altura de seu potencial como um meio de conexão revolucionário. Isso não ocorrerá se formos confinados em nossos próprios mundos online personalizados. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
É PRESIDENTE DO CONSELHO DA MOVEON.ORG, É O AUTOR DE “THE FILTER BUBBLE: WHAT THE INTERNET IS HIDING FROM YOU”

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Um homem de bem

Há pessoas que passam brevemente pela nossa vida e mesmo assim conseguem deixar marcas e liçōes profundas. Foi isso que me veio à mente quando recebi a notícia do falecimento do Sidnei Basile, um grande jornalista, que — tenho certeza — foi inspirador para muitos jornalistas que cresceram com ele e depois de “passarem” por ele.

O falecimento de Sidnei foi a primeira informação que tive hoje, recebida da boca de minha esposa. Não poderia ser diferente e aqui vai a 1a lição das três que recebi dele e que compartilho aqui. Quando comecei a namorar minha esposa, nós trabalhávamos juntos. Tentávamos lidar com o fato com a maior maturidade possível para quem está na casa dos 20 anos. Entretanto, nem todos na equipe aceitavam, principalmente porque minha esposa era na época minha chefe! Quando a situação ficou realmente tensa, Sidnei agiu para desanuviar. Contou histórias de casais que se conheceram nas redaçōes (jornalistas têm destas manias) e disse que isso era normal ao reconhecer que com maturidade isso era possível. A tensão se dissipou e aí percebi claramente um líder em ação.

A segunda lição que recebi de Sidnei foi quando pedi um horário para informar a ele que estava deixando a revista para trabalhar em outra empresa, não-jornalística. Sua frase foi lapidar e memorável. “Vai lá, aprende e volta para o jornalismo. Afinal, jornalistas são como comunistas, prostitutas e ladrōes: nunca desistem, só descansam!” Sidnei, ainda não voltei para o jornalismo, mas tenha certeza que nunca desisti! Jornalismo é algo que se nasce com. Não há escolha. Há, sim, jeitos de se trabalhar com a informação, a alma do jornalismo.

E no final de 2009, a última vez que tive a sorte de encontrar e aprender com o Sidnei, caminhávamos em busca de um café no Parque Ibirapuera, no intervalo de uma atividade do Planeta Sustentável, projeto importante e de vanguarda da Editora Abril. O Planeta Sustentável trata de construir um mundo melhor. Como não poderia ser diferente, Sidnei estava diretamente envolvido. Cuidar das coisas e das pessoas estava na sua índole. Então, a caminho do café, Sidnei comentava da viagem que havia feito com sua família. Refletindo sobre a vida, disse que, mais do que trabalho ou cargos ou posiçōes, o que ficava da existência eram os bons momentos curtidos com pessoas queridas.

E ali caiu minha ficha: Sidnei sabia aproveitar a vida, fazendo o bem para quem estava por perto. Mais do que tudo, a lembrança que guardarei dele é a de que foi um homem de bem. Descanse em paz, Sidnei. E esta lágrima é um ponto final.

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O matador e os filmes de matadores

Sempre tem discussão boa com as pessoas com quem trabalho. É um ótimo jeito de formar opinião sobre assuntos relevantes para a época em que vivemos. Qualquer coisa é motivo de discussão: wikileaks, política, jeito de usar redes sociais e impactos na imagem e, obviamente, futebol. Mas o assunto de hoje pela manhã foram as mortes nos Estados Unidos. Surgiram bons e argumentos e reflexões a partir do texto abaixo, de Eugenio Bucci, sobre possíveis causas sociológicas dos matadores casuais americanas, que se repetem como avassaladoras chuvas de verão na região Sudeste do Brasil.

O sempre atento @dkeichi enviou o vídeo abaixo, de Charlie Broker, que tem um programa na BBC, em que faz análise da mídia

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Resumidamente, Daniel elencou abaixo o que dizem os especialistas em relação a como a imprensa deve tratar estes casos:

1) Tratar a notícia da maneira mais entediante possível, sem nenhum sensacionalismo.

2) Não mostrar cenas, reconstituições, depoimentos de pessoas, etc

3) Não divulgar o nome do atirador, puxar perfis do facebook, posts de blogs pessoais, etc.

4) Não mostrar a foto do atirador.

E a conclusão: “É exatamente o que a imprensa não faz, e esses mesmos especialistas dizem que tal prática só incentiva que mais mass shootings aconteçam. Tudo que um louco desses quer é a glória de uma frontpage e sentir que “I showed the world my feelings”.

Btw, não sei se concordo muito com a influência dos filmes.”

Bom, concordo com tudo que @dkeichi diz, só não com a visão sobre os filmes. Enquanto pensava na argumentação, não pude deixar de lembrar do

Jack Bauer, do seriado 24 horas. É o louco com a arma na mão que faz tudo por justiça. (O seriado é legal, vi algumas temporadas, mas há questões éticas envolvidas.) No final das contas, ele é o herói justiceiro. E no imaginário entorpecido destes matadores (cujo nome não digo aqui também e aliás, nem sei…), isso é o jeito de se fazer justiça.

Estes filmes de heróis justiceiros desde sempre povoam o imaginário coletivo americano. Dirty Harry, Duro de Matar, Chuck Norris, Rambo, Cobra, Exterminador do Futuro. A lista é gigantesca. São filmes famosos, que vendem muito e devem passar toda hora na sessão da tarde americana. Dá nisso. O cinema, a arte, ajuda a moldar a cultura e influenciar atitudes. Se a família estiver por perto e ajudar a contextualizar a violência (“Isso é só um filme!), acredito que ajude a colocar o filme no seu lugar certo. É só um “achismo” e eu adoraria ver algum estudo sobre isso. Portanto, se alguém o tiver aí ou algo para colaborar na discussão, por favor.

Segue o artigo publicado no Estadão hoje.

”Be a killer, be a star

Eugênio Bucci – O Estado de S.Paulo

O leitor haverá de perdoar o título em inglês, mas isso nem é bem um título de artigo – é, isso sim, um imperativo, uma lei não escrita e, não obstante, reiterada diariamente pelos mil alto-falantes da indústria de entretenimento, na língua dos filmes de guerra de Hollywood, com sabor de bombardeio: é um mandamento que tem gosto de slogan publicitário e de sentença de morte. Por isso vai no título assim mesmo, em inglês. Fica mais claro. A adoração da violência, da qual o espetáculo que nos cerca não consegue mais escapar, ordena, todos os dias, a todos os adolescentes que não veem sentido na vida: “Be a killer, be a star.” Mate e fique famoso. Se viver é uma tolice, matar será a sua trilha para o estrelato.

As evidências surgem em profusão. Agora, no fim de semana que passou, explodiu mais uma. Em Tucson, no Arizona, um rapaz de 22 anos, cujo nome não será digitado neste texto, disparou a sua arma contra inocentes aglutinados num evento público. Matou seis pessoas e feriu gravemente a deputada democrata Gabrielle Giffords, que tem chances de sobreviver. Sim, o roteiro é conhecido. Essa modalidade de crime vem se banalizando nos Estados Unidos, num script sempre idêntico, no qual só varia o nome das cidades, dos assassinos e de suas vítimas – o resto é igual: um jovem que, segundo depoimentos dos professores e vizinhos, era “estranho” e “desequilibrado”, tanto que cultuava ideais nazistas ou análogas, sofre um revés na escola, vai a uma loja do bairro, compra um fuzil ou uma garrucha e mata meia dúzia de conterrâneos.

Por quê? Aí está o ponto: as evidências são clamorosas e repetitivas, mas a compreensão do que se passa é mínima, quase miserável.

A maior parte das explicações faz referência ao fetiche que a cultura americana desenvolveu pelas armas de fogo. Alegam que espingardas e pistolas são objetos de desejo e, mais grave, estão à venda em qualquer esquina dos Estados Unidos. Um bom exemplar dessa linha de explicações pode ser visto no filme Tiros em Columbine, de Michael Moore, que levou o Oscar de melhor documentário em 2003. A partir de um caso semelhante a esse de Tucson, o filme de Michael Moore critica acidamente o fascínio da sociedade americana por equipamentos bélicos em geral. É claro que Michael Moore aponta um dado real, mas não resolve a charada. Proibir o comércio de armas de fogo não solucionaria a questão; a causa não é apenas essa e talvez não seja fundamentalmente essa. Há mais fatores a considerar.

Agora, no crime de Tucson, em que uma bala atravessou a cabeça da deputada Gabrielle Giffords, que é odiada pelos republicanos linha-dura, aparece com mais clareza outro ingrediente: as ideologias intolerantes, quase sempre de corte ultraconservador, comparecem como um denominador comum entre esses criminosos. Outra vez, o dado é real, mas parcial e perigosamente enganoso, pois pode levar a crer que esse tipo de crime é coisa de gente “de direita” – e não é, ou não é só de gente “de direita”.

O que falta ser levado em conta, aí, é o papel estruturante da indústria do entretenimento, tal como ela foi moldada pelo mercado americano. É essa indústria que fornece o repertório de signos, símbolos e narrativas pelo qual os valores da violência, da xenofobia e da intolerância ganham sentido. O fetiche da arma de fogo só virou uma categoria sólida na sociedade americana – e na sociedade global, por extensão inevitável – porque encontrou lugar nuclear no modelo do herói consagrado pelo entretenimento. Esse herói é o indivíduo solitário que, com sua integridade (ou turrice) e sua força, moral e física, enfrenta o “sistema”. Para ele, a acusação de ser desajustado é bobagem. Ele não liga. Ao contrário, ele até se sente fortalecido quando cai no estereótipo de “incompreendido”. O herói de Hollywood, tal como foi esculpido ao longo do século 20, é aquele que, em nome do bem, que só ele sabe qual é, recorre à violência mais selvagem; é aquele que se mata em nome de sua própria teimosia. Então, a mocinha que o ignorava irá chorar por ele. É nesse modelo de herói, precisamente nele, que se refugia o psiquismo desse tipo de criminoso. As mesmas manchetes (de jornais, revistas, rádio, televisão e internet) que o denunciam, expondo sua foto, sua biografia e suas esquisitices, fazem com que ele se sinta glorificado, num tempo em que é glamouroso, como nunca foi, fazer o papel de bandido corajoso. São essas as manchetes que ordenam: “Be a killer, be a star.”

Antes que se pense, então, que a saída estaria num recuo da imprensa, que teria de deixar dar destaque aos assassinos, é bom avisar: também nesse ponto existe uma armadilha. Assim como a raiz do problema não está na venda de armas nem nas ideologias “de direita”, ela também não está na tal “mídia”. Ela está, antes, na combinação dos três fatores que foram listados aqui: a idolatria das armas e de seus senhores, a intolerância extremada e, finalmente, o fator que articula os outros dois, o chamado “star system”, no qual ser estrela vale mais do que viver ou deixar viver. Essa é uma combinação poderosa, profunda, que não se resolve com proibições burocráticas. O público deseja (com um ardor demasiado, é verdade) ver de perto essas tragédias reais, e tem o direito de vê-las. Aos jornais cabe narrar as tragédias. A pergunta é: por que o jornalismo não tem sido capaz de ajudar o público a compreender essas tragédias?

Em parte, porque a imprensa se tornou parte da indústria do entretenimento e, com isso, perdeu distanciamento para criticar os fundamentos dessa indústria. Ela vê criticamente o mercado de armas e o obscurantismo das ideologias, mas não visualiza direito como entretenimento e violência se entrelaçam. Sem se dar conta, a imprensa é o céu estrelado pelos assassinos que ela ajudou a convocar.

JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP E DA ESPM”

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Wikileaks mexeu com o sistema

Segue em alta a discussão sobre o WikiLeaks, com a participação de intelectuais como Umberto Eco, Clay Shirky, Manuel Castells, entre outros.

A discussão é muito maior sobre a legalidade de publicar ou não documentos secretos, mas sim de testar limites sobre transparência, privacidade, enfim, como se comportar na sociedade em rede. Tanto que chamou a atenção da Veja e outras semanais, revistas direcionadas para a classe média brasileira, que em geral cobrem os assuntos apenas quando viram mainstream. Wikileaks virou mainstream rapidamente porque mexeu com o sistema. Interessa à classe média e aos intelectuais. Mexe como todos. Aos poucos, a sociedade começa a perceber o quanto este chacoalhão pode mudar a maneira de trocar informações ou de guardar segredos. (No Brasil, visitas ao Wikileaks.org registram crescimento de 9900%, segundo o Hitwise.)

WikiLeaks tem despertado reações viscerais, apaixonadas e odiosas. Normal em um momento de transição como o que estamos vivendo. Censura, anarquismo, ativismo, hackers, tortura, liberdade de informação, jornalismo, prisão, fiança, acusações, estupro. Há elementos dignos de filmes de cinema. Depois de “A Rede Social”, alguém aí dúvida que WikiLeaks vai virar filme em breve?

A missão do WikiLeaks é messiânica: publicar documentos legais que exponham alguma conduta ilegal, pouco ética. Julian Assange (que perdeu o título de homem do ano para Mark Zuckerberg do Facebook) já disse que seu objetivo é esmagar canalhas e atingir governos corruptos.

O texto abaixo traz uma ótima reflexão sobre como este fenômeno impacta (ou não) a maneira de fazer jornalismo. Foi escrito por David Carr, para o NY Times e reproduzido pelo Estadão dois dias atrás.

WikiLeaks e o novo jornalismo 

Por David Carr em 15/12/2010

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 14/12/2010, tradução de Anna Capovilla; título original “O WikiLeaks, a mídia e o novo jornalismo”, intertítulos do OI

Será que o WikiLeaks mudou o jornalismo para todo o sempre? Talvez. Ou quem sabe o que aconteceu foi exatamente o contrário. 

Em 2008, o WikiLeaks divulgou apenas documentos que sugeriam que o governo do Quênia havia saqueado o país. A imprensa em geral não se manifestou a este respeito. No início de 2010, o WikiLeaks passou a adotar um enfoque mais jornalístico – editando e comentando, no qual um helicóptero Apache abria fogo sobre um grupo de pessoas aparentemente desarmadas. Os comentários foram os mais variados, mas dessa vez a revelação recebeu uma atenção muito maior da mídia.

Em julho, o WikiLeaks deu início a uma espécie de parceria com veículos de comunicação oferecendo-lhes uma primeira visão do chamado “Diário da Guerra do Afeganistão”, uma estratégia que resultou numa série de artigos sobre as implicações dos documentos secretos. Então, em outubro, o WikiLeaks decidiu abrir para os jornais Le Monde, El País, The Guardian e Der Spiegel o filão de ouro, até então secreto, de 250 mil telegramas diplomáticos dos EUA que descrevem as tensões em todo o globo.

Enfoque jornalístico

Nota-se que a cada divulgação sucessiva, o WikiLeaks ia aperfeiçoando sua estratégia, e foi recompensado com uma cobertura cada vez mais séria e mais ampla de suas revelações. Julian Assange, fundador do WikiLeaks, começou a compreender que o que norteia a cobertura dos eventos é a escassez, e não a abundância. Em vez de simplesmente arrancar o pano para que todos pudessem ver, ele passou a limitar as revelações às que poderiam acrescentar valor mediante uma apresentação condizente. E publicando apenas uma parte dos documentos, em lugar de despejar as informações aleatoriamente e descuidadamente pondo em risco a vida de pessoas, o WikiLeaks também assumiu uma posição de responsabilidade, numa estratégia que parece ir contra o próprio anarquismo fundamental de Assange.

Embora este agora afirme que o site está interessado no que definiu uma nova forma de “jornalismo científico”, seus primeiros escritos sugerem que ele acredita que a missão do WikiLeaks consiste em jogar areia na atuação de países que considera corruptos, fechados em si mesmos e particularmente malignos. Ele iniciou uma conspiração com a finalidade de desmontar o que considera uma conspiração maior ainda.

“A ideia de que esta experiência teria mudado profundamente o jornalismo, ou seja, a maneira como a informação surge, parece um tanto exagerada”, disse Bill Keller, diretor executivo do New York Times. “A escala em que isto aconteceu foi inusitada, mas será que foi tão diferente dos Papéis do Pentágono ou da revelação de Abu Ghraib ou das interceptações realizadas pelo governo? Provavelmente não.”

Neste caso, foi um conforto para as editoras jornalísticas saber que o tesouro não continha, com algumas notáveis exceções, nenhuma revelação capaz de abalar o planeta. Mas como ficou cada vez mais evidente que o WikiLeaks estava mudando a maneira de divulgar e consumir as informações, surgiram indagações a respeito do valor do enfoque jornalístico tradicional.

Armas de guerra

O WikiLeaks com certeza não se beneficia da mesma proteção dada aos outros veículos de informação nos países livres. Ao contrário, sofreu fortes ataques quando o PayPal, Amazon e Visa tentaram impedir o acesso aos seus serviços, medida que pareceria impensável se tomada contra jornais.

Mas Assange é um parceiro complicado. Até o momento, o WikiLeaks esteve envolvido com uma frutífera colaboração, uma nova forma de jornalismo híbrido que surgiu no espaço entre os chamados “hacktivistas” e os veículos de comunicação tradicionais, mas sua relação é instável. Talvez, por enquanto, o WikiLeaks esteja querendo jogar bola com os jornais, mas não compartilha dos mesmos valores ou objetivos. A imprensa tradicional talvez gaste muito tempo tentando cavar informações oficiais, mas ela opera em grande parte com base na convicção de que o Estado é legítimo e tem o direito a resguardar pelo menos alguns dos seus segredos.

Por outro lado, Assange colocou sobre a mesa uma mensagem apocalíptica: ele disse que se a existência do WikiLeaks for ameaçada, a organização publicará indiscriminadamente todos os documentos que ela possui, ignorando as eventuais consequências fatais deste ato. E se o WikiLeaks não gostar do modo como um dos seus parceiros da imprensa tratou das informações que ele forneceu ou não gostar da cobertura dispensada ao site? As mesmas armas da guerra da informática postadas contra seus adversários políticos e seus concorrentes na internet poderão se voltar contra os veículos de comunicação.

Ato de rebelião

Steve Coll, presidente da New America Foundation, escritor e colaborador da revistaNew Yorker que tem escrito frequentemente sobre o Afeganistão, disse que a permanência do modelo do WikiLeaks é uma questão em aberto.

“Tenho minhas dúvidas de que uma divulgação deste porte venha a ocorrer novamente”, afirmou, “em parte porque os interesses envolvidos e o estado de direito tendem a frear com rigor movimentos incipientes. Basta lembrar do impacto inicial do Napster e do que aconteceu com a rede”.

Evidentemente o Napster deixou de existir, mas o ato de rebelião que ele representou quase ameaçou a indústria fonográfica. “Neste momento, os veículos de comunicação estão tratando deste caso como uma transação com uma organização jornalística legítima”, ele disse. “Mas a certa altura, o site terá de evoluir e tornar-se uma organização com endereço e identidade, do contrário este tipo de colaboração acabará.”

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Na dúvida, pergunte à natureza

Emergência, Sociedade em Rede, swarm-effect (enxames), existem algumas palavras para falar da cada vez mais articulada sociedade  da era da informação. O caso que estamos vivenciando do WikiLeaks  é um excelente exemplo disso. (É um divisor de águas na maneira da sociedade lidar e se organizar com informações confidenciais – sem julgar a questão ética do que estão fazendo, tendo a achar que o movimento é bom para o jeito de nos organizarmos em sociedade, ainda que possa ser dolorido no início. Leia mais no post anterior). Assim que a PayPal, Visa e Mastercard bloquearam o fluxo de recursos para o WikiLeaks, hackers de todo o mundo se organizaram rapidamente para atacar estas empresas. Hackers independentes organizados sob um guarda-chuva chamado Anonymous, um caso exemplar de funcionamento de rede (de novo, sem julgar se o que fazem é certo ou errado).

Com a velocidade das mudanças, fica cada vez mais necessário ter velocidade para reagir rapidamente. Dentre as imagens para representar isso, conheci ontem esta abaixo, dos pássaros Starlings, da Inglaterra. Eles voam em bando ao final do dia com uma beleza estonteante. E é estonteante mesmo, inclusive porque este movimento também serve para afastar predadores (falcões). Até parecem os hackers do Anonymous confundindo os governos que aparentemente tentam bloquear o WikiLeaks a todo custo.

Mais: os starlings neste movimento trocam informações sobre onde podem encontrar alimentos durante um dia. Fazem isso com movimentos precisos, tanto que o responsável pelo registro dos vídeos disse que não viu nenhuma colisão em todas as vezes que observou os pássaros. É a rede, estúpido.

Ontem na palestra onde mostrou este vídeo @ricardo_thymus disse:

“Isto é sociedade em rede, não tem pirâmide, não tem um líder, mas cada um é líder dependendo da situação. Nesta sociedade, não há controle, e o dilema é como lidar com este mundo onde perdemos completamente o controle”

O maior impacto do vazamento do WikiLeaks foi até agora no governo americano, que está tentando se virar com o vazamento de informações. Inclusive este recente, grave, sobre o acordo EUA e China contra a Europa para boicotar Copenhague. Na sociedade em rede, vale quem você é e não quem você diz que é.

O mundo sem controle funciona? “Na dúvida, pergunte à natureza”, disse @ricardo_thymus. Pergunte aos Starlings.

 

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WikiLeaks: a transparência veio para ficar

A transparência na era 2.0

A nova revelação dos documentos secretos do WikiLeaks trouxe uma discussão excelente à tona. O pano de fundo é a transparência, ainda que por vezes o foco fique na relevância ou não dos documentos revelados.

Em uma carta ou e-mail, ninguém envia informações que não gostaria que fossem passadas adiante. Quando alguém está falando ao telefone, só fala tudo o que pensa para alguém muito confiável e quanto tem certeza que não está sendo gravado. Os diplomatas expostos no caso dos diplomatic cables (mensagens diplomáticas) estavam falando em uma via confiável e – aparentemente – segura. E aí falavam tudo o que pensavam, mas não necessariamente aquilo que fariam em público. Ou seja, nem sempre de maneira ética ou transparente.

A sociedade é baseada em pequenas mentiras (white lies) alguns vão pensar. Sem elas, as relações não se sustentariam. Sim, mas white lies não fazem mal a ninguém. Neste caso, estamos falando de assuntos sérios, que envolvem milhões de vidas. Em alguns casos revelados, as informações ajudam a entender melhor o mundo e em outros dão a origem correta para algumas questões. Em outras, revelam planos de assassinatos. As fontes são os diplomatas, que podem ter interesses próprios ou usar informações a seu favor. Mas como estavam falando em um canal que consideravam seguro, falavam tudo o que pensavam. Por isso, as informações críveis. É o sol como desinfetante.

A transparência, que está no centro do debate, chegou para ficar. Queira-se ou não. O WikiLeaks se propõe a receber arquivos confidenciais para depois disponibilizá-los para grandes veículos. (O primeiro estrago do site foi a revelação de diálogos escrachados de soldados americanos matando civis iraquianos.)

No TED Global, em julho passado, Julian Assange, o responsável pelo serviço/site foi o convidado surpresa e expôs suas convicções. Na época, ele havia revelado o assassinato de civis iraquianos no caso que ficou mais conhecido. Chris Anderson, do TED, estava conduzindo a entrevista e em certo momento perguntou para a plateia se achavam Assange um perigo à ordem pública ou um herói. A esmagadora maioria falou que ele era um herói.

Não é o que estão pensando os governantes americanos, que estão buscando censurar o WikiLeaks e nem mesmo a justiça Sueca, que fez uma acusação de que Assange teria cometido estupro. O certo é que a verdade dói muitas vezes. Mais certo ainda é que daqui para frente, se você não quiser que alguma posição seja pública, não emita. O mundo em off é cada vez mais um anacronismo das relações entre jornalistas e fonte. Um segredo quando contado deixa de ser segredo. Off is off now.

No fundo, o WikiLeaks representa os maiores dilemas que vivenciamos hoje, com o excesso de informações (foram 250 000 e-mails vazados!), abertura cada vez maior, interdependência e velocidade trafegando à velocidade da luz.

Fui conversar com um jornalista amigo em quem confio muito sobre a opinião dele em relação ao WikiLeaks. A resposta foi primorosa. Vou reproduzir:

“Sobre o WikiLeaks, acho que transparência é bom, Rodrigo. Mas, pergunto eu, qual valor pode ser defendido de forma incondicional e irrestrita? Eu procuro, procuro, e não acho um que seja: nem liberdade, nem verdade, nem transparência. Todos estes valores admitem algum nível de restrição que é arbitrado pelo interesse coletivo. Creio, meu amigão Rodrigo, que qualquer tipo de fundamentalismo é potencialmente perigoso — inclusive o da transparência. Eu só admitiria rever esta minha opinião se o homem, e as comunidades humanas, fossem, enfim, perfeitas. Perfeitas na ação e no pensamento. E não são.”

Julian Assange: ativista ou jornalista?

Assange, mais do quem jornalista, está sendo visto como um ativista. Sua teoria sobre o que o WikiLeaks pode cumprir é interessante:

“Quanto mais secreta ou injusta uma organização é, mais os vazamentos causarão medo e paranoia na sua liderança. Isso minimiza da eficiência dos mecanismos de comunicação internos (aumentando o custo da “taxa de segredo”) e do conhecimento do sistema, resultando numa perda da habilidade de se agarrar ao poder à medida que o ambiente exige adaptação. Assim, num mundo em que os vazamentos são fáceis, sistemas secretos ou injustos são mais impactados do que em sistemas abertos e justos. Os sistemas injustos são, por isso, extremamente vulneráveis a vazamentos em larga escala.”

Há quem considere o WikiLeaks apenas uma pequena vitória da transparência, mas na verdade um tiro no próprio pé. A Economist disse que no final das contas, ao querer lutar por transparência, Assange vai causar uma diminuição na circulação de informações.

Enfim, uma discussão apaixonante, típica de um momento de intensa transformação e adaptação da sociedade. Para ajudar a entender melhor, segue aqui uma coletânea de notícias recentes para entender melhor o impacto do WikiLeaks nos últimos dias, com ajuda na curadoria do meu colega @dkeichi

WikiLeaks ataca de novo

Comentário do Noam Chomsky

Time já está considerando Assange para personalidade do ano:

Risco de vida

Assange é um ativista mais do que jornalista

Gráfico interessante que mostra os documentos por país

Irlanda foi contra e bloqueou o fornecimento de armas americanas na guerra de Israel x libano

Guerra Russia x Georgia – na época todo mundo condenou a Russia, quem na verdade começou foi a Georgia

Thy The Wikileaks Document Release Is Key To A Functioning Democracy:

How Wikileaks Changes Things For Us All

From WikiChina (Thomas Friedman, to NY Times)

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O poder das empresas de mudar o mundo

Abaixo, compartilho o material que prepararei para minha fala no TEDx Santos, no último 28 de setembro. Em breve, deveremos ter o vídeo da palestra. E aí voltarei ao assunto aqui. Espero que gostem.


O incrível potencial de conexão das pessoas pode provocar a mudança de prática das empresas, que podem mudar o mundo. É claro que ninguém resolve nada sozinho. As empresas precisam da ajuda de governos, academia, mídia, enfim, a sociedade como um todo. Mas quero focar aqui no poder das empresas.

A economia é o jeito pelo qual estamos organizados. Com honrosas exceções que confirmam a regra, como Gandhi, Martin Luther King e Madre Teresa de Calcutá, são os recursos financeiros que influenciam a mudança do mundo.

Nos últimos 10 anos encontrei casos de empresários e empreendedores que estão mudando o mundo com uma série de pequenas ações.

Esta história passa um pouco pela minha carreira. Sou jornalista e depois de alguns anos trabalhando na imprensa em veículos como Veja, Você s/a e Zero Hora, recebi o convite para trabalhar no Banco Real em 2003. Aceitei. Não porque sempre tive o sonho de trabalhar em um banco, mas porque achava que um banco que negava empréstimos de milhões de reais para alguns clientes por questões ambientais e na outra ponta fazia empréstimos de quantias como 1000 reais no microcrédito investia em algo que sempre acreditei: valores.

Tomei a decisão ir trabalhar no Banco e quando me dei por conta, eu, um surfista, estava usando terno, gravato e sapato e meia preta todo o dia. Depois de uma breve passagem pelo marketing, fui para a Diretoria de Desenvolvimento Sustentável para ajudar a estruturar a comunicação sobre o tema. Nestes últimos sete anos, tive a oportunidade de conhecer uma grande quantidade de empreendedores e pessoas que praticam a sustentabilidade como estratégia central de negócio.

Gostaria de apresentar a vocês aqui alguns destes nomes. Quero por meio disso mostrar que está ao alcance de todos e que podemos, sim, fazer um mundo melhor por meio do ambiente dos negócios.

Há um ditado budista que diz que não conseguiremos fazer um mundo melhor com 100 grandes ideias, mas sim com pequenas ações no dia-a-dia.

Há estudos mostrando que das 100 maiores economias do mundo, cerca de 50 são empresas (os dados variam ano a ano de acordo com o faturamento das empresas e PIB dos países). É reflexo de um processo que começou na revolução industrial e fez o poder mudar de mãos: da igreja e Estado para a instituição corporação.

As empresas têm o poder econômico e são capazes de influenciar até decisões de governo e mudanças nas cadeias de negócios.

E aqui fica a pergunta para reflexão: como usar bem este poder? O que valorizar? O que queremos construir com as empresas?

Vou citar alguns exemplos agora: há pouco anos, quando começou a olhar de forma estrutuada para o tema sustentabilidade, o Walmart, uma das maiores empresas do mundo, tomou a decisão de não mais comprar de fornecedores que não pescassem de de maneira sustentável. Isso provocou uma grande mudança em milhares de fornecedores ao redor do mundo que começaram a cuidar destas questões.

Farra do Boi na Amazônia, estudo do Greenpeace

Não precisamos ir longe. No ano passado, o Greenpeace lançou um relatório chamado a Farra do Boi sobre o avanço da pecuária sobre a Amazônia. Em seguida, três grandes varejistas decidiram que não mais comprariam carne de frigoríficos que não conseguissem provar que os animais abatidos não vinham de pastos criados com o desmatamento ilegal. A reação foi rápida e os frigoríficos mudaram suas práticas.

Está cada vez mais claro que as restrições financeiras ajudam a mudar algumas práticas. Mas será que é somente disso que precisamos ou que conseguiremos fazer a mudança necessária?

A resposta é não. E há exemplos disso. São os empresários e empreendedores, os heróis do dia-a-dia, que provam que não.

São líderes que reconhecem a importância da interdependência em nosso dia-a-dia. E sabem que suas atitudes são capazes de mudar o ambiente de negócios para melhor.

As empresas que estão conquistando mercados hoje estão deixando de lado a máxima cristalizada de Milton Friedman, prêmio Nobel, que o negócio dos negócios são os negócios. Sim, são os negócios, mas também algo mais: investir em modelos de negócios sustentáveis.

Peter Drucker, o grande guru da administração moderna, lembra que as empresas existem por uma finalidade: o cliente. Vamos pensar por um momento no cliente como sociedade, ousando criar algo em cima da obra de Drucker.

O aumento da percepção da interdependência e da relevância de todos interessados nas decisões do cliente, a empresa só existe se estiver de acordo com as vontades da sociedade. Regulações, disputas de clientes, multas ambientais – se a empresa fizer algo que não agrada ao cliente, à sociedade, será processada por isso.

Neste sentido, o lucro não é um fim, algo a ser buscado – mas sim uma medida de sucesso, o teste de viabilidade. Se atender ao cliente, à sociedade, o lucro será consequência.

Essa perspectiva tira o foco de resultados e leva para a visão de que é necessário gerar valor. O que importa cada vez mais quando olhamos para os resultados da empresa não é somente o quanto os resultados mostram, mas como eles foram atingidos.

Nos próximos anos, quatro tendências vão marcar o mundo dos negócios: colaboração, ética, transparência e sustentabilidade. De certa maneira, elas estão todas ligadas e as empresas que olharem para isso terão grandes vantagens competitivas.

Algumas empresas conseguem lucrar colocando estas questões no dia-a-dia dos negócios. Empresas que negligenciam ou ignoram estão virando pó.

Vale lembrar do que aconteceu com as grandes empresas em casos nem tão recentes, mas emblemáticos: Enron, WorldCom. Estas empresas manipularam os balanços para mostrar bons resultados para os acionistas. Acabaram desmascaradas.

A capa da Time com as mulheres que denunciaram os escândalos da Enron e outros


Pesquisas indicam que os seres humanos são movidos à reciprocidade. As redes sociais espelham isso. O famoso toma-lá-dá-cá. Se você fizer algo que eu gosto, devolverei isso a você. Se me fizer mal, farei mal a você também. Estas empresas trapacearam, tiveram falhas graves de gestão e tentaram esconder isso dos consumidores e da sociedade. A WorldCom entrou em processo de falência e foi adquirida por outra empresa. A Enron faliu em 2001 e levou junto a consultoria Arthur Andersen, que aprovara os balanços.

Aparte a visão maniqueísta, são exemplos claros da visão sistêmica, de que as empresas fazem parte de um todo e não operam de maneira independente.

Na outra ponta, temos empresas como a Natura, que alavancou sua marca investindo em questões relevantes para seus consumidores, fornecedores e sociedade, criando produtos que valorizam o meio ambiente e as relações entre as pessoas. Em 2005, depois de uma trajetória brilhante, a Natura abriu o capital, num processo muito bem-sucedido. Em 2007, no entanto, teve problemas de gestão de produtos e não conseguiu atender a demanda dos consumidores. O mercado penalizou as ações das empresas e o momento serviu para a Natura se apoiar firmemente nos seus valores. Não cedeu às pressões do mercado e deu a volta por cima e em 2009 foi escolhida a empresa do ano pela revista Exame.

A Natura, melhor empresa de 2009

Outro exemplo vem dos Estados Unidos. Em 1972, foi fundada a incrível Patagônia, empresa de roupas e materiais esportivos, que ajudou a criar uma rede de empresas chamada 1% para o planeta e entre outras coisas, deixa que os funcionários montem suas agendas de acordo com suas vontades, como surfar ou escalar montanhas em dias perfeitos para isso. O fundador escreveu um livro chamado Let My People Go Surfing. Nele, fala da maturidade de reconhecer a responsabilidade de cada um e valorizar isso para criar um bom ambiente de trabalho. Então, não se trata de ser ‘bom mocinho’, mas de apostar na maturidade.

O livro com a biografia de Yvon Chouinard e a história da Patagonia

Mas eu queria também falar aqui de outros casos nem tão conhecidos, mas igualmente relevantes. Nem só de grandes empresas é feito o mundo dos negócios. Muito pelo contrário. As pequenas empresas, que representam o maior contingente de empregos no Brasil. Hoje, de cada três novas vagas, duas são geradas nas PMEs.

Há empreendedores de pequenas e médias empresas que encontraram seus nichos e encontram eco para o que fazem no reconhecimento do mercado.

Ione Antunes é outro exemplo. Ela criou em 1996 a empresa Help Express, de entregas de materiais por meio dos famosos motoboys. Ione desde o início acreditou que os motoboys não precisariam ser maltratados ou que era necessário remunerá-los por entrega em vez de assinar suas carteiras. Sempre cuidou bem deles e até os estimulou a criar um código de ética, onde constam pérolas como: Não ficarás no fliperama e não chutarás o retrovisor alheio. Na última década, com estes cuidados simples, mas poderosos, Ione conseguiu fazer sua empresa crescer na faixa dos 40% ao ano.

Vamos pensar em outro exemplo. Academia de ginástica. Quem nunca começou a fazer academia e se sentiu incomodado com a barriguinha ou mesmo com o ritmo que os treinadores tentavam impor? E aquele ambiente 100% geração saúde… Tony, um empresário paulistano, percebeu que isso incomodava seus pais e por conta disso nunca encararam uma academia. Segundo ele, muita gente vai fazer atividade física por recomendação médica e precisa se sentir à vontade para continuar o ritmo de exercícios. Então, ele, que sempre gostou de esportes, criou um conceito diferente de academia, a Ecofit, para acolher estas pessoas. Cresce 30% ao ano…

(Este caso não entrou na fala por conta do tempo.) Agora, vamos pensar no turismo. Em pousadas em locais paradisíacos. Estes locais, quando viram moda, correm o risco de perder seu maior encanto, o caráter preservado. Em 1992, um empresário dono de pousada, decidiu reproduzir no Brasil o conceito de Relais Chateau, de pousadas de charme, que existe na Europa e em outros lugares do mundo. E criou por aqui a Roteiros de Charme. Para fazer parte da associação, a pousada precisa cumprir requisitos básicos de charme, sofisticação, estar em um lugar agradável e ter cuidados sociais e ambientais. Todos os associados passam por vistoria periódica. Mais do que isso: cada associado leva para sua região a preocupação com os cuidados das pessoas e do meio ambiente por meio de palestras para outros hotéis da região. A Roteiros de Charme vai muito bem, obrigado.

(Este caso também não entrou na fala por conta do tempo.) Em outro exemplo, o americano Ray Anderson, fundador da Interface, fabricante de carpetes, diz que mudou seu negócio por basicamente duas situações. Por que leu um livro chamado Ecologia do Comércio, de Paul Hawken e por que um consumidor perguntou a ele o que fazia com os carpetes usados… Ele não sabia a resposta. Mas não teve medo da pergunta e a levou para dentro da empresa, para transformar seu negócio.

Estes casos mostram empresas absolutamente afinadas com seu tempo. O Brasil e o mundo evoluem rapidamente, junto com o ambiente dos negócios. Os consumidores estão mais exigentes e cobrando seus direitos. Há muitos lugares para se fazer ouvir: além dos tradicionais rádio, TV e jornal, há sites de Procon, de estímulo a cidadania, sem falar das redes sociais: Facebook, Orkut, Twitter etc.

Os jovens e consumidores em geral já não prestam atenção somente às propagandas, mas cada vez mais naquilo que é dito sobre as marcas em diversos lugares, como nas redes sociais. É lá que eles buscam informações de compra.

O mundo é cada vez mais transparente, não há como empurrar uma imagem para o consumidor e entregar outra coisa. Este ano tivemos um episódio que já ganhou seu espaço na história. Foi o caso da British Petroleum, a BP, que estava querendo mudar seu nome para Beyond Petroleum, para ligar a marca ao desenvolvimento de energia limpa. O desastre com a plataforma Deepwater Horizon, um dos maiores da história, jogou tudo por água acima. Independente de quem tenha sido a culpa, este foi um abalo tremendo na imagem da BP. E uma perda de 70 bilhões de dólares em valor de mercado… Além do CEO que foi demitido.

O vazamento que custou 70 bilhões de dólares para a BP

Imagem é tudo neste novo mercado. A reputação está na lista principal das prioridades de CEOs mundo inteiro. Ignorar a voz dos consumidores é se fechar para este mundo. Ouvi-la é se conectar.

O que importa é o que fazemos no dia-a-dia. Cada decisão de negócio. Os empreendedores e empresários que são movidos por uma causa, querendo transformar o ambiente onde atuam suas empresas não buscam desculpas nos impostos ou na fiscalização antiética. Eles direcionam o foco dos seus negócios para colocar em práticas seus valores, sua visão de mundo. Estes empreendedores têm o lucro trabalhando a favor da causa.

Na década de 80, a indústria tabagista fez de tudo para esconder os impactos do cigarro no corpo humano, lembrou um artigo da Harvard Business Review recentemente. No início deste milênio, a indústria alimentícia foi pró-ativa para substituir a gordura trans na alimentação, para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Também no início desta década, os bancos começaram a analisar os impactos socioambientais dos empréstimos. Ou seja, o dinheiro que estou concedendo para clientes. Como ele vai ser usado? Se, por exemplo, em negócios como o desmatamento ilegal, além de prejudicial ao meio ambiente, pode virar uma multa que vai inviabilizar a empresa e vai impactar no pagamento do empréstimo. Uma incrível mudança de atitude num curto período de tempo.

Ao contrário da visão cartesiana, as empresas são cada vez menos vistas como sistemas mecânicos, mas sim como organismos vivos, que fazem parte de um todo. E organismos vivos possuem valores, que influenciam as atitudes na sua essência.

As empresas e os empreendedores não podem ser vistos como mal necessário, que precisa ser vigiado ou regulado. Mas para ganhar esta confiança, os líderes precisam expandir o alcance da empresa para além do lucro, criando um novo jeito de fazer negócios. E vejam só: empresas que se preocupam mais com estas questões têm uma melhor performance financeira. É o que temos percebido na análise de risco socioambiental das empresas elegíveis.

A preocupação com o novo jeito de fazer negócios está cada vez mais sendo valorizada pelo mercado, como na criação de índices e rankings. Um índice que mostra as 100 empresas mais éticas, feita pelo instituto Ethisphere, mostra que as empresas mais éticas tiveram performance até 50% superior comparado às empresas presentes no S&P 500, índice que reúne 500 grandes empresas. Outro estudo, da A.T. Kearney, mostrou que durante a crise financeira em 2008, as empresas que mais se preocupavam com sustentabilidade tiveram também performance melhor. A listas das melhores empresas para trabalhar tem retorno na bolsa maior do que as listadas nas maiores e melhores da Exame.

Ou seja, Respeito é bom – e dá lucro!

Pergunte para Ione e seu time de motoboys. Tony na Academia. Helenio no Roteiros de Charme. Ray na Interface. Yvon na Patagonia. Fábio Barbosa no Santander…

A causa de cada um deles é muito clara. É a mesma que a minha: acreditar que podemos transformar o mundo por meio da ação das empresas.

Para encerrar fica a pergunta: que mundo queremos valorizar com nossas empresas? Como podemos usar o poder transformador das empresas para construir um mundo melhor? Qual a sua causa?

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