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Os movimentos avançam mais rápido com a internet

Internet foi útil para a revolução no Egito

Recentemente, o brilhante jornalista Malcolm Gladwell, autor de Blink e Outliers, escreveu no blog da revista New Yorker dizendo que o Twitter e Facebook foram menos importantes na revolução do Egito do que se faz crer. Gladwell escreveu um parágrafo que é de encher os olhos dos românticos que acham que revolução de verdade eram aquelas que aconteceram na Europa por mobilizações espontâneas, como a turma que derrubou o muro de Berlim ou antes disso o pessoal da Revolução Francesa. Ninguém vai desmerecer o fato e a importância dos movimentos e que isso se deu sem telefone ou Facebook e mesmo assim fizeram a revolução.

Mas discordo que no Egito o fato menos importante de tudo é o quanto as pessoas que estavam na rua foram ou não mobilizados por alguma rede social.

Right now there are protests in Egypt that look like they might bring down the government. There are a thousand important things that can be said about their origins and implications: as I wrote last fall in The New Yorker, “high risk” social activism requires deep roots and strong ties. But surely the least interesting fact about them is that some of the protesters may (or may not) have at one point or another employed some of the tools of the new media to communicate with one another. Please. People protested and brought down governments before Facebook was invented. They did it before the Internet came along. Barely anyone in East Germany in the nineteen-eighties had a phone—and they ended up with hundreds of thousands of people in central Leipzig and brought down a regime that we all thought would last another hundred years—and in the French Revolution the crowd in the streets spoke to one another with that strange, today largely unknown instrument known as the human voice. People with a grievance will always find ways to communicate with each other. How they choose to do it is less interesting, in the end, than why they were driven to do it in the first place.

Brian Solis, um expert em redes sociais e relações públicas, autor do livro Engage, argumentou que Gladwell perdeu o ponto da discussão. Para Solis, o que está por trás do uso das redes sociais neste momento é o poder de ativação. E nisso eu concordo mais com ele do que com Gladwell.

O fato de as pessoas estarem em contato constante umas com as outras sem dúvidas nenhuma ajuda um movimento a ganhar força rapidamente. Há pensadores argumentando que se não fosse pelo fato de que há crise econômica no Egito, ninguém se mobilizaria para sair às ruas para derrubar um ditador. Ok, mas vamos juntar então a insatisfação pela crise econômica, com a velocidade de tráfego de informação com a abertura ao mundo exterior e ver o que acontece: mobilizações potencializadas pela velocidade. Queiram ou não os regimes, as pessoas sabem na velocidade da luz que há uma crise no país vizinho (como a população do Egito soube da revolução na Tunísia).

Queda do acesso na internet no Egito. Fonte: NY Times

Verdade seja dita que os governos não ignoram mais esse poder. Ou o Egito não teria derrubado a internet do país na vã tentativa de estancar o descontentamente que já havia vazado do mundo online para o real (que no fundo, hoje, já são na grande maioria dos casos a mesma coisa). Também a China não teria proibido a busca pela palavra Egito nas ferramentas de busca que aos trancos e barrancos funcionam no país (o Google ameaçou deixar a China, lembram?).

Também por saberem deste potencial, os ditadores podem usar as ferramentas sociais ao seu favor. Na Síria, Bielo-Rússia e Irã, o governo está perseguindo ativistas pelo que eles dizem nos seus perfis no Facebook, Twitter ou qualquer outro. É o outro lado da moeda. Você tem liberdade para se expressar, mas saiba que alguém do outro lado está lendo. Scott Shane escreveu no NY Times sobre isso e o Estadão reproduziu aqui.

O ponto em questão é o quanto as possibilidades de informação se expandem e como se faz importante saber o potencial que oferecem. E aqui vale falar da teoria dos laços fracos, de Mark Granovetter. Os laços fortes são aquelas pessoas que você conhece muito bem e os laços fracos são representados por aquele colega de trabalho que você encontra de vez em quando em uma reunião ou mesmo um ex-colega de escola. Pois bem, as ferramentas sociais de mais sucesso hoje são Facebook, Orkut, MySpace, Twitter etc, porque se apóiam nos laços fracos.

A lógica é a seguinte: os laços fortes pensam exatamente como você, têm os mesmos interesses, portanto, não agregam muito valor sob o ponto de vista do conhecimento. Já os laços fracos têm um incrível potencial de agregar mais conhecimento, assim como o de ampliar a disseminação de qualquer mensagem. Exemplo: quão poderosa e importante para a sensação de que está dando certo um movimento a distribuição de um video destes pela internet, sem filtros, sem interferência do governo, apoiada na distribuição via laços fracos?

Os laços fracos catalisam movimentos à medida que ajudam a disseminar informações mais rapidamente. Aumentam o potencial de qualquer ideia, tema ou projeto. Iniciativas como Kiva e Kickstarter se apóiam nisso para dar visibilidade e viabilidade a projetos do mundo inteiro financiados por pessoas do mundo inteiro.

E, sem dúvidas, tem o potencial de causar terremotos políticos e até de derrubar governos linha-dura que limitam a liberdade (e portanto o potencial) de milhares de pessoas. O video abaixo é um exemplo primoroso da manifestação desta vontade de liberdade.

Tá, pode ser que o Twitter e o Facebook não tenham sido cruciais nestas mobilizações, mas o fato é que minimizar — ou tentar ridicularizar — o seu efeito se presta a duas coisas, na minha opinião: 1) criar polêmica e 2) criar polêmica. Não consigo acreditar que alguém com o calibre intelectual de Gladwell não queira aceitar os efeitos da sociedade conectada em rede.

A pergunta está na direção errada. Não deveria ser se o Egito precisa de Twitter. Mas quando o Twitter e outros ajudaram a disseminar a mensagem de modo mais veloz entre a sociedade.

(Atualização – 10/02/11)

O Estadão de hoje publicou artigo de Thimothy Phelps, do Los Angeles Times, lembrando o quanto as redes foram importantes em 2008, nas raízes do movimento que se alastrou pelo Egito.)

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O melhor de 2010 – parte 3

Tecnologia, redes sociais, felicidade, disposição de lixo e até travel writing (de 2009!) estiveram entre os textos mais acessados de 2010.

O Cala Boca Galvão foi um dos grande momentos da internet em 2010! Mereceu até referência de um dos maiores blogueiros sobre tecnologia e redes, o Ethan Zuckerman, na palestra que deu no TED Global, em Oxford. Foi um exemplar caso de impactos na reputação no mundo conectado em rede e sobre como interagir (e não “reagir”. Na ocasião, a Globo ficou em dúvidas sobre como agir enquanto o barulho aumentava na internet. Até que resolveram fazer o Galvão brincar com a história e a coisa deu uma acalmada.  A lição que ficou é a mesma para todas as empresas que estão tentando entender as redes sociais: mesmo que você não queira, você já está na rede, já há gente falando de você.

Outro post bem acessado em 2010 foi sobre as pistas falsas para a felicidade. Gosto muito de escrever sobre este tema e neste próprio post há vários links para outros posts sobre o mesmo assunto. Vale a máxima do Jabor para este assunto: “a vida gosta de quem gosta dela”. Para saber mais, vale ler o último post de 2010: “Em 2011, viva o lado positivo da vida”.

Segue mais uma leva de mais acessados e outras fotos ao final.

6. Comprar ou não comprar um iPad?

7. Por que o Cala Boca Galvão deu certo

8. As pistas falsas para a felicidade

9. Lixo seco ou úmido?

10. American Way of flying

Fiz esta e as quatro fotos abaixo no mesmo dia, em momentos diferentes, com um tripé. São Paulo também tem cores!

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O TED, as ideias e o incrível potencial multiplicador da internet

De 1984 até 2006 era um encontro quase secreto. De 2006 em diante, as palestram foram parar na internet. Uma das primeiras falas foi a do jornalista Malcolm Gladwell, autor de alguns livros de sucesso, como Blink e Fora de Série. A expectativa era de que cerca de 5 000 pessoas assistissem cada uma das palestras que fossem colocadas online. Mas em pouco tempo, 40 000 pessoas acessaram essa palestra. O plano inicial era de ter 200 000 acessos em um ano e depois ir dobrando os números ano a ano. Mas esta previsão também estava errada… Em apenas dois anos, foram 75 milhões de palestras assistidas!

Estamos falando do TED e esta pequena história dá uma amostra incrível do poder multiplicador da internet. Alguns itens que ilustram esse potencial e que mostram como a web alavancou esta iniciativa:

Divulgação: Antes de ir para a rede, o TED era um encontro semi secreto. Hoje, o total de palestras assistidas no TED.com é de 250 milhões!

Colaboração: o número de acessos vem aumentando exponencialmente em função das traduções para 25 línguas, com colaboradores de 80 países. As traduções são feitas por voluntários. Graças a eles, cerca de 300 palestras das cerca de 600 já estão traduzidas!

Agilidade: No TED Global (em Oxford, na Inglaterra), em 2009, a equipe do TED colocou a palestra de Gordon Brown no ar e em menos de 24 horas ela já estava traduzida para três diferentes línguas.

Aplicabilidade: Graças às traduções e a um aplicativo, as falas do TED podem ser usadas para estudos de línguas e em escolas. Há uma transcrição do texto ao lado de cada palestra. Com um clique é possível chegar a qualquer seção da fala.

A capacidade da web de mobilizar informações e ideias hoje traz um poder incrível para causar impactos positivos. Na sociedade, em escolas, nas empresas… enfim, nas nossas vidas.

E o melhor de tudo: as ideias do TED são grátis!!

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“Eu Diário” — ou você mesmo edita suas notícias

Recentemente, o NY Times publicou uma coluna do Nicholas D. Kristof (a quem sigo no Twitter), falando do Daily Me (O “Eu Diário”, em tradução livre, um conceito criado por Nicholas Negroponte). O argumento do autor é que “quando vamos para a internet, cada um de nós se torna seu próprio editor, seu próprio vigia. Nós selecionamos o tipo de notícia e de opiniões que mais nos interessam”.

Kristof repercute alguns estudos que confirmam que “nós geralmente não queremos de fato boa informação – mas, antes, informação que confirme nossos preconceitos. Podemos acreditar intelectualmente no choque de opiniões, mas, na prática, gostamos de nos abrigar no útero reconfortante de uma câmara de eco.”

Ou seja, a internet está potencializando os efeitos do Ego, em prejuízo da diversidade de opiniões.  A receita para isso? Ler jornal e revistas semanais, na minha opinião. E confiar no trabalho dos jornalistas e editores (que sempre vão manipular a edição e blablabla, escrevendo o que querem e blablabla, mas sempre vão fazer melhor do que quem não está treinado para isso).

Vale ler o artigo. Aqui o original. E aqui republicadoem português no blog do Noblat.

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