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Homens inspirados em Netuno

E parece que finalmente conseguimos! Nós, da comunidades dos hominídeos que surfam, conseguimos finalmente criar um pico de surfe. Ou criar as condições para que as ondas possam quebrar em um lugar onde normalmente elas não quebrariam.

Acabei de ver esta notícia no site da Patagonia, marca sobre a qual já escrevi algumas vezes aqui.

A empresa ASR, que cria recifes para diversos fins, conseguiu transformar Kovalam (Índia) um lugar de ondas medíocres para o surfe num lugar de muito boas ondas. É claro que não é um Havaí, mas comparado ao que era antes, ficou incrível. Veja aqui o vídeo.

Mas mais do que simplesmente criar um lugar onde se pode surfar, essa iniciativa que ganhou vida no litoral indiano tem a visão um pouco mais ampla. O projeto tem também a preocupação em limitar a erosão da costa e criar habitat para vida marinha.

Taí um excelente e inspirador jeito de melhorar a vida de todos, comunidade, vida marinha e, claro, surfistas.

Fiquei pensando na década de 80, em Capão da Canoa, litoral gaúcho, de quando surfávamos ondas marrons de 2m de altura. Ondas que quebravam a pelo menos 500m da praia. Longe, longe. Distância que provocava aflição nas mães dos surfistas iniciantes, dos quais só se podia ver a cabeça emergindo de tempos em tempos, atrás das vagas que ainda se formavam mais duas vezes antes de virar energia dissipada na beira da praia.

Pois essa memória ficou mesmo na década de 80, pois nos anos 90 estas ondas foram aos poucos deixando de existir. Nos perguntávamos por quê isso acontecia e quase culpávamos de fantasiosas nossas memórias. Mas não. Eram mesmo os prédios grandes que começaram a ser construídos na beira do mar. As construções afetavam a intensidade do vento que soprava de e para o mar, influenciando no vaivém das areias que proporcionavam a boa formação das grandes ondas marrons dos verões gaúchos.

E agora, fico sonhando em um dia voltar à Capão e surfar essas ondas, mesmo que sejam recriadas pelo homem e não mais por Netuno.

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A vida de Roberto

Conheça o Roberto. É um sujeito que, como eu ou você, está descobrindo o valor e a importância da sustentabilidade para o mundo e para o dia-a-dia. Não lembro a primeira vez que ouvi falar da palavra. Lembro, sim, de ficar indignado com águas poluídas desviando a atenção das ondas enquanto surfava com amigos na praia gaúcha Capão da Canoa. Em geral, acontecia depois de uma chuva forte. A água ficava marrom, com embalagens e palitos de picolés, algumas garrafas plásticas (era meio que novidade na época) e  muitos papéis que eram jogados no meio-fio e corriam para a praia.

Nessa trajetória, um dia foi marcante. O seriado Armação Ilimitada mostrava Juba e Lula dentro da água, sentados em suas pranchas e tentando desviar de cocôs boiando. Trash e patético – e  muito educativo. Era uma espécie de ‘visão’ do que aconteceria dali para frente. Incontáveis quilômetros de praias poluídas pelo mundo. Várias praias fechadas para o banho a cada veraneio pelos estados brasileiros. E o tal ‘mar de plástico’, que já virou notícia pelo mundo.

Aos poucos, comecei a ler mais. Lembro da primeira vez que propus uma pauta sobre balanços sociais para meu editor na Veja (em 1999) e o cara perguntou: “Balanço o quê?” Insisti e escrevi matérias sobre o assunto até o dia em que, em uma das apurações, conheci uma empresa que estava reinventando seu negócio, buscando maneiras de colocar isso em prática. Aceitei o convite para trabalhar lá e entrei em contato com inúmeras possibilidades da sustentabilidade, uma palavrinha tão difícil quanto importante.

Minha vida se transformou. Reciclagem, cuidado com as pessoas, respeito, transparência, ética. Tantas palavras politicamente corretas que às vezes até enchem o saco. O negócio é tentar não ser ecochato ou biodesagradável. O desafio é encontrar o equilíbrio. Talvez falar para as pessoas o quanto isso é importante para a vida delas, mas deixar que elas descubram. Nosso papel, dos ecochatos e biodesagradáveis camuflados, é estimular. E encontrar maneiras de falar. Acho que o Roberto é um bom exemplo disso. Chegará o dia em que não precisaremos mais falar sobre isso, pois afinal será o (único) jeito de fazer as coisas, mas enquanto isso, temos muita gente a convencer.

Veja, opine e faça o curso também!

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Medo

Dez dias atrás, depois de um longo verão, consegui convencer meu principal brother de surfe em São Paulo, o Julio, a descer para a praia em busca do swell (ondulação) que estava previsto para encostar com força no litoral. O que para a maioria das pessoas se chama ressaca, para os surfistas é uma oportunidade de surfar altas ondas. A previsão no windguru.com era de 2,4m – tamanho suficiente para exigir preparo para entrar na água.

A noite anterior, como sempre acontece em dias que precedem surfe grande, foi de bastante expectativa. Certa vez li uma entrevista em que surfistas profissionais contavam que não dormiam quando sabiam que no dia seguinte enfrentariam ondas de 5, 6 até 7 metros (15 a 20 pés) em praias havaianas. Por mais que alguém goste disso, é sempre atemorizante saber que em um vacilo você pode ficar um bom tempo fora da água ou coisa pior.

Guardadas as devidas proporções, surfista de final de semana também tem suas aflições. Será que vou conseguir varar a arrebentação, entrar nas ondas ou ter coragem para descer as maiores? Em função da expectativa, não consegui dormir direito. Fui para cama à meia-noite e às 0h30 ainda tentando dormir. (Às 5h15 tocou o despertador. Cinco minutos depois eu estava em pé. Confesso que não é nada agradável acordar nesse horário, mas sei que a recompensa é matadora.)

Não era bem medo que eu sentia, era mais um certo receito das minhas condições e do que eu encontraria pela frente. Essa incógnita sobre o real tamanho das ondas e das condições do mar é um dos grandes chamarizes do surfe para mim. Nunca vai existir uma onda igual a outra. A onda perfeita está sempre por vir.

Medo eu já senti em Capão da Canoa, no mar marrrom, bravio e frio, a quase 500m da costa, com ondas de 2m. Já senti na Indonésia, com as séries entrando em Nungas (na ilha de Sumbawa), com 4m de altura. Já senti na Costa Rica, quando as ondas estavam crescendo no final da tarde e eu já não enxergava mais nada, esperando pela última do dia, que nunca vinha. Já senti na Califórnia, quando foi preciso entrar no mar pelas pedras para surfar em Steamer Lane, Santa Cruz, e dividir o outside (além da arrebentação) com leões marinhos defendendo seu território. Já senti também em Padang-Padang (Bali), quando minha prancha quebrou ao meio no dia de maior mar da temporada e o canal não me deixava chegar remando na praia. Já senti em El Barco, Punta San Jacinto, na Baja California, quando o furacão passou à margem da costa e trouxe ondas de 3m de altura. Já senti em Manzanillo, na Costa Rica, quando era preciso voar da onda antes que ela se esfarecelasse abruptamente na bancada de coral. Já senti em Yo-Yo’s (também em Sumbawa), no drop montanha-russa de 2m de altura em cima de um coral afiado, aparente através do mar translúcido. Já senti quando uma onda estourou na pedra e me jogou a três metros de distância, de costas numa rocha, em Camburizinho (São Paulo), num dia de muito amadorismo. Já senti quando não sabia a porta de saída da caverna de Uluwatu em dia de mar grande e muita corrente. E muitas outras vezes eu poderia contar aqui. Dentro e fora d’água, sempre em torno do surfe.

Mas e o que faz uma pessoa sentir medo assim, deliberadamente? Talvez a adrenalina, a vontade de superação que traz a sensação de vitória a reboque. Há um sentimento de estar vivo, que não se encontra em terra firme, não se encontra em uma baia corporativa, não se encontra num almoço em família, enfim, não se encontra no dia-a-dia. Sem desmerecer ou comparar. São simplesmente coisas diferentes. Sobre isso, separei aqui um trecho maravilhoso de “Fôlego”, de Tim Winton, que fala por si.

“A maioria das pessosa não gosta de sentir medo. Não dá exatamente para recriminá-las por isso. Alimentar-se do risco é algo perverso – a não ser que você esteja no mercado financeiro. Os empresários são corajosos, mas as pessoas que praticam BASE jumping são uns idiotas imprudentes. Pessoas que viajam sozinhas d ebarco são um desperdício dos recursos de resgate e os snowboarders que pulam de helicópteros são suicidas que gostam de aparecer. Os correspondentes de guerra, como todos sabemos, são gente bem esquisita. Alguns riscos, ao que parece, não merecem respeito. Enquanto isso, todos ficam aterrorizados com a ideia de que isso, o que quer que a vida tenha se tornado, é o que é e pronto. E o pior é que ela vai acabar logo. Com alguns medos – como dor de dente – é possível conviver. Bom, na maioria das vezes. ”

Em geral, tenho até um pouco de medo até de acordar cedo e pegar a estrada para ir surfar. Um pouco de receio do que vou encontrar pela frente. Nada mais do que o saudável medo do desconhecido. Um medo que vai e volta, controlado pela razão. Nada que se justificasse. O mar estava ok. Ondas de no máximo 1,5 m na série (onde era possível surfar, porque havia lugares maiores, mas insurfáveis). Fiquei quase três horas no mar, coloquei minha prancha maior na água, surfei cinco ondas, fiz minha meditação e saí com leves coceiras da água poluída (não se pode ter tudo, certo?).

E reforcei minha coragem e certeza de que nessa vida se pode tudo, menos ficar parado.

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O espírito do surfe

Acabei de ler recentemente o livro Fôlego, de Tim Winton, um escritor australiano. Trata-se de um romance de formação, que acompanha o crescimento e adolescência do personagem principal, Pikelet. Ele tem um amigo de sua idade,  Loonie, um sujeito experiente que serve de guru para ambos, Sando, e sua mulher Eva. O pano de fundo é o descobrimento do surfe e dos limites individuais. Winton é de uma linhagem de autores que torna universal aquilo que é peculiar ao seu habitat. Já foi comparado a Mark Twain e William Faulkner.

Li cada palavra com gosto e muita inveja branca. Me deu vontade de ter escrito aquele livro e me motivou a colocar a escrita em dia. Rabisquei as páginas, os parágrafos, as palavras colocadas no lugar certo. Gostaria de ter lido em inglês, mas como foi presente (o melhor que ganhei de Natal, da minha sempre certeira esposa), foi em português mesmo. Longe de ser um problema, pois a tradução é excelente.

Em cada descrição sobre o ‘surfar’ uma onda, sobre os diálogos, as dúvidas, as prioridades, eu me identificava nos tempos de Capão da Canoa, quando os três meses que passávamos no litoral giravam em torno da hora em que a gente cairia na água para surfar.

No livro, Sando é o guia de Pikelet e Loonie na descoberta do surfe. Isso eu não tive. Descobri sozinho com minha turma a maior parte dos prazeres do surfe. Lugares para ficar, praias novas para explorar, amigos cúmplices de um estilo de vida.

Lembro de uma vez que estava na casa de um amigo, o Duda, e chegou o Dênis, que tinha acabado de voltar de Santa Catarina. Para nós, com 13 e 14 anos, Santa Catarina era a fronteira a ser explorada. Praias em que era possível entrar no mar pelo canal, rios que desaguavam no mar, ondas perfeitas. Eu tentava imaginar como seria aquilo. Qual seria a diferença daquelas praias em relação às que eu conhecia? E tive de esperar um bom tempo até chegar lá, até ter a primeira oportunidade de ir.

Lembro da primeira surftrip com amigos, aos 17 anos, a bord de um Escort azul, do Simpson. Gugu pilotava e Pirica era o quarto integrante da trip. Chegamos em Florianópolis e fomos direto para o Camping da Lagoa. Ingenuamente, colocamos a barraca em cima da areia, preocupados com a ‘maciez’ da cama. Foram preciso apenas 12 horas para que já estivesse cheia de areia. A primeira praia que fomos conferir foi a Brava, ao norte de Floripa. Antes de chegar na areia é preciso vencer um morro alto que serve de mirante para o visual maravilhoso da Brava — ou era assim até a especulação imobiliária encher de prédios por lá. Lá de cima, vimos os riscos brancos simétricos preenchendo o mar azul. De longe, não dava para ver o tamanho das ondas, mas lembro de darmos pulos de felicidade com o visual e com a qualidade das ondas que nos esperavam. Em poucos minutos já estávamos dentro da água para o banho mais clássico que já dei na Brava até hoje. Nunca encontrei um mar igual ou parecido àquele por  lá, apesar das inúmeras vezes que voltei com tal esperança.

Aquela foi a primeira de muitas e muitas surftrips. Desde então, minha cabeça virou. E até hoje eu sigo planejando a próxima trip. Quando, onde e com quem. Algumas dúvidas e uma certeza: a de seguir sempre em busca da onda perfeita.

Como o personagem de Winton, Pikelet, que cresceu, virou paramédico, mas nunca abandonou o surfe. O poeta gaúcho Mario Quintana, fumante que era, cunhou uma frase tolerável na época (hoje politicamente incorreta): “Desconfie dos que não fumam: esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar.” Eu arrisco outra: “Desconfie daqueles que já gostaram de surfar, mas desistiram. Em alguma esquina, eles perderam a vida interior.” Queria poder tentar entender…

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Fala, louco! (parte 3 – última)

O post passado despertou uma série de memórias na lista de discussão que une a turma da infância. Bendita internet! Lembraram da história do garrafão de vinho roubado (essa ainda conto aqui) e da banda Chulé de Coturno, entre outras passagens hilárias da história. Tive boas idéias para escrever mais sobre o passado. Valeu, galera. Agora, segue aí a terceira e última parte do texto sobre o Teta e a galera de Porto Alegre (link para a 2a parte):

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Teve um que até se arriscou a cantar ópera. Foi o mesmo Cecé, protagonista de muitas histórias divertidas, na janela de um dos veranistas do Rivera, um senhor, do qual não lembro o nome e que tinha a fama de mau. Em uma volta do centro, por volta da meia-noite, Cecé começou a cantar em falsete, o mais alto possível, na janela do sujeito. Por semanas tentou-se descobrir o culpado. O Teta ficou indignado, acobertou o Cecé, mas não perdeu a chance de lembrar que o tal vizinho ameaçou dar um tiro no cara que cantou na janela dele. Só precisava descobrir quem…

Amainar conflitos é uma especialidade do Teta. Foi assim que o conheci a primeira vez. Ainda não o conhecíamos o Teta, quando fomos até o Rivera na casa de alguém que havia alugado um apartamento lá para o Verão. Estávamos eu, o Marcelo e o Glauber, se não me engano, junto com a Vivian Beiço (espero que ela não leia isso ou poderia ficar brava com o apelido). Subíamos os degraus do segundo andar quando ouvimos alguém chamar a Vivian de vagabunda. Sem entrar no mérito se o cara tinha ou não razão, precisávamos fazer algo contra aquilo. Saímos do prédio e voltamos com reforço: uns quatro carinhas subiram até o terceiro andar descobrir quem havia falado. Vimos o cara se esgueirando para se esconder em um dos apartamentos ao final do corredor. Fomos até lá dar uma prensa neles. Então, apareceu outro cara, sorridente, na frente do apartamento. E foi logo falando: “E aí, Marcelo?!”. Marcelo respondeu: “Felipe! E aí, meu?!” Os dois se conheciam do colégio, mas ainda não sabiam que veraneavam na mesma praia e que todos se tornariam grandes amigos (inclusive o sujeito que havia ‘elogiado’ a Vivian). Conversa vai, conversa vem, o Felipe (que mais tarde ganhou o apelido de Teta, pelos mamilos levemente protuberantes), acabou salvando a pele desse outro cara (o Alexandre, Xande, que mais tarde ganharia o apelido de Periquito, abreviado para Pirica — em função do nariz adunco e da testa levemente achatada, que de fato lembram a ave).

Arestas aparadas, alguns dias depois Felipe e Alexandre apareceram na minha casa, a famosa Vila Ondina (que depois foi batizada de Vila Sulema, em homenagem à minha falecida avó). Queriam nos convidar para jogar um campeonato de futebol, que estavam organizando no Rivera. Começava ali um ciclo que se estendeu por sete maravilhosos anos, que moldaram amizades para toda a vida. Nesse círculo, Teta foi uma peça-chave, conectando novos amigos na rede. Sempre apoiado no verbo. Não por acaso se formou advogado. Temporariamente ele está sem voz, graças a um acidente. Mas não por muito tempo. Faz pouco, o Grêmio perdeu de 4×1 do Inter. Falei com o Teta. Depois de me dar ‘oi’, ele falou: 1, 2, 3, 4. Essa é minha única diferença com ele. Eu sou gremista, ele colorado. Mas, caramba, ninguém é perfeito, certo? Não é, louco!?

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Fala, louco! – parte 2

Segue a 2a parte do texto sobre Teta e a turma do Rivera (link para a 1 parte):

O contraponto da liberdade era a melancolia da cidade. A praia ficava com cara de cidade-fantasma no inverno. Não tinha nem gente suficiente para jogar futebol. Triste, como a cara de um dia cinzento. Nos feriadões de final de ano, 7 de setembro, 12 de outubro, 15 de novembro, até rolava um jogo de bola. Às vezes a gente encontrava figuras de verão errando por lá, como Dudu Winter, Renatinho Negão, Guto e outros. E aí saía jogo.

À noite, o centro de Capão era o retrato do abandono. Aqueles que se arriscavam encontravam quase tudo fechado: o Gut-gut (que fazia batidas memoráveis), o Bolicho (uma casa de boliche erguida toda de madeira. Um clássico da cidade. Com madeira que estavam lá há décadas, decadente que só. Cada vez que alguém jogava uma bola rezava não para derrubar os pinos, mas sim para não furar o chão!”). Até o fliperama ficava fechado. Não podíamos jogar a Copa do Mundo, em que a regra clara era: “Quem mandou golear o primeiro?. Se isso acontecesse,o segundo ficava mais forte e assim por diante. Era assim o mecanismo do jogo. Ou pelo menos a gente achava que era.

O que funcionava bem na cidade era o vento gelado, que dificilmente era amainado pelo calor das lindas meninas do sul do País. Poucas se arriscavam no inverno… Era quase uma insanidade passear no centro de Capão no inverno. Por isso a gente ficava pelas casas, tomando vinho de garrafão (Sangue de Boi, ou Sâng du boá, em bom francês), fazendo caipirinha de Velho Barreiro, jogando War ou conversa fora.

No verão era tudo diferente. Disputávamos aguerridos campeonatos de botão. Na primeira divisão só jogava a gurizada maior. A segunda divisão era para os irmãos menores. Dificilmente alguém saía de uma divisão para outra. A não ser quando o último colocado fosse o Cecé Carapa. Só pelo prazer de vê-lo jogar contra a molecada. A regra não durou mais de um campeonato, pois logo o Cecé subiu para a primeira divisão. Os jogos aconteciam dentro do salão de festas do Rivera, que tinha um grande pátio interno. Lá a galera corria – entrava e saía sem pedir autorização para ninguém, em um tempo em que segurança era uma palavra que pouco preocupava.

Tudo sempre acontecia no Rivera, o ponto de encontro da galera. Tinha cada espécie por lá… O Dudu Gordo era uma delas. Ele não fazia parte da panelinha, mas na volta do centro de Capão era figurinha carimbada nos papos filosóficos, que incluíam as seguintes pautas: a próxima bagunça que seria feita, certa menina da galera que andava saindo com alguém que não era da turma, a tática para vencer o time de futebol rival, a próxima festa da Saac ou da Rocky Point, em Atlântida. No caso do Dudu Gordo, o assunto era o fato de que ele era amigo dos seguranças de porta de puteiro em Porto Alegre…

No Rivera também tinha um pessoal de uma banda chamada Transaminase. O hit deles era uma música da Bandalhera chamado “Campo Minado”. O Dudu Gordo jurava de pé juntos que eles haviam composto. Tinham canções próprias também. Uma delas era: “Capão é um balneário/que acomoda muita gente/no inverno é frio para caralho/ e no verão é quente.” A Bandalheira era a versão praiana das bandas de rock de garagem que abundam em Porto Alegre. De certa maneira (acho que por falta de outras), era a referência para os projetos de roqueiros da turma que nunca vingaram. Marcelinho, meu primeiro grande amigo e ponto de contato com a turma do Rivera, e Cecé eram os que mais chegavam perto de conseguir tocar algo. O panamenho JJ era o mestre – e segue tocando até hoje, muito bem, por sinal. Mas a carreira musical nunca passou de uma brincadeira para todos.

Teve um que até se arriscou a cantar ópera. (continua)

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Fala, louco!

Essa vai para o meu amigo Teta e para todos que orbitaram em volta do Rivera. Vai em partes. Segue a primeira:

Fala, louco! – parte 1

Cada vez que eu penso em ligar para o meu amigo Luiz Felipe, o Teta, em Porto Alegre, eu logo lembro que preciso de alguns bons minutos para concluir a conversa. Por um simples motivo, o cara fala muito! Longe de ser ruim, um bate-papo com o Teta sempre é divertido e cheio de tiradas engraçadas. Uma das preferidas era: “Vem na minha que tu te dá bem”.

E de fato, várias vezes me dei bem do lado do Teta. Uma das melhores de todas, sem dúvidas, foi o Kayapó, o nosso glorioso time de várzea que muitas vezes fez a alegria (algumas vezes a decepção) da rapaziada. O Kayapó foi uma continuação das peladas do Rivera, QG da turma em Capão da Canoa. Na frente do prédio, tinha um areião brabo onde espetávamos as traves e fazíamos partidas memoráveis em sessões de futebol que duravam até três horas e só eram interrompidas por dois motivos: altas ondas em Capão ou o pôr-do-sol tardio do verão riograndense. O plantel do futebol além de mim: Teta, Marcelinho, Duda, JJ, Paes, Gugu, Cecé Carapa, Renatinho Negão, Leandrinho, Pilotto, Pirica, Bob, Simpson, Wagner, Terek, Dudu Winter, Filipones e outros que provavelmente estou esquecendo. Os coroas também jogavam: Cauby (pai do Pirica), Rogério, Lobato, entre outros, como o narrador Paulo Britto e até jogadores refugo da dupla Grenal. Partidas memoráveis…

Sempre me dei bem no Rivera, também na ‘cola’ da mãe do Teta, a tia Waner. Principalmente nas vezes em que atacávamos os habilmente esculpidos bombons de chocolate com recheios de leite condensado, ameixa ou cereja, para citar os meus três preferidos. Ou então quando devorávamos o mundialmente famoso pudim de queijo que ela fazia, controlado a ferro e fogo pelo guardião Teta, que sempre flexibilizava, atendendo a vontade da turma.

Os bombons e o pudim de queijo quase sempre regavam uma animada conversa adolescente entre às 15h e às 17h, enquanto fazíamos a digestão, esperando o sol baixar para começar as partidas de futebol. O aparelhinho de som Samsung (comprado em Riviera, na fronteira do Brasil com o Uruguai, em Santana do Livramento, terra da família de Teta) tocava a última aquisição nos CDs. Invariavelmente, alguma banda de hard metal (poser, diriam alguns) ou de rock nacional, com farta preferência para as primeiras. Firehouse, Poison, Guns ‘n’ Roses, Twister, Warrant, White Lion e qualquer outra banda do gênero faziam sucesso.

Os finais de semana de inverno no Rivera eram a redenção. Sem nenhum pai ou mãe por perto, a gente dominava a mesa de canastra para jogar War ou Scotland Yard, revezando espaço entre a galeria que dava para o pátio do prédio ou a varanda que permitia checar as condições do mar, que na maioria das vezes estava muito gelado para motivar uma sessão de surfe.

O contraponto da liberdade era… (continua – 2a parte). 

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