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Passamos dos limites

Parece que estamos tratando a terra com o amadorismo de um clipart. O planeta não vai esticar...

Está aqui um tema que não vou cansar de escrever sobre neste blog. Parece que vai demorar muito tempo para que a humanidade tenha a noção épica de que estamos vivendo numa era limite. Limite para nós do ponto de vista viável enquanto espécie com 7 bilhões de unidades. E além do limite do ponto de vista de uso dos recursos físicos do planeta.

Recentemente, o Valor publicou um artigo muito relevante do economista André Lara Resende. É especialmente importante ver um economista do calibre dele reconhecer que não havia prestado atenção ao tema da economia-maior-do-que-o-planeta antes. E é muito bom vê-lo reconhecer isto. Na minha visão, este é o caminho pelo qual muitos economistas ainda vão passar. Mesmo que pelo sofrimento. Quem estuda este tema, acredita que a humanidade passará por um processo custoso de adaptação a um planeta sob ataque. Somos  mesmo muito arrogantes. E vamos pagar caro por isso.

Vejam o trecho abaixo e leiam o artigo completo aqui.

“Gilding argumenta que passamos do limite físico do planeta. As evidências são hoje um consenso na comunidade científica. Apesar da vida de ativista, Gilding é a antítese do radical rancoroso. Seu livro faz a melhor exposição organizada, inteligente e ponderada, da evolução das pesquisas, da consciência ecológica e do estágio a que chegamos. Qualidades que em nada aliviam o impacto depressivo do tema. Gilding é, contudo, surpreendentemente otimista na capacidade de adaptação e de superação da humanidade. Não antes de enfrentar uma crise sem precedentes.”

*E para os céticos de plantão, aqui vai um app para iPhone chamado Just Science. É só um apanhado de dados que fala de aquecimento global. Só ciência.

App Just Science na Apple Store

 

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A superpotência do amor

Brasil, acordando para o seu potencial

Quem ainda não viu, precisa ver o documentário da CBS com a visão americana sobre o Brasil. São 13 minutos falando sobre o despertar do país. Foi ao ar no final do ano passado e virou uma espécie de viral agora. É curioso ver o ponto de vista dos gringos sobre as terras tupiniquins. O tom é até meio festivo, em alguns momentos superficial (e dificilmente seria diferente em uma reportagem de 13 minutos para a televisão) e por isso é que vale a pena ver. Nossa imagem no final das contas é positiva.

Há entrevistas com Eike Batista, Lula e Eduardo Bueno (o jornalista também conhecido como Peninha).

O tom é o de que o país do futuro está se tornando o país do presente.

A certa altura, Eike Batista diz: “Hello, americans, you need to wake up”.

Lula, para dizer que o Brasil está bem, diz que os bancos nunca ganharam tanto quanto no governo dele, que as montadoras nunca venderam tantos carros, e que os trabalhadores nunca tiveram tanto dinheiro. De tão confiante, ele até dá a receita do sucesso para liderar!

Lula descobriu o receito para governar: fazer o óbvio

“O sucesso de um governante é fazer o óbvio, mas que alguns insistem em fazer o diferente”, diz Lula.  Para ele, uma das coisas era diminuir a diferença entre ricos e pobres.

Eduardo Bueno, o Peninha, diz que o sucesso de Lula está no fato de ele ser “streetwise”, sabe como se virar. Um cara que fala com o povo, banqueiros e com Obama.

Sobre o futuro, o programa fala que Dilma foi eleita porque Lula não podia ir para o terceiro mandato.

“Nós não somos cidadãos de segunda classe. Podemos acreditar em nós”, fala Lula.

A CBS até arrisca a falar no jeitinho brasileiro, o “Brazilian way”. Na tradução, dizem que jeitinho brasileiro siginifica se perguntar: “porque fazer algo hoje se pode ser feito amanhã.”

Ao Eduardo Bueno, a TV pergunta sobre a frase de De Gaulle, que dizia que o Brasil não era um país sério. Peninha diz que ainda não somos em vários aspectos. Dá como exemplo o fato de que as pessoas combinam de ir uma na casa das outras, mas acabam não aparecendo. E aí ele pergunta: “Como fazer negócios deste jeito?”

Aí, a CBS faz o contraponto, mostrando as favelas e traficantes derrubando helicóptero policial com metralhadoras. Para em seguida, voltar ao tom positivo, dizendo que já são 13 unidades pacificadas e muitas outras por vir.

As favelas começam a ganhar a cara de Tarsila do Amaral

O repórter lembra da Copa do Mundo e que a Fifa está dizendo que o Brasil está atrasado para a Copa. “Temos que tomar cuidado com o perfeccionismo europeu porque eles acham que tudo o que fazem é bem mais feito do por aqui. Podem ficar tranqüilos, que organizaremos tudo a tempo”, diz Lula.

Em seguida, Peninha diz: “Querem fazer em quatro anos o que não foi feito em 500 anos. É claro que não vamos estar prontos.

A entrevista continua: Qualquer coisa que acontecer no Brasil, não podem dizer que foi por falta de dinheiro. E fala-se da mina de ouro, o pré-sal. “São trilhões de dólares lá embaixo. Significa que o Brasil será o 3º ou 4º maior produtor de petróleo”, diz Eike.

Para finalizar, a reportagem diz que Brasil, China, Russia e India (BRICs) serão as próximas potências, de acordo com estudos de especialistas.

E aí, vem a pérola: “Brasil será um tipo diferente de potência nuclear, fazendo amor e não guerra.” Afinal, lembra a reportagem, o Brasil é um país pacífico desde 1870.

Brasil: superpotência do amor

“Porque lutar, se podemos ir para a praia, jogar ou assistir futebol? Let’s drink a beer”, diz o bon vivant Eike Batista.

Só faltou mesmo falar do Plano Real e que o Brasil não começou com Lula, apesar de todos os méritos de seu exitoso governo que foi coroado com a eleição da sucessora Dilma.

De qualquer maneira, o Brasil está conquistando seu lugar ao sol apostando no soft power (cultura, relacionamento) e não no hard power (poder bélico, guerra, economia). É um jeito de ganhar espaço no mundo. Mais ou  menos como aquele cara na escola que por não poder ganhar na força,  vai levando na simpatia e no bom-papo. Somos nós. “É nóis!”. Veja o vídeo:

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Só PIB maior não é receita de sucesso

Atenção, pessoal de Davos, só um PIBão não basta

Em um momento em que todo mundo comemora em Davos que a “a recuperação pegou” e que há muito dinheiro em caixa para a retomada, a minha questão é a mesma de sempre: dinheiro é fundamental para gerar valor. Mas qual o tipo de valor que queremos gerar?

Por isso, veio em hora superoportuna o artigo de André Lara Resende, publicado no Valor Econômico na sexta-feira passada. O ponto principal é que somente o crescimento, a geração de renda, não é suficiente para aumentar a qualidade de vida. Não é uma equação óbvia ou fácil, mas fica claro que a redução da desigualdade é o grande ponto a ser atacado.

Hoje mesmo li no jornal que o Brasil tem fundos de investimento em vinho e arte. Muito bem. Mostra pujança econômica e que há cada vez mais espaço para cuidar e investir no prazer – o que só acontece depois de cumpridas as necessidades básicas. Enquanto isso, no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, o Brasil ocupa a 73a posição entre 169 países (leia aqui).

Pior: o Brasil tem o terceiro pior índice de desigualdade do mundo, de acordo com o Gini, índice criado para medir distribuição de renda (leia aqui).

O modelo mental econômico que faz a economia girar passa ao largo das questões que são importantes para o planeta. Só que uma coisa não está separada da outra, como muito bem lembrou o Hugo Penteado, no TEDx Amazônia.

Vale a pena ler o texto abaixo para entender como as coisas funcionam ou não para continuar achando que o PIB maior é a salvação da lavoura.

Desigualdade e bem-estar — Portal ClippingMP.

Por André Lara Resende, economista

1 – O crescimento sempre foi o objetivo da política econômica. A teoria associa o crescimento ao aumento da renda e ao aumento do bem-estar. Até muito recentemente, utilizar o crescimento como o objetivo primordial de uma economia bem administrada não merecia maiores explicações. O aumento da renda nacional estava de tal forma associado a uma vida melhor que não era preciso introduzir indicadores de bem-estar entre os objetivos da política econômica. Se a economia crescesse e a renda aumentasse, todos os demais indicadores de bem-estar acompanhariam. Tão alta era a correlação entre o crescimento e o aumento de bem-estar que não se perdia grande coisa ao simplificar a análise e definir o crescimento como o objetivo da política econômica. Como crescimento econômico é um conceito simples e as estatísticas da renda nacional estão disponíveis, é uma grande vantagem, tanto teórica como empírica, utilizar o crescimento como a variável-objetivo da teoria e da política econômica.

Diante da evidência de que o estrago da atividade econômica sobre o planeta se aproxima do limite do tolerável, a identificação do crescimento econômico com o aumento do bem-estar tornou-se obrigatoriamente questionável.

Transformar a preservação ambiental num objetivo em si, como tão frequentemente se vê entre grupos mais aguerridos de críticos do crescimento econômico, não é uma resposta aceitável. O desafio de continuar a elevar a qualidade de vida, o bem-estar, de uma forma sustentável – palavra que se tornou um horrível lugar comum – continua tão relevante como sempre foi. Assim como a imposição de sacrificar a contínua melhora da qualidade de vida em nome dos limites ecológicos parece irrealista, mais irrealista ainda, absurdo mesmo, é imaginar que a mera incorporação do neologismo “sustentável”, aposto a crescimento, a consumo ou ao que quer que seja, nos permitirá seguir o curso do aumento dos níveis de consumo observados no século passado. Se estivermos necessariamente obrigados a crescer e a enriquecer, para continuar a melhorar a qualidade de vida, estaremos diante de um impasse, pois é evidente que não será mais possível crescer, enriquecer e, sobretudo consumir, nos padrões de hoje, por mais muito tempo, sem esbarrar nos limites físicos do meio ambiente. Será preciso encontrar uma outra forma de prosseguir com a melhora progressiva da qualidade de vida, que não dependa do crescimento econômico ou, sobretudo, do aumento do consumo.

Mas é possível melhorar a qualidade de vida sem aumentar os níveis de consumo? É possível melhorar a qualidade de vida sem crescer? A resposta não é simples nem evidente. Há, entretanto, indícios de que, a partir de um determinado nível de renda, a correlação entre crescimento e bem-estar se enfraquece. Até um determinado nível de renda, a melhora da qualidade de vida é indissociável do crescimento econômico. Não há como melhorar a qualidade de vida de comunidades excessivamente pobres sem aumentar a sua renda, mas, a partir de um patamar mínimo, capaz de assegurar as necessidades básicas, o aumento da renda não está necessariamente associado à melhora da qualidade de vida. Mais renda nem sempre significa mais bem-estar. O debate no plano individual – riqueza garante ou não garante felicidade? – pode não estar resolvido, mas, no plano social, parece que sim: a partir de certo nível, riqueza não garante qualidade de vida.

Ainda que se dê o devido desconto ao saudosismo, à natural tendência de romancear o passado, não há como negar, por exemplo, o efeito deletério sobre a qualidade de vida do crescimento econômico, com o seu impacto sobre o trânsito, em particular, nas grandes cidades. Pode-se sempre argumentar que o problema não é o crescimento propriamente dito, mas o automóvel, as grandes aglomerações urbanas, o estilo de vida, mais do que o enriquecimento diretamente, que podem reduzir a qualidade de vida. Correto, mas crescimento e enriquecimento são hoje indissociáveis do estilo consumista que, a partir de certo ponto, contribui para a redução do bem-estar.

2 Dois médicos infectologistas ingleses, Richard Wilkinson e Kate Pickett, em livro publicado em 2010, “The Spirit Level”, organizam as evidências e chegam a conclusões que, se não totalmente contraintuitivas, surpreendem pela amplitude: a partir de um nível de renda, a redução das desigualdades contribui mais para o bem-estar do que o crescimento. No limite, a desigualdade é evidentemente detratora do bem-estar, até mesmo dos mais afortunados, como demonstram o aumento da criminalidade, a necessidade de se viver confinado em condomínios fortificados e se locomover em carros blindados, cercado de seguranças privados. Mas não é óbvio que a redução da desigualdade, mesmo longe dos extremos, contribua para o aumento do bem-estar. É, entretanto, o que afirmam de forma peremptória Wilkinson e Pickett.

Seu trabalho é fruto de anos de estudos dedicados inicialmente a entender as diferenças de saúde, medidas por expectativa de vida, entre grupos de diferentes estratos nas sociedades modernas. O foco inicial era compreender por que a saúde piora a cada degrau inferior na escala social. Como infectologistas, utilizaram a metodologia dos que trabalham com os determinantes sociais da saúde para explicar por que alguns grupos são mais propensos a certas doenças do que outros, ou por que certas doenças se tornam mais frequentes em determinados grupos. Perceberam que poderiam generalizar o método, para compreender não apenas questões ligadas à saúde física, mas também à saúde emocional e a outros determinantes da qualidade de vida, do bem-estar ou da felicidade.

Ora, melhorar a qualidade de vida, ou aumentar o bem-estar, é o objetivo da atividade econômica. Por se tratar de uma variável com um grande coeficiente de subjetividade, sua mensuração exige a coleta de dados sobre múltiplas dimensões da vida de uma população. Até algumas décadas atrás, isso não era factível e, portanto, os dados não estavam disponíveis. A utilização do crescimento econômico como o objetivo primordial da atividade econômica, como uma “proxy” para o bem-estar, além de não sofrer séria contestação teórica, era uma imposição da prática. Não mais. Os avanços da tecnologia e os esforços de pesquisa social das últimas décadas criaram um formidável banco de dados acessível a todos.

3 A primeira constatação é que o crescimento econômico, por tanto tempo o motor do progresso e da melhora de vida, já não o é mais. A expectativa de vida aumenta com a renda per capita nos países pobres, mas, a partir de um determinado nível – acima do qual já estão todos os países latino-americanos, por exemplo – já não há mais aumento da expectativa de vida com o aumento da renda. Não por que a expectativa de vida tenha atingido o limite fisiológico, pois continua a elevar-se para todos com o passar do tempo e a melhora tecnológica. Apenas, deixa de haver correlação observável entre os dois indicadores.

Saúde e longevidade são excelentes indicadores de bem-estar, mas não esgotam, evidentemente, os componentes determinantes da qualidade de vida e da felicidade. Estudos recentes, que procuram correlacionar felicidade com o nível de renda, chegam a resultados semelhantes aos encontrados para a expectativa de vida: a felicidade aumenta com a renda, mas só até um determinado nível, a partir do qual, assim como para a expectativa de vida, o aumento da renda não tem mais efeito. A expectativa de vida deixa de estar associada ao aumento da renda antes que da percepção de ser feliz, mas os dois indicadores de qualidade de vida se tornam igualmente insensíveis ao aumento da renda a partir de certo ponto.

A evidência de que o aumento da renda torna-se incapaz de melhorar a qualidade de vida pode ser constatada, tanto num determinado momento no tempo, entre países de diferentes níveis de renda, quanto para um mesmo país ao longo do tempo. O que não chega a ser totalmente surpreendente, pois, à medida que se tem mais gratificação adicional, ou marginal, como gostam de dizer os economistas, o benefício torna-se decrescente. A contribuição marginal da renda de uma sociedade para o bem-estar e a felicidade de sua população torna-se praticamente insignificante a partir do ponto em que as necessidades básicas estão satisfeitas. Países pobres se beneficiam extraordinariamente com o crescimento econômico e com o aumento da renda, mas, a partir de certo ponto, o aumento da renda tem resultados decrescentes, que se tornam muito rapidamente nulos, em relação à melhoria da qualidade de vida.

4O que, então, explicaria o aumento da qualidade de vida a partir do patamar mínimo de renda que a grande maioria dos países já atingiu? Qual o mais importante fator para a melhoria do bem-estar nos países que já saíram da pobreza absoluta? Segundo “The Spirit Level”, a resposta é uma só: a redução das desigualdades. A melhor distribuição de renda é o mais importante fator determinante da melhora da qualidade de vida, do bem-estar, da felicidade, de um país.

Sempre se soube que redução das desigualdades é desejável. Não a qualquer custo, nem necessariamente através da intervenção desastrada do Estado, protestarão sempre os que acreditam que a igualdade de oportunidades é mais importante do que a igualdade de resultados, que defendem que não se deve sacrificar o sistema de estímulos da meritocracia em nome do ideal igualitário. De toda forma, uma melhor distribuição de renda, embora o tema tenha saído de moda na discussão teórica, sempre esteve entre os objetivos da boa política econômica. A incontestável vitória do capitalismo de mercado como sistema produtor de riqueza explica, em grande parte, a perda de importância do tema da distribuição de renda, apesar de nos países centrais, especialmente nos Estados Unidos, ter havido uma significativa deterioração da distribuição de renda, nas três últimas décadas.

Nos países em desenvolvimento, como no caso do Brasil, onde a desigualdade sempre foi e ainda é extraordinariamente alta, a ênfase no esforço de redução das desigualdades deslocou-se para a elevação do poder aquisitivo das camadas mais pobres da população. O capitalismo competitivo tornou-se indissociável, ao menos na imaginação pública, de um sistema que exige grandes vitoriosos. Incensados pela mídia, os novos ricos, milionários, bilionários, são promovidos a ícones da prosperidade recém-descoberta, modelos das novas possibilidades, em tese, acessíveis a todos os de espírito empreendedor.

O fato é que, justificada ou injustificadamente, a equanimidade tornou-se percebida como incompatível com o sistema de mercado competitivo. A pujança geradora de riquezas do capitalismo não apenas exigiria a tolerância com a existência de extraordinariamente ricos, como deles dependeria como elemento indispensável de seu sistema de incentivos. Desde que os muito pobres deixassem de ser muito pobres, tivessem acesso a um nível de vida minimamente condizente com as necessidades essenciais de nosso tempo, a existência de uma péssima distribuição de renda não deveria ser motivo de preocupação. Ao contrário, se as oportunidades fossem igualmente acessíveis, a existência de remediados, ricos, muito ricos e riquíssimos apenas refletiria o sistema de incentivos e premiação indispensável para o bom funcionamento do capitalismo competitivo.

Deixemos de lado, por um momento, a suposição de que o sistema de mercado competitivo exige má distribuição de renda. O fato é que uma sociedade iníqua, em que a distribuição de renda é excessivamente desigual, independentemente do seu nível de renda, é uma sociedade em que o nível de bem-estar é inferior ao de uma sociedade mais equânime, em que a renda é mais bem distribuída.

Nada de novo, exclamarão alguns. Uma sociedade em que há menos pobres é uma sociedade mais feliz. Sim, mas atenção: não por que os pobres são menos pobres e, portanto mais felizes. Estaríamos de volta à correlação entre riqueza e bem-estar. O ponto crucial do argumento é que, independentemente do nível de renda, a pobreza relativa contribui para a perda de bem-estar. Infelicidade está associada a renda, mas também à renda relativa.

5 A evidência dos estudos feitos nas últimas décadas, em universidades e institutos de pesquisa por toda parte no mundo, sugere que todos os possíveis indicadores de bem-estar, sejam relativos tanto à saúde, física e mental, quanto a questões sociais, como delinquência juvenil, gravidez adolescente, desempenho escolar, criminalidade, entre muitos outros, estão invariavelmente correlacionados com o nível de desigualdade social.

Willkinson e Pickett utilizaram dados para cinquenta países ricos da OCDE e também para os cinquenta estados americanos. A desigualdade da renda está associada à piora de todos os indicadores de bem-estar. Maior desigualdade está correlacionada com menor expectativa de vida, maior incidência de doenças físicas e mentais, maior taxa de homicídios, maiores índices de delinquência juvenil, de gravidez adolescente, maior percentual da população encarcerada, maiores índices de “stress” e obesidade, maior índice de crianças que abandonam a escola, piores índices de aprendizado escolar. A lista é impressionante, mas não são apenas os indicadores objetivos e quantificáveis de bem-estar que estão negativamente correlacionados com a desigualdade. Também aqueles com maior dose de subjetividade, como a sensação de felicidade ou o grau de confiança nos outros, medidos através de questionários, em que diferenças culturais, até mesmo sobre o dever de se declarar feliz, por exemplo, poderiam mascarar os resultados, são fortemente correlacionados com a desigualdade.

Todos esses indicadores, como era de se esperar, são invariavelmente piores para os estratos mais pobres da sociedade. Esta é uma das razões que nos levam a inferir que o aumento da renda levaria a uma melhora do bem-estar em todas as camadas da população. Mas não é o que ocorre. Os indicadores de bem-estar continuam muito piores para os mais pobres, independentemente do nível médio de renda da sociedade, porque não é a baixa renda absoluta, mas sim a baixa renda relativa, que reduz a saúde e o bem-estar. Não é o fato de ser pobre que faz alguém infeliz, mas o fato de ser mais pobre do que seus pares.

Há algo profundamente corrosivo na desigualdade. O crescimento econômico, nas sociedades em que existe grande desigualdade, não aumenta o bem-estar. Ao contrário, substitui as doenças e as dificuldades da pobreza absoluta pelas doenças e as infelicidades da afluência. Nas sociedades desiguais, o crescimento transfere para os pobres as doenças anteriormente associadas ao ricos, que se tornam muito mais frequentes nos pobres do que nos ricos.

Os indicadores de bem-estar permanecem sempre piores para os pobres do que para os ricos, em qualquer nível de renda, mas o ponto fundamental é que maior desigualdade piora tanto a qualidade de vida dos pobres como a dos ricos, qualquer que seja o nível médio de renda de uma sociedade, depois de ultrapassado o patamar mínimo capaz de garantir as necessidades biológicas básicas para todos. Wilkinson e Pickett sustentam que não são apenas os pobres, que, por serem menos pobres, numa sociedade mais igualitária, são mais felizes. Também os ricos são mais felizes numa sociedade mais equânime.

6 – A conclusão é tão surpreendente quanto polêmica. Comprende-se a repercussão de “The Spirit Level”, sobretudo na Inglaterra, onde o livro foi originalmente publicado e onde a desigualdade aumentou significativamente nas últimas três décadas. Uma coisa é defender a redução das desigualdades em nome de um ideal de justiça social ou de empatia pelos menos favorecidos. Outra é defender a redução das desigualdades com base na evidência empírica de que a desigualdade reduz o bem-estar, não apenas dos mais pobres, mas de todos, os ricos inclusive.

A econometria de Wilkinson e Pickett é relativamente primária. As corrrelações estão lá, mas não são devidamente trabalhadas para testar quão robustas são suas conclusões. Os críticos não perdoaram. Um trabalho de 2010, publicado pelo instituto inglês Policy Exchange, faz uma dura e bem formulada crítica das conclusões de “The Spirit Level”. O ponto central da crítica é que a maioria das conclusões, no caso da análise internacional, depende de alguns casos extremos. No caso da análise dos estados americanos, argumenta-se que há uma variável excluída – o percentual de negros na população – que explicaria bem melhor os resultados. As correlações entre bem-estar e igualdade seriam, portanto, frágeis. Infelizmente, por mais que a base de dados tenha crescido e melhorado, em relação à grande maioria dos temas sócio-econômicos, não há como pretender declarar vitória incontestável, com base exclusivamente na evidência empírica. As grandes questões, ainda que iluminadas pela evidência empírica, a qual não se pode desrespeitar, exigirão sempre algum julgamento de valor. Negar o elemento valorativo das questões econômicas, políticas e sociais, pretender que seriam passíveis de tratamento científico, à semelhança das ciências naturais, é um equívoco quase tão sério como pretender desconsiderar integralmente a evidência empírica.

Policy Exchange é uma instituição que se define como um centro de reflexão que tem como “missão desenvolver e promover novas ideias de políticas, com o objetivo de promover uma sociedade livre, baseada em comunidades fortes, liberdade individual, governo limitado, autoconfiança nacional e uma cultura empresarial.” Não surpreende que não tenham gostado do livro de Wilkinson e Pickett, e o título do trabalho, “Beware of False Prophets”, não deixa dúvidas sobre as intenções dos autores. Depois das experiências comunistas de inspiração marxista do século XX, há uma justificada desconfiança, a priori, dos que defendem os princípios liberais clássicos, em relação a toda proposta de corte igualitário. A defesa da igualdade está quase sempre associada à maior intervenção do governo para implementá-la. As implicações negativas sobre as liberdades individuais são as tradicionalmente associadas aos Estados fortes com ideias redentoras. A experiência do século XX, à esquerda e à direita, com o comunismo, o fascismo e o nazismo desmoralizou as propostas idealistas totalizantes. Para o liberalismo contemporâneo, a única igualdade desejável é a de oportunidades. Garantir a igualdade de oportunidades não é questão trivial, assim como, com certeza, também não exclui a intervenção do Estado.

A maior igualdade dos padrões de consumo parece ser desejável para o bem-estar de todos. Mais importante do que isso, entretanto, é compreender que é essencial para compatibilizar os atuais níveis da população mundial com os limites físicos e ecológicos do planeta. É possível transitar para uma sociedade de padrões de consumo menos extravagantes e mais igualitários, sem comprometer o dinamismo das economias de mercado e as liberdades individuais? Creio que sim. Este é o desafio de nosso tempo.

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Os economistas estão errados

Os economistas estão errados (foto: Bruno Fernandes)

Entrou no ar a palestra do Hugo Penteado no TEDx Amazônia.

Recomendo por vários motivos.

Recomendo porque Hugo é um economista que fala contra as ideias clássicas dos economistas. Ele reforça a tese de que a economia não considera o estoque nos cálculos e, portanto, não leva em conta que os recursos são finitos. O que explica muita coisa dos problemas que temos por aí.

Recomendo porque Hugo tem um didatismo impressionante para explicar algo que não é fácil de ser explicado.

Recomendo porque ele fala com paixão sobre o tema.

Recomendo porque ele está dentro do sistema, tentando mudar o sistema. Não há como ser mais eficiente do que isso.

Veja a palestra dele e se quiser ler mais sobre este assunto, há outro post aqui no blog que fala sobre isso. Também há mais sobre a sessão dele no TEDx Amazônia aqui neste post.

 

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O outro lado da moeda

Gosto de temas contraintuitivos. Gente que vai na direção contrária para nos trazer uma nova visão de mundo. Em geral, vão contra o que todos estão falando. Ou derrubam mitos com dados. Embasam bem suas teses para causar polêmica, das boas. Livros como o Freakonomics fazem isso à perfeição. Malcolm Gladwell tem feito isso também em livros como “Fora de série”, que questiona mitos sobre como o sucesso está construído.

Por isso, vale destacar esta coluna abaixo, publicada ontem por Carlos Alberto Sardenberg, derrubando ideias preconcebidas sobre crédito. A tese de Sardenberg é que todos estão reclamando que as pessoas não sabem pegar crédito que são coitadas, que os juros são altos e que não sabem se programar e por isso se dão mal no final das contas.

O filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca escreveu um livro incrível sobre isso, “O Valor do Amanhã”. Fala sobre o dilema entre poupar hoje para viver amanhã ou viver hoje sem poupar para amanhã (formiga vs cigarras e os dilemas das escolhas). Fala também em juros, felicidade e trocas intertemporais. Em resumo, se você quiser mesmo algo (TV, carro, moto, viagem) hoje, vai pagar mais caro por isso e que esta propensão a escolher o ‘agora’ estaria na gênese do povo brasileiro. Vale a pena ler o livro de Giannetti para conhecer a tese e concordar (ou não) com os argumentos.

O fato é: nem tudo é preto no branco ou tão ruim quanto parece. Viva às pessoas que ajudam a trazer luz para debates complicados, como este do crédito. É claro que existe uma carência em educação financeira em larga escala no Brasil e este é o próximo passo no avanço do país, trabalhar melhor este tema. Mas esse é um dever da sociedade como um todo: universidade, órgãos reguladores, empresas, além de Bancos. Tem a ver com o bem estar e o desenvolvimento seguro e saudável da sociedade. Afinal, não queremos criar uma bolha de crédito como a do mercado imobiliário americano.

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“A gente somos inútil”

Carlos Alberto Sardenberg

A estabilização da economia permitiu, entre outras coisas, a volta do crédito. O volume do crédito concedido às famílias disparou, os prazos foram dilatados e cresceu o número de pessoas qualificadas para tomar dinheiro emprestado. Na outra ponta, juros caíram (em relação ao Brasil do passado) e o valor unitário das prestações ficou mais barato, cabendo em mais orçamentos domésticos.

As classes populares, com os novos nomes de classes C e D, entraram alegremente no mundo do crédito, da antecipação do consumo. Começa a voltar até o crédito para a casa própria, de 20 anos.

Para uma sociedade que se desacostumara do crédito, esta deveria ser uma ótima notícia, certo?

Depende. No Judiciário, nas entidades de defesa do consumidor,nas ONGs ambientalistas, em órgãos do governo, o que mais se ouve é que o consumidor está sendo ou pode ser iludido.

No Judiciário e nos Procons, é amplo o entendimento tácito de que o consumidor é “hipo-suficiente”, ou seja, presa fácil dos bancos que só querem empurrar crédito mesmo para quem não pode ou não precisa.

Nas entidades ambientalistas, dissemina-se a idéia de que esse novo agente econômico, o trabalhador com acesso ao crédito, cai facilmente na ilusão do consumo perdulário. Em vez de comprar o que “realmente precisa”, ele é levado pela propaganda e compra carro, moto, tevê de plasma, celulares. Em vez de poupar para comprar mais barato lá na frente, endivida-se hoje, antecipa consumo e acaba pagando duas tevês para adquirir uma.

Em agências do governo Lula, espalha-se a idéia de que o consumidor é vítima fácil da sanha do grande capital, representado pelo banco que empurra o financiamento extorsivo; pelas companhias farmacêuticas e redes de farmácia que empurram remédios desnecessários; pelas multinacionais de alimentos que fazem lavagem cerebral para as pessoas comerem porcarias; pelas empresas de seguro e planos de saúde, que enganam os doentes. E assim vai.

Exagero?

Talvez, mas tenho ouvido essas teses em seminários e debates. Aparecem todo dia na imprensa. E nos atos. Juízes, por exemplo, não hesitam em dar razão a um devedor, perdoando a dívida ou parte dela, mesmo que o contrato com o banco seja absolutamente correto.

Argumentam juízes que é preciso levar em conta a “finalidade social” do crédito e a atitude “abusiva” de bancos, que levariam a pessoa a tomar dinheiro emprestado mesmo quando não pudesse ou precisasse. Por isso, o Estado precisaria “tomar conta do consumidor”.

Repararam? Estão nos dizendo que as pessoas não sabem tomar conta de si, precisam de um tutor, um paizão.

Ora, de onde tiraram que o juiz, o membro do governo, o Procon e as ONGs sabem melhor o que o cidadão precisa ou não? Dizem que as pessoas só devem tomar crédito para comprar algo necessário.

Ora, como esses auto-designados tutores sabem o que é necessário para esta ou aquela família? Renato Meirelles, talentoso cientista social que toca o DataPopular, fez melhor. Foi perguntar às pessoas.

Ouviu, por exemplo, que a compra de uma tevê grande de tela plana, LCD e tudo o mais, é absolutamente necessária porque mantém a família reunida em casa às noites e nos fins de semana. As pessoas sentem orgulho de tê-la e, mais ainda, o supremo orgulho de ter nome limpo e crédito no banco para poder comprá-la.

Um jovem comprar uma moto em 36 vezes, para se arriscar no trânsito das grandes cidades?

Pois é uma decisão inteiramente racional. A alternativa: no mínimo quatro horas, em condução ruim, nos trajetos de casa para o trabalho, deste para a faculdade e daí de volta para casa. O custo das passagens quase empata com a prestação. E com a moto ainda dá tempo de passar na casa da namorada ou de levá-la para o serviço.

Idem para o carro. Por que as famílias compram o automóvel, no carnê, assim que podem? Para se livrarem do transporte público. Comparando, é racional entrar no crediário de 60 meses.

Computador vai para a sala, para o principal lugar da sala. E quem disse que a menina de 15 anos não precisa de um celular?

E é evidente que a família faria economia se poupasse e depois comprasse tudo à vista. Mas, gente, isso é uma bobagem sem tamanho. De onde tiraram que dá para esperar?

Imaginem: para esta Copa não vai dar, mas na Copa do Brasil estaremos de tevê; um ano depois, compramos o computador; mais uns seis anos e compramos os celulares para a família.

Ora, é a base do sistema, antecipar consumo via crédito. Para isso inventaram o sistema financeiro séculos atrás, para passar dinheiro de quem tem poupança para quem necessita para consumo ou investimento (uma moto comprada para trabalhar, por exemplo). É isso que permite atender às necessidades das pessoas – que elas mesmas definem.

Há um claro viés elitista nessa condenação do consumo a crédito das classes populares. Os ricos podem consumir à vontade porque têm o dinheiro. E os pobres? Que esperem até ter?

É preciso admitir que os juízes e os Procons são influenciados pelo que vêem. Afinal, só vão parar lá os casos que encrencaram. Os bancos abusam mesmo, me dizia recentemente um juiz, ao relatar casos de pessoas que haviam se endividado excessivamente.

Mas esse mesmo juiz ficou ao menos intrigado quando olhou os números gerais: o crédito dobrou no Brasil nos últimos seis anos e a inadimplência caiu. É isso mesmo. Há mais pessoas penduradas nos carnês e a pontualidade nos pagamentos é hoje maior.

Ou seja, o sistema está funcionando. As pessoas sabem fazer conta, sabem cuidar de seu dinheiro, sabem comprar. Tanto que estão fazendo isso, sem problemas maiores.

Quanto aos bancos, é claro que querem emprestar dinheiro. Mas querem muito mais receber seu dinheiro de volta. Por isso, depois da estabilização, todos aperfeiçoaram seus sistemas de avaliação de risco.

Assim como as seguradoras querem vender planos de saúde. Mas também precisam que o cliente pague em dia e seja bem tratado. Segurado morto não paga.

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O tamanho do buraco dos impostos no Brasil

Quem tem carteira assinada fica indignado em pagar 27,5% de imposto todo mês.

Quem tem empresa, fica igualmente indignado. São impostos e mais impostos em cascata.

E vejam só. Para quem acha que esses impostos não voltam em serviços adequados, uma certeza a mais com o estudo que acaba de ser publicado. O Brasil ficou em último lugar, longe do pobre Camarões, em segundo lugar.

Como diria meu filho pequeno: “Fala sério!” Está faltando eficiência – e emuita – em nosso governo.

Eliane Cantanhêde, na Folha de S. Paulo

ESTOCOLMO – Ok, o Brasil está na moda, mas isso tem custo: implica ficar sob holofotes. Os defeitos já conhecidos ficam mais evidentes, e os novos saltam aos olhos.
O principal deles, sob o olhar dos governos e companhias internacionais, é o “custo Brasil”, agora exposto à execração pública por um relatório do Banco Mundial intitulado “Paying Taxes 2010” -uma foto global sobre o pagamento de taxas mundo afora neste ano.

Está rolando de mão em mão entre as 30 empresas suecas que mandarão representantes a Brasília e a São Paulo no dia 23 e estará na mesa de discussões de associações empresariais europeias com o governo Lula e suas correspondentes brasileiras, em abril, no Brasil.

O Banco Mundial pesquisou 183 países, e o Brasil ficou em último lugar -último lugar! É o que mais cobra taxas trabalhistas e em geral.
Ou seja, é o que mais onera as empresas que produzem e investem. O estudo usou uma complexa metodologia para concluir que as empresas pagam o correspondente a 2.600 horas por ano em taxas variadas no Brasil. O segundo pior país do ranking é o pequeno e pobre Camarões -1.400 horas/ano.

E isso não inclui, pelo menos explicitamente, a percentagem extra para acomodar contabilidades públicas heterodoxas. Ou, para não levar um puxão de orelha da Madame Natasha, do Elio Gaspari: sem contar a “cota corrupção”.

Para os suecos, um dos fatores que atravancam o progresso e a entrada ou ampliação de investimentos estrangeiros é o excesso de burocracia e a longa cadeia (no bom sentido) de agentes públicos envolvidos no processo: do ministério tal e qual, da secretaria essa e aquela, do governo estadual, da prefeitura…

O Brasil precisa, enfim, adaptar sua legislação, suas regras e seus procedimentos ao mundo global do qual faz parte. Não é para melhorar a vida dos gringos, mas, sim, sofisticar os investimentos e a imagem internacional do próprio Brasil.

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O fim da era do crescimento?

Recebi uma entrevista interessante enviada pelo José Eli da Veiga, economista da USP, sobre a questão de crescimento vs desenvolvimento e os padrões de desenvolvimento que queremos.

Ontem estava discutindo com colegas que os modelos economistas prevêem os recursos como algo infinitos. Obviamente é uma conta que não fecha, já que sabemos que os recursos naturais são finitos.

Aos poucos, os economistas começam a perceber isso e a discutir mais o tema. Mais importante do que isso é o crescente número de pessoas falando sobre isso e manifestando sua opinião.

E quando vemos uma revista como a Veja, que fala para mais de 1 milhão de pessoas todo o mês, dar capas seguidas sobre sustentabilidade, acede-se a esperança de uma mudança rápida.

Ainda há pessoas falando que as mudanças climáticas são um fenômeno natural, que não foram ocasionados pelo homem. Mesmo que estudos como o do IPCC, o painel internacional de mudanças climáticas, com cientistas do mundo inteiro, tenham afirmado que o homem é responsável, sim, pelo aumento da temperatura do planeta com 96% de certeza.

É uma desconexão com a realidade que às vezes acho que essas pessoas fariam um bom diálogo com o Hugo Chávez, que teve a empáfia de dizer que o terremoto no Haiti foi culpa de um teste nuclear americano.

Ou mesmo teriam bons momentos de reflexão atravessando a cidade de São Paulo em um dia como 3a feira (26/01), às 16h, em meio a um temporal épico e de grandes vias alagadas. Ou mesmo em um passeio turístico em Machu Picchu.

Quem sabe uma boa dose de realidade ajudasse a entender os estragos do modelo de desenvolvimento que escolhemos no dia-a-dia do planeta.

Segue o artigo:

Tim Jackson e sua fúria ambiental

Stephen Leahy*

*A fúria às vezes é a resposta adequada*, afirma Tim Jackson, referindo-se à falta de compromisso dos líderes mundiais que não conseguiram articular um novo tratado climático na cúpula de Copenhague. Jackson entende que o Acordo de Copenhague, resultante da 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP15), revelou não apenas que a governabilidade ambiental global é uma ficção como também demonstrou um apego cego ao mantra do crescimento econômico.

Professor de Desenvolvimento Sustentável e diretor do Grupo de Pesquisas sobre Estilos de Vida, Valores e Meio Ambiente na britânica Universidade de Surrey, também é encarregado da direção econômica da Comissão de Desenvolvimento Sustentável da Grã-Bretanha. E é assessor do governo nessa área. Além disso, é dramaturgo e produziu numerosos roteiros de rádio para a rede BBC, com sede em Londres.

O Terramérica entrevistou Jackson por telefone sobre seu novo e controvertido livro, *Prospertiy without Growth – conomics for a Finite Planet* (Prosperidade sem Crescimento: Economia para um Planeta Finito), assunto sobre o qual já havia dado uma entrevista na capital dinamarquesa. Também abordou o Acordo de Copenhague e as perspectivas de um tratado climático real.

TERRAMÉRICA: Em seu livro, você afirma que o crescimento econômico nos países industrializados está deixando as pessoas menos felizes e destruindo a terra.

TIM JACKSON: A contínua busca pelo crescimento coloca em risco os ecossistemas dos quais dependemos para uma sobrevivência de longo prazo. Também há ampla evidência de que uma riqueza material maior nos países industrializados não faz seus habitantes felizes, muito pelo contrário. Além de determinado nível de renda, não existe uma correlação de que isso seja diretamente proporcional à felicidade.

TERRAMÉRICA: Se a era do crescimento terminou, o que ocupará seu lugar?

TJ: É necessário redefinir a riqueza e a prosperidade com base nos parâmetros de *capacidade de florescimento* de Amartya SEN (ganhador do Nobel de Economia em 1998). O florescimento se define como ter o suficiente para comer, ser parte de uma comunidade, ter um emprego que valha a pena, uma moradia decente, acesso a educação e serviços médicos.

TERRAMÉRICA: E o que acontece com os países em desenvolvimento?

TJ: As nações industrializadas precisam dar essa virada para criar um espaço que permita ao mundo em desenvolvimento melhorar o desempenho de sua economia. Este crescimento tem de ser sustentável e estar dentro dos limites ecológicos. A atual desigualdade entre nações ricas e pobres é uma razão primordial para que o mundo industrializado necessite fazer esta correção de rumo.

TERRAMÉRICA: Por que o desagrada tanto a COP-15 ter acabado em um acordo de dez páginas em lugar de um tratado internacional vinculante?

TJ: É um documento cheio de ar quente e promessas vazias, cozinhado pelas duas grandes superpotências mundiais. Realmente, isso é o melhor que temos para mostrar após 17 anos de negociações? É uma política climática dos canhões. O tratado climático não foi o único fracasso em Copenhague. A governabilidade mundial foi ao fundo do poço.

TERRAMÉRICA: Quais temas essenciais não fizeram parte das negociações da COP-15?

TJ: O debate sobre o crescimento não figurou. Tanto esta questão como uma distribuição justa do espaço ecológico têm de estar na mesa. De outro modo, as negociações não saem do lugar.

TERRAMÉRICA: O que pensa dos atuais esforços para reduzir as emissões de carbono usando mecanismos como a limitação de emissões contaminantes e o comércio de créditos?

TJ: Não é possível conseguir uma economia baixa em carbono sem uma mudança importante na própria economia. Pequenos ajustes não funcionarão. As corporações veem o clima como a nova oportunidade de negócios. Os mecanismos de mercado agora são as ferramentas predominantes percebidas como uma mudança e que são boas para as empresas, mas são ruins para o público. Consideremos a bastante divulgada ideia de que o crescimento pode continuar desde que suas emissões de carbono (e outros impactos ambientais) diminuam em grande proporção. Em 2050, em um mundo de nove bilhões de habitantes, onde todos vão querer um estilo de vida ocidental, a intensidade do carbono de cada dólar de produção deverá ser, pelo menos, 130 vezes menor do que agora. Isso é simplesmente impossível.

TERRAMÉRICA: O que acontecerá até as negociações da COP-16, em dezembro, no México?

TJ: Penso que deve haver maior pressão internacional e um impulso emrelação a questões políticas fundamentais, como a regulação dos mercados financeiros, os sistemas de contas nacionais e a óbvia pressão para criar um fórum viável para a governabilidade climática, bem como a medição do progresso social (no estilo do informe da Comissão de Medida do Desempenho Econômico e do Progresso Social da França, encomendado em 2009 a Sem e ao também Nobel de Economia Joseph Stiglitz). É necessário que Estados Unidos e China participem dos debates mais amplos sobre crescimento e justiça. É interessante que neste momento haja, por exemplo, um pouco mais de humildade e abertura no Fórum Econômico Social, como não ocorreu até agora. Sinais de esperança? Possivelmente.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

(Envolverde/Terramérica)

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