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Realidade filtrada

Como você se sente quando tem a impressão que alguém está fazendo as escolhas por você? Ninguém gosta de ser manipulado, pelo menos não conscientemente. O pior é quando isso acontece de maneira inconsciente, filtrando a realidade. Pois esta é a tese de Eli Pariser, que fez uma das melhores falas no TED 2011 (abaixo) e que hoje teve um artigo seu publicado no New York Times e reproduzido no Estadão (veja mais abaixo).

Segundo Pariser, os códigos da internet filtram a informação apresentando aquilo que a pessoa que criou os algoritmos acha mais importante. Uma busca feita no Google do Brasil é diferente daquela feita no Google da China, da República Dominicana ou do Japão. A informação é filtrada pela realidade local. Ou melhor, por aquilo que quem fez o código entende por realidade local. O programador vira o novo editor daquilo que você lê.

Há algum tempo, Nicholas D. Krystof, também do New York Times, publicou um artigo chamado de Daily Me, que falava justamente sobre o filtro da informação (veja aqui um post sobre isso). Mas, neste caso, um filtro pessoal. Cada vez que escolhe acessar um determinado site e assina newsletters com assuntos de seu interesse apenas, você está escolhendo ver o mundo a partir de um ângulo restrito. Por isso a importância de ler os pré-históricos jornais, cujas notícias são filtradas por gente treinada para isso. E não por um programador. Ok, G1, Terra, Uol etc também valem. O importante é não se deixar consumir por uma única visão do mundo. Do contrário, a informação e a realidade filtrada vai ser como fast food: tudo com o mesmo gosto, sem sabor — a fast info.

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Quando a internet acha que nos conhece

Os gigantes estão correndo para oferecer filtros especializados que nos mostram a rede que acham que devemos ver, controlando e limitando a informação que chega a nossa tela

24 de maio de 2011 | 0h 00
Eli Pariser, The New York Times – O Estado de S.Paulo

Era uma vez, reza a história, uma época em que vivíamos numa sociedade radiodifundida. Naqueles tempos ancestrais pré-internet, as ferramentas para compartilhar informação não eram amplamente disponíveis. Quem quisesse partilhar seus pensamentos com as massas, tinha de possuir uma impressora ou um naco das ondas aéreas, ou ter acesso a alguém que o tivesse. No controle do fluxo de informação estava uma classe de elite de editores, produtores e magnatas da mídia que decidia o que as pessoas veriam e ouviriam sobre o mundo. Eles eram os “guardiães”.

Aí veio a internet, que tornou possível a comunicação com milhões de pessoas com pouco ou nenhum custo. De repente, alguém com uma conexão de internet podia partilhar ideias com o mundo inteiro. Uma nova era de mídia noticiosa democratizada despontou.

O leitor pode ter ouvido essa história antes – talvez do blogueiro conservador Glenn Reynolds (blogar é “tecnologia solapando os “guardiães””) ou o blogueiro progressista Markos Moulitsas (seu livro se intitula Crashing the Gate, “Esmagando o portal”, em tradução livre).

É uma bela história sobre o poder revolucionário do meio e, na qualidade de um antigo praticante da política online, eu a contei para descrever o que fizemos na MoveOn.org. Mas estou cada vez mais convencido de que escolhemos a conclusão errada – talvez perigosamente errada. Há um novo grupo de “guardiães” por aí e, desta vez, eles não são pessoas, são códigos.

Os gigantes de internet de hoje – Google, Facebook, Yahoo e Microsoft – veem o crescimento notável de informações disponíveis como uma oportunidade. Se puderem oferecer serviços que vasculhem esses dados e nos forneçam os resultados pessoalmente mais relevantes e atraentes, eles conseguirão a maioria dos usuários e a maioria das visitas a anúncios. Por conseguinte, eles estão correndo para oferecer filtros especializados que nos mostram a internet que acham que devemos ver.

Esses filtros, aliás, controlam e limitam a informação que chega a nossas telas.

Por enquanto, estamos familiarizados com anúncios que nos perseguem online com base em nossas conexões recentes em sites comerciais. Mas, cada vez mais e de maneira quase invisível, nossa busca por informação está sendo personalizadas também. Duas pessoas que fazem uma busca com a palavra “Egypt” no Google podem receber resultados significativamente diferentes, com base em suas conexões passadas. Mas o Yahoo News e o Google News fizeram ajustes em suas home pages para cada visitante individual. E, no mês passado, essa tecnologia começou a fazer incursões nos sites de jornais como The Washington Post e The New York Times.

Tudo isso é bastante inofensivo quando a informação sobre produtos de consumo é filtrada para dentro e para fora de seu universo pessoal. Mas quando a personalização afeta não só o que se compra, mas como se pensa, surgem questões diferentes. A democracia depende da capacidade do cidadão de deparar-se com múltiplos pontos de vista; a internet limita essa possibilidade quando oferece somente informações que refletem seu ponto de vista já estabelecido. Embora às vezes seja conveniente ver-se apenas o que se quer ver, é decisivo que em outros momentos se vejam coisas que não se costumam ver.

Como os velhos “guardiães”, os engenheiros que escrevem o novo código do portal têm o enorme poder de determinar o que sabemos sobre o mundo.

Mas, diferentemente, dos velhos “guardiães”, eles não se veem como “guardiães” da confiança pública. Não há algoritmo equivalente à ética jornalística. Mark Zuckerberg, o presidente executivo do Facebook, certa vez disse a colegas que “um esquilo morrendo no seu jardim pode ser mais relevante para seus interesses agora do que pessoas morrendo na África”. No Facebook, “relevância” é virtualmente o único critério que determina o que os usuários veem. Fechar o foco nas notícias mais relevantes pessoalmente – o esquilo – é uma grande estratégia de negócios. Mas nos deixa olhando para o jardim em vez de nos informar sobre sofrimento, genocídio e revolução.

Não há volta atrás ao velho sistema dos “guardiães”, nem deveria haver.

Mas se os algoritmos estão assumindo a função de editar e determinar o que vemos, precisamos ter certeza de que eles pesam variáveis além de uma “relevância” estreita. Eles precisam nos mostrar Afeganistão e Líbia além de Apple e Kanye West.

As companhias que fazem uso desses algoritmos precisam assumir essa responsabilidade salutar com muito mais seriedade do que fizeram até agora. Precisam nos dar o controle sobre o que vemos – deixando claro quando estão personalizando e nos permitindo moldar e ajustar nossos próprios filtros. Nós, cidadãos, também precisamos preservar nosso fim – desenvolvendo a “literatura de filtro” necessária para usar bem essas ferramentas e cobrando conteúdo que amplie nossos horizontes, mesmo quando isso for desconfortável.

É do nosso interesse coletivo assegurar que a internet se coloque à altura de seu potencial como um meio de conexão revolucionário. Isso não ocorrerá se formos confinados em nossos próprios mundos online personalizados. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
É PRESIDENTE DO CONSELHO DA MOVEON.ORG, É O AUTOR DE “THE FILTER BUBBLE: WHAT THE INTERNET IS HIDING FROM YOU”

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“Imagine se…”: o melhor do TED 2011 – parte 1

“Imagine se…” são as palavras que mais recheiam as conversas entre as pessoas que já participaram de um TED ou TEDx pelo mundo, os chamados TEDsters. Por mais maluca que seja a ideia de alguém, logo em seguida alguém vai construir em cima desta ideia para talvez transformá-la em algo melhor ou mesmo viável. Não à toa, a conferência tem fama de revelar as próximas grandes ideias (big ideas). Por isso, não se encontra por lá gente dizendo: “isto não vai dar certo”.  Aliás, em uma brincadeira, esta frase (a número 1 de burocratas) foi rebatizada em uma palestra no TEDActive, por Jack Sim, o fundador da World Toilet Organization (sim, a Organização Mundial dos Toaletes). Ele chamou este tipo de atitude de “bureaucrap”, em um trocadilho com com burocracia e merda, o que ele tenta tratar em seu trabalho…

A astronauta Cady Coleman abriu o TED 2011 falando do espaço. Foto do flickr, by Cr8it

Pois foi chutando a bureaucrap para longe que o TED começou. Falando enquanto girava em torno da órbita de seu próprio corpo, a partir da Estação Espacial internacional, a astronauta Cady Coleman  abriu o TED 2011. Uma bela ideia de abertura de evento! Em seguida, começou a falar a física Janna Levin, que estudo o som que os buracos negros fazem. E do espaço, o número 1 do TED Chris Anderson conectou a plateia com Sarah Marquis, exploradora que está caminhando da Sibéria para a Austrália e até hoje já caminhou 30.000 km. Marquis perguntou em determinado momento por qual motivo  não conseguimos nos conectar à natureza e teimamos em viver de maneira independente.

O colunista do NY Times David Brooks  subiu ao palco para falar do desenvolvimento de consciência e trouxe dois insights importantes:

1) as emoções estão no centro de nossos pensamentos e portanto não estão separadas da razão. São, sim, a fundação da razão porque nos falam aquilo que devemos valorizar. 2) Nós não somos indivíduos auto-resolvidos, mas sim animais sociais e não racionais. Assim, estamos profundamente interconectados uns com os outros. E Brooks falou ao final que “a eficiência de um grupo não é determinada pelo seu QI, mas sim por quão bem conseguem se comunicar”, algo que estaria bastante presente nas palestras seguintes.

Linguagem e comunicação

A curadoria do TED deste ano trouxe vários exemplos de trabalhos que tentam enxergar sentido na quantidade absurda de informações que trafega em nosso dia-a-dia. Padrões, signficado, relevância – o que importa realmente em tudo aquilo que recebemos de informação? Carlo Ratti, do MIT, mostrou o trabalho baseado em sensores para entender a atividade humana, como por exemplo mapear o que acontece com o lixo. No livro Cidades Invisíveis, Ítalo Calvino já lembrava da enorme quantidade de resíduos que é coletada todo dia, mas que precisa parar em algum lugar. Se ninguém mostrar, fica difícil de ver… No site TrashTrack está a pergunta: “por que sabemos tanto sobre a cadeia de suprimentos e tão pouco sobre a cadeia de remoção de lixo?”


Deb Roy do MIT fez uma das falas que mais me chamou a atenção. Durante os três primeiros anos da vida de seu filho ele gravou 24 horas do que se passava na sua casa com câmeras espalhadas por todos os cômodos da casa. 90 000 horas de video. O objetivo foi aprender o processo de aprendizado da linguagem. A primeira palavra que seu filho disse foi água (“water“). Não à toa, a babá andava atrás dele o dia todo pela casa perguntando se queria água, mostrando o quanto o ambiente influencia no aprendizado! À medida que ia crescendo e aprendendo novas palavras, ele buscou interpretar padrões de conversas e em torno de que elas aconteciam. A palavra “bye”, por exemplo, acontecia com muito mais frequência na sala, perto da porta de saída. A experiência de Roy também pode ser aplicada, como ele mostrou ao final, no entendimento dos padrões que emergem de na discussão de temas como eleições, política e futebol. Entendendo isso, é possível, por exemplo, poder influenciar ou ajudar a dar sentido às conversas que emergem na internet a partir de programas de televisão. Ao final, Roy mostrou que tecnologia pode, sim, ter emoção, quando exibiu os primeiros passos da vida de seu filho.

Milagres”

A emoção da descoberta apareceu outras vezes no TED, como no projeto do carro desenvolvido para ser guiado por cegos, de Dennis Hong.

Teve também o trabalho de exoesqueletos da Universidade de Berkeley, para aumentar o potencial de soldados e — muito melhor que isso — para fazer cadeirantes andarem, como Amanda, que caminhou no palco do TED.

O escavador de dinossauros Jack Horner foi ao palco em uma palestra divertida para mostrar como ele está reconstruindo o DNA de dinossauros a la Jurassic Park. Só que no lugar de pegar amostras de sangue de mosquitos presos em âmbar como no filme, ele está utilizando galinhas para reconstruir a sequência genética. Segundo ele, galinhas são bichos pré-históricos e que podem muito bem ajudar a construir o Galinhossauro. Ainda faltam alguns anos de pesquisa, mas o caminho já está sendo percorrido (veja mais).

E depois disso veio um dos momentos mais incríveis do TED 2011, quando o cirurgião Anthony Atala apresentou seu trabalho de medicina regenerativa e impressão de órgãos humanos. Sim, é isso mesmo. Nenhuma das pessoas com quem conversei nos últimos dias sobre isso conseguia acreditar no que ouvia. Para alguns, tive que enviar o link da palestra de Atala (abaixo), que já está no ar. É isso mesmo, já estamos conseguindo imprimir órgãos humanos. Atala fez duas coisas para deixar claro que não estava de bravata. 1) Ele terminou a impressão de um rim em pleno palco, ao final de um processo de 7 horas. Na definição dele, no lugar de tinto, o cartucho da impressora libera células humanas preparadas para este fim. Atala já desenvolveu a tecnologia para irrigar o rim com veias, mas o website da universidade informa que a tecnologia de impressão de órgãos humanos é promissora, mas que ainda existe muito a ser feito até que não se precise mais de doação de órgãos, por exemplo. 2) Atala levou ao palco um de seus pacientes que recebeu há 10 anos uma bexiga redesenhada em laboratório. O rapaz disse no palco com voz embargada que sua vida foi salva pelo cirurgião.

No dia seguinte a este choque o especialista em saúde pública Harvey Finneberg falou sobre evolução. Lembrou Darwin ao dizer que a sobrevivência depende de quem souber se adaptar melhor e não necessariamente aos mais fracos. E aí veio com sua tese: a “neoevolução˜. Com os avanços da medicina, ele falou que este novo tipo de evolução não será natural, mas sim guiado por nós humanos. Foi impossível não lembrar dos experimentos nazistas de Josef Mengele e conectar com o recém-mostrado poder de criar órgãos humanos. A pergunta de Finneberg ao final continua ressoando para mim: “Será que conseguiremos desenvolver a sabedoria para fazer as coisas certas para nossa evolução?”

Resposta: Humildade

Talvez a resposta estivesse no último bloco, que se chamou “Only if. If only”, mas podia muito bem ser chamado de humildade. Começou com a autodefinida “wronglogist” Kathryn Schulz, na que foi para mim uma das palestras mais sensíveis e delicadas dos quatro dias. Ela escreveu um livro sobre o “errado”, cujo título é “Being wrong: adventures in the margin of error” e será lançado em maio aqui no Brasil. Schulz diz que por volta dos 9 anos, aprendemos que as pessoas que fazem coisas erradas são irresponsáveis ou preguiçosas, mas que na verdade há muito mais sobre o erro do que este preconceito. “Santo Agostinho já dizia, ‘erro, portanto existo'”. Estar errado, para ela, faz parte de nossa humanidade e que isso é fonte de criatividade. “Abrace o erro e aprenda com ele. Faz mal confiar demais no sentimento de estar sempre “do lado certo” das situações. Olhe para a vastidão do e complexidade do universo e tenha a coragem de dizer ‘não sei’ ou ‘talvez eu esteja errado”.

O educador John Hunter veio em seguida. Dono de voz acolhedora transpirando sabedoria, ele mostrou o jogo “The World Peace Game”. Uma espécie de War ao contrário, falando da interdependência de países e do uso compartilhado de aspectos sociais e ambientais. Hunter sempre fala para as crianças durante o jogo, aplicado em escolas: “desculpem, meninos e meninas, nós deixamos o mundo em um estado tão ruim que vocês terão que consertar”.

E ao final, Hunter (com quem tive a sorte e inspiração de trocar rápidas palavras no corredor do hotel onde fiquei em Palm Springs) permaneceu no palco para a última e incrível fala de Robert Ebert, crítico de cinema americano que perdeu a fala graças a um câncer na tireóide. Com a mandíbula reconstruída, mas sem a possibilidade de articular sons, Ebert deu um show de bom humor e amor à vida ao sorrir incontáveis vezes pelos olhos durante a leitura de sua fala, ora pelo computador que simula sua voz, ora por sua esposa, ora por Hunter, ora por um terceiro amigo que dividia o palco. Em certo momento, sua esposa travou ao ler algo que ele tinha escrito. Ela não concordava e chegou a dizer: “desculpa, mas ele não quis  dizer isso.” E começou a chorar. Com dois dedos, Ebert fez o sinal característico para ela continuar e como já estava demorando, pediu que ela passasse o texto para Hunter. Então ela disse: “nunca peça a sua esposa ler algo assim”. E continuou o discurso de celebração da vida que Ebert preparou.

Tenho certeza que durante a preparação desta fala, alguém disse: imagine se outros falassem por Ebert, representando sua voz. Assim como muitos outros imaginaram as invenções, engenhocas e inovações que preencheram o palco de Long Beach nesta edição: impressão de órgãos, galinhossauro, exoesqueletos, carros guiados por cego etc. De Long Beach a Oxford, passando por Palm Springs e por mais de 1 000 TEDx ao redor do mundo, a comunidade TED é repleta de pessoas de perfis empreendedores. A mágica de fazer e contar é o que mantém unida uma comunidade que só faz aumentar ano a ano. Com tanta gente pensando e trocando ideias com o ˜imagine se”, não tenho dúvidas que será possível trocar conhecimento para termos um lugar melhor para se viver. Sem “bureacrap”.


PS: ainda há mais a ser dito sobre o TED 2011. Virá nos posts seguintes.)

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O mergulho e o branded content

Dean's Blue Hole, nas Bahamas (foto de Timothy Shea, flickr)

Fui apresentado a um incrível video no final de semana. O campeão mundial de apneia, Guillaume Nery, mergulha no Dean’s Blue Hole, o buraco submarino mais profundo do mundo, nas Bahamas.

Dean's Blue Hole: base jumping a mais de 200 metros de profundidade

A descrição do YouTube diz que o video é uma ficção. Não importa: a edição e o show de imagens são de encher os olhos. E quem se importa com a exposição explícita das marcas? Isso é branded content, tendência de comunicação. Conteúdo de primeira, patrocinado por marcas. Outro exemplo disso é a campanha da Perrier, com uma estonteante atriz americana Dita Von Teese

Água para apagar o fogo: branded content da Perrier

A Patagonia também investe em branded content no site Footprint Chronicles, mostrando a pegada ecológica de uma série de produtos da marca.

Patagonia e a pegada ecológica dos produtos no Footprint Chronicles

O branded content deixa claro que existe algo muito mais inteligente a ser feito com as marcas do que merchandising capenga em novela. E reforça a máxima do jornalismo que não existe texto longo ou curto, existe, sim, texto chato ou bom…

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Sustentabilidade não é competição, é colaboração

Escrevi o texto abaixo para o site da Ideia Sustentável. Segue também o link original.

Sustentabilidade não é competição, é colaboração

A oportunidade de compartilhar boas práticas.

O mês de fevereiro de 2007 foi um divisor de águas para o movimento de sustentabilidade. Até então, falar sobre tema significava ter de explicar o be-a-bá para praticamente todo mundo. Mas, naquele momento em especial, com a publicação de um relatório do IPCC, apontando com mais de 95% de certeza que o homem é responsável pelo aquecimento global, a discussão mudou de figura. Grandes veículos da mídia impressa e eletrônica começaram a cobrir o assunto e temas como meio ambiente, negócios verdes e responsabilidade socioambiental passaram a fazer sentido para muito mais gente.

Essa foi a boa notícia, que trouxe outra nem tanto como consequência: a virtual “banalização do tema”. Tudo passou a ser sustentável – e até desconto em matricula virou responsabilidade social. Se antes os comunicadores tinham o desafio de explicar a importância da sustentabilidade, agora passaram a ter outro: apresentar a prática da sustentabilidade.

Na ânsia de posicionar suas marcas, empresas dos mais variados setores começaram a anunciar que praticavam a sustentabilidade há décadas (muitas antes mesmo do termo ter sido criado). Outras eram sempre pioneiras em diversos itens. A competição começava a se instalar num tema que, acima de tudo, exige colaboração. Afinal de contas, sustentabilidade não é uma corrida para ver quem fez primeiro ou quem fez melhor. Sustentabilidade é uma utopia, no melhor sentido da palavra, o de projetar a construção de um mundo ideal para inspirar a mudança. Ou seja, criar condições de vida melhores, mais seguras e em harmonia com o planeta e desejos da sociedade.

Com esse pano de fundo da discussão, há pouco mais de um ano, em reunião no Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), representantes de diversas empresas chegaram à conclusão de que uma grande oportunidade estava sendo deixada de lado: a de compartilhar as boas práticas de muitas empresas para o aprendizado comum. Daí, nasceu o Guia de Comunicação e Sustentabilidade, de autoria do CEBDS, que pode ser baixado gratuitamente em www.cebds.org.

Dentre o detalhamento do Guia e de todas as boas práticas elencadas, vale destacar alguns sobre esta maneira de comunicar:

1. Fale primeiro e faça depois – em nenhum outro campo de comunicação corporativa, essa afirmação é tão verdadeira. Sustentabilidade está diretamente ligada à transparência e respeito. Ignorar isso é ir contra a própria marca e – mais do que isso – subestimar a inteligência do consumidor.

2. Coerência – os consumidores, principalmente aqueles mais preocupados com a sustentabilidade, acompanham o passo a passo das empresas. Se hoje alguém falar em um anúncio que está preocupado em construir um mundo melhor e amanhã tiver alguma postura que contradiz esta prática, será cobrado por isso.

3. Sustentabilidade não é uma área na empresa. É uma atitude, um jeito de fazer. Não adianta ‘terceirizar’ a prática para o departamento de comunicação ou mesmo de sustentabilidade e no dia a dia continuar fazendo do mesmo jeito, justificando os meios para chegar aos fins.

4. Ninguém fala sozinho – acabaram-se os dias da comunicação de mão única. Os públicos de hoje estão cada vez mais buscando o diálogo e muito menos propensos a ouvir passivamente o que está sendo dito a eles. Fenômenos como o crescimento de redes sociais como Twitter, Facebook e Orkut são exemplos latentes disso. Mesmo que sua marca não tenha uma presença ativa nestes ambientes, ela estará lá de qualquer maneira. Furtar-se a este diálogo é perder uma ótima oportunidade de estar em sintonia com as mudanças que o mundo e os consumidores apresentam às empresas.

5. As empresas são co-responsáveis pela mudança da sustentabilidade. E este tema passa pela comunicação. Das 100 maiores economias do mundo, cerca de metade são empresas. É aí que reside o potencial da mudança, de inspiração. Usar a comunicação a favor disso, de maneira propositiva e consciente, é um grande ativo para as marcas. Os consumidores querem se associar às marcas que promovem causas boas e relevantes.

6. Humor e senso comum. Para falar de sustentabilidade, é importante fugir do jargão. Outro dia, em uma reunião, alguém perguntou o que era “skateholder” (segurador de skate, em tradução livre), querendo perguntar sobre “stakeholder”. Obviamente, ao usar um estrangeirismo temos um problema para tratar de algo tão simples, que pode ser traduzido por “públicos de relacionamento”. É muito melhor buscar um jeito mais leve de falar.

Todo dia, os consumidores são bombardeados por milhares de mensagens publicitárias. Some-se isso ao fato de que sustentabilidade não é sequer uma palavra fácil de ser pronunciada ou mesmo um conceito fácil de ser entendido. A capacidade ou não de as empresas conseguirem engajar os consumidores neste movimento, depende da legitimidade e criatividade para abordar o tema. Por isso, o papel de comunicação é fundamental. O velho guerreiro Chacrinha já falava lá atrás: “Quem não se comunica, se trumbica.” Em tempos de informação trafegando à velocidade da luz, essa lição continua atual e verdadeira.

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A sacola plástica e a vida na Terra

Nós e as sacolas plásticas

Como as indústrias de tabaco e madeireira, que despertam muitos sentimentos negativos na sociedade e nos consumidores, a indústria plástica está prestes a se tornar o próximo alvo (se já não se tornou…). Não faltam campanhas com o objetivo de desqualificar o seu uso, lembrando dos terríveis impactos que causam para o meio-ambiente. Só para lembrar, uma sacola plástica pode levar até 500 anos para se decompor. Já há tentativas de produzir o plástico biodegradável (ainda não ouvi nenhuma recomendação positiva sobre isso, se alguém souber favor avisar) e até o esforço da associação de indústrias plásticas de lembrar o valor das sacolinhas.

É inegável a praticidade que trouxeram ao dia-a-dia. Ainda lembro de ir ao supermercado e voltar com as compras em sacolas de papel. Aposto que nenhum Geração Y (como são conhecidas as pessoas nascidas na década de 80 – ou millennials em outra abordagem) lembra disso. Mas também lembro de minha mãe usando carrinho de feira para trazer aquelas coisas que não se podia transportar nas sacolas de papel, como objetos de geladeira, que molhavam o papelão e faziam todas as compras caírem no chão.

Como tudo na vida, a sacola plástica tem seu lado positivo e negativo. O problema é o excesso. Uso em excesso neste caso… A já famosa mancha de plástico no Oceano Pacífico é dar medo. Ainda não vi nenhuma foto sobre isso, parece uma lenda urbana, mas os estudos confirmam que existem. Afinal, para onde iriam as sacolas plásticas. Os balões, feitos de plástico, vão para um lugar idílico (veja aqui).

Já as sacolas, vão para o seu próprio paraíso. A grande mancha plástica do pacífico… Como conta, em tom épico, este vídeo produzido pela ONG Heal the Bay, na Califórnia, onde se utilizam 19 bilhões de sacolas plásticas por ano.

Esta outra versão apresenta um filme que é parte da série FutureStates, feita de 11 mini-ficções que exploram cenários hipotéticos para o nosso futuro por meio da lente da realidade hoje. É uma biografia da sacola plástica. De dar dó. A sacola humanizada, falando em inglês, com sotaque estrangeiro (voz de Werner Herzog), procurando o seu genitor (maker). Quase uma andróide de Blade Runner, buscando sentido para a vida… Coitada.

Mais impactante que isso só a cena da sacola rodando no vazio, no belíssimo “Beleza Americana”:

Não há mensagem aparente na versão do diretor Sam Mendes, do vencedor do Oscar Beleza Americana. Só aquela que a poesia consegue entregar. Lúgubre. Melancólica. Existencial.

Pausa. Corta para a Plastivida. Tentando mostrar a importância da sacola plástica.

Pense no lixo da sua cozinha. Para onde ele vai depois que entra no saco plástico? Pouca gente sabe. Pouca gente se preocupa com isso. Poucos têm tempo para fazer compostagem de lixo ou mesmo para ir até o “ecoponto” mais próximo reciclar o lixo. É mais fácil ser contra a sacola. E não estou aqui para criticar, querer banir o uso da sacola plástica. É, sim, algo para se preocupar. Mas ainda está longe o dia que vou deixar de usar sacolas plásticas. Recuso-as no supermercado, onde quer que eu vá. Levo sacolas de lona (que estão quase ficando chics), mas ainda é pouco perto do problema do uso indiscriminado das sacolinhas. O que fazer? Aceita-se sugestões.

Independente da mensagem, fica a lição de buscar novos jeitos (interessantes) para falar de assuntos sérios e importantes. Nada de ficar “enchendo o saco” do amigo dizendo que ele vai acabar com o planeta se continuar usando sacola plástica, mas, sim, buscar chamar a atenção de maneira criativa…

Leia mais na SuperInteressante

A Terra, a milhões de quilômetros

Enquanto isso, a 114 milhões de milhas de distância, a sonda Messenger, da Nasa, tira uma foto da Terra e da Lua, nos colocando na nossa insignificância. Num universo tão grande, do qual não conseguimos imaginar em nosso cérebro sua vastidão, cá estamos vivendo o privilégio da vida. E transformando petróleo em plástico. Tirando algo que durou milhões de anos para se formar do fundo da terra e jogando para atmosfera, causando aquecimento global e poluição. Espero que ninguém esteja vendo isso ao lado da sonda Messenger.

A Terra e a Lua a 114 milhões de milhas na perspectiva da Messenger

Leia mais: http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1305422/Incredible-image-Moon-orbiting-Earth-taken-Nasa-probe-114-million-miles-away.html#ixzz0y3S4r4rG

TED Talk da semana – Dimitar Sasselov

Como encontramos centenas de planetas parecidos com a Terra (clique aqui para ver em português)

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Um mundo sem palavras e outras

O mundo sem palavras

Um video incrível sobre como seria feito o mundo sem palavras.

Governos, empreendedores sociais e interdependência

Na semana passada, a revista Economist publicou uma matéria que fala da aproximação cada vez maior entre governos e empreendedores sociais. A matéria diz que os governos estão pedindo ajuda para resolver seus problemas. Tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, esta tendência está em alta. O governo de Barack Obama listou os 11 primeiros programas que serão apoiados pelo novo Fundo de Inovação Social. No total, cerca de US$  50 milhões se juntarão ao aporte de US$ 74 milhões de grandes ONGs para expandir o trabalho em saúde e para criar empregos para apoiar jovens. É uma grande notícia, que deixa claro a importância do envolvimento de todos na solução de problemas. Afinal, ninguém faz nada sozinho. A matéria da Economist: http://www.economist.com/node/16789766

Life is good lab

É cada vez mais comum a vontade das empresas de construirem algo em conjunto com os consumidores. Estamos saindo das interações entre marcas e consumidores para um diálogo mais profundo, que visa construir algo. O problema é que poucas empresas estão conseguindo fazer isso na prática, além do discurso…

Bem, a LG acaba de criar o LG Life’s Good LAB, uma plataforma colaborativa criada e desenvolvida pela LG do Brasil. Usando o Facebook, a empresa quer atrair ideias para o desenvolvimento de produtos. As ideias serão avaliadas e poderão virar projetos na LG. Eis o vídeo de divulgação do projeto.

O mapa das redes sociais

O mapa das redes sociais

As grandes marcas e o mundo 2.0

Este blog traz alguns exemplos de como grandes marcas estão se movendo no mundo 2.0 e aproveitando o seu tamanho para potencializar os efeitos. O gráfico abaixo mostra um De – Para e aqui neste link é possível explorar os exemplos. Trata-se da concretização daquela máxima de que se você for fazer depois, faça bem-feito. Com o tanto de experiências que já existem e pisadas na bola de muitas empresas, fazer depois já não é tanto um problema nas redes sociais. O problema é não fazer…

O "De-Para" das grandes empresas nas redes sociais

TED Talk da semana – Sheena Yvengar, sobre a Arte de Escolher (aqui em português)

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Três tendências sustentáveis

Se você fosse um presidente de uma grande empresa e estivesse preocupado com o tema sustentabilidade nos negócios, por que você estaria preocupado com isso? Uma pesquisa da Accenture chamada de “Nova Era da Sustentabilidade”, lançada recentemente, fez uma consulta a quase 800 CEOs do mundo inteiro sobre a evolução da prática da sustentabilidade nos negócios e suas principais preocupações com o tema. As três principais conclusões da pesquisa reforçam o que está no ar, mas só se torna evidente com estudos assim: 1. O consumidor é (ou será) o rei. 2. Importância da tecnologia e inovação. 3. Colaboração é crítica.

O debate atual sobre a sustentabilidade tem em seu eixo essas três variáveis. O consumidor (também no papel de cidadão) está no centro da questão ao pedir e cobrar mudança das práticas das empresas. Há alguns meses, assisti a um debate com Ray Anderson, CEO da Interface, uma das maiores fabricantes de carpetes do mundo. Anderson é uma referência no mundo da sustentabilidade e foi um dos protagonistas do documentário The Corporation, sobre o crescente papel das corporações no mundo dos negócios. No debate, ele contou uma história reveladora sobre como o tema se tornou importante para sua empresa. Certo dia, disse ele, um dos clientes perguntou como era o descarte dos carpetes usados e o que estavam fazendo para evitar a poluição do meio ambiente. “Não sabíamos a resposta, mas fomos atrás.” A história da Interface rendeu um livro, uma autobiografia de Anderson chamada “Confessions of a Radical Industrialist” e traz detalhes sobre o tema.

O que à época parecia uma questão isolada, hoje se tornou uma tendência. A própria pesquisa da Accenture mostra que 58% dos CEOs dizem que os clientes são seus principais stakeholders, mais do que empregados (45%) e governos (39%). A segunda tendência apontada pelo estudo tem a ver com tecnologia. Nada menos do que 91% dos CEOs apontam que suas empresas irão usar novas tecnologias para integrar a sustentabilidade na gestão nos próximos cinco anos. Sem dúvidas, uma nova abordagem para geração eficiente de energia, uso de energia renovável e de informação e comunicação será determinante para os avanços no tema. Historicamente, a humanidade tem recorrido à tecnologia para resolver questões prementes e fundamentais, como aconteceu na alimentação e colocou por terra a teoria de Thomas Malthus, que apontava para uma escassez mundial de alimentos.

Recentemente, o americano Matt Ridlley lançou o livro “The Rational Optimist” (ainda sem tradução em português), reforçando o ponto da tecnologia como panaceia universal e dizendo que sempre podemos contar com a tecnologia para nos salvar. Como ponto de atenção, vale lembrar que seremos 9 bilhões de pessoas em 2025.

Muitas pessoas, com muitas questões em aberto e um mundo ávido por recursos naturais para garantir vidas mais confortáveis para todos. E aqui entra a terceira tendência do estudo com os CEOs: a colaboração. Um total de 78% dos CEOs acredita que os problemas de hoje são muito grandes e complexos para serem resolvidos sozinhos.  A colaboração exige uma atuação aberta, baseada em relações de troca sólidas. Ninguém faz nada sozinho.

Com a cobrança e urgência de se reinventar os negócios, é forte a tentação das empresas comunicarem sobre os benefícios da sustentabilidade.

A velocidade com que a a informação trafega pelo mundo hoje deixa claro que vivemos na era da comunicação. Com a cobrança e urgência de se reinventar os negócios, é forte a tentação das empresas comunicarem sobre os benefícios da sustentabilidade. Indagados sobre os fatores que fizeram os CEOs tomarem ações relativas à sustentabilidade, 72% responderam que foi por preocupação com marca, confiança e reputação. Muito a frente do segundo colocado, o potencial de aumentar receitas e diminuir custos, que levou  44% das respostas. Ou seja, comunicação está no topo das preocupações dos presidentes de empresas em todo o mundo.

Num ambiente em que todos querem disseminar suas práticas sustentáveis, em que os consumidores estão mais atentos, a comunicação está virando um item de primeira necessidade. Mas como e quanto as empresas estão falando? Mais do que fazer, a necessidade que se coloca agora é de comunicar – e bem.

(Publicado originalmente no site da Revista Amanhã)

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