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Vida, rara e cara

Neste final de semana, o cientista e colunista da Folha Marcelo Gleiser escreveu uma coluna muito boa na Folha, falando de quão rara é a vida, o que me faz pensar como devemos aproveitá-la bem. Certamente não temos noção da grande sequência de coincidências que nos traz até aqui e uma reflexão destas nos ajuda a pensar melhor.

Uma breve história de quase tudo, livraço de Bill Bryson

Compartilho aqui pela genialidade das breves palavras e aproveito para colocar um link para a resenha do livro ˜Uma breve história de quase tudo”. Escrevi para o Planeta Sustentável, da Editora Abril, como tarefa de `povoar` o site com resenhas logo no seu início. No livro, o autor Bill Bryson teve a ousadia de querer falar dos detalhes da formação da vida e o fez com maestria. Contar 13 bilhões de anos em 484 páginas, de forma lógica e empolgante é tarefa de gênio. Os pontos que estão neste link foram os que mais chamaram a atenção. Principalmente para a ˜loteria” da vida.

Segue abaixo o texto do Marcelo Gleiser e logo em seguida uma maravilha da vida.

Quão rara é a vida?

(Marcelo Gleiser)

NO DOMINGO PASSADO, escrevi sobre as recentes afirmações de Stephen Hawking. Para ele, a ciência demonstrou que Deus não é necessário para explicar a criação. Outro argumento que Hawking usou é que o Universo é especialmente propício à vida, em particular à vida humana. Mais uma vez vejo a necessidade de apresentar um ponto de vista contrário. Tudo o que sabemos sobre a evolução da vida na Terra aponta para a raridade dos seres vivos complexos. Estamos aqui não porque o Universo é propício à vida, mas apesar de sua hostilidade.

Note que, ao falarmos sobre vida, temos de distinguir entre vida primitiva (seres unicelulares) e vida complexa. Vida simples, bactérias de vários tipos e formas, deve mesmo ser abundante no Cosmos.
Na história da Terra -o único exemplo de vida que conhecemos-, os primeiros seres vivos surgiram tão logo foi possível. A Terra nasceu há 4,5 bilhões de anos e sua superfície se solidificou em torno de 3,9 bilhões de anos atrás. Os primeiros sinais de vida datam de pelo menos 3,5 bilhões de anos, e alguns cientistas acham que talvez possam ter 3,8 bilhões de anos. De qualquer modo, bastaram algumas centenas de milhões de anos de calma para a vida surgir. Não é muito em escalas de tempo planetárias.
Esses primeiros seres vivos, os procariontes, reinaram durante 2 bilhões de anos. Só então surgiram os eucariontes, também unicelulares, mas mais sofisticados. Os primeiros seres multicelulares (esponjas) só foram surgir em torno de 700 milhões de anos atrás.
Ou seja, por cerca de 3,5 bilhões de anos, só existiam seres unicelulares no nosso planeta. O que aprendemos com esses estudos é que a vida coevoluiu com a Terra. O oxigênio que existe hoje na atmosfera foi formado quando os procariontes descobriram a fotossíntese em torno de 2 bilhões de anos atrás. Estamos aqui porque oxigenaram o ar.
Devemos lembrar que seres multicelulares são mais frágeis, precisando de condições estáveis por longos períodos. Não é só ter água e a química correta. O planeta precisa ter uma órbita estável e temperaturas que não variem muito. Só temos as quatro estações e temperaturas estáveis porque nossa Lua é pesada.
Sua massa estabiliza a inclinação do eixo terrestre (a Terra é um pião inclinado de 23,5), permitindo a existência de água líquida durante longos períodos. Sem a Lua, a vida complexa seria muito difícil.
A Terra tem também dois “cobertores” que a protegem contra a radiação letal que vem do espaço: o seu campo magnético e a camada de ozônio. Viver perto de uma estrela não é moleza. Precisamos de seu calor, mas ele vem com muitas outras coisas nada favoráveis à vida.
Quem afirma que o Universo é propício à vida complexa deve dar uma passeada pelos outros planetas e luas do nosso Sistema Solar.
Ademais, o pulo para a vida multicelular inteligente também foi um acidente dos grandes. A vida não tem um plano que a leva à inteligência. A vida quer apenas estar bem adaptada ao seu ambiente. Os dinossauros existiram por 150 milhões de anos sem construir rádios ou aviões. Portanto, mesmo que exista vida fora da Terra, a vida inteligente será muito rara. Devemos celebrar nossa existência por sua raridade, e não por ser ordinária.

Uma onda perfeita em slow motion

A capacidade de surfar uma onda como esta é algo que não se pode descrever com palavras. Capturar em slow motion é a segunda coisa mais próxima que se pode fazer para entender isso sem passar pela experiência. A primeira é ver as imagens cada vez mais frequentes dos surfistas dentro do tubo. Abaixo, do meu amigo Pedro Manga em ação no Taiti.

TED Talk da semana – Peter Tyack

Peter Tyack fala sobre a oculta maravilha do som submarino na expedição Mission Blue, do TED:

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Arquivado em Ideias, Interdependência, Questões, Surfe

Feliz 2010 com Fragmentos do Evangelho Apócrifo, de Borges

Borges é um craque da literatura, ninguém duvida disso. E os craques sempre são capazes de surpreender. Tenho a ligeira impressão de que já deveria ter conhecido antes esse material abaixo, mas tive contato com ele há poucos meses em uma das edições atrasadas da revista Piauí, que guardo para ler com tempo e saborear. Foi citado pelo José Serra, em uma entrevista concedida à revista.

É muito inspirador e queria dividir com vocês, agradecendo pela audiência durante 2009, ano em que resolvi investir tempo neste blog. Algumas vezes, é difícil manter a frequencia, mas a troca de ideias faz valer a pena.

Valeu! Vou continuar na toada em 2010. “Que seja eterno enquanto dure”, já dizia o poeta. E que seja eterno enquanto e valer  a pena – emendo.

E Feliz 2010 para todos nós, com a companhia de Borges e muitos outros craques das letras e que nos ajudam a entender o mundo.

Abraço

Fragmentos do Evangelho Apócrifo

3 Mal-aventurado o pobre de espírito, porque sob a terra será o que é agora na terra.

4 Mal-aventurado o que chora, pois já cultiva o hábito infeliz do pranto.

5 Afortunados os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.

6 Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.

7 Feliz o que não insiste em ter razão, pois ninguém a tem ou todos a têm.

8 Feliz o que perdoa os outros e o que perdoa a si mesmo.

9 Bem-aventurados os mansos, porque não condescendem à discórdia.

10 Bem-aventurados os que têm fome de justiça, porque sabem que a nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável.

11 Bem-aventurados os misericordiosos, porque sua felicidade está no exercício da misericórdia e não na esperança de um prêmio.

12 Bem-aventurados os de coração limpo, porque vêem Deus.

13 Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque lhes importa mais a justiça do que o seu destino humano.

14 Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento da sua vida, não o é.

15 Que a luz de uma lâmpada se acenda, mesmo que nenhum homem a veja. Deus a verá.

16 Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que digo e os que os profetas disseram.

17 Aquele que matar pela causa da justiça, ou pela causa que ele crê justa, não tem culpa.

18 Os atos dos homens não merecem nem o fogo nem os céus.

19 Não odeies o teu inimigo, pois se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que a tua paz.

20 Se a tua mão direita te ofender, perdoa-a; és teu corpo e és tua alma e é árduo, senão impossível, fixar a fronteira que os divide…

24 Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao cabo de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes.

25 Não jures, pois todo juramento é uma ênfase.

26 Resiste ao mal, porém sem espanto e sem ira. A quem te ferir na face direita, podes voltar a outra, desde que não te mova o temor.

27 Não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.

28 Fazer o bem ao teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.

29 Fazer o bem ao teu inimigo é a melhor forma de satisfazer a tua vaidade.

30 Não acumules ouro na terra, porque o ouro é pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio.

31 Pensa que os outros são justos ou sê-lo-ão, e se não for assim, não é teu o erro.

32 Deus é mais generoso que os homens e os medirá com outra medida.

33 Dá o que é santo aos cães, joga tuas pérolas aos porcos; o importante é dar.

34 Procura pelo prazer de procurar, não pelo de encontrar…

39 A porta é que escolhe, não o homem.

40 Não julgues a árvore por seus frutos, nem o homem por suas obras; podem ser piores ou melhores.

41 Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fosse pedra a areia…

47 Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba.

48 Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo semelhante a derrota ou as palmas.

49 Felizes os que guardam na memória palavras de Virgílio ou de Cristo, pois estas darão luz aos seus dias.

50 Felizes os amados, os que amam e os que podem prescindir do amor.

51 Felizes os felizes.

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Troca de livros 2.0

A vida não tem sido fácil. Dia-a-dia corrido pacas. Para o blog não ficar parado, segue aqui uma dica da Estante Virtual, uma genial invenção para quem não conhece. É uma rede de 400 sebos espalhados pelo Brasil. É claro que não é a mesma coisa que vasculhar in loco, mas quebra um bom galho quando você precisar achar algum livro fora de catálogo. Agora, lançaram uma promoção bacana. Vejam o e-mail que recebi:

“Caros leitores,

A escalada dos números da Estante não é novidade. Todos crescem exponencialmente sem parar, desde o lançamento, há 3 anos. Livros, sebos, livreiros virtuais, leitores, leitores vendedores, vendas, acessos, buscas.Também não é novidade que além de números, chegam também histórias muito interessantes. Pessoas que encontraram livros de familiares escritos há décadas, livros esgotados imprescindíveis às suas teses de doutorado, ou mesmo livros seminovos ainda em edição por uma fração do preço das livrarias convencionais. Chegam histórias também de sebos recém-inaugurados, fundados por livreiros virtuais que começaram suas atividades na Estante e viram seus negócios darem tão certo que se motivaram a abrirem uma loja física.

“Então, Estante, tem alguma novidade?” Sem dúvida, temos sim! Vamos a ela então! Esta semana estamos lançando um serviço inédito no país: o Programa Nacional de Troca de Livros.

Você leva nos sebos os seus livros seminovos e ganha créditos para adquirir seu próximo livro. E a avaliação é justa, nada de 1 real por livro! Na troca por livros do acervo do sebo, seu livro vale 25% do preço atual nas livrarias convencionais.

O programa marca uma inovação no mercado editorial – interligando sebos e leitores em um fluxo virtuoso de troca de livros seminovos. A aquisição do próximo livro se torna muito mais acessível, uma vez que o livro que se acabou de ler pode ser usado como forma de pagamento.

Mas não é só. A inovação vai além disso! O programa marca também uma inovação no comércio brasileiro:

Em alguns sebos você pode também fazer a troca por um vale-compras virtual. Seus créditos são remetidos pelo sebo a uma carteira virtual, administrada pelo Pagamento Digital e vinculada ao seu email. Você pode então usá-los para adquirir livros aqui na Estante, nos mais de 400 sebos Brasil afora que aceitam o Pagamento Digital! Nessa modalidade de troca seu livro vale 20% do preço das livrarias.

A relação dos já mais de 100 sebos participantes, bem como o regulamento completo do programa, você confere neste link: http://www.estantevirtual.com.br/programadetrocas

Abraços e boas trocas!

André Garcia
Criador / Diretor
http://www.estantevirtual.com.br

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Escrever é preciso

Fui acometido de uma sanha escrevedora nessas ‘férias’ ou nos dias em que fiquei em casa pós-nascimento do Vicente. Fazia tempo que eu não escrevia tanto. No meu dia a dia, costumo escrever muitas linhas, mas, com honrosas exceções, escrevo e leia tantas coisas quase iguais que acabo achando que estou sempre a escrever a mesma coisa. A repetição (ou coerência) é  importante para passar a mensagem que precisa, mas uma hora cansa!

A boa notícia é que há outras coisas sobre as quais escrever! Por exemplo, sobre o nascimento do Vicente, sobre as travessuras do Augusto, sobre livros etc. Um dos chefes que tive lembrou que mais importante era ficar escrevendo para não enferrujar… Sobre isso, achei um trecho genial num livro maravilhoso que ganhei da Juliana. O livro chama Carta a D. – História de um Amor (editora CosacNaify), de André Gorz, filósofo e jornalista austríaco, um dos principais inspiradores de Maio de 68 e autor de um texto que fala que a verdadeira missão humana é tornar o planeta mais acolhedor.

Gorz escreveu uma carta de amor a Dorine, sua companheira de mais de 60 anos e que de tanto se amarem cometeram o mais extremo ato de amor: o suicídio conjunto. É um livro bastante profundo e reflexivo. O trecho que destaquei:

“Você dizia que tinha se unido a alguém que não podia viver sem escrever, e sabia que quem quer ser escritor precisa se isolar, tomar notas a qualquer hora do dia ou da noite; que seu trabalho com a linguagem continua o mesmo depois de largar o lápis, e pode inesperadamente se apossar dele por completo, bem no meio de uma refeição ou de uma conversa. (…) Amar um escritor é amar que ele escreva, dizia você. ‘Então escreva!’  (…) O principal objetivo do escritor não é o que ele escreve. Sua necessidade primeira é escrever. Escrever, isto é, ausentar-se do mundo e de si mesmo para, eventualmente, fazer disso a matéria de elaborações literárias. É apenas num segundo momento que se põe a questão do tema a ser tratado. O tema é a condição necessária, necessariamente contingente da produção de escritos. Não importa qual tema é o melhor, desde que ele permita escrever. Durante seis anos, até 1946, eu mantive um diário. Escrevia para conjurar a angústia. Não importava o quê; eu era um escrevedor. O escrevedor só se tornará um escritor quando a sua necessidade de escrever for sustentada por um tema que permita e exija que essa necessidade se organize num projeto. Somos milhões a passar a vida escrevendo, sem nunca terminar nem publicar nada. Você mesma passou por isso. Você sabia, desde o início, que precisaria proteger meu projeto indefinidamente.”

Sábias palavras de Gorz. Lembro bem de um texto que escrevi sobre a importância do dedo mindinho da mão logo que aprendi a datilografar. Era justamente o caso. Não interessava o assunto (besta, besta), o importante naquele caso foi escrever alguma coisa… até para testar a destreza do mindinho!

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