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Amazônia tóxica, o documentário

Zé Cláudio na frente da Castanheira (foto de Felipe Milanez)

Logo depois que o Zé Cláudio morreu, apesar de ter avisado no palco do TEDxAmazônia que isso ia acontecer, nosso amigo Indiana Jones, o jornalista Felipe Milanez, estava lá, onde Zé Cláudio morava, para ajudar os que tinham ficado. Tarimbado e frequentador assíduo da Amazônia, Felipe conhece a região como poucos. Conhecimento que foi bem aproveitado na realização do filme Amazônia, na série Toxic, da Vice. Aí está contada em alguns detalhes a história da morte de Zé Cláudio e sua esposa Maria, o aumento do arco de desmatamento, a viagem por quilômetros e quilômetros de estrada em áreas devastadas até o depoimento fascista de um deputado que acha que as pessoas que defendem a floresta estão atrapalhando o desenvolvimento do Brasil.

Enfim, um show de horror de dar vergonha alheia.

(Este documentário vem em boa hora no momento em que a discussão de Belo Monte está muito quente. Aliás, quem não viu, precisa conhecer a campanha abaixo do Movimento Gota D’Água. Muito bem executada e já com bons resultados!)

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Tempos de barbárie

Há duas semanas, morria Zé Cláudio Ribeiro junto com sua esposa Maria do Espírito Santo, quando voltava para casa, no Asssentamento Agroextrativista Praia Alta Piranheira, em Nova Ipixuna, no sul do Pará. Eram apenas mais dois dos centenas de agricultores que nada mais queriam do que viver em paz, protegendo a floresta que tanto gostavam.

Segundo escreveram os colegas do TEDx Amazônia no dia seguinte à morte dele: “José Claudio Ribeiro era castanheiro e vivia da extração de castanhas e outras frutas na floresta. O lugar onde morava é protegido por lei e o corte de árvores, ilegal. Assim, Zé Claudio negava-se a negociar as árvores com os madereiros da região. A pressão era grande: muita gente já tinha abandonado o assentamento e vendido, ilegalmente, as terras. Zé Claudio denunciava os crimes e, por isso, as ameaças eram constantes. Sua palestra no TEDxAmazônia conta exatamente essa história. Num trecho, ele diz: “A mesma coisa que fizeram no Acre com Chico Mendes, querem fazer comigo”. E fizeram.”

A fraqueza de Zé Cláudio e demais é que vivem em terras valorizadas pelo que contém: madeira de primeira qualidade. Grande parte da madeira consumida em São Paulo vem da Amazônia. Em última instância, somos todos responsáveis por estes crimes quando não perguntamos a origem da madeira.

Zé Cláudio foi explícito no video dele (abaixo) no TEDx Amazônia. O pior de tudo é que a morte dele foi anunciada. Ele veio a público falar isso como uma última medida de desespero. E ninguém ouviu…

Na semana passsada, o jornalista amigo Felipe Milanez, que também palestrou no TEDx Amazônia e foi o autor do convite para que Zé Cláudio falasse lá, escreveu uma excelente matéria na Carta Capital sobre os últimos momentos do casal. Vale a pena ler e lembrar disso na próxima vez que formos comprar madeira.

http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/os-ultimos-momentos

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Causa e efeito – nossa maneira de se relacionar e pensar a vida – como foi o bloco 3 do TEDx Amazônia

(Fotos de Bruno Fernandes)

Design thinking é uma expressão que começa a ganhar força fora dos círculos onde ela nasceu. É a ideia de desenhar melhor o mundo em que vivemos. Cidades com trânsito caótico, superpopulação, lixo exacerbado, filas em aeroportos, desperdícios de logística etc – a lista é imensa – são todos problemas de desenho mal feito ou pouco pensado, sem visão de longo prazo.

Como tornar melhor nossas experiências de vida? Como aproveitar melhor nossos recursos naturais? Como viver colaborativamente devolvendo à natureza de maneira inteligente aquilo que produzimos? Há muita gente se preocupando com isso e a segunda metade do primeiro dia do TEDxAmazônia trouxe muitos insumos para esta discussão. Paul Bennett, diretor da Ideo falou do óbvio: a natureza é a maior fonte de inspiração, afinal “a Amazônia é a maior escola de Design Thinking do mundo”. Bennett não falou, mas poderia ter falado de biomimética, a nova disciplina que busca se inspirar na natureza como fonte de design. Isto não é novo, claro que não. As asas de aviões, por exemplo, foram inspiradas no vôo das aves. Há também uma borboleta do gênero Morpho que serve de inspiração para uma linha de maquiagem da L’Oreal . O próprio velcro foi criado pelo engenheiro suíço George de Mestral inspirado na natureza. O Estadão deu boa matéria sobre isso nesta semana.

O ponto é que ainda temos muito para aprender. O ecoeconomista Hugo Penteado foi ao palco depois de Paul Bennett para dizer que os economistas estão errados. Fiquei com a impressão de que a economia é o maior problema de design thinking já criado, à medida que impacta a maneira como vivemos há centenas de anos. “A economia é um bicho que não tem boca e não tem intestinos. Nada entra e nada sai”, disse Penteado para exemplificar que nos modelos econômicos não são considerados os recursos naturais como finitos. “Não existe jogar fora. O sistema é fechado (fechado nas fronteiras do planeta – debati recentemente esta questão no ResultsOn > veja aqui). O resultado é que transformamos o planeta numa grande lixeira, com a gente dentro”. E a pelo crescimento desenfreado que vivenciamos só tem feito piorar essa relação.

Não conhecemos a Amazônia, não conhecemos o fundo do mar, não conhecemos os limites de nossa relação com o planeta. E também pouco sabemos do que somos feitos, ainda que tenhamos avançado nessa descoberta nos últimos anos. Paulo Arruda falou da quebra do código da bactéria Xyllela Fastidiosa, responsável pela doença do amarelinho nos laranjais brasileiros. Os avanços da pesquisa genética, iniciados por Craig Venter com a primeira quebra de código de DNA ao custo de 2 bilhões de dólares em 2000 (fonte: Ciência Hoje), têm sido muito rápidos, ajudando a humanidade a se conhecer melhor. A previsão é de que em pouco tempo seja possível seqüenciar o genoma de uma pessoa por meros mil dólares. Que avanço! Paulo Arruda, assim como Venter, são entusiastas do que fazem, transformando a ciência com base no que acreditam.

Os palestrantes do TED e TEDx são escolhidos pela motivação, pelo entusiasmo, pela vontade e pelo que conseguem fazer com base nisso. Alguns nomes incríveis surgem nesta busca, como o de Zach Liebermann, uma das palestras que mais me prendeu a atenção. Liebermann costuma dizer que usa a tecnologia como forma de quebrar barreiras entre o visível e o invisível. O trabalho do qual mais se orgulha é o Eye Writer, que criou para ajudar um amigo, o artista plástico conhecido como Tempt1, que foi vítima de esclerose lateral amiotrófica e perdeu todos os movimentos do corpo, com exceção dos olhos (ele respira com ajuda de aparelhos). Com o Eye Writer, Liebermann conseguiu fazer com que Tempt1 voltasse a desenhar por meio dos olhos. Mais do que criar um aparelho, Liebermann ajudou a dar um novo sentido para a vida de Tempt1. Todo o esforço colocado no projeto se deu por uma causa simples e poderosa: a amizade.

Causas são incríveis combustíveis de mudança. Quando o castanheiro Zé Cláudio Ribeiro da Silva subiu ao palco e disse que enquanto tivesse força e vontade para andar e falar, ele não deixaria quieta sua indignação contra a derrubada da floresta. Jurado de morte algumas vezes, disse que cada vez que vê uma árvore sendo carregada em um caminhão era como se um membro da família estivesse sendo carregada em um cortejo fúnebre. A emoção da voz de Zé Claudio e sua conexão com a natureza têm a incrível força de mostrar o quando estamos longe da floresta nos centro urbanos. Não só fisicamente, mas emocionalmente também. A floresta é algo muito remoto para a vida urbana. Mas isso é só aparente. De onde vêm as madeiras das mobílias. A maioria da da madeira consumida no Brasil é ilegal, diz o Greenpeace. Quer dizer que provavelmente veio da natureza, sem qualquer controle. “Se as pessoas começaram a perguntar sobre a origem da madeira e rejeitar o que for ilegal, os madeireiros vão parar de derribar (sic) as árvores”, disse numa variação de português ingênuo, simples , mas com mensagem madura.

Depois da simplicidade de Zé Cláudio, veio a sofisticação escatológica de Michael Braumgart, se é que este oximoro é possível. O alemão subiu ao palco com uma cadeira simulando que ia ao banheiro. Um dos mandamentos para uma boa TED Talk é “começar forte”. Mais forte do que isso, impossível. Braumgart queria com isso ilustrar que o cocô, a merda, a bosta, é uma engenhosidade da natureza para realimentar o sistema. Então, num acesso de assertividade, Braumgart levantou da cadeira, pegou o crachá do evento, cheirou e disse num inglês com o cortante sotaque alemão: “This stinks. This is shit”, e jogou no chão. Não satisfeito com o choque que queria causar, fez o mesmo com o catálogo do evento. Chamou de merda o que na verdade não tem o mesmo sentido da merda. Uma confusão mental escatológica. E um posicionamento cristalino como a água de uma privada pós-descarga para dizer que nosso modelo de produção está errado. Os produtos que fabricamos não voltam à biosfera ou ao solo. Em suma: não são merda. Bom seria que fossem. Na minha opinião, a apresentação de Braumgart foi lendária, folclórica. Memorável. Assim como o terceiro bloco do TEDxAmazônia.

(CONTINUA)

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TEDxAmazônia e a seca do século

Reunião de pensadores no meio da floresta amazônica

O dia começou com uma reunião de apresentação de 30 palestrantes. Uma dinâmica multilíngue no meio da floresta, lembrando que a Amazônia é um ativo mundial, muito mais do que brasileiro. Porém, é algo que está nas nossas mãos, sob nossa administração aqui no Brasil.

Reunião preparatória com os palestrantes do TEDxAmazônia

Neste momento, as águas do Rio Negro estão subindo, para encobrir a maior seca dos últimos 100 anos. Exatamente agora, coincidentemente – ou não – com a realização do TEDxAmazônia.

A maior seca dos últimos 100 anos no Rio Negro

E ouso dizer que esta é uma grande contribuição ao mundo, colocar pessoas de vários lugares do mundo com o objetivo comum. Feita por pessoas de Helsinque, Londres, São Francisco, Los Angeles, São Paulo, Manaus, Belém, Santarém, Curitiba etc.

Os maiores problemas que temos hoje são globais. Não respeitam fronteiras desenhadas a mão pelos homens. Assim como as ideias que podem resolver estes problemas são maiores do que as línguas que são faladas ou do que a origem do passaporte de alguém. O TEDxAmazônia está colocando junto pessoas que são capazes de criar conexões que podem potencializar histórias de vidas e o tamanho das ideias.

Reconhecimento do gramado no palco do TEDx Amazônia

Lara Stein, diretora do TED, fala sobre como fazer uma grande palestra

É um calor sufocante, mas a felicidade no rosto das pessoas mostra que isso não tem a menor importância. 180 pessoas no hotel flutuante, 60 em dois barcos ao lado do hotel e mais 300 pessoas em Manaus, a 1h de distância em uma viagem agradabilíssima pelo Rio Negro. A viagem está maior, é verdade, mas isto também não é um problema.

A caminho do Jungle Palace Hotel

Há alguns meses, um maluco (@haraujo) teve uma ideia maluca. E agora 550 malucos foram atrás. Vida longa ao TEDx Amazônia, que mal começou. Quem está por aqui, vai presenciar algo incrível e memorável.

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O poder das empresas de mudar o mundo

Abaixo, compartilho o material que prepararei para minha fala no TEDx Santos, no último 28 de setembro. Em breve, deveremos ter o vídeo da palestra. E aí voltarei ao assunto aqui. Espero que gostem.


O incrível potencial de conexão das pessoas pode provocar a mudança de prática das empresas, que podem mudar o mundo. É claro que ninguém resolve nada sozinho. As empresas precisam da ajuda de governos, academia, mídia, enfim, a sociedade como um todo. Mas quero focar aqui no poder das empresas.

A economia é o jeito pelo qual estamos organizados. Com honrosas exceções que confirmam a regra, como Gandhi, Martin Luther King e Madre Teresa de Calcutá, são os recursos financeiros que influenciam a mudança do mundo.

Nos últimos 10 anos encontrei casos de empresários e empreendedores que estão mudando o mundo com uma série de pequenas ações.

Esta história passa um pouco pela minha carreira. Sou jornalista e depois de alguns anos trabalhando na imprensa em veículos como Veja, Você s/a e Zero Hora, recebi o convite para trabalhar no Banco Real em 2003. Aceitei. Não porque sempre tive o sonho de trabalhar em um banco, mas porque achava que um banco que negava empréstimos de milhões de reais para alguns clientes por questões ambientais e na outra ponta fazia empréstimos de quantias como 1000 reais no microcrédito investia em algo que sempre acreditei: valores.

Tomei a decisão ir trabalhar no Banco e quando me dei por conta, eu, um surfista, estava usando terno, gravato e sapato e meia preta todo o dia. Depois de uma breve passagem pelo marketing, fui para a Diretoria de Desenvolvimento Sustentável para ajudar a estruturar a comunicação sobre o tema. Nestes últimos sete anos, tive a oportunidade de conhecer uma grande quantidade de empreendedores e pessoas que praticam a sustentabilidade como estratégia central de negócio.

Gostaria de apresentar a vocês aqui alguns destes nomes. Quero por meio disso mostrar que está ao alcance de todos e que podemos, sim, fazer um mundo melhor por meio do ambiente dos negócios.

Há um ditado budista que diz que não conseguiremos fazer um mundo melhor com 100 grandes ideias, mas sim com pequenas ações no dia-a-dia.

Há estudos mostrando que das 100 maiores economias do mundo, cerca de 50 são empresas (os dados variam ano a ano de acordo com o faturamento das empresas e PIB dos países). É reflexo de um processo que começou na revolução industrial e fez o poder mudar de mãos: da igreja e Estado para a instituição corporação.

As empresas têm o poder econômico e são capazes de influenciar até decisões de governo e mudanças nas cadeias de negócios.

E aqui fica a pergunta para reflexão: como usar bem este poder? O que valorizar? O que queremos construir com as empresas?

Vou citar alguns exemplos agora: há pouco anos, quando começou a olhar de forma estrutuada para o tema sustentabilidade, o Walmart, uma das maiores empresas do mundo, tomou a decisão de não mais comprar de fornecedores que não pescassem de de maneira sustentável. Isso provocou uma grande mudança em milhares de fornecedores ao redor do mundo que começaram a cuidar destas questões.

Farra do Boi na Amazônia, estudo do Greenpeace

Não precisamos ir longe. No ano passado, o Greenpeace lançou um relatório chamado a Farra do Boi sobre o avanço da pecuária sobre a Amazônia. Em seguida, três grandes varejistas decidiram que não mais comprariam carne de frigoríficos que não conseguissem provar que os animais abatidos não vinham de pastos criados com o desmatamento ilegal. A reação foi rápida e os frigoríficos mudaram suas práticas.

Está cada vez mais claro que as restrições financeiras ajudam a mudar algumas práticas. Mas será que é somente disso que precisamos ou que conseguiremos fazer a mudança necessária?

A resposta é não. E há exemplos disso. São os empresários e empreendedores, os heróis do dia-a-dia, que provam que não.

São líderes que reconhecem a importância da interdependência em nosso dia-a-dia. E sabem que suas atitudes são capazes de mudar o ambiente de negócios para melhor.

As empresas que estão conquistando mercados hoje estão deixando de lado a máxima cristalizada de Milton Friedman, prêmio Nobel, que o negócio dos negócios são os negócios. Sim, são os negócios, mas também algo mais: investir em modelos de negócios sustentáveis.

Peter Drucker, o grande guru da administração moderna, lembra que as empresas existem por uma finalidade: o cliente. Vamos pensar por um momento no cliente como sociedade, ousando criar algo em cima da obra de Drucker.

O aumento da percepção da interdependência e da relevância de todos interessados nas decisões do cliente, a empresa só existe se estiver de acordo com as vontades da sociedade. Regulações, disputas de clientes, multas ambientais – se a empresa fizer algo que não agrada ao cliente, à sociedade, será processada por isso.

Neste sentido, o lucro não é um fim, algo a ser buscado – mas sim uma medida de sucesso, o teste de viabilidade. Se atender ao cliente, à sociedade, o lucro será consequência.

Essa perspectiva tira o foco de resultados e leva para a visão de que é necessário gerar valor. O que importa cada vez mais quando olhamos para os resultados da empresa não é somente o quanto os resultados mostram, mas como eles foram atingidos.

Nos próximos anos, quatro tendências vão marcar o mundo dos negócios: colaboração, ética, transparência e sustentabilidade. De certa maneira, elas estão todas ligadas e as empresas que olharem para isso terão grandes vantagens competitivas.

Algumas empresas conseguem lucrar colocando estas questões no dia-a-dia dos negócios. Empresas que negligenciam ou ignoram estão virando pó.

Vale lembrar do que aconteceu com as grandes empresas em casos nem tão recentes, mas emblemáticos: Enron, WorldCom. Estas empresas manipularam os balanços para mostrar bons resultados para os acionistas. Acabaram desmascaradas.

A capa da Time com as mulheres que denunciaram os escândalos da Enron e outros


Pesquisas indicam que os seres humanos são movidos à reciprocidade. As redes sociais espelham isso. O famoso toma-lá-dá-cá. Se você fizer algo que eu gosto, devolverei isso a você. Se me fizer mal, farei mal a você também. Estas empresas trapacearam, tiveram falhas graves de gestão e tentaram esconder isso dos consumidores e da sociedade. A WorldCom entrou em processo de falência e foi adquirida por outra empresa. A Enron faliu em 2001 e levou junto a consultoria Arthur Andersen, que aprovara os balanços.

Aparte a visão maniqueísta, são exemplos claros da visão sistêmica, de que as empresas fazem parte de um todo e não operam de maneira independente.

Na outra ponta, temos empresas como a Natura, que alavancou sua marca investindo em questões relevantes para seus consumidores, fornecedores e sociedade, criando produtos que valorizam o meio ambiente e as relações entre as pessoas. Em 2005, depois de uma trajetória brilhante, a Natura abriu o capital, num processo muito bem-sucedido. Em 2007, no entanto, teve problemas de gestão de produtos e não conseguiu atender a demanda dos consumidores. O mercado penalizou as ações das empresas e o momento serviu para a Natura se apoiar firmemente nos seus valores. Não cedeu às pressões do mercado e deu a volta por cima e em 2009 foi escolhida a empresa do ano pela revista Exame.

A Natura, melhor empresa de 2009

Outro exemplo vem dos Estados Unidos. Em 1972, foi fundada a incrível Patagônia, empresa de roupas e materiais esportivos, que ajudou a criar uma rede de empresas chamada 1% para o planeta e entre outras coisas, deixa que os funcionários montem suas agendas de acordo com suas vontades, como surfar ou escalar montanhas em dias perfeitos para isso. O fundador escreveu um livro chamado Let My People Go Surfing. Nele, fala da maturidade de reconhecer a responsabilidade de cada um e valorizar isso para criar um bom ambiente de trabalho. Então, não se trata de ser ‘bom mocinho’, mas de apostar na maturidade.

O livro com a biografia de Yvon Chouinard e a história da Patagonia

Mas eu queria também falar aqui de outros casos nem tão conhecidos, mas igualmente relevantes. Nem só de grandes empresas é feito o mundo dos negócios. Muito pelo contrário. As pequenas empresas, que representam o maior contingente de empregos no Brasil. Hoje, de cada três novas vagas, duas são geradas nas PMEs.

Há empreendedores de pequenas e médias empresas que encontraram seus nichos e encontram eco para o que fazem no reconhecimento do mercado.

Ione Antunes é outro exemplo. Ela criou em 1996 a empresa Help Express, de entregas de materiais por meio dos famosos motoboys. Ione desde o início acreditou que os motoboys não precisariam ser maltratados ou que era necessário remunerá-los por entrega em vez de assinar suas carteiras. Sempre cuidou bem deles e até os estimulou a criar um código de ética, onde constam pérolas como: Não ficarás no fliperama e não chutarás o retrovisor alheio. Na última década, com estes cuidados simples, mas poderosos, Ione conseguiu fazer sua empresa crescer na faixa dos 40% ao ano.

Vamos pensar em outro exemplo. Academia de ginástica. Quem nunca começou a fazer academia e se sentiu incomodado com a barriguinha ou mesmo com o ritmo que os treinadores tentavam impor? E aquele ambiente 100% geração saúde… Tony, um empresário paulistano, percebeu que isso incomodava seus pais e por conta disso nunca encararam uma academia. Segundo ele, muita gente vai fazer atividade física por recomendação médica e precisa se sentir à vontade para continuar o ritmo de exercícios. Então, ele, que sempre gostou de esportes, criou um conceito diferente de academia, a Ecofit, para acolher estas pessoas. Cresce 30% ao ano…

(Este caso não entrou na fala por conta do tempo.) Agora, vamos pensar no turismo. Em pousadas em locais paradisíacos. Estes locais, quando viram moda, correm o risco de perder seu maior encanto, o caráter preservado. Em 1992, um empresário dono de pousada, decidiu reproduzir no Brasil o conceito de Relais Chateau, de pousadas de charme, que existe na Europa e em outros lugares do mundo. E criou por aqui a Roteiros de Charme. Para fazer parte da associação, a pousada precisa cumprir requisitos básicos de charme, sofisticação, estar em um lugar agradável e ter cuidados sociais e ambientais. Todos os associados passam por vistoria periódica. Mais do que isso: cada associado leva para sua região a preocupação com os cuidados das pessoas e do meio ambiente por meio de palestras para outros hotéis da região. A Roteiros de Charme vai muito bem, obrigado.

(Este caso também não entrou na fala por conta do tempo.) Em outro exemplo, o americano Ray Anderson, fundador da Interface, fabricante de carpetes, diz que mudou seu negócio por basicamente duas situações. Por que leu um livro chamado Ecologia do Comércio, de Paul Hawken e por que um consumidor perguntou a ele o que fazia com os carpetes usados… Ele não sabia a resposta. Mas não teve medo da pergunta e a levou para dentro da empresa, para transformar seu negócio.

Estes casos mostram empresas absolutamente afinadas com seu tempo. O Brasil e o mundo evoluem rapidamente, junto com o ambiente dos negócios. Os consumidores estão mais exigentes e cobrando seus direitos. Há muitos lugares para se fazer ouvir: além dos tradicionais rádio, TV e jornal, há sites de Procon, de estímulo a cidadania, sem falar das redes sociais: Facebook, Orkut, Twitter etc.

Os jovens e consumidores em geral já não prestam atenção somente às propagandas, mas cada vez mais naquilo que é dito sobre as marcas em diversos lugares, como nas redes sociais. É lá que eles buscam informações de compra.

O mundo é cada vez mais transparente, não há como empurrar uma imagem para o consumidor e entregar outra coisa. Este ano tivemos um episódio que já ganhou seu espaço na história. Foi o caso da British Petroleum, a BP, que estava querendo mudar seu nome para Beyond Petroleum, para ligar a marca ao desenvolvimento de energia limpa. O desastre com a plataforma Deepwater Horizon, um dos maiores da história, jogou tudo por água acima. Independente de quem tenha sido a culpa, este foi um abalo tremendo na imagem da BP. E uma perda de 70 bilhões de dólares em valor de mercado… Além do CEO que foi demitido.

O vazamento que custou 70 bilhões de dólares para a BP

Imagem é tudo neste novo mercado. A reputação está na lista principal das prioridades de CEOs mundo inteiro. Ignorar a voz dos consumidores é se fechar para este mundo. Ouvi-la é se conectar.

O que importa é o que fazemos no dia-a-dia. Cada decisão de negócio. Os empreendedores e empresários que são movidos por uma causa, querendo transformar o ambiente onde atuam suas empresas não buscam desculpas nos impostos ou na fiscalização antiética. Eles direcionam o foco dos seus negócios para colocar em práticas seus valores, sua visão de mundo. Estes empreendedores têm o lucro trabalhando a favor da causa.

Na década de 80, a indústria tabagista fez de tudo para esconder os impactos do cigarro no corpo humano, lembrou um artigo da Harvard Business Review recentemente. No início deste milênio, a indústria alimentícia foi pró-ativa para substituir a gordura trans na alimentação, para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Também no início desta década, os bancos começaram a analisar os impactos socioambientais dos empréstimos. Ou seja, o dinheiro que estou concedendo para clientes. Como ele vai ser usado? Se, por exemplo, em negócios como o desmatamento ilegal, além de prejudicial ao meio ambiente, pode virar uma multa que vai inviabilizar a empresa e vai impactar no pagamento do empréstimo. Uma incrível mudança de atitude num curto período de tempo.

Ao contrário da visão cartesiana, as empresas são cada vez menos vistas como sistemas mecânicos, mas sim como organismos vivos, que fazem parte de um todo. E organismos vivos possuem valores, que influenciam as atitudes na sua essência.

As empresas e os empreendedores não podem ser vistos como mal necessário, que precisa ser vigiado ou regulado. Mas para ganhar esta confiança, os líderes precisam expandir o alcance da empresa para além do lucro, criando um novo jeito de fazer negócios. E vejam só: empresas que se preocupam mais com estas questões têm uma melhor performance financeira. É o que temos percebido na análise de risco socioambiental das empresas elegíveis.

A preocupação com o novo jeito de fazer negócios está cada vez mais sendo valorizada pelo mercado, como na criação de índices e rankings. Um índice que mostra as 100 empresas mais éticas, feita pelo instituto Ethisphere, mostra que as empresas mais éticas tiveram performance até 50% superior comparado às empresas presentes no S&P 500, índice que reúne 500 grandes empresas. Outro estudo, da A.T. Kearney, mostrou que durante a crise financeira em 2008, as empresas que mais se preocupavam com sustentabilidade tiveram também performance melhor. A listas das melhores empresas para trabalhar tem retorno na bolsa maior do que as listadas nas maiores e melhores da Exame.

Ou seja, Respeito é bom – e dá lucro!

Pergunte para Ione e seu time de motoboys. Tony na Academia. Helenio no Roteiros de Charme. Ray na Interface. Yvon na Patagonia. Fábio Barbosa no Santander…

A causa de cada um deles é muito clara. É a mesma que a minha: acreditar que podemos transformar o mundo por meio da ação das empresas.

Para encerrar fica a pergunta: que mundo queremos valorizar com nossas empresas? Como podemos usar o poder transformador das empresas para construir um mundo melhor? Qual a sua causa?

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Asfixia econômica como solução para a Amazônia

Muito boa a cobertura da Miriam Leitão sobre o embróglio amazônico. Precisamos de um número cada vez maior de jornalistas, formadores de opinião influentes para avançar na questão do desenvolvimento sem destruição do meio ambiente. E, como em muitas coisas na vida, aqui está se provando que é só mexendo no bolso que a coisa vai funcionar. Ainda não temos muita noção do impacto que isso causa no nosso dia-a-dia, mas para se ter uma ideia, há estudos que provam que a chuva que cai em São Paulo e em muitas outras regiões do país vem da Amazônia. São os chamados Rios Voadores, nuvens que viajam de Norte a Sul do País. Então, um impacto no ecossistema amazônico significa impacto no dia-a-dia de muita gente no Brasil. A Amazônia não está tão longe como pensamos…

Veja a matéria abaixo:

BOM DIA BRASIL

Asfixia econômica no combate ao desmatamento

A devastação das florestas é impressionante e ninguém paga pelo crime, como mostram as reportagens da série especial do Bom Dia Brasil sobre Rondônia (clique aqui para assistir). Um entrevistado diz que achava que a terra era da União e alega que comprou de alguém. Se era da União e não era a União quem estava vendendo, como ele podia achar que a terra era legal?

No Pará, um terço das fazendas está em terras indígenas ou em áreas de conservação. O problema não existe apenas em Rondônia, portanto. Em toda viagem que fazemos à Amazônia é possível encontrar órgãos do governo brigando entre si. A equipe do Bom Dia Brasil mostra a briga entre Funai e Incra. No Pará, o Ibama acusava o Incra de derrubar até castanheira.

Por que eles brigam? Porque em Brasília brigam os ministros dos Transportes, da Energia e da Agricultura contra o ministro do Meio Ambiente. Eles brigam porque não há política governamental coerente.

Os desmatadores agem em rede e o mandante, o grande grileiro, nunca aparece. Por isso, o combate funciona apenas com pressão contra a cadeia produtiva, como está sendo feita no setor de carne.

Depois que supermercados decidiram não comprar dos frigoríficos que compram de fazendas embargadas pelo Ibama ou que têm abatedouros em áreas de desmatamento, tudo começou a mudar. Os frigoríficos estão assinando acordos de ajustamento de conduta.

O que funciona é asfixiar economicamente as empresas que fingem não ver que estão lavando o crime e exigir que os bancos públicos parem de financiar quem está envolvido neste crime.

 

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De idealismo para pressão no bolso

O que era idealismo, agora começa a pegar no bolso.

A Nike já não vai mais comprar couro proveniente de gado criado na região Amazônica.

A empresa mostrou que aprendeu com o célebre caso das sweatshops, de trabalho escravo, na Ásia. Agora, a empresa saiu na frente e está. Veja a notícia que saiu no blog da Miriam Leitão.

Apertando Cerco
Nike anuncia suspensão da compra de couro da Amazônia

As empresas continuam apertando o cerco em busca de mais fiscalização sobre a origem de produtos e matérias-primas da Amazônia.

A Nike acaba de anunciar que não vai mais comprar couro de animais com origem do Bioma Amazônia. A exemplo do que anunciou ontem o Wal-Mart, a empresa quer mais garantias de rastreabilidade para ter certeza de que não está comprando couro de gados que tenham como origem áreas desmatadas.

A empresa deu prazo até julho de 2010 para que os fornecedores implementem um sistema eficiente de rastreabilidade, que comprove que o couro não é originário do bioma amazônico. Caso isso não aconteça, a Nike estenderá a moratória à compra de couro para toda a região da Amazônia Legal.

De acordo com nota divulgada pelo Greenpeace, as empresas Geox (calçados) e Natuzzi (móveis e estofados) também anunciaram medida semelhante esta semana.

Esta é uma boa forma de pressionar por mais fiscalização na região. Agora é a vez dos consumidores também exigirem das empresas que os produtos comprados não tenham matérias-primas com origem de áreas de desmatamento.

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