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Qual o seu sonho brasileiro?

Os jovens brasileiros e a vontade de mudar o mundo colocada em prática.

Gosto demais da frase: “Existe um momento na história de uma nação em que ela está tão acordada, que começa a sonhar”. Faz todo o sentido para o momento que o Brasil vive.

Entre lá e conte seu sonho: http://www.osonhobrasileiro.com.br

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De onde vem tanta safadeza? Da moral de cuecas…

É sempre surpreendente a habilidade que os cartunistas têm de retratar o mundo com poucos traços.

Abaixo, Amarildo captou o maior paradoxo da sociedade brasileira. A culpa é sempre do outro. A culpa da corrupção é toda dos políticos, sem saber que a sociedade é formada por cada de um de nós, com nossas escolhas, principalmente as do dia-a-dia. 

Mais abaixo, o que os gaúchos chamam de “moral de cuecas”, a lição de moral de quem não tem moral para falar. 

A safadeza nossa de cada dia

 

"O que pretende fazer a respeito?"

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De novo: o PIB não é índice de progresso

Felicidade é mais do que um PIB gordo

Felicidade é mais do que um PIB gordo

Não é novidade que este blog é fã de Eduardo Giannetti da Fonseca, um dos economistas (pensador) mais modernos destes trópicos, senão do mundo. Com sua brilhante simplicidade, Giannetti traz metáforas esclarecedoras sobre o modelo de desenvolvimento que temos baseado no crescimento e que traz  problemas como o das mudanças climáticas. No último 4 de setembro, o Estadão publicou uma entrevista excelente em que o economista repercutia a decisão de alguns bilionários pedindo para serem taxados para redistribuir renda. Mas este não era o ponto principal, e sim uma discussão sobre modelos de desenvolvimento, passando pelas decisões dos empresários, quase sempre de olho apenas no lucro, sem levar em conta como este lucro é obtido. E principalmente pela falta de visão da humanidade em geral para colocar na conta tudo o que é utilizado de recursos naturais para produzir o que consumimos. Vou reproduzir alguns trechos aqui:

A valorização do chamado ‘instinto animal do empresariado’ ainda tem lugar em uma sociedade que fala cada vez mais em sustentabilidade e consumo responsável?

Se tivermos que esperar a regeneração moral da humanidade para resolver o problema ambiental, estamos fritos. Ela não vai ocorrer. E quem imaginar que outro modelo econômico implantado de cima para baixo dará conta do recado, também está enganado. A pior experiência ambiental do século 20 é a da União Soviética. O que se percebe agora é que o mercado competitivo regido pelo sistema de preços padece de uma falha extremamente grave no tocante à relação entre o ser humano e o mundo natural. Ele não fornece uma sinalização adequada dos custos ambientais envolvidos em nossas escolhas de produção e consumo.

Explique melhor.

Por exemplo: vamos comparar duas opções de geração de energia elétrica. Na solar, na melhor tecnologia existente, o custo é de US$ 0,17 por quilowatt/hora. Ele está caindo e pode chegar US$ 0,10 nos próximos anos. Já uma termoelétrica a carvão gera um quilowatt/hora, igualzinho, por US$ 0,02 a US$ 0,03. Qual é a opção lógica de uma empresa que esteja no mercado ou de um país que queira ser competitivo? É o que a China está fazendo: termoelétrica a carvão. Só que essa comparação é tremendamente distorcida. E o custo da emissão de CO2 gerado pela queima do carvão? Não aparece na conta. É como se o custo imposto à humanidade e às gerações futuras não existisse. Outro exemplo: quando você come carne, paga a criação do gado, a pastagem, o transporte, a embalagem, mas não a emissão de CO2. Só que se você somar todo o rebanho mundial, bovino, suíno e aviário, a emissão de CO2 equivalente é maior do que de toda a frota automobilística do planeta. Os preços que pagamos pelo que fazemos não estão refletindo o custo total do que estamos consumindo. É essa a falha grave do sistema de preços a corrigir.

Essas coisas terão que custar mais?

Sim. O preço é um pacote de informação econômica: ele reflete, de um lado, o custo de produzir e, de outro lado, a satisfação que o consumidor tem ao consumir. Em nenhuma das duas dimensões hoje em dia está incorporado o aspecto meio ambiente, o uso de recursos naturais não renováveis, água, emissão de gases nocivos. Isso terá que ser incorporado. O problema é que se formos depender da boa vontade das empresas ou dos consumidores, isso não vai mudar. A British Airways introduziu recentemente, para o cliente de passagem aérea, a opção de pagar na emissão do bilhete o crédito de carbono correspondente ao trajeto. Imaginando que, como o mundo está aparentemente desesperado com o aquecimento global, os passageiros conscientes iriam aceitar pagar. Sabe qual foi a adesão? 3%. É a história do jovem Agostinho, que orava: “Dai-me, Senhor, a castidade e a virtude. Mas não agora”. (Risos.)

O sr. se alinha aos economistas que questionam o uso do PIB como índice de progresso.

É claro. Veja que coisa: se você vive em uma comunidade em que a água é um bem livre, como o ar que respiramos, isso não entra nas contas nacionais. Não há registro econômico. Se essa comunidade, ao contrário, polui todas as fontes de água natural e, para continuar sobrevivendo precisa purificar, engarrafar, distribuir ou importar água, o que ocorre com o PIB do país? Ele aumenta! É uma maluquice. A qualidade de vida piorou, você tem que trabalhar mais para beber água, e o sinal que a economia tal como é registrada emite é o de que a vida melhorou. Se você vai a pé para o trabalho, isso não entra no PIB. Mas se passa horas no trânsito, de carro, poluindo a cidade e prejudicando sua saúde física e, o PIB aumenta! Porque uma coisa que não era intermediada pelo sistema de preços passará a ser. As pessoas não têm noção de como os números distorcem a realidade.

Ter um cara como o Giannetti nesta trincheira é um grande alento. É como ter uma camisa 10 craque no seu time. O problema é que este pensamento ainda está fora dos grandes centros. É um jogo que não passa nos veículos de maior audiência – e portanto pouca gente ainda vê. Precisamos de mais Giannettis para este pensamento se tornar cada vez mais aceito e começar a fazer parte de movimentos maiores, como o do Butão e até da França, que querem incorporar a felicidade na maneira de medir o sucesso de um país — e não somente da economia, o velho e quase caquético PIB.

 

Veja aqui posts relacionados sobre PIB e Felicidade

Gerar mais valor para os acionistas ou jogar mais bola com a gurizada?

Só PIB maior não é receita de sucesso

No país mais feliz do mundo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Temos jeito, sim

O resgate da civilidade? foto: Agencia Estado

Outro dia, quis enviar uma frase para um amigo para ajudá-lo a passar um momento difícil e fui na minha coleção de frases destacadas dos livros. Acabei esbarrando em um aforismo genial.

Esta frase fez especial sentido ao ler hoje de manhã a notícia de que a presidente Dilma Rousseff está em plena lua-de-mel com o governador de São Paulo Geraldo Alckmin. (Leia matéria aqui no Estadão.)

Há quem diga que isso é extremamente interesseiro de ambas as partes. Isso porque Dilma precisa de um alívio da oposição neste momento em que perde apoio da base aliada em função da limpeza que promove em quatro ministérios e porque Alckmin quer levar dinheiro do governo para seus projetos.

Independentemente disso, vejo isso como uma demonstração de maturidade. Principalmente porque estamos falando do combate a miséria. Como diz a matéria:

Alckmin e Dilma firmaram acordo de unificação dos programas de transferência de renda paulista e federal. Os beneficiados, cerca de 1 milhão de famílias, terão um mesmo cartão para sacar os recursos do Bolsa Família, do governo federal, e do Renda Cidadã, do Estado.

Assim como no momento em que FHC passou a faixa para Lula em 2002 – mesmo que no segundo seguinte já tenha começado a ser bombardeado sobre herança maldita – esta busca de entendimento tem como pano de fundo a união de ideais na construção de um Brasil melhor. A carreira política para mim é um tanto binária nas motivações: 1) você está lá para isso, para servir a uma causa, ao seu País ou 2) você está lá para servir a sua causa, valorizar os seus próprios interesses.

Obviamente, há tons de cinza no meio da história e às vezes é preciso ceder para chegar onde se quer (alguns utilizando valores morais como critério, outros valores financeiros…), mas a motivação inicial vai continuar sendo uma das duas – e você vai persegui-las, desviando dos obstáculos no caminho.

Quando a presidente Dilma manda para casa ou inviabiliza a permanência de ministros que pedem demissão, vejo-a a serviço de uma causa. Não votei nela e tinha muito pouca esperança no que ela poderia fazer à frente do governo, mas preciso confessar que estou muito positivamente surpreendido.

São de pequenos sinais que precisamos para construir um país mais decente para se viver. Reconhecer o trabalho bem-feito de quem foi peça-fundamental na construção deste Brasil cheio de oportunidades que temos hoje faze parte disso. Foi o que Dilma fez na comemoração de 80 anos de FHC. Mandar sinal de que não tolera corrupção em troca de apoio em votação no Congresso é também outro sinal.

E isso, não tenho dúvida nenhuma, influencia a atitude dos cidadãos. Há cerca de 15 dias, Gilberto Dimenstein capturou muito bem um sua coluna na Folha de São Paulo um momento de resgate da cidadania que estamos passando no Brasil. A campanha em São Paulo para respeitar a faixa de pedestres (com multas, sim, mas isso faz parte) é um bom exemplo. Agora à noite fui parado numa blitze de direção segura, soprei o bafômetro e por sorte o vinho do almoço já tinha zerado no organismo. Fazia cerca de três anos que não passava por isso em São Paulo. A proibição do fumo em restaurantes é outro exemplo. Quem reclama hoje de uma medida assim, vai olhar para trás daqui a três anos assim como olhamos para o fato de que era permitido fumar em aviões!

Enfim, acho que temos jeito, sim. Podemos ser um país civilizado. As pessoas que acham bonito atravessar na faixa na Europa e nos Estados Unidos não vão mais esquecer que os pedestres daqui são iguais a elas quando são turistas em férias.

É dever de cada um de nós respeitar as regras básicas de convivência. Assim como é o de votar e exigir os direitos como cidadãos. E aí deixo aqui a frase que mencionei no início do texto:

“O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam”– Arnold Toynbee.

Florença, berço de Maquiavel. Foto: Rodrigo V Cunha

Pouco interessa, para alguns, o que os políticos estão fazendo. No caso da aproximação de Dilma e Alckmin, por mais Maquiavélica que seja, vejo mais do que um tom episódico. Vejo um instantâneo de um momento épico pelo qual passamos como nação. Com o ideal de um país melhor atropelando a mesquinhez humana, que tanto aparece na política, que no fundo é a essência da nossa alma. A política. Quer gostemos dela ou não.

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Gerar mais valor para os acionistas ou jogar mais bola com a gurizada?

A felicidade é uma boa caminhada

Genial. A discussão sobre modelo de desenvolvimento com base na felicidade e bem-estar cada vez ganha mais adeptos. Ainda falta muito para nos livrarmos do PIB como medida de sucesso, mas autores de peso engrossam as fileiras de quem acredita nesta opção.

Thomas Friedman, colunista do NY Times,vem falando há um bom tempo sobre meio ambiente, mudanças climáticas e  sustentabilidade. Na coluna publicado no Estadão no último sábado 11 de junho, ele citou o ambientalista e empresário australiano Paul Gidding, que lançou um livro com a tradução livre para o português: “A grande ruptura: por que a crise climática trará o fim da compulsão da compra e o nascimento de um novo mundo”.

O ponto principal é que com as mudanças climáticas, teremos que nos adaptar rapidamente e isso fará com o que a sociedade mude o jeito de consumir e utilizar recursos naturais. Vamos ter que aprender a viver na escassez.

Mas a genialidade do trabalho de Gidding é a frase com que Friedman encerra sua coluna. Vejam em negrito que maravilha a ironia e o sarcasmo com nossa miopia capitalista:

“Nós perceberemos, ele prevê, que o modelo de crescimento movido pelo consumo está quebrado e que temos de mudar para um modelo de crescimento mais movido pela felicidade, com pessoas trabalhando menos e ganhando menos. “Quantas pessoas”, pergunta Gilding, “deitadas em seus leitos de morte dizem “gostaria de ter trabalhado mais duro construindo mais valor para acionistas” e quantas dizem “gostaria de ter jogando mais bola, lido mais livros para meus filhos, caminhado mais?“”

Para isso, é preciso um modelo de crescimento baseado em oferecer mais tempo para as pessoas gozarem a vida, mas com menos coisas.” Parece utópico? Gilding insiste que é realista. “Estamos a caminho de uma escolha movida por crise”, diz ele. “Ou permitiremos que o colapso nos atinja ou desenvolveremos um novo modelo sustentável. Escolheremos a segunda. Podemos ser lentos, mas não somos estúpidos.”

Esta é uma contribuição para começarmos a semana pensando naquilo que realmente vale a pena.

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Enriquecer antes de envelhecer: vamos conseguir?

Os operários de Tarsila do Amaral: a hora de enriquecer é agora

Excelente o texto abaixo de José Roberto de Toledo, que saiu no Estadão no início da semana

É alarmante, pois podemos estar perdendo a oportunidade de nossas vidas. E quem vai nos cobrar depois serão nossos filhos.

Como país, precisamos enriquecer antes de envelhecer. O momento é agora. É hora de educar, cuidar da previdência e investir em pesquisa e desenvolvimento. Não estamos fazendo o que deveríamos, mas ainda há tempo.

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Cinco meias e uma inteira

Cinco fatos que convém você saber sobre como o Brasil está amadurecendo:

1..: A idade média da população brasileira aumentou três anos na última década: pulou de 29 anos em 2000 para 32 anos em 2010. O envelhecimento está acelerando: a idade média era de 27 anos em 1991.

2..: Em duas décadas, o peso das crianças no total da população diminuiu de 35% para 24%. Há 5,1 milhões a menos de brasileiros entre 0 e 14 anos hoje do que havia em 1991. Esse grupo abriga os jovens em idade escolar obrigatória.

3..: O segmento que mais ganhou importância na distribuição etária nos últimos 20 anos foi o dos brasileiros em idade de trabalhar. O grupo daqueles de 25 a 60 anos cresceu de 38% para 47% do total da população. Há 33,5 milhões a mais de brasileiros nessa faixa etária.

4..: O segundo estrato populacional que mais engordou desde 1991 foi o daqueles em tempo de se aposentar. Há cerca de 10 milhões a mais de pessoas com 60 anos de idade ou mais velhas, em comparação ao que havia duas décadas atrás. Já são 11% dos brasileiros e continuam subindo.

5..: O estrato jovem da população, entre 15 e 25 anos, cresceu 5 milhões desde 1991, mas estabilizou seu peso no total da população. Era de 19% há 20 anos, passou a 20% em 2000, e agora está em 18%. Sua tendência é lentamente diminuir de importância.
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Qual o significado das mudanças no perfil etário do brasileiro e quais as implicações dessa nova dinâmica populacional para o País?

Menos crianças significa menos demanda por escolas até o ensino fundamental. É uma chance para os governos de todas as esferas melhorarem a qualidade da educação pública, já que o problema da quantidade e do acesso à escola está encaminhado para uma solução natural.

Entretanto, os passos de tartaruga que carregam a evolução do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) refletem o quão pouco foi feito pela melhoria do ensino.

Daqui para frente, será necessário um esforço cada vez maior para aumentar a escolaridade média do brasileiro. As novas gerações de estudantes, por mais tempo que passem na escola, são menos numerosas do que as anteriores. Terão, portanto, um impacto proporcionalmente menor no grau de instrução da força de trabalho quando se formarem.

Quanto mais tempo for perdido sem investimentos sérios em educação, mais difícil será para o Brasil alcançar os países que deram um salto educacional nos últimos anos, como a Coreia do Sul. A oportunidade está passando sem ser aproveitada. A perda de tempo é irrecuperável.

Os governos Fernando Henrique e Lula se beneficiaram da janela demográfica que fez aumentar em quase 20 milhões a força de trabalho brasileira apenas nos últimos dez anos. Mais gente produzindo significa mais riqueza e melhor distribuição do peso exercido pelos dependentes (crianças e idosos) sobre quem está em idade ativa.

O governo Dilma deve continuar usufruindo dessa tendência, bem como o(a) próximo(a) presidente. Mas, ao mesmo tempo, surgem demandas inerentes ao envelhecimento da população: mais despesas com saúde, com procedimentos médicos caros, e crescimento exponencial do número de aposentadorias e pensões, para citar alguns exemplos.

É preciso previdência para sustentar o conjunto crescente de pacientes e aposentados. Trata-se de uma preocupação que os governantes devem ter, senão pelo bem comum, ao menos para garantir seu próprio futuro. Afinal, os políticos recebem mais aposentadorias do que quaisquer outros brasileiros.

A estabilização da proporção de jovens que deveriam estar no ensino médio ou na faculdade recomenda comedimento na abertura de novas vagas no ensino superior. Em vez de uma expansão ilimitada, melhor seria fechar vagas de administração e jornalismo e aumentar as de medicina e engenharia.

Num futuro não muito distante, o Brasil corre o risco de enfrentar uma bolha universitária semelhante à que os EUA temem que estoure em breve: os custos para pagar a faculdade são tão altos que o recém-formado não consegue um emprego que compense o que ele gastou para obter seu diploma.

Outro risco associado a uma menor proporção de jovens é o País perder capacidade de inovar. Por isso, melhor aproveitar a juventude atual para estimular o desenvolvimento tecnológico e a pesquisa científica.

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Transparência e diálogo: tendências do TED2011

Nesta era de dados que trafegam na velocidade da luz, ainda estamos tentando dar vazão e compreender o que se faz com tanta informação. Principalmente quando ela é capaz de derrubar regimes e sistemas complexos e estabelecidos há anos. Não à toa, o tema transparência esteve muito presente no TED 2011.

Ainda no primeiro bloco, Wadah Khanfar, diretor da Al-Jazeera, falou sobre a revolução na Tunísia, e como a transparência sobre o que estava acontecendo via disseminação da mensagem pela televisão e outros meios ajudou a dar força ao movimento. Emocionado, ele disse que: “uma nova geração conectada e inspirada por valores comuns criou uma nova realidade para nós. Estamos testemunhando história, o nascimento de uma nova era”.

O executivo do Google Wael Ghonim, que teve papel-chave na mobilização via redes sociais que acelerou a queda do ditador egípcio é um exemplo marcante do nascimento desta nova era. Ele repetiu sua frase que já se tornou a marca desta revolução colaborativa: “Não houve um herói, porque todos foram heróis.” E também disse: “O poder das pessoas é muito mais forte do que as pessoas no poder”.

As marcas e a transparência

Morgan Spurlock, o autor do filme SupersizeMe, foi direto ao ponto transparência. Sua nova empreitada que vai sacudir o mercado publicitário, que não é o que se pode chamar de grande exemplo de transparência… A ideia foi criar um filme chamado “The greatest movie ever sold”, ou o “maior filme já anunciado”. O objetivo foi fazer um filme cujo único propósito era anunciar o próprio filme. Uma grande sacada. Ele foi atrás de marcas para ajudar a financiar, mas obviamente ninguém topou. É claro que durante todo o processo, Spurlock abusou do bom humor para mostrar como funciona o mundo da publicidade. Hoje, em média, uma pessoa recebe cerca de 1500 mensagens publicitárias por dia (procurei estudos sobre isso, quem quiser pode me pedir a fonte que variavam entre 800 a 3000 mensagens por dia – fiquemos na média). Faz-se de tudo para chamar a atenção para uma marca, muitas e muitas vezes prometendo aquilo que não pode ser cumprido… Spurlock disse que tem esperança que seu filme faça com que as companhias pratiquem mais a transparência, um elemento que ele disse ter sentido falta em suas viagens pelos Estados Unidos na produção.

Spurlock e sua nova empreitada: uma balançada no mercado publicitário

No mesmo bloco de Spurlock, coincidentemente ou não, falaram dois executivos responsáveis por grandes empresas, Indra Nooyi, da PepsiCo, e Bill Ford, da Ford. Bill Ford estava mais à vontade do que Indra, mas só no início da palestra. Bill mostrou que a Ford está sim preocupada com o impacto ambiental dos carros, mas partiu da premissa que o número de carros não vai deixar de crescer exponencialmente. Fiquei um pouco frustrado. Achei que ele apresentaria opções para um transporte mais eficiente e não apenas para carros mais eficientes. Segundo ele, temos hoje 800 milhões de carros, número que saltará para algo entre 2 e 4 bilhões em 2050. Assustador.

Indra perdeu uma grande oportunidade também ao focar demasiadamente no seu negócio. Ironicamente, ela começou dizendo que fez uma pesquisa e descobriu que apenas um pequeno percentual dos palestrantes do TED eram CEOs e que achava isso curioso e cuja explicação pode ser o fato de que os CEOs em geral não são confiáveis. Então, começou a falar (bem) sobre sua visão de negócio, sobre como uma grande empresa pode contribuir com o mundo e conquistar confiança dos consumidores desta maneira . E aí no segundo terço em diante, a palestra desandou. Indra se pôs a falar do Pepsi Refresh, um projeto muito bacana, mas que não tem nada a ver sobre a reinvenção do negócio em busca de sustentabilidade.

A plateia do TED não gostou nem ao vivo e nem nas redes sociais. Muitos criticaram a visão excessiva do produto. Eu fiquei particularmante incomodado com a visão onipresente da marca Pepsi nos slides. Enquanto muitas pessoas estão lá falando de projetos incríveis de vida ou da construção de um mundo melhor, o foco excessivo em um projeto de uma marca não caiu bem. No último bloco, num primor de transparência e abertura ao feedback, Chris Anderson deu espaço para que as pessoas fizessem falas de feedback de 1′. Uma delas foi dirigida à Ford e outra a Indra. A crítica à Ford foi a que mencionei (falta de visão do todo) e a da PepsiCo foi mais dura. No lugar de chamar a atenção para a reinvenção do processo produtivo, ao expor a marca em demasia, Indra atraiu a antipatia das pessoas. Então alguém disse que por mais que falasse bem da marca, não tinha como amenizar o fato de que a PepsiCo vendia água açucarada para as crianças.

Críticas à Pepsi: água açucarada para crianças

 

O caminho: diálogo

A mensagem foi mesmo dura, até radical, mas o ponto nem é este. O ponto é que as marcas e empresas ainda estão aprendendo a lidar neste mundo. O fato de um CEO do porte da Pepsi não entender como fazer uma fala em um evento de vanguarda como o TED mostra uma certa desconexão com o momento. E até explica porque não há tantos CEOs por lá. Será pelo fato de não falarem a mesma língua? A cobrança e interação das pessoas será cada vez maior. Definitivamente não será fácil a vida das grandes marcas daqui para frente se não conseguirem provar sua relevância.

O importante, principalmente para as marcas, é manter o diálogo. Depois de sua fala, o documentarista Spurlock ainda disse ao Huffington Post, que acredita que a transparência será algo cada vez mais necessário frente à vontade de as pessoas em saberem e trocarem mais informações via redes sociais. E de novo caímos no tema redes sociais e web. A crescente procura por transparência está crescendo graças à web e ao momento da civilização. Um site como o Wikileaks não existiria se não fosse tão fácil espalhar informações. As revoluções no Oriente Médio têm muto de sua força e rapidez graças à troca de informações. Apesar de ainda não ser livre e transparente em todos os lugares, como na China, por exemplo, de onde veio um vídeo gravado por Ai Weiwei, artista dissidente chinês cujo nome foi banido dos serviços de busca na web chinesa.

Ai Weiwei fez uma das reflexões mais profundas, que toca diretamente também no tema da transparência. Sobre sua situação e de outros na China, ele disse que as nações ocidentais estão tolerando aquilo que está acontecendo. “É uma visão curta. (…) Todo o sistema está se tornando corrupto e nossa sociedade está sacrificando o meio-ambiente, nossa cultura, para se tornar rica.” A frase de Ai Weiwei traz muitas reflexões. Uma delas pode ser a própria capa da Wired que está nas bancas neste mês, questionando o modelo de produção chinês para produzir gadgets como iPods e iPads, entre outros. A revista questiona qual a responsabilidade de cada um neste processo e se já não é hora de olhar mais a sério para isso.

Wired e a capa polêmica: você deve se preocupar?

Vício de jornalista, fui conversar com o outro lado, um amigo chinês que fiz lá em Palm Springs. Professor de universidade importante, intelectual, não bateu palmas ao final do vídeo gravado clandestinamente por Ai Weiwei e enviado ao TED. Aquilo me intrigou e mais tarde, em uma festa de confraternização da conferência, fui perguntar a opinião dele sobre o vídeo. Com semblante sério, disse que não gostou de ver “roupa suja sendo lavada em público”. Segundo ele, o governo chinês está fazendo tanta coisa, tirando tanta gente da miséria, que achava melhor dar crédito e tratar estas questões internamente antes de expôr o país nesta situação. Confesso que fiquei surpreso com esta reação, que carrega um sentimento de patriotismo maior até que a causa da liberdade de expressão. Respeito, mas acho difícil entender.

Países como a China abusam dos filtros na internet, mas eles não estão presentes apenas nas escolhas de agentes do governo. Eli Pareser, autor do livro “The Filter Bubble” fez uma fala bastante intrigante sobre este assunto. Segundo ele, os algoritmos que filtram as buscas do Google, Yahoo ou de qualquer outro serviço que apresente informações a seu pedido ou não, estão filtrando a realidade, escondendo informações desconfortáveis. “Os algoritmos não tem a mesma ética que os editores. Nós precisamos que os editores de informações coloquem um senso de responsabilidade nos algoritmos”, disse. “Eles mostram o que queremos ver e nem sempre o que precisamos ver.” Numa época em que se vive a busca por maior transparência, sem nem mesmo sabermos onde isso vai nos levar, não será surpresa a emergência de realidades mais cruas. É o que Morgan Spurlock falou em relação à transparência das marcas e o que começou a explorar em SupersizeMe e agora irá mais fundo no novo documentário. O mundo está cada vez mais em ON e com a definição de telas HD. Está cada vez mais difícil esconder as coisas.

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