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Causa e efeito – nossa maneira de se relacionar e pensar a vida – como foi o bloco 3 do TEDx Amazônia

(Fotos de Bruno Fernandes)

Design thinking é uma expressão que começa a ganhar força fora dos círculos onde ela nasceu. É a ideia de desenhar melhor o mundo em que vivemos. Cidades com trânsito caótico, superpopulação, lixo exacerbado, filas em aeroportos, desperdícios de logística etc – a lista é imensa – são todos problemas de desenho mal feito ou pouco pensado, sem visão de longo prazo.

Como tornar melhor nossas experiências de vida? Como aproveitar melhor nossos recursos naturais? Como viver colaborativamente devolvendo à natureza de maneira inteligente aquilo que produzimos? Há muita gente se preocupando com isso e a segunda metade do primeiro dia do TEDxAmazônia trouxe muitos insumos para esta discussão. Paul Bennett, diretor da Ideo falou do óbvio: a natureza é a maior fonte de inspiração, afinal “a Amazônia é a maior escola de Design Thinking do mundo”. Bennett não falou, mas poderia ter falado de biomimética, a nova disciplina que busca se inspirar na natureza como fonte de design. Isto não é novo, claro que não. As asas de aviões, por exemplo, foram inspiradas no vôo das aves. Há também uma borboleta do gênero Morpho que serve de inspiração para uma linha de maquiagem da L’Oreal . O próprio velcro foi criado pelo engenheiro suíço George de Mestral inspirado na natureza. O Estadão deu boa matéria sobre isso nesta semana.

O ponto é que ainda temos muito para aprender. O ecoeconomista Hugo Penteado foi ao palco depois de Paul Bennett para dizer que os economistas estão errados. Fiquei com a impressão de que a economia é o maior problema de design thinking já criado, à medida que impacta a maneira como vivemos há centenas de anos. “A economia é um bicho que não tem boca e não tem intestinos. Nada entra e nada sai”, disse Penteado para exemplificar que nos modelos econômicos não são considerados os recursos naturais como finitos. “Não existe jogar fora. O sistema é fechado (fechado nas fronteiras do planeta – debati recentemente esta questão no ResultsOn > veja aqui). O resultado é que transformamos o planeta numa grande lixeira, com a gente dentro”. E a pelo crescimento desenfreado que vivenciamos só tem feito piorar essa relação.

Não conhecemos a Amazônia, não conhecemos o fundo do mar, não conhecemos os limites de nossa relação com o planeta. E também pouco sabemos do que somos feitos, ainda que tenhamos avançado nessa descoberta nos últimos anos. Paulo Arruda falou da quebra do código da bactéria Xyllela Fastidiosa, responsável pela doença do amarelinho nos laranjais brasileiros. Os avanços da pesquisa genética, iniciados por Craig Venter com a primeira quebra de código de DNA ao custo de 2 bilhões de dólares em 2000 (fonte: Ciência Hoje), têm sido muito rápidos, ajudando a humanidade a se conhecer melhor. A previsão é de que em pouco tempo seja possível seqüenciar o genoma de uma pessoa por meros mil dólares. Que avanço! Paulo Arruda, assim como Venter, são entusiastas do que fazem, transformando a ciência com base no que acreditam.

Os palestrantes do TED e TEDx são escolhidos pela motivação, pelo entusiasmo, pela vontade e pelo que conseguem fazer com base nisso. Alguns nomes incríveis surgem nesta busca, como o de Zach Liebermann, uma das palestras que mais me prendeu a atenção. Liebermann costuma dizer que usa a tecnologia como forma de quebrar barreiras entre o visível e o invisível. O trabalho do qual mais se orgulha é o Eye Writer, que criou para ajudar um amigo, o artista plástico conhecido como Tempt1, que foi vítima de esclerose lateral amiotrófica e perdeu todos os movimentos do corpo, com exceção dos olhos (ele respira com ajuda de aparelhos). Com o Eye Writer, Liebermann conseguiu fazer com que Tempt1 voltasse a desenhar por meio dos olhos. Mais do que criar um aparelho, Liebermann ajudou a dar um novo sentido para a vida de Tempt1. Todo o esforço colocado no projeto se deu por uma causa simples e poderosa: a amizade.

Causas são incríveis combustíveis de mudança. Quando o castanheiro Zé Cláudio Ribeiro da Silva subiu ao palco e disse que enquanto tivesse força e vontade para andar e falar, ele não deixaria quieta sua indignação contra a derrubada da floresta. Jurado de morte algumas vezes, disse que cada vez que vê uma árvore sendo carregada em um caminhão era como se um membro da família estivesse sendo carregada em um cortejo fúnebre. A emoção da voz de Zé Claudio e sua conexão com a natureza têm a incrível força de mostrar o quando estamos longe da floresta nos centro urbanos. Não só fisicamente, mas emocionalmente também. A floresta é algo muito remoto para a vida urbana. Mas isso é só aparente. De onde vêm as madeiras das mobílias. A maioria da da madeira consumida no Brasil é ilegal, diz o Greenpeace. Quer dizer que provavelmente veio da natureza, sem qualquer controle. “Se as pessoas começaram a perguntar sobre a origem da madeira e rejeitar o que for ilegal, os madeireiros vão parar de derribar (sic) as árvores”, disse numa variação de português ingênuo, simples , mas com mensagem madura.

Depois da simplicidade de Zé Cláudio, veio a sofisticação escatológica de Michael Braumgart, se é que este oximoro é possível. O alemão subiu ao palco com uma cadeira simulando que ia ao banheiro. Um dos mandamentos para uma boa TED Talk é “começar forte”. Mais forte do que isso, impossível. Braumgart queria com isso ilustrar que o cocô, a merda, a bosta, é uma engenhosidade da natureza para realimentar o sistema. Então, num acesso de assertividade, Braumgart levantou da cadeira, pegou o crachá do evento, cheirou e disse num inglês com o cortante sotaque alemão: “This stinks. This is shit”, e jogou no chão. Não satisfeito com o choque que queria causar, fez o mesmo com o catálogo do evento. Chamou de merda o que na verdade não tem o mesmo sentido da merda. Uma confusão mental escatológica. E um posicionamento cristalino como a água de uma privada pós-descarga para dizer que nosso modelo de produção está errado. Os produtos que fabricamos não voltam à biosfera ou ao solo. Em suma: não são merda. Bom seria que fossem. Na minha opinião, a apresentação de Braumgart foi lendária, folclórica. Memorável. Assim como o terceiro bloco do TEDxAmazônia.

(CONTINUA)

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Colaboração, vida e diversão – o segundo bloco do TEDx Amazônia


Preparação para espalhar ideias, foto por Daniel Deak

Uma semana depois do TEDxAmazônia ainda continuam ecoando as mensagens, ideias, sacadas e  conversas. É impossível ficar indiferente. Fica sempre no ar a vontade de continuar em contato com a energia que emerge de uma reunião de 550 pessoas com o objetivo comum de espalhar ideias que valem a pena. Simples assim…

Há quatro meses, quando começou a preparação do evento, havia uma parede em branco, cheia de nomes para preencher. Com o tempo e a cada uma das duas reuniões semanais que deveriam começar às 20h, mas não raro começavam às 21h, os nomes foram surgindo na parede, o hotel ia sendo definido, o orçamento ia ficando mais apertado com tantas passagens aéreas para comprar e com tanta gente para hospedar e alimentar. Mas se a ideia era deixar as pessoas mais próximas da floresta para conhecê-la melhor, esta seria a contribuição do TEDxAmazônia para isto.

Aos poucos, as reuniões começaram a acontecer em paralelo: curadoria dos palestrantes, curadoria da audiência e logística. A grande maioria das pessoas trabalhando ali, voluntariamente. Peter Drucker tem uma frase que explica a razão: “What motivates – and specially what motivates knowledge workers – is what motivate volunteers. Volunteers, we know, have to get more satisfaction from their work than paid employees, precisely because they do not get a paycheck. They need, above all, challenge. They need to know the organization’s mission and to believe in it. They need continuous training. They need to see results”.

Não poderia ser mais verdadeira. Suficiente até para fazer bem-vinda uma reunião de três ou quatro horas na 2ª feira à noite. Simplesmente porque não era uma reunião, mas sim uma oportunidade de dividir causas, motivações e ideias. Outro dia vi na parede da sede do TEDxSP, TEDxAmazônia, Busk e Webcitizen — praticamente uma usina de ideias –, a seguinte frase,  ouvid em um dos TEDx:  “Aqui nos reunimos para fazer juntos aquilo que não conseguimos fazer sozinhos.” Perfeito: o ideal do TEDx é coletivo e o que aquele time de cerca de 20 ou mais pessoas fez foi um marco. Para a floresta, para o TEDx, e para quem esteve por lá.

Hotel Jungle Palace, sede do incrível TEDxAmazônia

O primeiro bloco encerrou com a emoção em alta. A ideia da curadoria era causar isso. Depois que todos os nomes foram para a parede em cada um dos blocos, olhamos um a um para tentar prever que tipos de emoção causariam. Digo tentar prever porque uma das mágicas da curadoria do TED tem a ver com o momento. Palestrantes que seriam as estrelas podem não estar tão inspirados no momento e decepcionar um pouco. Por outro lado, aqueles de quem se espera uma palestra boa, mas não espetacular, de alguma maneira crescem no espírito TED e entregam palestras matadoras. Tentar adivinhar as conexões é como construir uma revista em cada bloco. Como esta pauta (palestrante) vai se conectar com o próximo e como vai complementar ou contrapor o tipo de emoção que está sendo valorizada ali. Construir este quebra-cabeças é como tecer um texto (lembrando que a palavra texto tem sua origem etimológica em tecer. Tecer fios, tecer palavras, descobrir o fio da meada etc).

O segundo bloco, que chamamos de colaborar melhor, teceu vida, colaboração e diversão. Começou com Aaron Koblin, artista que transforma informações em arte. Koblin é mais um adepto da datavisualização, disciplina que vem emergindo nos últimos anos com o claro propósito de nos ajudar a enxergar o mundo melhor. Em um de seus trabalhos, representou vôos nos Estados Unidos como se fossem feixes de luz, transformando a malha aérea em gigantes fogos de artifício. Koblin também mostrou também o tributo colaborativo para Johnny Cash, feito com pessoas do mundo inteiro via web. (No TED Global deste ano, David McCandless mostrou também a arte de seus infográficos. É uma boa referência para quem quiser saber mais sobre este assunto. )

De certa maneira, a grande maioria dos palestrantes ajuda a plateia do TED ou TEDx enxergar melhor. Joan Roughgarden, que falou em seguida a Koblin, é uma especialista em diversidade. Apesar de ter sido um pouco técnica demais, sua tese ficou mais clara depois de conversar com algumas pessoas. E aqui valem umas palavras sobre isso.

Conversar sobre as palestrantes freqüentemente ajuda a enxergá-las sobre um novo ângulo. Não à toa, os intervalos do TED são um pouco maiores do que o normal, para dar tempo para alimentar as ideias. Faz toda a diferença. No caso de Roughgarden, bióloga que estuda a diversidade, captei da palestra dela a tese de que as relações íntimas existem para aumentar os laços e a colaboração entre as espécies. Nas conversas pós-evento, veio a sacada. Com um gráfico complexo, Roughgarden deu a entender que estamos todos juntos por uma grande “sacanagem”. Ela, que já foi ele antes de se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo, tem documentado cerca de 300 casos de homossexualismo entre animais. Todos criando laços de colaboração. Ao final, Roughgarden disse que a “família é uma empresa cujo produto é a prole”.

Já ouvi que o casamento é um negócio, um contrato. Mas confesso que ficou difícil pensar nestes termos frente à sensibilidade que a parteira Suely Carvalho trouxe para a entrega da vida, o parto. Com fotos cruas de partos naturais, Suely foi firme para dizer que é preciso dignificar a vida como um milagre e recebê-la como tal. “A cesariana salva vidas, mas deve ser usada como tal, e não como uma escolha para receber a vida.” Depois dela, veio a cineasta Diana Whitten, que durante três anos acompanhou o trabalho da Womenonwaves.org, conhecida como o “barco do aborto”, filmando o documentário Vessel. A entidade leva a possibilidade do aborto para lugares onde isso é proibido, apoiadas na crença de que mulheres que querem o aborto acabam fazendo isso de qualquer maneira, muitas vezes colocando em risco à própria vida.

André Abujamra, divertindo a plateia, foto de Daniel Deak

Depois de Whitten, era mesmo necessária uma pausa para sentir. O músico Andre Abujamra, um fã do TEDx, que aceitou com o maior prazer o convite de palestrar, subiu ao palco e ajudou a descontrair. Ele tocou “na unha” depois de tentar três vezes que o retorno funcionasse. Abujamra cantou, simulou voar e divertiu.

“Duvião o rio é veia, du rio vião é passarim
Olha só aquele prédio, duvião é drops
Olha só o elefante, no Zimbabwe
Duvião é ratim, e as pessoas
Duvião é formiguim”

A diversão continuou no palco com a excelente palestra de Rafael Kenski, que acabou de voltar de Londres onde fez pós-graduação sobre análise, design e gestão de sistemas. A tese de Rafael é que o melhor jeito de trabalhar é se divertindo e que é possível mudar o mundo, fazendo isso. “O contrário de diversão não é trabalho, é depressão”, disse. Na seqüência, o carismático Edgard Gouveia Jr contou sobre o Oásis, projetos colaborativos baseados em jogos entre equipes para a cuidar de localidades, como ajudar na recuperação de desastres, como Santa Catarina na enchente de 2008. Com o sucesso, o Oásis se espalhou por outros 90 projetos no Brasil e no mundo.

Colaboração, vida e diversão. O segundo bloco do TEDx Amazônia trouxe três assuntos que não deixam ninguém indiferente.

(CONTINUA)

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O poder das empresas de mudar o mundo

Abaixo, compartilho o material que prepararei para minha fala no TEDx Santos, no último 28 de setembro. Em breve, deveremos ter o vídeo da palestra. E aí voltarei ao assunto aqui. Espero que gostem.


O incrível potencial de conexão das pessoas pode provocar a mudança de prática das empresas, que podem mudar o mundo. É claro que ninguém resolve nada sozinho. As empresas precisam da ajuda de governos, academia, mídia, enfim, a sociedade como um todo. Mas quero focar aqui no poder das empresas.

A economia é o jeito pelo qual estamos organizados. Com honrosas exceções que confirmam a regra, como Gandhi, Martin Luther King e Madre Teresa de Calcutá, são os recursos financeiros que influenciam a mudança do mundo.

Nos últimos 10 anos encontrei casos de empresários e empreendedores que estão mudando o mundo com uma série de pequenas ações.

Esta história passa um pouco pela minha carreira. Sou jornalista e depois de alguns anos trabalhando na imprensa em veículos como Veja, Você s/a e Zero Hora, recebi o convite para trabalhar no Banco Real em 2003. Aceitei. Não porque sempre tive o sonho de trabalhar em um banco, mas porque achava que um banco que negava empréstimos de milhões de reais para alguns clientes por questões ambientais e na outra ponta fazia empréstimos de quantias como 1000 reais no microcrédito investia em algo que sempre acreditei: valores.

Tomei a decisão ir trabalhar no Banco e quando me dei por conta, eu, um surfista, estava usando terno, gravato e sapato e meia preta todo o dia. Depois de uma breve passagem pelo marketing, fui para a Diretoria de Desenvolvimento Sustentável para ajudar a estruturar a comunicação sobre o tema. Nestes últimos sete anos, tive a oportunidade de conhecer uma grande quantidade de empreendedores e pessoas que praticam a sustentabilidade como estratégia central de negócio.

Gostaria de apresentar a vocês aqui alguns destes nomes. Quero por meio disso mostrar que está ao alcance de todos e que podemos, sim, fazer um mundo melhor por meio do ambiente dos negócios.

Há um ditado budista que diz que não conseguiremos fazer um mundo melhor com 100 grandes ideias, mas sim com pequenas ações no dia-a-dia.

Há estudos mostrando que das 100 maiores economias do mundo, cerca de 50 são empresas (os dados variam ano a ano de acordo com o faturamento das empresas e PIB dos países). É reflexo de um processo que começou na revolução industrial e fez o poder mudar de mãos: da igreja e Estado para a instituição corporação.

As empresas têm o poder econômico e são capazes de influenciar até decisões de governo e mudanças nas cadeias de negócios.

E aqui fica a pergunta para reflexão: como usar bem este poder? O que valorizar? O que queremos construir com as empresas?

Vou citar alguns exemplos agora: há pouco anos, quando começou a olhar de forma estrutuada para o tema sustentabilidade, o Walmart, uma das maiores empresas do mundo, tomou a decisão de não mais comprar de fornecedores que não pescassem de de maneira sustentável. Isso provocou uma grande mudança em milhares de fornecedores ao redor do mundo que começaram a cuidar destas questões.

Farra do Boi na Amazônia, estudo do Greenpeace

Não precisamos ir longe. No ano passado, o Greenpeace lançou um relatório chamado a Farra do Boi sobre o avanço da pecuária sobre a Amazônia. Em seguida, três grandes varejistas decidiram que não mais comprariam carne de frigoríficos que não conseguissem provar que os animais abatidos não vinham de pastos criados com o desmatamento ilegal. A reação foi rápida e os frigoríficos mudaram suas práticas.

Está cada vez mais claro que as restrições financeiras ajudam a mudar algumas práticas. Mas será que é somente disso que precisamos ou que conseguiremos fazer a mudança necessária?

A resposta é não. E há exemplos disso. São os empresários e empreendedores, os heróis do dia-a-dia, que provam que não.

São líderes que reconhecem a importância da interdependência em nosso dia-a-dia. E sabem que suas atitudes são capazes de mudar o ambiente de negócios para melhor.

As empresas que estão conquistando mercados hoje estão deixando de lado a máxima cristalizada de Milton Friedman, prêmio Nobel, que o negócio dos negócios são os negócios. Sim, são os negócios, mas também algo mais: investir em modelos de negócios sustentáveis.

Peter Drucker, o grande guru da administração moderna, lembra que as empresas existem por uma finalidade: o cliente. Vamos pensar por um momento no cliente como sociedade, ousando criar algo em cima da obra de Drucker.

O aumento da percepção da interdependência e da relevância de todos interessados nas decisões do cliente, a empresa só existe se estiver de acordo com as vontades da sociedade. Regulações, disputas de clientes, multas ambientais – se a empresa fizer algo que não agrada ao cliente, à sociedade, será processada por isso.

Neste sentido, o lucro não é um fim, algo a ser buscado – mas sim uma medida de sucesso, o teste de viabilidade. Se atender ao cliente, à sociedade, o lucro será consequência.

Essa perspectiva tira o foco de resultados e leva para a visão de que é necessário gerar valor. O que importa cada vez mais quando olhamos para os resultados da empresa não é somente o quanto os resultados mostram, mas como eles foram atingidos.

Nos próximos anos, quatro tendências vão marcar o mundo dos negócios: colaboração, ética, transparência e sustentabilidade. De certa maneira, elas estão todas ligadas e as empresas que olharem para isso terão grandes vantagens competitivas.

Algumas empresas conseguem lucrar colocando estas questões no dia-a-dia dos negócios. Empresas que negligenciam ou ignoram estão virando pó.

Vale lembrar do que aconteceu com as grandes empresas em casos nem tão recentes, mas emblemáticos: Enron, WorldCom. Estas empresas manipularam os balanços para mostrar bons resultados para os acionistas. Acabaram desmascaradas.

A capa da Time com as mulheres que denunciaram os escândalos da Enron e outros


Pesquisas indicam que os seres humanos são movidos à reciprocidade. As redes sociais espelham isso. O famoso toma-lá-dá-cá. Se você fizer algo que eu gosto, devolverei isso a você. Se me fizer mal, farei mal a você também. Estas empresas trapacearam, tiveram falhas graves de gestão e tentaram esconder isso dos consumidores e da sociedade. A WorldCom entrou em processo de falência e foi adquirida por outra empresa. A Enron faliu em 2001 e levou junto a consultoria Arthur Andersen, que aprovara os balanços.

Aparte a visão maniqueísta, são exemplos claros da visão sistêmica, de que as empresas fazem parte de um todo e não operam de maneira independente.

Na outra ponta, temos empresas como a Natura, que alavancou sua marca investindo em questões relevantes para seus consumidores, fornecedores e sociedade, criando produtos que valorizam o meio ambiente e as relações entre as pessoas. Em 2005, depois de uma trajetória brilhante, a Natura abriu o capital, num processo muito bem-sucedido. Em 2007, no entanto, teve problemas de gestão de produtos e não conseguiu atender a demanda dos consumidores. O mercado penalizou as ações das empresas e o momento serviu para a Natura se apoiar firmemente nos seus valores. Não cedeu às pressões do mercado e deu a volta por cima e em 2009 foi escolhida a empresa do ano pela revista Exame.

A Natura, melhor empresa de 2009

Outro exemplo vem dos Estados Unidos. Em 1972, foi fundada a incrível Patagônia, empresa de roupas e materiais esportivos, que ajudou a criar uma rede de empresas chamada 1% para o planeta e entre outras coisas, deixa que os funcionários montem suas agendas de acordo com suas vontades, como surfar ou escalar montanhas em dias perfeitos para isso. O fundador escreveu um livro chamado Let My People Go Surfing. Nele, fala da maturidade de reconhecer a responsabilidade de cada um e valorizar isso para criar um bom ambiente de trabalho. Então, não se trata de ser ‘bom mocinho’, mas de apostar na maturidade.

O livro com a biografia de Yvon Chouinard e a história da Patagonia

Mas eu queria também falar aqui de outros casos nem tão conhecidos, mas igualmente relevantes. Nem só de grandes empresas é feito o mundo dos negócios. Muito pelo contrário. As pequenas empresas, que representam o maior contingente de empregos no Brasil. Hoje, de cada três novas vagas, duas são geradas nas PMEs.

Há empreendedores de pequenas e médias empresas que encontraram seus nichos e encontram eco para o que fazem no reconhecimento do mercado.

Ione Antunes é outro exemplo. Ela criou em 1996 a empresa Help Express, de entregas de materiais por meio dos famosos motoboys. Ione desde o início acreditou que os motoboys não precisariam ser maltratados ou que era necessário remunerá-los por entrega em vez de assinar suas carteiras. Sempre cuidou bem deles e até os estimulou a criar um código de ética, onde constam pérolas como: Não ficarás no fliperama e não chutarás o retrovisor alheio. Na última década, com estes cuidados simples, mas poderosos, Ione conseguiu fazer sua empresa crescer na faixa dos 40% ao ano.

Vamos pensar em outro exemplo. Academia de ginástica. Quem nunca começou a fazer academia e se sentiu incomodado com a barriguinha ou mesmo com o ritmo que os treinadores tentavam impor? E aquele ambiente 100% geração saúde… Tony, um empresário paulistano, percebeu que isso incomodava seus pais e por conta disso nunca encararam uma academia. Segundo ele, muita gente vai fazer atividade física por recomendação médica e precisa se sentir à vontade para continuar o ritmo de exercícios. Então, ele, que sempre gostou de esportes, criou um conceito diferente de academia, a Ecofit, para acolher estas pessoas. Cresce 30% ao ano…

(Este caso não entrou na fala por conta do tempo.) Agora, vamos pensar no turismo. Em pousadas em locais paradisíacos. Estes locais, quando viram moda, correm o risco de perder seu maior encanto, o caráter preservado. Em 1992, um empresário dono de pousada, decidiu reproduzir no Brasil o conceito de Relais Chateau, de pousadas de charme, que existe na Europa e em outros lugares do mundo. E criou por aqui a Roteiros de Charme. Para fazer parte da associação, a pousada precisa cumprir requisitos básicos de charme, sofisticação, estar em um lugar agradável e ter cuidados sociais e ambientais. Todos os associados passam por vistoria periódica. Mais do que isso: cada associado leva para sua região a preocupação com os cuidados das pessoas e do meio ambiente por meio de palestras para outros hotéis da região. A Roteiros de Charme vai muito bem, obrigado.

(Este caso também não entrou na fala por conta do tempo.) Em outro exemplo, o americano Ray Anderson, fundador da Interface, fabricante de carpetes, diz que mudou seu negócio por basicamente duas situações. Por que leu um livro chamado Ecologia do Comércio, de Paul Hawken e por que um consumidor perguntou a ele o que fazia com os carpetes usados… Ele não sabia a resposta. Mas não teve medo da pergunta e a levou para dentro da empresa, para transformar seu negócio.

Estes casos mostram empresas absolutamente afinadas com seu tempo. O Brasil e o mundo evoluem rapidamente, junto com o ambiente dos negócios. Os consumidores estão mais exigentes e cobrando seus direitos. Há muitos lugares para se fazer ouvir: além dos tradicionais rádio, TV e jornal, há sites de Procon, de estímulo a cidadania, sem falar das redes sociais: Facebook, Orkut, Twitter etc.

Os jovens e consumidores em geral já não prestam atenção somente às propagandas, mas cada vez mais naquilo que é dito sobre as marcas em diversos lugares, como nas redes sociais. É lá que eles buscam informações de compra.

O mundo é cada vez mais transparente, não há como empurrar uma imagem para o consumidor e entregar outra coisa. Este ano tivemos um episódio que já ganhou seu espaço na história. Foi o caso da British Petroleum, a BP, que estava querendo mudar seu nome para Beyond Petroleum, para ligar a marca ao desenvolvimento de energia limpa. O desastre com a plataforma Deepwater Horizon, um dos maiores da história, jogou tudo por água acima. Independente de quem tenha sido a culpa, este foi um abalo tremendo na imagem da BP. E uma perda de 70 bilhões de dólares em valor de mercado… Além do CEO que foi demitido.

O vazamento que custou 70 bilhões de dólares para a BP

Imagem é tudo neste novo mercado. A reputação está na lista principal das prioridades de CEOs mundo inteiro. Ignorar a voz dos consumidores é se fechar para este mundo. Ouvi-la é se conectar.

O que importa é o que fazemos no dia-a-dia. Cada decisão de negócio. Os empreendedores e empresários que são movidos por uma causa, querendo transformar o ambiente onde atuam suas empresas não buscam desculpas nos impostos ou na fiscalização antiética. Eles direcionam o foco dos seus negócios para colocar em práticas seus valores, sua visão de mundo. Estes empreendedores têm o lucro trabalhando a favor da causa.

Na década de 80, a indústria tabagista fez de tudo para esconder os impactos do cigarro no corpo humano, lembrou um artigo da Harvard Business Review recentemente. No início deste milênio, a indústria alimentícia foi pró-ativa para substituir a gordura trans na alimentação, para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Também no início desta década, os bancos começaram a analisar os impactos socioambientais dos empréstimos. Ou seja, o dinheiro que estou concedendo para clientes. Como ele vai ser usado? Se, por exemplo, em negócios como o desmatamento ilegal, além de prejudicial ao meio ambiente, pode virar uma multa que vai inviabilizar a empresa e vai impactar no pagamento do empréstimo. Uma incrível mudança de atitude num curto período de tempo.

Ao contrário da visão cartesiana, as empresas são cada vez menos vistas como sistemas mecânicos, mas sim como organismos vivos, que fazem parte de um todo. E organismos vivos possuem valores, que influenciam as atitudes na sua essência.

As empresas e os empreendedores não podem ser vistos como mal necessário, que precisa ser vigiado ou regulado. Mas para ganhar esta confiança, os líderes precisam expandir o alcance da empresa para além do lucro, criando um novo jeito de fazer negócios. E vejam só: empresas que se preocupam mais com estas questões têm uma melhor performance financeira. É o que temos percebido na análise de risco socioambiental das empresas elegíveis.

A preocupação com o novo jeito de fazer negócios está cada vez mais sendo valorizada pelo mercado, como na criação de índices e rankings. Um índice que mostra as 100 empresas mais éticas, feita pelo instituto Ethisphere, mostra que as empresas mais éticas tiveram performance até 50% superior comparado às empresas presentes no S&P 500, índice que reúne 500 grandes empresas. Outro estudo, da A.T. Kearney, mostrou que durante a crise financeira em 2008, as empresas que mais se preocupavam com sustentabilidade tiveram também performance melhor. A listas das melhores empresas para trabalhar tem retorno na bolsa maior do que as listadas nas maiores e melhores da Exame.

Ou seja, Respeito é bom – e dá lucro!

Pergunte para Ione e seu time de motoboys. Tony na Academia. Helenio no Roteiros de Charme. Ray na Interface. Yvon na Patagonia. Fábio Barbosa no Santander…

A causa de cada um deles é muito clara. É a mesma que a minha: acreditar que podemos transformar o mundo por meio da ação das empresas.

Para encerrar fica a pergunta: que mundo queremos valorizar com nossas empresas? Como podemos usar o poder transformador das empresas para construir um mundo melhor? Qual a sua causa?

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Sustentabilidade não é competição, é colaboração

Escrevi o texto abaixo para o site da Ideia Sustentável. Segue também o link original.

Sustentabilidade não é competição, é colaboração

A oportunidade de compartilhar boas práticas.

O mês de fevereiro de 2007 foi um divisor de águas para o movimento de sustentabilidade. Até então, falar sobre tema significava ter de explicar o be-a-bá para praticamente todo mundo. Mas, naquele momento em especial, com a publicação de um relatório do IPCC, apontando com mais de 95% de certeza que o homem é responsável pelo aquecimento global, a discussão mudou de figura. Grandes veículos da mídia impressa e eletrônica começaram a cobrir o assunto e temas como meio ambiente, negócios verdes e responsabilidade socioambiental passaram a fazer sentido para muito mais gente.

Essa foi a boa notícia, que trouxe outra nem tanto como consequência: a virtual “banalização do tema”. Tudo passou a ser sustentável – e até desconto em matricula virou responsabilidade social. Se antes os comunicadores tinham o desafio de explicar a importância da sustentabilidade, agora passaram a ter outro: apresentar a prática da sustentabilidade.

Na ânsia de posicionar suas marcas, empresas dos mais variados setores começaram a anunciar que praticavam a sustentabilidade há décadas (muitas antes mesmo do termo ter sido criado). Outras eram sempre pioneiras em diversos itens. A competição começava a se instalar num tema que, acima de tudo, exige colaboração. Afinal de contas, sustentabilidade não é uma corrida para ver quem fez primeiro ou quem fez melhor. Sustentabilidade é uma utopia, no melhor sentido da palavra, o de projetar a construção de um mundo ideal para inspirar a mudança. Ou seja, criar condições de vida melhores, mais seguras e em harmonia com o planeta e desejos da sociedade.

Com esse pano de fundo da discussão, há pouco mais de um ano, em reunião no Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), representantes de diversas empresas chegaram à conclusão de que uma grande oportunidade estava sendo deixada de lado: a de compartilhar as boas práticas de muitas empresas para o aprendizado comum. Daí, nasceu o Guia de Comunicação e Sustentabilidade, de autoria do CEBDS, que pode ser baixado gratuitamente em www.cebds.org.

Dentre o detalhamento do Guia e de todas as boas práticas elencadas, vale destacar alguns sobre esta maneira de comunicar:

1. Fale primeiro e faça depois – em nenhum outro campo de comunicação corporativa, essa afirmação é tão verdadeira. Sustentabilidade está diretamente ligada à transparência e respeito. Ignorar isso é ir contra a própria marca e – mais do que isso – subestimar a inteligência do consumidor.

2. Coerência – os consumidores, principalmente aqueles mais preocupados com a sustentabilidade, acompanham o passo a passo das empresas. Se hoje alguém falar em um anúncio que está preocupado em construir um mundo melhor e amanhã tiver alguma postura que contradiz esta prática, será cobrado por isso.

3. Sustentabilidade não é uma área na empresa. É uma atitude, um jeito de fazer. Não adianta ‘terceirizar’ a prática para o departamento de comunicação ou mesmo de sustentabilidade e no dia a dia continuar fazendo do mesmo jeito, justificando os meios para chegar aos fins.

4. Ninguém fala sozinho – acabaram-se os dias da comunicação de mão única. Os públicos de hoje estão cada vez mais buscando o diálogo e muito menos propensos a ouvir passivamente o que está sendo dito a eles. Fenômenos como o crescimento de redes sociais como Twitter, Facebook e Orkut são exemplos latentes disso. Mesmo que sua marca não tenha uma presença ativa nestes ambientes, ela estará lá de qualquer maneira. Furtar-se a este diálogo é perder uma ótima oportunidade de estar em sintonia com as mudanças que o mundo e os consumidores apresentam às empresas.

5. As empresas são co-responsáveis pela mudança da sustentabilidade. E este tema passa pela comunicação. Das 100 maiores economias do mundo, cerca de metade são empresas. É aí que reside o potencial da mudança, de inspiração. Usar a comunicação a favor disso, de maneira propositiva e consciente, é um grande ativo para as marcas. Os consumidores querem se associar às marcas que promovem causas boas e relevantes.

6. Humor e senso comum. Para falar de sustentabilidade, é importante fugir do jargão. Outro dia, em uma reunião, alguém perguntou o que era “skateholder” (segurador de skate, em tradução livre), querendo perguntar sobre “stakeholder”. Obviamente, ao usar um estrangeirismo temos um problema para tratar de algo tão simples, que pode ser traduzido por “públicos de relacionamento”. É muito melhor buscar um jeito mais leve de falar.

Todo dia, os consumidores são bombardeados por milhares de mensagens publicitárias. Some-se isso ao fato de que sustentabilidade não é sequer uma palavra fácil de ser pronunciada ou mesmo um conceito fácil de ser entendido. A capacidade ou não de as empresas conseguirem engajar os consumidores neste movimento, depende da legitimidade e criatividade para abordar o tema. Por isso, o papel de comunicação é fundamental. O velho guerreiro Chacrinha já falava lá atrás: “Quem não se comunica, se trumbica.” Em tempos de informação trafegando à velocidade da luz, essa lição continua atual e verdadeira.

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A ética do bem comum

No meu trabalho, temos à disposição uma ferramenta muito bacana de redes sociais, com blogs, enquetes, fóruns etc. Estou aprendendo muita coisa bacana.

Compartilhar conhecimento é a melhor coisa que a humanidade inventou desde a internet. Ajuda a todos a terem vidas melhores e mais inspiradas.

Pensando nisso, compartilho aqui um texto que meu colega Fabio Torelli colocou no blog pessoal dele, inspirado em uma fala do genial Oscar Motomura.

Aproveitem:

Copyright © AMANA-KEY • REFLEXÕES SOBRE ÉTICA E O FAZER ACONTECER

 Se ética é a escolha pelo bem comum (o bem de todos os seres vivos, do todo maior) o que seria não ético?

 Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir não agir porque existem dificuldades e incertezas… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir omitir suas propostas, ideias e ações para não ir contra a maioria… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir viabilizar o viável em vez de procurar tornar possível o impossível… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir usar apenas parte do seu potencial (“poupando-o” para interesses pessoais)… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir não agir, se manter em silêncio, deixando o medo prevalecer… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir se conformar com a “letra da lei” em vez de persistir pelo “espírito da lei”… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir não fazer face aos desafios de grande escala e complexidade porque parecem “além da conta” e porque ninguém até hoje tentou… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir protelar ações ousadas de novo e de novo esperando “o momento certo”… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir não ir em frente porque não será reconhecido como o autor da ideia… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir “entrar no jogo” fingindo não perceber manipulações em processo… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir viver no reino das ideias, dos diagnósticos e das teorias em vez de assumir os riscos da ação… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir rejeitar toda e qualquer

proposta “diferente” (inclusive suas próprias) mesmo quando as ideias tradicionais não estiverem funcionando… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir rejeitar qualquer proposta que pareça “idealista” ou “utópica”… não é ético. 

Se ética é a escolha pelo bem comum, decidir deixar tudo como está porque o caminho para a perfeição é muito complexo e difícil de implementar…..definitivamente não é ético. 

(Insights de Oscar Motomura durante o concerto que seguiu o workshop sobre

Limites Morais em Talberg, Suécia, Verão de 2008.)

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Evolução 2.0

Dois dias de imersão total na chamada Empresa 2.0 estão queimando meus neurônios. Além de ser uma enxurrada de novas informações, é tudo em inglês, com direito a cobertura no Twitter. Somando com as seis horas de diferença de fuso de São Paulo para São Francisco, o resultado é que no final do dia não sobre ‘cabeça’ para pensar. Mas, vamos lá, sou brasileiro e não desisto nunca. E cá estou para escrever o blog, com o estômago roncando e pedindo para descer logo para o restaurante do hotel. Rapidinho, vamos lá.

Em uma das apresentações de ontem, a da IDEO, uma das melhores, o sujeito mostrou essa imagem abaixo. É uma metáfora perfeita para as mudanças que esse jeito de olhar a empresa vai trazer para o dia-a-dia de todos, principalmente dos consumidores, que estão na linha de frente dessa cobrança às empresas.

Evolução 2.0...

De tudo que ouvi, há muita coisa para digerir ainda, mas a grande sacada é que a Empresa 2.0 é um jeito de fazer em que a colaboração é central para facilitar o relacionamento entre as marcas com os consumidores.

Algumas visões sobre isso que emergiram das apresentações:

  • A primeira onda da internet foi para criar as possibilidade de comunicação e interação. A segunda onda é para maximizar a comunicação, via colaboração.
  • As iniciativas estão saindo dos repositórios de informação para os espaços de colaboração. Passa de “gestão de conhecimento” para “facilitação de fluxo de conhecimento”.
  • A colaboração não é uma questão de idade, mas sim de relevância. Em muitas das empresas, ficou claro que havia a participação de todos, do estagiário aos executivos-sêniores.
  • A colaboração ajuda a quebrar os silos das empresas. Como o problema no mundo 1.0 esteve sempre entre as áreas e não nas áreas, as oportunidades que se abrem aqui são incríveis.
  • As pessoas e o jeito de trabalhar estão se transformando independente de a empresa ajudar ou não nisso. Todos querem ter mais voz, reconhecimento e oportunidades de participar. Isso está acontecendo principalmente em função das tecnologias.

Lá vem mais um grande movimento pela frente. Com todas as oportunidades que se apresentam. Estamos falando muito (no mercado como um todo) em ‘redes sociais’, como se elas estivessem descoladas das empresas. Não. Redes sociais são os ambientes  em que as empresas terão que interagir cada vez mais. Com muita transparência e colaboração.

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Prêmio Nobel para a Colaboração ou o fim dos síndicos de prédios

Não tinha prestado a atenção devida à escolha do Prêmio Nobel de economia deste ano. Até hoje, quando li algo sobre isso na coluna do Elio Gaspari, na Folha deste domingo. Chamou a atenção o fato de a premiada, Elinor Ostrom, ser mulher, mas o foco foi para o lado errado. Ostrom estuda a colaboração, a inteligência coletiva. Um de seus livros tem o título (tradução livre): “Governando Comunidades com Áreas de Uso Comum” e tem como exemplo comunidades de pescadores do Japão, sistemas de irrigação espanhóis, entre outros.

A tese de Ostrom desmente a ideia de que a propriedade comum acaba em colapso econômico e destruição do meio ambiente, conforme disse Gaspari. Isso é balela. A inteligência de dez pessoas numa sala é muito maior do que o da pessoa mais inteligente. Precisamos (nós, humanidade) aprender como utilizar isso cada vez mais. Pricipalmente nesse momento é que é preciso reinventar o estilo de vida e encontrar novas maneiras de se relacionar com o planeta. Continuar confiando somente nas lideranças atuais é como disse Albert Einstein inócuo. “Não é possível resolver os problemas usando a mesma mentalidade com que foram criados.” É preciso pensar diferente. E colaborativamente…

(Se esse pensamento fosse mais disseminado, talvez não mais existisse espaço para os síndicos de prédios! Que apesar de estarem lá para facilitar, quase sempre acabam tumultuando as decisões coletivas. É ou não é? Reunião de condomínio é para desacreditar na capacidade altruísta da raça humana…)

Abaixo, o que Gaspari escreveu. E quem quiser saber mais sobre a economista, a Wikipedia tem boas informações.

PS: Podem falar que o Nobel da Paz foi precipitado para o Obama, mas o que eu acredito mesmo é que a academia sueca está é bastante antenada para onde o mundo está indo e o quê as pessoas estão valorizando. Para Obama foi, na verdade, um prêmio para a esperança e boa fé na humanidade. (O pessoal da academia sueca deve morar em casas, sem frequentar reuniões de condomínio!)


ÀS VEZES A PATULEIA ENSINA AOS SÁBIOS Uma pessoa capaz de lembrar que “o mundo tem problemas, mas as universidades têm departamentos” deveria ganhar algum prêmio. Elinor Ostrom ganhou o Nobel de Economia sem ser economista e escreveu um livro onde só há algarismos na numeração das páginas. Seu estilo pode ser seco, mas entende-se tudo o que diz. Chama-se “Governing Commons” (Governando Comunidades com Áreas de Uso Comum, numa tradução livre).
A professora Ostrom dissecou comunidades de pescadores do Japão, sistemas de irrigação espanhóis e grupamentos de suíços. Seu objetivo foi desmentir a ideia segundo a qual a propriedade comum acaba em colapso econômico e destruição do meio ambiente. Pelo contrário, desde que sejam respeitados alguns princípios (e ela ensina quais) a propriedade comum funciona, e bem.
Quem acredita na eficácia da criação das regiões metropolitanas e na centralização das delegacias educacionais pode ler na internet um trabalho da professora (infelizmente, em inglês), intitulado “A Análise de Políticas no Futuro das Boas Sociedades”.
Ostrom mostra como essas ideias perderam adeptos, diz porquê e recomenda, entre outras coisas, que se acredite menos em reformas concebidas por sábios e mais naquilo que as comunidades têm a dizer.
Chega-se ao artigo passando “Policy Analysis in the Future of Good Societies” e “Elinor Ostrom”, no Google.

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