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A onda verde veio para ficar

Crescimento do Partido Verde mostra que país amadureceu

E  a grande vitória nas eleições de 2010 no Brasil foi a de uma nova visão de mundo. Marina Silva começou tímida, nos 9% e encerrou a votação com 20% dos votos válidos. Dobrou de tamanho no período.

Marina trouxe com ela muita gente boa, com muitas ideias. Nem tão revolucionárias, simplesmente modernas, alinhadas com o espírito do tempo, sintonizadas com as mudanças que a sociedade deseja.

Lembro de no dia seguinte a ela ter anunciada sua candidatura, muitos jornalistas de grandes veículos tentando entender e explicar o que era sustentabilidade ambiental, social, às vezes confundindo todos os conceitos.

Marina venceu preconceitos sobre criacionismo, evangelismo e aborto. Nunca fugiu do debate e sempre mostrou que sua visão de mundo era maior do que todas estas questões somadas.

Há pouco, na TV, disse que não era ela que definiria sozinha para quem seus votos iriam. Lembrou que os votos são dos eleitores e que há muita gente envolvida para decidir. Não importa bem para quem vai. O fato é que o Partido Verde ganhou musculatura. Ganhou força para levar adiante uma visão de mundo mais integrada, interdependente, que mostra que o bagre da Amazônia interessa, sim, quando se vai construir uma hidrelétrica. Tá, é um exemplo bobo, mas serve para ilustrar o preconceito que se carrega contra quem foge da corrente e diz que há coisas mais importantes no mundo do que lucrar, conquistar e acumular poder.

A esperança que Marina acendeu não é pequena. E suas ideias ficarão vivas ainda nesta eleição. Não é questão de escolha. É fato, referendado por quase 20 milhões de eleitores. Não é pouco não. Dobrou de tamanho em algumas semanas.

E não vou falar do Tiririca. Prefiro falar que Collor, Netinho e Romeu Tuma ficaram de fora. Foi, portanto, grande também a vitória da democracia e o fato de termos o segundo turno nestas eleições.

Daqui para frente, só tende a melhorar. E o Brasil é cada vez mais o país do presente. Com inequidades continentais (vale ler o texto abaixo, de Clóvis Rossi, publicado na Folha de São Paulo de hoje), o que nos faz querer acompanhar de perto o debate do segundo turno.

Acho que a onda verde veio para ficar.

CLÓVIS ROSSI

Brasil vota, pobre mas feliz

SÃO PAULO – O Brasil que vai hoje às urnas é, na essência, do seguinte tamanho social: metade dos eleitores (67,5 milhões) ganham, no máximo, até dois salários mínimos.
Seria preciso torturar os fatos para dizer que pertencem à classe média, esse paraíso a que foram conduzidos 30 milhões de brasileiros segundo o ufanismo em voga.
Dos eleitores brasileiros, 13 milhões (10%, pouco mais ou menos) é pobre, pobre mesmo. Ganham menos de um salário mínimo. Figuram entre os 28 milhões excluídos do sistema público de aposentadoria e auxílios trabalhistas.
São, portanto, ninguém.
Também no capítulo educação, a pobreza é radical: 49% dos eleitores fizeram, no máximo, o curso fundamental.
Nesse país que tanto seduz a mídia estrangeira, mais de 60% de seus alunos não têm a capacidade adequada na área de ciências. No exame mais recente, o Brasil ficou em 52º lugar entre 57 países, no quesito ciência.
Alguma surpresa com o fato de que a sétima ou oitava potência econômica mundial é apenas a 75ª colocada quando se mede o seu desenvolvimento humano?
Não tenhamos medo das palavras: o Brasil que vai às urnas é um país pobre, obscenamente pobre para o seu volume de riquezas naturais, território e população.
É também obscenamente desigual, apesar da lenda de que a desigualdade se reduziu. É impossível reduzir a desigualdade em um país que dedica ao Bolsa Família (12,6 milhões de famílias) apenas R$ 13,1 bilhões e, para os portadores de títulos da dívida pública (o andar de cima) a fortuna de R$ 380 bilhões, ou 36% do Orçamento-2009.
Ainda assim, é um país mais feliz do que era há oito anos ou há 16 anos. Fácil de entender: “O pobre quer apenas um pouco de pão, enquanto o rico, muitas vezes, quando encosta na gente, quer um bilhão”, já ensinou mestre Lula.

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Qual o país que queremos construir?

Quem ainda não viu precisa conhecer o video abaixo. Ontem mesmo, recebi novamente de outra fonte. No e-mail, meu amigo Oswaldo Pepe contava que havia recebido via facebook de uma amiga dizendo que todo mundo precisava ver este video antes de votar amanhã. No ponto. (O vídeo não tem conotação política. Ele fala sobre como cada um pode fazer a diferença.)

Estas eleições foram mornas como nenhuma outra. Quase nada de adesivos nos carros ou bandeiras penduradas. Já houve um tempo em que o PT atraía militantes esperançosos, empolgados com as possibilidades de construir um país moderno, com base na ética e nos valores. Este tempo ficou para trás. A boa notícia é que a nova liderança já começou a emergir com Marina Silva. Ainda vamos conhecer melhor estas ideias de um novo jeito de olhar a sociedade, construindo um modelo de desenvolvimento mais inclusivo

Este video abaixo do Fábio Barbosa, gravado no TEDxSP resume a essência de quem acredita nestas ideias. Ele fala em reforma de valores, ética, respeito… valores que se perderam nas meias, cuecas, malas de petistas e governistas aloprados. Um banho de corrupção que apagou a esperança de muita gente que acreditava no PT. Ideais que cabem hoje numa bolsa-família, importantes para incluir uma boa parte da sociedade, mas insuficientes para construir um projeto consistente de país.

O Brasil é muito maior do que um prato de comida e uma busca inebriante e cega pelo poder. Ainda temos um longo caminho pela frente. E lideranças como a de Fábio Barbosa para ajudar a apontar caminhos.

Vale a pena olhar para se inspirar na votação de domingo.

Leia mais: O poder das empresas de mudar o mundo

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Crianças aprendem (muito) com crianças

TED Talk da semana – Sugata Mitra

O video abaixo não é novo, mas é muito poderoso e sempre vale ver de novo.

Fala sobre o que as crianças podem aprender com os adultos e suas atitudes. O filósofo americano Ralph Emerson tem um  frase lapidar sobre isso: “Suas atitudes falam tão alto, que não consigo ouvir o que você diz”. Mas ainda bem que os adultos não aprendem somente com as crianças… Por isso, vale conhecer o trabalho de Sugata Mitra, que mostra como as crianças ensinam a elas mesmas. Usando isso de forma consciente, é possível potencializar seu aprendizado.  O vídeo abaixo foi publicado em 2007. Em julho passado, Mitra fez outra palestra, em Oxford. Ainda não foi traduzido para o português.

Ainda na pegada “criançada”, este site de uma escola de enfermaria reuniu 25 TED Talks que todos pais deveriam assistir. Vale  conhecer o link.

Mais sobre crianças: conheça o projeto The great football giveaway – este projeto maravilhoso entrega bolas de futebol para crianças carentes africanas. Incrível a felicidade que uma coisa redonda, que pica e é macia é capaz de proporcionar. O futebol é e sempre será uma caixinha de surpresas.

Bolas de sabão gigante

Poesia pura, ainda mais por ser na praia. Quem não lembra de infância…

Diversidade animal

Existem algo como 30 a 50 milhões de espécies animais no planeta. Estamos acostumados a ver em nosso dia-a-dia apenas uma parte bem pequena deste total. Este link mostra espécies incrivelmente estranhas de bichos. É interessante para adultos, mas quem gosta mesmo de ver bichos como este abaixo é a criançada!

Apenas uma amostra dos animais incríveis das fotos do link

Eleições em dois turnos

Tem muita gente que fica em dúvidas sobre votar ou não em quem realmente gosta para não correr o risco de ver eleito no primeiro turno o candidato que não gostaria. Na verdade, não é bem isto que acontece. Para quem tem dúvidas, veja como funciona a eleição em dois turnos neste video abaixo. Ou seja, dá, sim, para votar na Marina no primeiro turno!

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Que venha a campanha 2.0

Começou a tal campanha 2.0. A equipe de José Serra saiu na frente com o lançamento do www.propostaserra.ning.com, falando na criação de um programa de governo colaborativo.

Inspirados na façanha incontestável de Barack Obama, nos EUA, em que conseguiu mobilizar o eleitorado via redes sociais para conquistar a presidência do país mais poderoso do mundo. (leia mais aqui), todos políticos tendem a seguir esta direção na campanha para eleição do próximo presidente do Brasil.

A campanha que ajudou a eleger Obama mudou o jeito de ver o potencial de mobilização das redes e também o quanto cada um pode fazer a diferença acionando suas redes. Desta vez com o potencial alavancador da internet. (A campanha criou também uma série de estrategistas da campanha de Obama vendendo palestras por aí, mas este é outro assunto.)

Vai ser interessante ver que, além das propostas de governo, será travada também uma guerra pelo melhor uso das redes sociais. Não que isso nunca tenha acontecido, afinal os marqueteiros sempre usaram a TV para “vender” as imagens dos candidatos. A diferença, desta vez, é que o veículo não será somente a televisão, veículo de mão única. Nas redes sociais, ambiente que proporciona o diálogo, a reverberação tende a ser maior, ainda que apenas uma parte da população tenha acesso à internet. (No Brasil são 67,5 milhões de usuários, ou cerca de 37%, segundo dados do Internet World Stats).

Exemplo disso foi a incrível campanha do CALA BOCA GALVAO e a recente escorregada de Marina Silva no Twitter.

Este ambiente, faz lembrar do glorioso Faustão e o seu bordão: “quem sabe faz ao vivo”. Em tempos de internet e HD, onde as imperfeições são mais difíceis de serem escondidas, quem ganha é o eleitor.

Que venha a campanha 2.0, pois.

Segue abaixo o material encaminhado pela campanha do PSDB.

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Proposta Serra: Um programa de governo colaborativo

Caro cidadão brasileiro,

É com prazer que nós, da equipe do Programa de Governo da campanha de José Serra à Presidência da República, convidamos você a participar da Proposta Serra, nossa rede colaborativa, um espaço na Internet que recebe propostas e sugestões para o futuro governo de José Serra e para o País.

Iniciativa pioneira em campanhas presidenciais, queremos elaborar um programa de governo discutido abertamente com a sociedade, recebendo e debatendo propostas de internautas de todo o Brasil.

As propostas dos internautas, formuladas em 40 áreas, estão sendo colocadas em debate na rede com os interlocutores da equipe do programa de governo. Participe desse processo.

Você pode se inscrever e participar em: www.propostaserra.ning.com

Contamos com vocês para fazer um debate sério e propositivo, para o bem do Brasil.

Atenciosamente,
Xico Graziano
Coordenador do Programa de Governo de José Serra

Proposta Serra. Escolha um tema. Faça uma Proposta. Entre na discussão.
www.propostaserra.ning.com

Endereço

PSDB – Partido da Social Democracia Brasileira
Av. L2 Sul, Quadra 607, Ed. Metrópolis, Cob. 02
Brasília, DF 70.200-670

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Marina Silva 2.0

Em agosto passado, fiz uma brincadeira aqui no blog, falando da “Obama Brasileira”. Foi uma alusão aos primeiros ensaios de candidatura da Marina Silva à presidência. De longe, na época, parecia que Marina ia tentar trilhar os passos de Obama, no sentido de promover o novo, resgatar a esperança na política e mobilizar as pessoas para uma visão diferente de País.

Nitidamente, Marina está querendo seguir estas pistas. No conteúdo, com as devidas diferenças de envergadura de país e background político, e também na forma.

Na semana passada, Marina Silva lançou seu twitter (www.twitter.com/silva_marina) e o blog Minhamarina.org.br. Achei interessante no texto que ela admite não ser nenhuma supermulher e que obviamente contará com ajuda para manter o diário atualizado.

No Twitter, uma matéria do Estadão dava conta que em apenas 14 dias, Marina chegou a 1 300 seguidores no Twitter. Comparava com José Serra, que já está há muito mais tempo e conta com mais de 160 mil seguidores. (Números atualizados:

O balança da campanha virtual de Barack Obama à presidência america, apresenta números de peso, conforme compilados no livro “Um voluntário na campanha de Obama”, de César Busatto, Editora Coletiva:

  • a lista de e-mails de Barack Obama é formada por mais de 13 milhões de endereços  – e mais 5 milhões de apoiadores se reuniram em diversas redes de relacionamento;
  • a assessoria do candidato enviou mais de sete mil diferentes mensagens ao longo da campanha;
  • o número de e-mails encaminhados superou a 1 bilhão;
  • o número de pessoas que se inscreveram para receber mensagens de texto por telefone chegou a 1 milhão;
  • no dia da eleição, pelo menos 3 mensagens de texto foram enviadas a cada eleitor inscrito no programa;
  • os apoiadores de Obama recberam, em média, entre 5 e 20 mensagens por mês, dependendo de onde viviam;
  • foram escritas cerca de 400 mil postagens de blog;
  • mais de 5,4 milhões de ususários clicaram o botão “Eu votei”, no dia da eleição, para avisar seus amigos do Facebook que eles haviam comparecido às urnas.

Será que a equipe de Marina vai ter o mesmo fôlego. Dados os percentuais nas pesquisas eleitorais, vai ser preciso muito fôlego para ter chances reais de concorrer à Presidência. Principalmente porque no Brasil apenas 30% da população tem acesso à internet, enquanto nos EUA são 74%, de acordo com http://www.internetworldstats.com/ .

Se depender da mobilização individual, estamos aí para fazer a diferença. Por enquanto, pelo que fez, pensa e traz, meu voto é da Marina Silva. Vamos ver a equipe e o plano de governo.

PS: A mesma matéria falava que Marina Silva é mantenedora de utopias. Acredito que seja mesmo. E utopia, na minha visão, é algo extremamente útil, para dar uma direção de mundo para a sociedade.

Sustentabilidade, por exemplo, é uma grande utopia. Nenhuma empresa, País ou sociedade será extremamente sustentável como os Na’Vi, de Pandora, no filme Avatar. É impossível no jeito em que aprendemos a pensar e a conceber o mundo (Einstein: “Não dá para resolver os problemas do mundo com a mesma mentalidade que usamos para criá-los). Sustentabilidade é uma utopia, sim, que aponta caminhos e possibilidades de se construir uma relação mais estável, segura e viável com o planeta em que vivemos.

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A Obama brasileira?

Será que teremos uma Obama brasileira (no sentido de criar novas possibilidades, horizontes e visão de país)? Marina Silva está “causando” somente com sua possível candidatura. A turma da sustentabilidade já está feliz da vida, os comentaristas econômicos e políticos já estão aventando possibilidades para o xadrez da eleição. E agora o PT está para lá de preocupado com o que pode acontecer.

Independente do desdobramento, uma coisa é certa: a discussão é mais do que bem-vinda e Marina já conseguiu muita coisa.

Vejam o que Sérgio Abranches falou em sua coluna, no blog ecopolítica. (Valeu pelo texto, Gabi – http://gabiindeutschland.blogspot.com/)

O fator Marina influi nas candidaturas do PT e do PSDB

Sérgio Abranches

“Marina Silva (PT-AC) deixou em todos os interlocutores a certeza de que será mesmo candidata a presidente da República, durante as 32 horas que permaneceu em Rio Branco (AC) para ouvir familiares, amigos e aliados políticos a respeito do convite para trocar o PT pelo PV”, informa o jornalista acreano Altino Machado, em seu blog.

Entre os interlocutores, muitos eram emissários do presidente Lula, tentando convencê-la a não sair. De repente, a certeza na candidatura Dilma Roussef (PT-RS) parece ter ficado meio abalada. Lula falou em, reunião recente, que seria preciso “consagrar todas as políticas em uma lei para que nenhum engraçadinho venha destruir essas coisas”. Referia-se aos programas sociais do governo. Sinal de insegurança sobre o resultado eleitoral? Ele vinha dizendo que tinha certeza que elegeria sua candidata. Recentemente, em mais de um momento, deu sinais de que percebe uma disputa mais difícil do que imaginava a princípio. Será que tem pesquisas, mostrando problemas na candidatura de Dilma Roussef? Que o Planalto tem pesquisa, certamente. O que elas realmente estão indicando tem sido um segredo compartilhado apenas pelos íntimos da campanha.

A perspectiva da candidatura de Marina Silva acendeu a luz amarela no painel de controle político do Planalto. Dilma Roussef sentiu-se confortável para dizer que Marina Silva não deveria sair. Como ela é candidata em exercício, não é opinião que a ex-ministra do Meio Ambiente fosse ouvir. Era mais um recado ao PT, para sair em campo e evitar a candidatura. Mas, ao que tudo indica, nem mesmo os interlocutores do presidente que têm a amizade de Marina Silva estão conseguindo demovê-la.

Hoje na Bahia, segundo se lê também no blog de Altino Machado, o jornalista Vitor Hugo Soares, no Bahia em Pauta, registra a seguinte declaração do governador Jaques Wagner: “Tenho que ser sincero: a luta da Marina tem ganhado um projeção cada vez maior no cenário nacional e mundial. Nós não temos a menor possibilidade de pressioná-la para mudar o que pensa e faz”. O contexto era solenidade na UFBA, hoje, em Salvafor,  à qual compareceu, em que Marina Silva recebeu o título de doutora Honoris Causa.

Altino Machado diz, no Blog da Amazônia, que Marina Silva, deu a alguns interlocutores a chave que desfaz a dúvida sobre sua decisão. Teria dito a eles, todos petistas, que: “vocês não precisam me acompanhar. Permaneçam no PT e mantenham a coesão da Frente Popular do Acre, para que possam ser ampliadas as conquistas até aqui alcançadas nos três mandatos consecutivos de nosso partido. Esse é um projeto político que tem dado certo no Estado.”

Poder ser uma despedida, um conselho político e uma liberação de compromissos dos mais chegados a ela no PT, com seu novo caminho.

Os proto-candidatos do PSDB, José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) comemoraram. Serra, com parcimônia, porém falando de afinidades com a plataforma verde de Marina e que o PV é seu aliado em São Paulo. Aécio, apesar de ser o mineiro, foi mais explícito, especulou sobre a possibilidade de aliança com Marina Silva no segundo turno.

Se ela for para o segundo turno contra Dilma Roussef, o PSDB provavelmente a apoiaria. Se for uma disputa PSDB x PT, tenho dúvida se Marina ficaria contra seu partido de vida e de coração.

É claro que as razões que a levam a deixar o PT estão fundadas na frustração com a agenda ambiental atrasada do presidente Lula e o desrespeito representado por entregar a condução da política para a Amazônia ao ex-ministro Mangabeira Unger. Mas também deve pesar a decepção com o comportamento ético da cúpula petista, quase sempre do lado errado, como no caso agora com José Sarney, que a constrange por ser da bancada petista no Senado.

O PSDB não tem melhores credenciais para apresentar, em várias áreas. Foi leniente com seu ex-presidente Eduardo Azeredo, no caso do mensalão. Abriga aliados de ruralistas, que defendem trabalho escravo e o fim da legislação de proteção à Amazônia. Muitos de seus parlamentares usam e abusam da privatização dos recursos do legislativo e praticam o nepotismo. É do PSDB, aliás do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), a lei mais atrasada e obscurantista sobre controle da internet.

Tanto José Serra, quanto Aécio Neves, têm muito bons secretários de Meio Ambiente. Mas a questão ambiental e climática ainda permanece como um acessório nos dois governos e não como vetor principal das decisões, como Marina Silva pensa que deva ser. Marina está em boa companhia nessa convicção: concordam com ela as principais lideranças social-democráticas européias, o presidente Obama, do EUA, o primeiro-ministro Gordon Brown, do Reino Unido, e lideranças mais conservadoras como Angela Merkl, da Alemanha, e Nicholas Sarkozy, da França.

Muitos setores petistas vêem, equivocadamente, a candidatura de Marina Silva, como uma espécie de linha auxiliar da candidatura tucana de José Serra. Sua função seria tirar votos de Dilma para ajudar a eleger Serra. Fora a visão conspiratória, essa análise não tem fundamento.

Essa eleição tem tudo, menos resultado certo no momento. A vantagem de Serra nas pesquisas é recall, terá que ser confirmada na campanha. Se ele for candidato e conseguir converter os 30% de pesquisa que tem hoje em voto, pode se qualificar para o segundo turno. Tanto Dilma, quanto Marina, quanto Ciro Gomes têm, em princípio, condições de se qualificar também. Se o candidato for Aécio, todos ficam mais ou menos nivelados na partida. É claro que Marina Silva aumenta a competição e ocupa espaço próprio, podendo tirar votos tanto de quem disputar representando o status quo do PT, quanto de quem disputar pelo PSDB. Não há favoritos hoje nessa disputa ainda longínqua.

Em que espaços ela disputa com Dilma, podendo levar vantagem? Entre os eleitores petistas – e não são poucos – desencantados com o comportamento ético do partido; entre os ambientalistas do PT; no eleitorado feminino; no eleitorado jovem, muito mais simpático a uma mensagem ambientalista que tenha credibilidade; no eleitorado negro; no eleitorado com preocupações sociais; no Norte.

Mas ela disputa espaço também com os tucanos, Serra ou Aécio: no eleitorado jovem; no eleitorado feminino; no eleitorado negro; no eleitorado com preocupações sociais; no eleitorado ambientalista não-petista (existem e não são poucos); no Norte-Nordeste.

Marina Silva não fará o discurso da eficiência, embora possa ficar tentada a fazê-lo em relação à sua gestão no Meio Ambiente. Mas o centro de sua campanha será uma proposta sócio-ambientalista. Se ela puxar muito para o lado extrativista e comunitário, perde espaço junto à classe média urbana, que quer ver uma proposta com maior conteúdo científico e tecnológico para o enfrentamento da questão climática e proteção da Amazônia. O discurso extrativista tem força no Norte-Nordeste e em parte da esquerda do Centro-Sul, mas deixaria o eleitorado urbano dessas regiões, com preocupações ambientalistas, porém mais ao centro do espectro ideológico, aberto à pregação dos tucanos.

A agenda mundial imporá a todos os candidatos o discurso ambiental e climático. A questão-chave será a credibilidade dele. Como o carro-chefe da campanha de Dilma é o PAC, totalmente anti-ambiental e contrário à redução do teor de carbono da economia, sua credibilidade nesse tema será muito baixa. Ficará entre Marina Silva e os tucanos.

É evidente que essa eleição não será decidida pela questão ambiental. Mas ela terá peso porque sensibiliza a parte mais educada – e formadora de opinião da classe média – especialmente os mais jovens, com menos de 40 anos. Não é uma fatia desprezível do eleitorado. Numa eleição muito competitiva, pode ser um fator significativo.

Outra vantagem de Marina Silva é ser um fator novo. Novidades sempre atraem o eleitor indeciso, sobretudo em momentos de profundo desencanto político como o que se vive hoje. Aconteceu com Obama. Ele acendeu a chama da esperança em eleitores que, provavelmente, não votariam naquela eleição. Aqui, seriam os 20% de votos nulos e brancos, mais um percentual que não é possível estimar, de faltosos. Pode chegar a algo como 25%. Imaginemos que uma candidatura nova, icônica, como a de Marina Silva, com uma biografia que, como expressão de superação pessoal, de auto-desenvolvimento, valorização da educação como instrumento de ilustração e mobilidade, não tem paralelo na política brasileira, consiga reverter metade dessa alienação eleitoral. Captaria em torno de 12% de eleitores que, em outras circunstâncias, por desencanto anulariam o voto, votariam em branco ou viajariam para não votar e poder justificar a ausência. Se, naquelas fatias do eleitorado, conseguir 14%, como diz o PV que ela teria, estamos falando de uma candidatura de 25%, arredondando. Não precisão em pesquisas, tão distantes da disputa, sem a campanha começar e que ainda podem nem passar de rumor. Nessa hipótese, com todas essas cautelas, poderia ser bastante competitiva no quadro de 2010.

É claro que há outros fatores, como o tempo de TV, reação dos setores mais conservadores do empresariado, do mercado e da sociedade, que operam contra Marina. Mas, esses, ela pode, ainda superar. Marina pode obter a adesão de outros partidos. Na TV, há um tempo mínimo necessário. Além dele, o programa eleitoral começa a ficar cansativo e perde audiência. A eficácia do tempo de TV é crescente até esse limite e cadente, a partir dele.

Também é preciso lembrar que, com muito pouco tempo de TV, Heloisa Helena (PSOL-AL) ficou em terceiro lugar, porque captou exatamente uma parte do voto dos desencantados. A campanha dela acabou perdendo fôlego porque foi se afastando do discurso crítico e indignado que esses eleitores esperavam dela. Tampouco ela tinha uma proposta programática abrangente como a que Marina Silva pode ter, mas o fato de ela ter hoje intenções de votos perto dos 10%, sem ter mandato e sem exposição na mídia, mostra que há demanda para uma candidatura alternativa “às que estão aí”.

Para não enfrentar bloqueio de setores mais conservadores, Marina Silva terá que apresentar assessores econômicos que sejam confiáveis. Tem a vantagem de que não precisam ser o que a esquerda chama de “neoliberais”. A crise econômica e as mudanças na política econômica na Europa e no EUA, superaram essa fase. Hoje a doutrina dominante é mais regulatória, até por causa da centralidade da questão climática. Ela deixaria de ser competitiva se reproduzisse a visão econômica atrasada do governo, um modelo requentado dos anos 60 e 70, de alto carbono, que não tem qualquer viabilidade no século XXI. Mas esse modelo é antagônico à pauta ambiental, já foi apropriado por Dilma Roussef, pode até ser adotado também pelo PSDB, hoje vazio de idéias novas, mas não caberia jamais no figurino de Marina.

Em resumo, a candidatura de Marina Silva, se acontecer mesmo, não é um fator desprezível e influi na competitividade tanto da candidatura do PT, quanto do PSDB.

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Seres políticos

Desde que me conheço por gente estou metido em política. Aos meus quatro anos, quando morávamos na rua José do Patrocínio, na Cidade Baixa, em Porto Alegre, meu pai aprontou com os militares. O ano era 1980 e ele dirigia o CooJornal, uma experiência de jornalistas cooperativados que deu certo, foi referência em vários países, e foi eterno enquanto durou, já diria Drummond. O jornal era um dos mais ativos a denunciar as barbaridades dos milicos na ditadura militar e deu alguns furos (notícia em primeira mão, no jargão jornalístico) importantes na época. Pois bem, naquele dia, a família estava voltando da casa do saudoso tio Carlos, irmão do meu impagável avô Paulo (dono do glorioso Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, que recebia os políticos da cidade com uma daquelas almofadas que simula um ‘pum’ quando alguém senta), quando ao chegar em casa, minha mãe subiu para amamentar meu irmão Bruno. Meu pai acabava de tirar as coisas do carro.

De repente, minha mãe ouviu na janela uma série de gritos. Quando se deu conta, era meu pai batendo boca com a Brigada Militar, que havia sido chamada para guinchar o Karmann-Ghia dele da frente da garagem da casa de um milico. “Era perseguição”, pensou ele, achando que alguém tinha empurrado o carroo propositadamente para a frente da garagem a fim de criar um fato que o pusesse na cadeia. Fértil mente de jornalista, em tempos agitados na década de 80. Não era nada disso, mas meu pai ficou furioso o suficiente para dar um chute no carro da polícia, só para acabar na delegacia. Minha mãe ficou em pânico, sem saber o que fazer comigo e com meu irmão. Ligou para alguns familiares e tempos depois meu pai voltou para casa – teve a sorte de encontrar um delegado ex-colega de faculdade…

Meu pai ainda foi secretário de governo, minha mãe subchefe de gabinete de governador e prefeito. Tenho um tio deputado federal (o Vieira da Cunha) e meu primeiro trabalho foi colar etiquetas em envelopes de mala direta pedindo votos para um político em primeiro mandato. Nesse mundo, minha mãe fez grandes amigas, como a Fátima, a Duda e a Marilésia. Meu pai fez grandes contatos e amigos e segue fazendo a vida em volta da política. 

Hoje é um dia de baixa para ele, que fez parte da equipe, como consultor, da equipe que fez a campanha de uma candidata que não passou para o 2o turno em Porto Alegre. Para ele e para meu irmão, que coordenou a produção da campanha de um candidato também derrotado, em Floripa. Foi a primeira experiência dele na área.

Como em tudo na vida, vale olhar para a metade cheia. Para o meu pai, é fim da briga doméstica com minha mãe. Afinal de contas, eles estavam em trincheiras opostas (minha mãe está trabalhando com o prefeito atual) e no calor da campanha, estavam se deixando levar pela emoção. (Aliás, política sem emoção não é política). E para o meu irmão é a chance de conhecer o afilhado Vicente! Se der certo, estará aí nos próximos dias.

E será que a próxima geração vem nessa onda? Hoje Gutão estava preocupadíssimo em saber de qual prefeito o pai e a mãe gostavam… E foi ele que apertou o botão verde da urna eletrônica para mim hoje. Sinal verde para a política. Hoje e sempre!

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