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Qual o seu sonho brasileiro?

Os jovens brasileiros e a vontade de mudar o mundo colocada em prática.

Gosto demais da frase: “Existe um momento na história de uma nação em que ela está tão acordada, que começa a sonhar”. Faz todo o sentido para o momento que o Brasil vive.

Entre lá e conte seu sonho: http://www.osonhobrasileiro.com.br

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Temos jeito, sim

O resgate da civilidade? foto: Agencia Estado

Outro dia, quis enviar uma frase para um amigo para ajudá-lo a passar um momento difícil e fui na minha coleção de frases destacadas dos livros. Acabei esbarrando em um aforismo genial.

Esta frase fez especial sentido ao ler hoje de manhã a notícia de que a presidente Dilma Rousseff está em plena lua-de-mel com o governador de São Paulo Geraldo Alckmin. (Leia matéria aqui no Estadão.)

Há quem diga que isso é extremamente interesseiro de ambas as partes. Isso porque Dilma precisa de um alívio da oposição neste momento em que perde apoio da base aliada em função da limpeza que promove em quatro ministérios e porque Alckmin quer levar dinheiro do governo para seus projetos.

Independentemente disso, vejo isso como uma demonstração de maturidade. Principalmente porque estamos falando do combate a miséria. Como diz a matéria:

Alckmin e Dilma firmaram acordo de unificação dos programas de transferência de renda paulista e federal. Os beneficiados, cerca de 1 milhão de famílias, terão um mesmo cartão para sacar os recursos do Bolsa Família, do governo federal, e do Renda Cidadã, do Estado.

Assim como no momento em que FHC passou a faixa para Lula em 2002 – mesmo que no segundo seguinte já tenha começado a ser bombardeado sobre herança maldita – esta busca de entendimento tem como pano de fundo a união de ideais na construção de um Brasil melhor. A carreira política para mim é um tanto binária nas motivações: 1) você está lá para isso, para servir a uma causa, ao seu País ou 2) você está lá para servir a sua causa, valorizar os seus próprios interesses.

Obviamente, há tons de cinza no meio da história e às vezes é preciso ceder para chegar onde se quer (alguns utilizando valores morais como critério, outros valores financeiros…), mas a motivação inicial vai continuar sendo uma das duas – e você vai persegui-las, desviando dos obstáculos no caminho.

Quando a presidente Dilma manda para casa ou inviabiliza a permanência de ministros que pedem demissão, vejo-a a serviço de uma causa. Não votei nela e tinha muito pouca esperança no que ela poderia fazer à frente do governo, mas preciso confessar que estou muito positivamente surpreendido.

São de pequenos sinais que precisamos para construir um país mais decente para se viver. Reconhecer o trabalho bem-feito de quem foi peça-fundamental na construção deste Brasil cheio de oportunidades que temos hoje faze parte disso. Foi o que Dilma fez na comemoração de 80 anos de FHC. Mandar sinal de que não tolera corrupção em troca de apoio em votação no Congresso é também outro sinal.

E isso, não tenho dúvida nenhuma, influencia a atitude dos cidadãos. Há cerca de 15 dias, Gilberto Dimenstein capturou muito bem um sua coluna na Folha de São Paulo um momento de resgate da cidadania que estamos passando no Brasil. A campanha em São Paulo para respeitar a faixa de pedestres (com multas, sim, mas isso faz parte) é um bom exemplo. Agora à noite fui parado numa blitze de direção segura, soprei o bafômetro e por sorte o vinho do almoço já tinha zerado no organismo. Fazia cerca de três anos que não passava por isso em São Paulo. A proibição do fumo em restaurantes é outro exemplo. Quem reclama hoje de uma medida assim, vai olhar para trás daqui a três anos assim como olhamos para o fato de que era permitido fumar em aviões!

Enfim, acho que temos jeito, sim. Podemos ser um país civilizado. As pessoas que acham bonito atravessar na faixa na Europa e nos Estados Unidos não vão mais esquecer que os pedestres daqui são iguais a elas quando são turistas em férias.

É dever de cada um de nós respeitar as regras básicas de convivência. Assim como é o de votar e exigir os direitos como cidadãos. E aí deixo aqui a frase que mencionei no início do texto:

“O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam”– Arnold Toynbee.

Florença, berço de Maquiavel. Foto: Rodrigo V Cunha

Pouco interessa, para alguns, o que os políticos estão fazendo. No caso da aproximação de Dilma e Alckmin, por mais Maquiavélica que seja, vejo mais do que um tom episódico. Vejo um instantâneo de um momento épico pelo qual passamos como nação. Com o ideal de um país melhor atropelando a mesquinhez humana, que tanto aparece na política, que no fundo é a essência da nossa alma. A política. Quer gostemos dela ou não.

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Enriquecer antes de envelhecer: vamos conseguir?

Os operários de Tarsila do Amaral: a hora de enriquecer é agora

Excelente o texto abaixo de José Roberto de Toledo, que saiu no Estadão no início da semana

É alarmante, pois podemos estar perdendo a oportunidade de nossas vidas. E quem vai nos cobrar depois serão nossos filhos.

Como país, precisamos enriquecer antes de envelhecer. O momento é agora. É hora de educar, cuidar da previdência e investir em pesquisa e desenvolvimento. Não estamos fazendo o que deveríamos, mas ainda há tempo.

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Cinco meias e uma inteira

Cinco fatos que convém você saber sobre como o Brasil está amadurecendo:

1..: A idade média da população brasileira aumentou três anos na última década: pulou de 29 anos em 2000 para 32 anos em 2010. O envelhecimento está acelerando: a idade média era de 27 anos em 1991.

2..: Em duas décadas, o peso das crianças no total da população diminuiu de 35% para 24%. Há 5,1 milhões a menos de brasileiros entre 0 e 14 anos hoje do que havia em 1991. Esse grupo abriga os jovens em idade escolar obrigatória.

3..: O segmento que mais ganhou importância na distribuição etária nos últimos 20 anos foi o dos brasileiros em idade de trabalhar. O grupo daqueles de 25 a 60 anos cresceu de 38% para 47% do total da população. Há 33,5 milhões a mais de brasileiros nessa faixa etária.

4..: O segundo estrato populacional que mais engordou desde 1991 foi o daqueles em tempo de se aposentar. Há cerca de 10 milhões a mais de pessoas com 60 anos de idade ou mais velhas, em comparação ao que havia duas décadas atrás. Já são 11% dos brasileiros e continuam subindo.

5..: O estrato jovem da população, entre 15 e 25 anos, cresceu 5 milhões desde 1991, mas estabilizou seu peso no total da população. Era de 19% há 20 anos, passou a 20% em 2000, e agora está em 18%. Sua tendência é lentamente diminuir de importância.
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Qual o significado das mudanças no perfil etário do brasileiro e quais as implicações dessa nova dinâmica populacional para o País?

Menos crianças significa menos demanda por escolas até o ensino fundamental. É uma chance para os governos de todas as esferas melhorarem a qualidade da educação pública, já que o problema da quantidade e do acesso à escola está encaminhado para uma solução natural.

Entretanto, os passos de tartaruga que carregam a evolução do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) refletem o quão pouco foi feito pela melhoria do ensino.

Daqui para frente, será necessário um esforço cada vez maior para aumentar a escolaridade média do brasileiro. As novas gerações de estudantes, por mais tempo que passem na escola, são menos numerosas do que as anteriores. Terão, portanto, um impacto proporcionalmente menor no grau de instrução da força de trabalho quando se formarem.

Quanto mais tempo for perdido sem investimentos sérios em educação, mais difícil será para o Brasil alcançar os países que deram um salto educacional nos últimos anos, como a Coreia do Sul. A oportunidade está passando sem ser aproveitada. A perda de tempo é irrecuperável.

Os governos Fernando Henrique e Lula se beneficiaram da janela demográfica que fez aumentar em quase 20 milhões a força de trabalho brasileira apenas nos últimos dez anos. Mais gente produzindo significa mais riqueza e melhor distribuição do peso exercido pelos dependentes (crianças e idosos) sobre quem está em idade ativa.

O governo Dilma deve continuar usufruindo dessa tendência, bem como o(a) próximo(a) presidente. Mas, ao mesmo tempo, surgem demandas inerentes ao envelhecimento da população: mais despesas com saúde, com procedimentos médicos caros, e crescimento exponencial do número de aposentadorias e pensões, para citar alguns exemplos.

É preciso previdência para sustentar o conjunto crescente de pacientes e aposentados. Trata-se de uma preocupação que os governantes devem ter, senão pelo bem comum, ao menos para garantir seu próprio futuro. Afinal, os políticos recebem mais aposentadorias do que quaisquer outros brasileiros.

A estabilização da proporção de jovens que deveriam estar no ensino médio ou na faculdade recomenda comedimento na abertura de novas vagas no ensino superior. Em vez de uma expansão ilimitada, melhor seria fechar vagas de administração e jornalismo e aumentar as de medicina e engenharia.

Num futuro não muito distante, o Brasil corre o risco de enfrentar uma bolha universitária semelhante à que os EUA temem que estoure em breve: os custos para pagar a faculdade são tão altos que o recém-formado não consegue um emprego que compense o que ele gastou para obter seu diploma.

Outro risco associado a uma menor proporção de jovens é o País perder capacidade de inovar. Por isso, melhor aproveitar a juventude atual para estimular o desenvolvimento tecnológico e a pesquisa científica.

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A superpotência do amor

Brasil, acordando para o seu potencial

Quem ainda não viu, precisa ver o documentário da CBS com a visão americana sobre o Brasil. São 13 minutos falando sobre o despertar do país. Foi ao ar no final do ano passado e virou uma espécie de viral agora. É curioso ver o ponto de vista dos gringos sobre as terras tupiniquins. O tom é até meio festivo, em alguns momentos superficial (e dificilmente seria diferente em uma reportagem de 13 minutos para a televisão) e por isso é que vale a pena ver. Nossa imagem no final das contas é positiva.

Há entrevistas com Eike Batista, Lula e Eduardo Bueno (o jornalista também conhecido como Peninha).

O tom é o de que o país do futuro está se tornando o país do presente.

A certa altura, Eike Batista diz: “Hello, americans, you need to wake up”.

Lula, para dizer que o Brasil está bem, diz que os bancos nunca ganharam tanto quanto no governo dele, que as montadoras nunca venderam tantos carros, e que os trabalhadores nunca tiveram tanto dinheiro. De tão confiante, ele até dá a receita do sucesso para liderar!

Lula descobriu o receito para governar: fazer o óbvio

“O sucesso de um governante é fazer o óbvio, mas que alguns insistem em fazer o diferente”, diz Lula.  Para ele, uma das coisas era diminuir a diferença entre ricos e pobres.

Eduardo Bueno, o Peninha, diz que o sucesso de Lula está no fato de ele ser “streetwise”, sabe como se virar. Um cara que fala com o povo, banqueiros e com Obama.

Sobre o futuro, o programa fala que Dilma foi eleita porque Lula não podia ir para o terceiro mandato.

“Nós não somos cidadãos de segunda classe. Podemos acreditar em nós”, fala Lula.

A CBS até arrisca a falar no jeitinho brasileiro, o “Brazilian way”. Na tradução, dizem que jeitinho brasileiro siginifica se perguntar: “porque fazer algo hoje se pode ser feito amanhã.”

Ao Eduardo Bueno, a TV pergunta sobre a frase de De Gaulle, que dizia que o Brasil não era um país sério. Peninha diz que ainda não somos em vários aspectos. Dá como exemplo o fato de que as pessoas combinam de ir uma na casa das outras, mas acabam não aparecendo. E aí ele pergunta: “Como fazer negócios deste jeito?”

Aí, a CBS faz o contraponto, mostrando as favelas e traficantes derrubando helicóptero policial com metralhadoras. Para em seguida, voltar ao tom positivo, dizendo que já são 13 unidades pacificadas e muitas outras por vir.

As favelas começam a ganhar a cara de Tarsila do Amaral

O repórter lembra da Copa do Mundo e que a Fifa está dizendo que o Brasil está atrasado para a Copa. “Temos que tomar cuidado com o perfeccionismo europeu porque eles acham que tudo o que fazem é bem mais feito do por aqui. Podem ficar tranqüilos, que organizaremos tudo a tempo”, diz Lula.

Em seguida, Peninha diz: “Querem fazer em quatro anos o que não foi feito em 500 anos. É claro que não vamos estar prontos.

A entrevista continua: Qualquer coisa que acontecer no Brasil, não podem dizer que foi por falta de dinheiro. E fala-se da mina de ouro, o pré-sal. “São trilhões de dólares lá embaixo. Significa que o Brasil será o 3º ou 4º maior produtor de petróleo”, diz Eike.

Para finalizar, a reportagem diz que Brasil, China, Russia e India (BRICs) serão as próximas potências, de acordo com estudos de especialistas.

E aí, vem a pérola: “Brasil será um tipo diferente de potência nuclear, fazendo amor e não guerra.” Afinal, lembra a reportagem, o Brasil é um país pacífico desde 1870.

Brasil: superpotência do amor

“Porque lutar, se podemos ir para a praia, jogar ou assistir futebol? Let’s drink a beer”, diz o bon vivant Eike Batista.

Só faltou mesmo falar do Plano Real e que o Brasil não começou com Lula, apesar de todos os méritos de seu exitoso governo que foi coroado com a eleição da sucessora Dilma.

De qualquer maneira, o Brasil está conquistando seu lugar ao sol apostando no soft power (cultura, relacionamento) e não no hard power (poder bélico, guerra, economia). É um jeito de ganhar espaço no mundo. Mais ou  menos como aquele cara na escola que por não poder ganhar na força,  vai levando na simpatia e no bom-papo. Somos nós. “É nóis!”. Veja o vídeo:

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O melhor de 2010 (final) + inspiração para 2011

Vamos lá, com a última parte do melhor de 2010 aqui no Blog. Seguem os cinco posts mais acessados do ano. Numa análise rápida e rasteira, vou tentar explicar o que aconteceu abaixo.

Os post #4 e #1 são um tanto aberrações. Aparecem aí mais pela busca no google do que por qualquer outra coisa. No post  #1, sobre Brasil, buscas sobre semana de arte moderna, arte moderna etc levam a ele. Somente porque coloquei uma imagem do Abaporu, com legenda Mas é um post legal (tem alguns “likes”, fala de perspectivas do Brasil, tem um video inspirador ao final. Enfim, mostra que se usarmos os termos certos, a internet faz aparecer! O do Obama também aparece pelas buscas. Ambos são de 2009 e continuam aí.

Bom, vamos descartar estes e considerar os outros como realmente campeões de 2011.

O post #5 fala dos impactos da construção da usina de Belo Monte. Tem a reprodução de um artigo escrito pela Marina Silva no período da eleição. Acho que ganhou ibope pela onda verde, mas não só por isso, também por ser muito didático e direto ao ponto. O #2 é bem legal, conta a aventura dos caras que surfaram no arroio Dilúvio, em Porto Alegre. Muito antes de eu conhecer a fundo a história do surfe na Pororoca, via o principal embaixador do assunto, meu amigo Serginho Laus. Pessoal do surfe sempre em busca de novas fronteiras.

Mas o post entre os mais populares e do qual mais gosto é o #3, que falou sobre a loucura da baleia Orca que matou um dos treinadores. Trabalhei no Sea World, onde isso aconteceu, e acho que entendo direitinho os motivos da baleia. Vai lá, é um post mais pessoal, gostei de escrever.

Antes de deixar os links, queria compartilhar aqui com vocês o e-mail que recebi do pessoal do WordPress, avaliando a “performance” deste blog em 2010. Veja o que escreveram:

“Números apetitosos

Imagem de destaque

Um navio de carga médio pode transportar cerca de 4.500 contentores. Este blog foi visitado 17,000 vezes em 2010. Se cada visita fosse um contentor, o seu blog enchia cerca de 4 navios.

Em  2010, foram 88 novos posts, aumentando para 283 posts o arquivo deste blog.

O dia mais ativo foi em 6 de novembro, quando foi publicado o post TEDxAmazônia e a seca do século.”

Achei meio boba a comparação com os navios, mas enfim, ficam os números.

E aí vão os post mais acessados de 2010.

5. Entenda o impacto da construção da usina de Belo Monte

4. Vitórias rápidas de Obama

3. A baleia Orca e a falta que faz a liberdade

2.O surf no arroio Dilúvio em Porto Alegre

1. Da arte de ver a floresta e não só as árvores

Inspiração para 2011

Já pensando em 2011, e lembrando que retorno à rotina daqui algumas horas, segue um video publicitário da RedBull para lembrar que neste ano, surfei em 85% dos dias!

Continuando na natureza e na inspiração, este video fala que o “crescimento é para sempre”. Desde que com renovação e na natureza, ok. Ao contrário do crescimento da economia, que se for para sempre, como querem os economistas, vai trazer muitos problemas (ainda mais que os que já temos) para a raça humana no planeta.

Economia, dinheiro, bancos. Encontrei agora este vídeo na internet, naquelas incríveis voltas que a web dá. Excelente trabalho, fechando o ciclo de inspiração. Vamos que vamos!

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A onda verde veio para ficar

Crescimento do Partido Verde mostra que país amadureceu

E  a grande vitória nas eleições de 2010 no Brasil foi a de uma nova visão de mundo. Marina Silva começou tímida, nos 9% e encerrou a votação com 20% dos votos válidos. Dobrou de tamanho no período.

Marina trouxe com ela muita gente boa, com muitas ideias. Nem tão revolucionárias, simplesmente modernas, alinhadas com o espírito do tempo, sintonizadas com as mudanças que a sociedade deseja.

Lembro de no dia seguinte a ela ter anunciada sua candidatura, muitos jornalistas de grandes veículos tentando entender e explicar o que era sustentabilidade ambiental, social, às vezes confundindo todos os conceitos.

Marina venceu preconceitos sobre criacionismo, evangelismo e aborto. Nunca fugiu do debate e sempre mostrou que sua visão de mundo era maior do que todas estas questões somadas.

Há pouco, na TV, disse que não era ela que definiria sozinha para quem seus votos iriam. Lembrou que os votos são dos eleitores e que há muita gente envolvida para decidir. Não importa bem para quem vai. O fato é que o Partido Verde ganhou musculatura. Ganhou força para levar adiante uma visão de mundo mais integrada, interdependente, que mostra que o bagre da Amazônia interessa, sim, quando se vai construir uma hidrelétrica. Tá, é um exemplo bobo, mas serve para ilustrar o preconceito que se carrega contra quem foge da corrente e diz que há coisas mais importantes no mundo do que lucrar, conquistar e acumular poder.

A esperança que Marina acendeu não é pequena. E suas ideias ficarão vivas ainda nesta eleição. Não é questão de escolha. É fato, referendado por quase 20 milhões de eleitores. Não é pouco não. Dobrou de tamanho em algumas semanas.

E não vou falar do Tiririca. Prefiro falar que Collor, Netinho e Romeu Tuma ficaram de fora. Foi, portanto, grande também a vitória da democracia e o fato de termos o segundo turno nestas eleições.

Daqui para frente, só tende a melhorar. E o Brasil é cada vez mais o país do presente. Com inequidades continentais (vale ler o texto abaixo, de Clóvis Rossi, publicado na Folha de São Paulo de hoje), o que nos faz querer acompanhar de perto o debate do segundo turno.

Acho que a onda verde veio para ficar.

CLÓVIS ROSSI

Brasil vota, pobre mas feliz

SÃO PAULO – O Brasil que vai hoje às urnas é, na essência, do seguinte tamanho social: metade dos eleitores (67,5 milhões) ganham, no máximo, até dois salários mínimos.
Seria preciso torturar os fatos para dizer que pertencem à classe média, esse paraíso a que foram conduzidos 30 milhões de brasileiros segundo o ufanismo em voga.
Dos eleitores brasileiros, 13 milhões (10%, pouco mais ou menos) é pobre, pobre mesmo. Ganham menos de um salário mínimo. Figuram entre os 28 milhões excluídos do sistema público de aposentadoria e auxílios trabalhistas.
São, portanto, ninguém.
Também no capítulo educação, a pobreza é radical: 49% dos eleitores fizeram, no máximo, o curso fundamental.
Nesse país que tanto seduz a mídia estrangeira, mais de 60% de seus alunos não têm a capacidade adequada na área de ciências. No exame mais recente, o Brasil ficou em 52º lugar entre 57 países, no quesito ciência.
Alguma surpresa com o fato de que a sétima ou oitava potência econômica mundial é apenas a 75ª colocada quando se mede o seu desenvolvimento humano?
Não tenhamos medo das palavras: o Brasil que vai às urnas é um país pobre, obscenamente pobre para o seu volume de riquezas naturais, território e população.
É também obscenamente desigual, apesar da lenda de que a desigualdade se reduziu. É impossível reduzir a desigualdade em um país que dedica ao Bolsa Família (12,6 milhões de famílias) apenas R$ 13,1 bilhões e, para os portadores de títulos da dívida pública (o andar de cima) a fortuna de R$ 380 bilhões, ou 36% do Orçamento-2009.
Ainda assim, é um país mais feliz do que era há oito anos ou há 16 anos. Fácil de entender: “O pobre quer apenas um pouco de pão, enquanto o rico, muitas vezes, quando encosta na gente, quer um bilhão”, já ensinou mestre Lula.

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O outro lado da moeda

Gosto de temas contraintuitivos. Gente que vai na direção contrária para nos trazer uma nova visão de mundo. Em geral, vão contra o que todos estão falando. Ou derrubam mitos com dados. Embasam bem suas teses para causar polêmica, das boas. Livros como o Freakonomics fazem isso à perfeição. Malcolm Gladwell tem feito isso também em livros como “Fora de série”, que questiona mitos sobre como o sucesso está construído.

Por isso, vale destacar esta coluna abaixo, publicada ontem por Carlos Alberto Sardenberg, derrubando ideias preconcebidas sobre crédito. A tese de Sardenberg é que todos estão reclamando que as pessoas não sabem pegar crédito que são coitadas, que os juros são altos e que não sabem se programar e por isso se dão mal no final das contas.

O filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca escreveu um livro incrível sobre isso, “O Valor do Amanhã”. Fala sobre o dilema entre poupar hoje para viver amanhã ou viver hoje sem poupar para amanhã (formiga vs cigarras e os dilemas das escolhas). Fala também em juros, felicidade e trocas intertemporais. Em resumo, se você quiser mesmo algo (TV, carro, moto, viagem) hoje, vai pagar mais caro por isso e que esta propensão a escolher o ‘agora’ estaria na gênese do povo brasileiro. Vale a pena ler o livro de Giannetti para conhecer a tese e concordar (ou não) com os argumentos.

O fato é: nem tudo é preto no branco ou tão ruim quanto parece. Viva às pessoas que ajudam a trazer luz para debates complicados, como este do crédito. É claro que existe uma carência em educação financeira em larga escala no Brasil e este é o próximo passo no avanço do país, trabalhar melhor este tema. Mas esse é um dever da sociedade como um todo: universidade, órgãos reguladores, empresas, além de Bancos. Tem a ver com o bem estar e o desenvolvimento seguro e saudável da sociedade. Afinal, não queremos criar uma bolha de crédito como a do mercado imobiliário americano.

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“A gente somos inútil”

Carlos Alberto Sardenberg

A estabilização da economia permitiu, entre outras coisas, a volta do crédito. O volume do crédito concedido às famílias disparou, os prazos foram dilatados e cresceu o número de pessoas qualificadas para tomar dinheiro emprestado. Na outra ponta, juros caíram (em relação ao Brasil do passado) e o valor unitário das prestações ficou mais barato, cabendo em mais orçamentos domésticos.

As classes populares, com os novos nomes de classes C e D, entraram alegremente no mundo do crédito, da antecipação do consumo. Começa a voltar até o crédito para a casa própria, de 20 anos.

Para uma sociedade que se desacostumara do crédito, esta deveria ser uma ótima notícia, certo?

Depende. No Judiciário, nas entidades de defesa do consumidor,nas ONGs ambientalistas, em órgãos do governo, o que mais se ouve é que o consumidor está sendo ou pode ser iludido.

No Judiciário e nos Procons, é amplo o entendimento tácito de que o consumidor é “hipo-suficiente”, ou seja, presa fácil dos bancos que só querem empurrar crédito mesmo para quem não pode ou não precisa.

Nas entidades ambientalistas, dissemina-se a idéia de que esse novo agente econômico, o trabalhador com acesso ao crédito, cai facilmente na ilusão do consumo perdulário. Em vez de comprar o que “realmente precisa”, ele é levado pela propaganda e compra carro, moto, tevê de plasma, celulares. Em vez de poupar para comprar mais barato lá na frente, endivida-se hoje, antecipa consumo e acaba pagando duas tevês para adquirir uma.

Em agências do governo Lula, espalha-se a idéia de que o consumidor é vítima fácil da sanha do grande capital, representado pelo banco que empurra o financiamento extorsivo; pelas companhias farmacêuticas e redes de farmácia que empurram remédios desnecessários; pelas multinacionais de alimentos que fazem lavagem cerebral para as pessoas comerem porcarias; pelas empresas de seguro e planos de saúde, que enganam os doentes. E assim vai.

Exagero?

Talvez, mas tenho ouvido essas teses em seminários e debates. Aparecem todo dia na imprensa. E nos atos. Juízes, por exemplo, não hesitam em dar razão a um devedor, perdoando a dívida ou parte dela, mesmo que o contrato com o banco seja absolutamente correto.

Argumentam juízes que é preciso levar em conta a “finalidade social” do crédito e a atitude “abusiva” de bancos, que levariam a pessoa a tomar dinheiro emprestado mesmo quando não pudesse ou precisasse. Por isso, o Estado precisaria “tomar conta do consumidor”.

Repararam? Estão nos dizendo que as pessoas não sabem tomar conta de si, precisam de um tutor, um paizão.

Ora, de onde tiraram que o juiz, o membro do governo, o Procon e as ONGs sabem melhor o que o cidadão precisa ou não? Dizem que as pessoas só devem tomar crédito para comprar algo necessário.

Ora, como esses auto-designados tutores sabem o que é necessário para esta ou aquela família? Renato Meirelles, talentoso cientista social que toca o DataPopular, fez melhor. Foi perguntar às pessoas.

Ouviu, por exemplo, que a compra de uma tevê grande de tela plana, LCD e tudo o mais, é absolutamente necessária porque mantém a família reunida em casa às noites e nos fins de semana. As pessoas sentem orgulho de tê-la e, mais ainda, o supremo orgulho de ter nome limpo e crédito no banco para poder comprá-la.

Um jovem comprar uma moto em 36 vezes, para se arriscar no trânsito das grandes cidades?

Pois é uma decisão inteiramente racional. A alternativa: no mínimo quatro horas, em condução ruim, nos trajetos de casa para o trabalho, deste para a faculdade e daí de volta para casa. O custo das passagens quase empata com a prestação. E com a moto ainda dá tempo de passar na casa da namorada ou de levá-la para o serviço.

Idem para o carro. Por que as famílias compram o automóvel, no carnê, assim que podem? Para se livrarem do transporte público. Comparando, é racional entrar no crediário de 60 meses.

Computador vai para a sala, para o principal lugar da sala. E quem disse que a menina de 15 anos não precisa de um celular?

E é evidente que a família faria economia se poupasse e depois comprasse tudo à vista. Mas, gente, isso é uma bobagem sem tamanho. De onde tiraram que dá para esperar?

Imaginem: para esta Copa não vai dar, mas na Copa do Brasil estaremos de tevê; um ano depois, compramos o computador; mais uns seis anos e compramos os celulares para a família.

Ora, é a base do sistema, antecipar consumo via crédito. Para isso inventaram o sistema financeiro séculos atrás, para passar dinheiro de quem tem poupança para quem necessita para consumo ou investimento (uma moto comprada para trabalhar, por exemplo). É isso que permite atender às necessidades das pessoas – que elas mesmas definem.

Há um claro viés elitista nessa condenação do consumo a crédito das classes populares. Os ricos podem consumir à vontade porque têm o dinheiro. E os pobres? Que esperem até ter?

É preciso admitir que os juízes e os Procons são influenciados pelo que vêem. Afinal, só vão parar lá os casos que encrencaram. Os bancos abusam mesmo, me dizia recentemente um juiz, ao relatar casos de pessoas que haviam se endividado excessivamente.

Mas esse mesmo juiz ficou ao menos intrigado quando olhou os números gerais: o crédito dobrou no Brasil nos últimos seis anos e a inadimplência caiu. É isso mesmo. Há mais pessoas penduradas nos carnês e a pontualidade nos pagamentos é hoje maior.

Ou seja, o sistema está funcionando. As pessoas sabem fazer conta, sabem cuidar de seu dinheiro, sabem comprar. Tanto que estão fazendo isso, sem problemas maiores.

Quanto aos bancos, é claro que querem emprestar dinheiro. Mas querem muito mais receber seu dinheiro de volta. Por isso, depois da estabilização, todos aperfeiçoaram seus sistemas de avaliação de risco.

Assim como as seguradoras querem vender planos de saúde. Mas também precisam que o cliente pague em dia e seja bem tratado. Segurado morto não paga.

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