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Berço verde

Dia desses, alguém radicalizou e disse que para ser sustentável mesmo, o certo é não ter filhos. Engraçado é pensar que se a mãe do sujeito que pensou isso tivesse pensado isso, o sujeito em questão não teria como pensar isso. Curioso… Já que radicalismo não é comigo, prefiro ir pela linha colocar em prática dicas para uma paternidade mais sustentável.

O pequeno Augusto traz algumas coisas da escola e a gente ensina outras em casa. Mas não adianta: sair do banheiro e deixar a luz acesa é um instinto primata, gutural, irascível dos seres humanos. Lembro de Thomas Hobbes e o contrato social. Se alguém não colocar ordem na baderna, a sociedade não exisitiria. “Homo homini lupus” (O homem é o lobo do próprio homem), dizia John Locke. (Valeu para alguma coisa estudar ciências sociais. Para escrever essas duas frases!)

Bom, voltando à infância sustentável, só de fraldas, temos um problemão, segundo a revista Vida Simples: “uma criança, em seus dois primeiros anos, utiliza em média 5,5 mil fraldas descartáveis – que custam à natureza cerca de cinco árvores. Uma fralda demora 450 anos nos lixões para se decompor.” Ou seja, cada um já nasce devendo cinco árvores! Pelo menos o segundo filho usa muitas coisas do primeiro é já não é preciso consumir tanto. Enfim, há que se dar um jeito de consumir menos. É possível, é possível, é possível — tenho que repetir como um mantra! Além do que, é mais barato! Esse argumento é bom e sempre funciona!

Vejam abaixo matéria na revista Vida Simples (via @psustentavel)

Dicas de sustentabilidade que podem durar desde os primeiros meses de vida até a vida toda

Mariana Mariana Lacerda
Revista Vida Simples – 09/2009

Em 1995 um dos maiores historiadores da atualidade publicou um tratado assustador sobre o século 20. Em seu livro Era dos Extremos, o britânico Eric Hobsbawm analisa toda a história dos últimos 100 anos. As guerras, os entraves raciais e religiosos, o crescimento das metrópoles e da economia mundial, tudo isso em detrimento da vida humana. “O velho século não acabou bem”, escreve. Pois logo no início do século seguinte o mundo passou a assistir a uma de suas maiores crises econômicas. O modelo capitalista, que em resumo diz que, quanto mais se acumular dinheiro, melhor, não funciona mais. A menina Isadora nasceu no dia 11 de fevereiro de 2009 no meio dessa confusão. E o que ela tem a ver com isso?

Tudo. Ela é a herdeirazinha deste mundo que construímos. E, apesar da pouca idade, é Isadora quem definitivamente abriu os olhos da mãe, que assina este texto, para desejar cuidar do que constitui o mundo dela: seu pai, suas bisavós e avós, primos, a sua casa, o seu bairro, a cidade em que vive. Foi assustada pela leitura de Hobsbawm e observando o mundo de Isadora que comecei a elaborar a pauta que deu origem a esta matéria. A troca de fraldas, apesar de ser um ato mais do que trivial na vida de uma mãe, também foi um fator imprescindível para pensar no assunto que vem a seguir.

VEJA QUADRO: Sustentável desde o berço

FRALDA É LIXO
Sim, fralda descartável é uma invenção bem prática, mas um horror para o planeta. Uma criança, em seus dois primeiros anos, utiliza em média 5,5 mil fraldas descartáveis – que custam à natureza cerca de cinco árvores. Uma fralda demora 450 anos nos lixões para se decompor. Para ter uma ideia, a cidade de São Paulo recolhe cerca de 13 mil toneladas de lixo todos os dias. Cerca de 230 toneladas são constituídas de fraldas descartáveis (2% do lixo é constituído de fralda descartável). Os números foram coletados pela engenheira química Bettina Lauterbach, do Rio Grande do Sul. Mãe de duas filhas, é uma das maiores ativistas do Brasil pelo retorno das fraldas de pano.

Graças ao trabalho de gente como Bettina, as fraldas de pano evoluíram. Elas se tornaram práticas, ajustáveis ao corpo do nenê. Bettina, que pesquisa tecnologias para a fabricação das fraldinhas e também as comercializa, conta que as maiores inimigas em seu negócio são as avós, que sempre tentam convencer as mães que entram em sua loja a sair dali imediatamente. Ela explica que aquelas que criaram bebês até meados da década de 1970 ainda têm na memória a pilha acumulada de panos no fim do dia. “Mas deve-se levar em consideração que as fraldas estão diferentes e o acesso às máquinas de lavar também melhorou”, diz.

Você pode até achar que também não é lá muito econômico para a natureza gastar água com a lavagem de panos. Mas hoje o problema do lixo nas metrópoles é muito mais alarmante do que a escassez de água. Tanto que países como Bélgica e Inglaterra incentivam – inclusive com dinheiro – os pais a optar pelo uso de fraldas de pano.

Faça um teste: pergunte a sua avó ou mãe se no tempo dela as crianças deixavam a de usar fraldas mais cedo do que aquelas de hoje, o que acontece por volta dos 3 anos de idade. É provável que, puxando pela memória, ela responda que sim. É que, naquela época, os pequenos se sentiam incomodados por estarem sempre molhados, coisa que não acontece com a fralda descartável, pois a tecnologia usada para absorver o xixi o deixa longe da pele do bebê até a troca. É verdade que não é fácil para pessoas como eu, que se acostumaram a usar fralda descartável na Isadora, se adaptar à de pano. Mas vale o teste. O trabalho cresce um pouquinho, sem dúvida, mas as vantagens ambientais são recompensadoras.

CONSUMO NO BERÇO
Em seu livro Por uma Outra Globalização, Milton Santos, um dos mais importantes sociólogos brasileiros, conta como antes a economia se baseava na geração de bens que atendiam às necessidades de consumidores. “Atualmente, as empresas produzem o consumidor antes mesmo de produzir os produtos”, escreve.

Ou seja, somos bombardeados por ofertas de coisas de que não precisamos, mas tentam nos convencer de que nossa vida será melhor com elas. O mundo da maternidade é um exemplo disso. “Porque atinge o consumidor num momento em que, fragilizado pela chegada de um filho ou neto, tudo o que ele deseja é encontrar e oferecer-lhe o melhor”, diz a advogada pernambucana Rebeca Duarte, que trabalha na organização não-governamental Observatório Negro e ministra palestras com mães de baixa renda a respeito da maternidade e do consumo.

VEJA QUADRO: No quarto do bebe objetos que já foram usados por primos e amigos

Nessa fase em que pais e mães estão suscetíveis, são ofertadas coisas não raro desnecessárias para o cuidado do bebê, a exemplo de carrinhos modernos. Enquanto uma faixa de pano envolvendo mãe e bebê (conhecidos como slings), como fazem os índios brasileiros, pode ser suficiente para sustentar com segurança o filhote no colo da mãe. Esse é, inclusive, o lugar onde o bebê pode sentir o mesmo calor e bater do coração de quando ainda estava na barriga, ganhando assim segurança para conhecer a vida que lhe espera. Motivo pelo qual, vale dizer, os autores do livro O Bebê – O Primeiro Ano da Vida do Seu Filho, uma espécie de bíblia sobre o desenvolvimento infantil, sejam categóricos em afirmar que as crianças mantidas no colo se desenvolvem com mais rapidez.

Rebeca Duarte, mãe de uma filha, se lembra ainda da doutrina das roupas azuis para meninos e rosa para as meninas: uma convenção puramente comercial. “Por que existe isso?”, pergunta. A despeito do rosa e do azul, nada mais simpático do que herdar roupinhas que foram usadas por primos e primas mais velhos: os macacões de Chico, o primo carioca, hoje são usados por Isadora e logo serão enviados para Vicente, o recifense recém-chegado. Ou ainda as roupinhas de Irene, que, de São Paulo, foram enviadas para Olinda para que a prima Érica pudesse usufruir delas. E que meses depois voltaram para que então Isadora fosse brincar com Irene, hoje com 4 anos. Construindo-se no ato da troca, as relações de amizade e solidariedade, de estímulo à lembrança do outro e ainda o cuidado com as coisas usadas ao máximo antes do descarte. Às vezes, até passando gerações, levando consigo tantos significados, como é o caso do vestido que um dia Isadora usará em seu batizado e que vestiu a sua avó Sônia quando ela saiu nos braços da mãe dela (a bisa Anna) da maternidade.

ESTAR EM REDE
Se no meio da correria que é cuidar de um nenê está difícil pensar nos aspectos que envolvem a sustentabilidade, tudo bem, nada mais do que compreensível. Mas uma dica importante: junte-se a quem, como você, está experimentando a maternidade – o que acaba acontecendo naturalmente. Isso significa estar em rede. Pode ser uma rede de amigas mães ou mesmo aquelas mantidas por organizações não-governamentais, como o Grupo de Apoio à Maternidade Ativa, em São Paulo, ou o Grupo Boa Hora, no Recife. Em comum, esses grupos existem para a discussão das experiências de parto. Mas seus participantes terminam por trocar experiências sobre o primeiro ano do bebê. Entram no rol de discussões uso de medicamentos, aleitamento materno, alimentação orgânica e também o troca-troca de roupinhas.

O DIA A DIA
A escolha do que vestir, alimentação, opções ecológicas na hora da compra de brinquedo ou mesmo na organização das festinhas de aniversário. Tudo isso faz parte da tentativa de criar de forma mais sustentável um bebê. “Acho importante ser seletivo e procurar ‘influenciar’ nossos filhos com esse tipo de postura porque, além de fazer bem, existe uma filosofia por trás com a qual simpatizo. Mas que seja sem radicalismo”, diz a publicitária Ilka Porto, mãe de Antônio, amigo de Isadora.

É isso mesmo. Porque criar um bebê é construir o cotidiano. Que, por sua vez, “é uma história a meio caminho de nós mesmos. É o mundo que amamos profundamente, memória olfativa, memória dos lugares da infância, memória do corpo, dos gestos da infância, dos prazeres”, escreveu o filósofo francês Michel de Certau, em seu livro A Invenção do Cotidiano. Daí a importância de ajudar nossos filhos a construírem modos de vida saudáveis desde a mais tenra idade. Para que no futuro eles possam escolher a sua postura de vida face ao mundo.

Em 1995 um dos maiores historiadores da atualidade publicou um tratado assustador sobre o século 20. Em seu livro Era dos Extremos, o britânico Eric Hobsbawm analisa toda a história dos últimos 100 anos. As guerras, os entraves raciais e religiosos, o crescimento das metrópoles e da economia mundial, tudo isso em detrimento da vida humana. “O velho século não acabou bem”, escreve. Pois logo no início do século seguinte o mundo passou a assistir a uma de suas maiores crises econômicas. O modelo capitalista, que em resumo diz que, quanto mais se acumular dinheiro, melhor, não funciona mais. A menina Isadora nasceu no dia 11 de fevereiro de 2009 no meio dessa confusão. E o que ela tem a ver com isso?

Tudo. Ela é a herdeirazinha deste mundo que construímos. E, apesar da pouca idade, é Isadora quem definitivamente abriu os olhos da mãe, que assina este texto, para desejar cuidar do que constitui o mundo dela: seu pai, suas bisavós e avós, primos, a sua casa, o seu bairro, a cidade em que vive. Foi assustada pela leitura de Hobsbawm e observando o mundo de Isadora que comecei a elaborar a pauta que deu origem a esta matéria. A troca de fraldas, apesar de ser um ato mais do que trivial na vida de uma mãe, também foi um fator imprescindível para pensar no assunto que vem a seguir.

FRALDA É LIXO
Sim, fralda descartável é uma invenção bem prática, mas um horror para o planeta. Uma criança, em seus dois primeiros anos, utiliza em média 5,5 mil fraldas descartáveis – que custam à natureza cerca de cinco árvores. Uma fralda demora 450 anos nos lixões para se decompor. Para ter uma ideia, a cidade de São Paulo recolhe cerca de 13 mil toneladas de lixo todos os dias. Cerca de 230 toneladas são constituídas de fraldas descartáveis (2% do lixo é constituído de fralda descartável). Os números foram coletados pela engenheira química Bettina Lauterbach, do Rio Grande do Sul. Mãe de duas filhas, é uma das maiores ativistas do Brasil pelo retorno das fraldas de pano.

Graças ao trabalho de gente como Bettina, as fraldas de pano evoluíram. Elas se tornaram práticas, ajustáveis ao corpo do nenê. Bettina, que pesquisa tecnologias para a fabricação das fraldinhas e também as comercializa, conta que as maiores inimigas em seu negócio são as avós, que sempre tentam convencer as mães que entram em sua loja a sair dali imediatamente. Ela explica que aquelas que criaram bebês até meados da década de 1970 ainda têm na memória a pilha acumulada de panos no fim do dia. “Mas deve-se levar em consideração que as fraldas estão diferentes e o acesso às máquinas de lavar também melhorou”, diz.

Você pode até achar que também não é lá muito econômico para a natureza gastar água com a lavagem de panos. Mas hoje o problema do lixo nas metrópoles é muito mais alarmante do que a escassez de água. Tanto que países como Bélgica e Inglaterra incentivam – inclusive com dinheiro – os pais a optar pelo uso de fraldas de pano.

Faça um teste: pergunte a sua avó ou mãe se no tempo dela as crianças deixavam a de usar fraldas mais cedo do que aquelas de hoje, o que acontece por volta dos 3 anos de idade. É provável que, puxando pela memória, ela responda que sim. É que, naquela época, os pequenos se sentiam incomodados por estarem sempre molhados, coisa que não acontece com a fralda descartável, pois a tecnologia usada para absorver o xixi o deixa longe da pele do bebê até a troca. É verdade que não é fácil para pessoas como eu, que se acostumaram a usar fralda descartável na Isadora, se adaptar à de pano. Mas vale o teste. O trabalho cresce um pouquinho, sem dúvida, mas as vantagens ambientais são recompensadoras.

CONSUMO NO BERÇO
Em seu livro Por uma Outra Globalização, Milton Santos, um dos mais importantes sociólogos brasileiros, conta como antes a economia se baseava na geração de bens que atendiam às necessidades de consumidores. “Atualmente, as empresas produzem o consumidor antes mesmo de produzir os produtos”, escreve.

Ou seja, somos bombardeados por ofertas de coisas de que não precisamos, mas tentam nos convencer de que nossa vida será melhor com elas. O mundo da maternidade é um exemplo disso. “Porque atinge o consumidor num momento em que, fragilizado pela chegada de um filho ou neto, tudo o que ele deseja é encontrar e oferecer-lhe o melhor”, diz a advogada pernambucana Rebeca Duarte, que trabalha na organização não-governamental Observatório Negro e ministra palestras com mães de baixa renda a respeito da maternidade e do consumo.

VEJA QUADRO: No quarto do bebe objetos que já foram usados por primos e amigos

Nessa fase em que pais e mães estão suscetíveis, são ofertadas coisas não raro desnecessárias para o cuidado do bebê, a exemplo de carrinhos modernos. Enquanto uma faixa de pano envolvendo mãe e bebê (conhecidos como slings), como fazem os índios brasileiros, pode ser suficiente para sustentar com segurança o filhote no colo da mãe. Esse é, inclusive, o lugar onde o bebê pode sentir o mesmo calor e bater do coração de quando ainda estava na barriga, ganhando assim segurança para conhecer a vida que lhe espera. Motivo pelo qual, vale dizer, os autores do livro O Bebê – O Primeiro Ano da Vida do Seu Filho, uma espécie de bíblia sobre o desenvolvimento infantil, sejam categóricos em afirmar que as crianças mantidas no colo se desenvolvem com mais rapidez.

Rebeca Duarte, mãe de uma filha, se lembra ainda da doutrina das roupas azuis para meninos e rosa para as meninas: uma convenção puramente comercial. “Por que existe isso?”, pergunta. A despeito do rosa e do azul, nada mais simpático do que herdar roupinhas que foram usadas por primos e primas mais velhos: os macacões de Chico, o primo carioca, hoje são usados por Isadora e logo serão enviados para Vicente, o recifense recém-chegado. Ou ainda as roupinhas de Irene, que, de São Paulo, foram enviadas para Olinda para que a prima Érica pudesse usufruir delas. E que meses depois voltaram para que então Isadora fosse brincar com Irene, hoje com 4 anos. Construindo-se no ato da troca, as relações de amizade e solidariedade, de estímulo à lembrança do outro e ainda o cuidado com as coisas usadas ao máximo antes do descarte. Às vezes, até passando gerações, levando consigo tantos significados, como é o caso do vestido que um dia Isadora usará em seu batizado e que vestiu a sua avó Sônia quando ela saiu nos braços da mãe dela (a bisa Anna) da maternidade.

ESTAR EM REDE
Se no meio da correria que é cuidar de um nenê está difícil pensar nos aspectos que envolvem a sustentabilidade, tudo bem, nada mais do que compreensível. Mas uma dica importante: junte-se a quem, como você, está experimentando a maternidade – o que acaba acontecendo naturalmente. Isso significa estar em rede. Pode ser uma rede de amigas mães ou mesmo aquelas mantidas por organizações não-governamentais, como o Grupo de Apoio à Maternidade Ativa, em São Paulo, ou o Grupo Boa Hora, no Recife. Em comum, esses grupos existem para a discussão das experiências de parto. Mas seus participantes terminam por trocar experiências sobre o primeiro ano do bebê. Entram no rol de discussões uso de medicamentos, aleitamento materno, alimentação orgânica e também o troca-troca de roupinhas.

O DIA A DIA
A escolha do que vestir, alimentação, opções ecológicas na hora da compra de brinquedo ou mesmo na organização das festinhas de aniversário. Tudo isso faz parte da tentativa de criar de forma mais sustentável um bebê. “Acho importante ser seletivo e procurar ‘influenciar’ nossos filhos com esse tipo de postura porque, além de fazer bem, existe uma filosofia por trás com a qual simpatizo. Mas que seja sem radicalismo”, diz a publicitária Ilka Porto, mãe de Antônio, amigo de Isadora.

É isso mesmo. Porque criar um bebê é construir o cotidiano. Que, por sua vez, “é uma história a meio caminho de nós mesmos. É o mundo que amamos profundamente, memória olfativa, memória dos lugares da infância, memória do corpo, dos gestos da infância, dos prazeres”, escreveu o filósofo francês Michel de Certau, em seu livro A Invenção do Cotidiano. Daí a importância de ajudar nossos filhos a construírem modos de vida saudáveis desde a mais tenra idade. Para que no futuro eles possam escolher a sua postura de vida face ao mundo.

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O espírito vive eternamente?

Não deve ser fácil para uma criança entender conceitos abstratos, como espíritos e entidades divinas. A gente tenta explicar quando o assunto surge.  Mas, como explicar coisas que até mesmo nós não entendemos? Aí, acontece de surgirem papos surreais. Esse, por exemplo, acabou de acontecer. Augusto, 5 anos, estava com a cabeça já deitada no travesseiro quando se saiu com essa, do nada.

– Pai, o espírito vive eternamente? (A pergunta foi tão inusitada, que eu achei que ele estava perguntando se o espírito vive ‘até na mente’, o que também daria uma boa discussão!)

– Vive – respondi quando entendi.

– E o que acontece quando ele sai do nosso corpo?

– Ele vai para as estrelas.

– E ele fica lá para sempre?

– Fica.

– E ele não desce para o almoço?

– Não…

– Ué, porque todo mundo diz que Deus está sempre com a gente no almoço?

– Mas deus não é um espírito, é alguém em que todo mundo acredita.

– Eu não acredito. Todo mundo acredita?

– Nem todo mundo, mas papai e mamãe acreditam em Deus

– E ele não protege quem não acredita nele?

– Não

– Por quê?

– Porque ele não se preocupa com quem não se preocupa com ele.

– Ah, tá bom, então eu acredito.

Está aí uma visão utilitarista da religião!

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O melhor caminho para a escola é a pé

Como tento fazer na maior parte dos dias (e nem sempre consigo), hoje levei
o Augusto a pé para a escola. É um momento especial, em que descubro coisas que ele está fazendo ou pensando. Como, por exemplo, ontem, em que ele descobriu que o Saci-Pererê guarda os planos em cocos verdes e por isso ele jogou todos fora, afinal, o Saci só apronta. É quando ele me pergunta
coisas. Sobre as regras da escola, por exemplo. Desde quando eu sei as
regras e como eu descobri, quem me contou. “Você me colocou na escola e
aprendeu as regras direto?”

É esse tipo de conversa que temos nos 10 minutos (nos dias mais rápidos) ou nos 15 (nos dias em que para para ver cachorros que latem atrás das grades, coisas que estão no chão, pessoas com quem conversa e gatos a quem acaricia).

Absolutamente saudável e com alto poder de conexão. Ele adora. Eu adoro.

E hoje de manhã li no jornal sobre a iniciativa da cidade de Lecco, próximo ao lago de Como, na Itália. Eles criaram o Piedbus, para levar as crianças a pé para a escola. Não são acompanhados pelo pai ou pela mãe, mas sim por um monitor. São 45o crianças que caminham ao longo de 17 rotas de ônibus e vários benefícios.  É uma criançada caminhando junta para a escola, conversando, brincando, trocando ideias. Ajuda a combater a obesidade infantil e ainda colabora para diminuir o aquecimento global. Não são grandes distâncias. A criança que mais caminha percorre 1,5 km até chegar a escola.

Cidade de Lecco, na Itália

Muitas vezes eu saio com pressa de casa e chamo um táxi para o Augusto não chegar atrasado. Não é uma boa ideia. Muito melhor é acordar um pouco mais cedo e encarar a pernada. Justamente por isso escolhemos uma escolinha perto de casa. O negócio é aproveitar. Talvez em breve ele tenha que pegar perua etc. E os dias de pernada até a escola vão ficar na memória como bons momentos em que ele eu aprendemos coisas sobre a vida.

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O2

Pai, eu queria ser oxigênio, disse o Augusto.

?!?

Se eu fosse oxigênio, o que eu poderia fazer?

Poderia voar pelo ar!, respondi.

Eu poderia ficar preso em gaiola (acho que o link foi com pássaros, será?), em apartamento (preso em apê e gaiola é quase a mesma coisa, acho…).

Poderia ficar preso num tubo também.

Então, eu queria ser um inalador, um tubo de oxigênio, um fio elétrico. Para prestar para coisas…

(Contexto. Estamos com um tubo de oxigênio em casa para ajudar a turma a se recuperar logo das gripes, vírus etc. Nesse caso, acho que foi inalação demais que provocou essa reflexão! A ficha caiu: Pensando bem: me dá um pouquinho dessa coisa aí!)

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Fôlego

‘”A vida vem em ondas, como o mar…”, já cantava o sábio Lulu Santos. Pois os últimos quatro dias esse refrão ficou na minha cabeça. No mar, acontece mais ou menos assim: está tudo na maior tranquilidade, com asuperfície da água lisa. Então,  a linha do horizonte fica um pouco elevada. Nesse momento, vale se preparar, virar a prancha em direção ao horizonte e remar. Em alguns segundos, a série vai chegar. E ficar na zona de impacto da primeira onda não é nada recomendável. Assim, quando as ondas chegam, quem estiver melhor posicionado se dá bem.

Malcomparando, nos últimos dias, as séries vieram direto. Séries de tosse intermitente, que roubam o fôlego, tiram a respiração e a tranquilidade. Está tudo ok num minuto. Respiração numa boa, sorrisos fartos, chocalho de um lado para o outro. Então, o ar começa a entrar ruidosamente pela garganta. Até que vira um ronco que lembra um ronronar de um gato amplificado. Nesse momento, vale se preparar porque a tosse vai chegar. Primeiro, uma tosse tímida, que lembra um engasgo. Em seguida, um guincho que lembra uma buzina ao final. E aí, o nenê fica vermelho e começa a perder a respiração. E se quem for acudir estiver bem posicionado nessa hora, o sofrimento vai ser bem menor.

Diagnóstico: laringite.

Vicente tem sofrido nesses últimos dias. A tosse é forte. Começa tímida. Dois pigarrinhos. E em seguida vem o guincho terrível. Ele perde a respiração e começa a ficar vermelho. A única coisa a fazer nessa hora é virá-lo levemente de cabeça para baixo e esfregar suas costas, de baixo para cima, até ficar mais tranquilo. (Exige sangue frio. Ver o filho de seis meses se engasgando e perdendo a respiração nas suas mãos é angustiante. Em duas ocasiões, não aguentamos e corremos para o hospital. Para chegar lá e os médicos dizerem que estava tudo bem…)

Com a tosse, entra ar na boca escancarada. Com a mão com que segura a barriga, consigo sentir bolas de ar passando pelo aparelho digestivo. Deve doer para caramba. A ‘série’ vem com três, quatro e até seis ondas de tosse. Quando acaba, Vicente tem um chorinho contido, apertado e espremido. Aí, começa a relaxar, chora mais um pouquinho e volta a dormir ou a brincar. Não poucas vezes, 30 segundos depois de levar a vaca na série* já estava sorrindo. Enquanto os pais já estavam em vigília (dormindo ou acordado), esperando pela próxima série.

A ficha caiu. Vamos olhar a metade cheia do copo: que bom que estávamos de férias nessa semana. Não ia ser fácil aguentar o sono-Amyr-Klink (45 minutos no máximo) tendo que trabalhar no outro dia… Valeu, Ju, pela parceria na madrugada. Haja trabalho em equipe para aguentar o tranco!

ps: Um brinde aos amigos. Pela segunda vez que a laringite atacou em casa, amigos estavam por perto para socorrer na correria desenfreada para o hospital e ficar lá por até 2 horas (na madrugada) em toda a função envolvida (consulta, inalação, raio-X etc). Com família longe, ter amigos  por perto é como ter luz em um caminho escuro. Dá um alívio… Valeu, Ale (duas vezes), Duda, Zé (na vez do Augusto) e esposas.

*Linguajar de surfista, quer dizer cair da onda.

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Arquivado em Amizade, Surfe

Relaxa, é alternativo!

Augusto colocando os números de madeira em cima da mesinha de brincar em seu quarto, pergunta.

Pai, quantas horas dá isso?

3 046 horas, filho.

Esse é o tempo que dura o filme, pai.

Caramba, muito tempo!

Relaxa, é um filme alternativo… Pai, o que é alternativo?

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Onde está meu irmão

A cena sempre se repete. Pessoas novas chegam e são apresentadas ao Vicente. Então, Augusto se agarra às pernas e aos pés dele, Vicente, e começa a beijá-los insistentemente, agarrando, puxando para baixo. É como de dissesse: esse é meu irmão, amo ele, e ninguém vai me deixar longe. No fundo, tem outra mensagem embutida: eu também existo. Desde que o Vico nasceu – e lá se vão quase cinco meses – Gutão nunca teve uma cena de ciúme explícita com o irmão. Nem no hospital quando ele nasceu, nem em casa. No máximo essas coisas de chamar a atenção.

Eles se dão bem, muito bem. Quando Augusto está brincando, Vicente fica vidrado, hipnotizado e totalmente absorto no irmão. Nada consegue desviar sua atenção. Ontem, eu estava na sala com os dois. Embalando Vicente no carrinho e fazendo brincadeiras para crianças de cinco meses: caretas, balançando bichinhos e falando com variações no tom de voz.

De repente, Augusto entrou na gandaia e subiu nas minhas costas. Ficava lá em cima, agarrado na minha cabeça, para delírio do irmão, que abria um bocão de felicidade. Então, Augusto se jogava para trás e sumia, na ótica de Vicente. E ele fazia cara de choro e reclamava. Tenho certeza que dizia: onde está meu irmão.

Fiquei desconfiado da situação. Para ter certeza que não era casual, pedi para Augusto repetir a macaquice. Então, ele subiu no meu ombro. Vicente riu. Augusto caiu. Vicente chorou. Fiz mais duas vezes e pronto. Tive certeza que um conversava com o outro ao seu próprio jeito.

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