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O melhor de 2010 (final) + inspiração para 2011

Vamos lá, com a última parte do melhor de 2010 aqui no Blog. Seguem os cinco posts mais acessados do ano. Numa análise rápida e rasteira, vou tentar explicar o que aconteceu abaixo.

Os post #4 e #1 são um tanto aberrações. Aparecem aí mais pela busca no google do que por qualquer outra coisa. No post  #1, sobre Brasil, buscas sobre semana de arte moderna, arte moderna etc levam a ele. Somente porque coloquei uma imagem do Abaporu, com legenda Mas é um post legal (tem alguns “likes”, fala de perspectivas do Brasil, tem um video inspirador ao final. Enfim, mostra que se usarmos os termos certos, a internet faz aparecer! O do Obama também aparece pelas buscas. Ambos são de 2009 e continuam aí.

Bom, vamos descartar estes e considerar os outros como realmente campeões de 2011.

O post #5 fala dos impactos da construção da usina de Belo Monte. Tem a reprodução de um artigo escrito pela Marina Silva no período da eleição. Acho que ganhou ibope pela onda verde, mas não só por isso, também por ser muito didático e direto ao ponto. O #2 é bem legal, conta a aventura dos caras que surfaram no arroio Dilúvio, em Porto Alegre. Muito antes de eu conhecer a fundo a história do surfe na Pororoca, via o principal embaixador do assunto, meu amigo Serginho Laus. Pessoal do surfe sempre em busca de novas fronteiras.

Mas o post entre os mais populares e do qual mais gosto é o #3, que falou sobre a loucura da baleia Orca que matou um dos treinadores. Trabalhei no Sea World, onde isso aconteceu, e acho que entendo direitinho os motivos da baleia. Vai lá, é um post mais pessoal, gostei de escrever.

Antes de deixar os links, queria compartilhar aqui com vocês o e-mail que recebi do pessoal do WordPress, avaliando a “performance” deste blog em 2010. Veja o que escreveram:

“Números apetitosos

Imagem de destaque

Um navio de carga médio pode transportar cerca de 4.500 contentores. Este blog foi visitado 17,000 vezes em 2010. Se cada visita fosse um contentor, o seu blog enchia cerca de 4 navios.

Em  2010, foram 88 novos posts, aumentando para 283 posts o arquivo deste blog.

O dia mais ativo foi em 6 de novembro, quando foi publicado o post TEDxAmazônia e a seca do século.”

Achei meio boba a comparação com os navios, mas enfim, ficam os números.

E aí vão os post mais acessados de 2010.

5. Entenda o impacto da construção da usina de Belo Monte

4. Vitórias rápidas de Obama

3. A baleia Orca e a falta que faz a liberdade

2.O surf no arroio Dilúvio em Porto Alegre

1. Da arte de ver a floresta e não só as árvores

Inspiração para 2011

Já pensando em 2011, e lembrando que retorno à rotina daqui algumas horas, segue um video publicitário da RedBull para lembrar que neste ano, surfei em 85% dos dias!

Continuando na natureza e na inspiração, este video fala que o “crescimento é para sempre”. Desde que com renovação e na natureza, ok. Ao contrário do crescimento da economia, que se for para sempre, como querem os economistas, vai trazer muitos problemas (ainda mais que os que já temos) para a raça humana no planeta.

Economia, dinheiro, bancos. Encontrei agora este vídeo na internet, naquelas incríveis voltas que a web dá. Excelente trabalho, fechando o ciclo de inspiração. Vamos que vamos!

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A onda verde veio para ficar

Crescimento do Partido Verde mostra que país amadureceu

E  a grande vitória nas eleições de 2010 no Brasil foi a de uma nova visão de mundo. Marina Silva começou tímida, nos 9% e encerrou a votação com 20% dos votos válidos. Dobrou de tamanho no período.

Marina trouxe com ela muita gente boa, com muitas ideias. Nem tão revolucionárias, simplesmente modernas, alinhadas com o espírito do tempo, sintonizadas com as mudanças que a sociedade deseja.

Lembro de no dia seguinte a ela ter anunciada sua candidatura, muitos jornalistas de grandes veículos tentando entender e explicar o que era sustentabilidade ambiental, social, às vezes confundindo todos os conceitos.

Marina venceu preconceitos sobre criacionismo, evangelismo e aborto. Nunca fugiu do debate e sempre mostrou que sua visão de mundo era maior do que todas estas questões somadas.

Há pouco, na TV, disse que não era ela que definiria sozinha para quem seus votos iriam. Lembrou que os votos são dos eleitores e que há muita gente envolvida para decidir. Não importa bem para quem vai. O fato é que o Partido Verde ganhou musculatura. Ganhou força para levar adiante uma visão de mundo mais integrada, interdependente, que mostra que o bagre da Amazônia interessa, sim, quando se vai construir uma hidrelétrica. Tá, é um exemplo bobo, mas serve para ilustrar o preconceito que se carrega contra quem foge da corrente e diz que há coisas mais importantes no mundo do que lucrar, conquistar e acumular poder.

A esperança que Marina acendeu não é pequena. E suas ideias ficarão vivas ainda nesta eleição. Não é questão de escolha. É fato, referendado por quase 20 milhões de eleitores. Não é pouco não. Dobrou de tamanho em algumas semanas.

E não vou falar do Tiririca. Prefiro falar que Collor, Netinho e Romeu Tuma ficaram de fora. Foi, portanto, grande também a vitória da democracia e o fato de termos o segundo turno nestas eleições.

Daqui para frente, só tende a melhorar. E o Brasil é cada vez mais o país do presente. Com inequidades continentais (vale ler o texto abaixo, de Clóvis Rossi, publicado na Folha de São Paulo de hoje), o que nos faz querer acompanhar de perto o debate do segundo turno.

Acho que a onda verde veio para ficar.

CLÓVIS ROSSI

Brasil vota, pobre mas feliz

SÃO PAULO – O Brasil que vai hoje às urnas é, na essência, do seguinte tamanho social: metade dos eleitores (67,5 milhões) ganham, no máximo, até dois salários mínimos.
Seria preciso torturar os fatos para dizer que pertencem à classe média, esse paraíso a que foram conduzidos 30 milhões de brasileiros segundo o ufanismo em voga.
Dos eleitores brasileiros, 13 milhões (10%, pouco mais ou menos) é pobre, pobre mesmo. Ganham menos de um salário mínimo. Figuram entre os 28 milhões excluídos do sistema público de aposentadoria e auxílios trabalhistas.
São, portanto, ninguém.
Também no capítulo educação, a pobreza é radical: 49% dos eleitores fizeram, no máximo, o curso fundamental.
Nesse país que tanto seduz a mídia estrangeira, mais de 60% de seus alunos não têm a capacidade adequada na área de ciências. No exame mais recente, o Brasil ficou em 52º lugar entre 57 países, no quesito ciência.
Alguma surpresa com o fato de que a sétima ou oitava potência econômica mundial é apenas a 75ª colocada quando se mede o seu desenvolvimento humano?
Não tenhamos medo das palavras: o Brasil que vai às urnas é um país pobre, obscenamente pobre para o seu volume de riquezas naturais, território e população.
É também obscenamente desigual, apesar da lenda de que a desigualdade se reduziu. É impossível reduzir a desigualdade em um país que dedica ao Bolsa Família (12,6 milhões de famílias) apenas R$ 13,1 bilhões e, para os portadores de títulos da dívida pública (o andar de cima) a fortuna de R$ 380 bilhões, ou 36% do Orçamento-2009.
Ainda assim, é um país mais feliz do que era há oito anos ou há 16 anos. Fácil de entender: “O pobre quer apenas um pouco de pão, enquanto o rico, muitas vezes, quando encosta na gente, quer um bilhão”, já ensinou mestre Lula.

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Qual o país que queremos construir?

Quem ainda não viu precisa conhecer o video abaixo. Ontem mesmo, recebi novamente de outra fonte. No e-mail, meu amigo Oswaldo Pepe contava que havia recebido via facebook de uma amiga dizendo que todo mundo precisava ver este video antes de votar amanhã. No ponto. (O vídeo não tem conotação política. Ele fala sobre como cada um pode fazer a diferença.)

Estas eleições foram mornas como nenhuma outra. Quase nada de adesivos nos carros ou bandeiras penduradas. Já houve um tempo em que o PT atraía militantes esperançosos, empolgados com as possibilidades de construir um país moderno, com base na ética e nos valores. Este tempo ficou para trás. A boa notícia é que a nova liderança já começou a emergir com Marina Silva. Ainda vamos conhecer melhor estas ideias de um novo jeito de olhar a sociedade, construindo um modelo de desenvolvimento mais inclusivo

Este video abaixo do Fábio Barbosa, gravado no TEDxSP resume a essência de quem acredita nestas ideias. Ele fala em reforma de valores, ética, respeito… valores que se perderam nas meias, cuecas, malas de petistas e governistas aloprados. Um banho de corrupção que apagou a esperança de muita gente que acreditava no PT. Ideais que cabem hoje numa bolsa-família, importantes para incluir uma boa parte da sociedade, mas insuficientes para construir um projeto consistente de país.

O Brasil é muito maior do que um prato de comida e uma busca inebriante e cega pelo poder. Ainda temos um longo caminho pela frente. E lideranças como a de Fábio Barbosa para ajudar a apontar caminhos.

Vale a pena olhar para se inspirar na votação de domingo.

Leia mais: O poder das empresas de mudar o mundo

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Argumentos “inteligentes” anti-Marina

Esta veio via e-mail. Vou preservar o nome de quem enviou para mim o e-mail, assim como o da inteligente pessoa que teve a capacidade de escrever isso.

Quando você vota em alguém, não vota em tudo o que a pessoa acredita. Mas vota naquilo que o político defende e você acredita. É uma diferença sutil e um tanto óbvia mas importante na hora de escolher o candidato.
Acredito que o criacionismo possa até mesmo ser uma limitação à campanha de Marina, mas na hora me vem à mente a frase de Voltaire: “Não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de o dizeres”. É isso.

“Prezado professor:
 Marina acredita no criacionismo e que Jesus é filho do cruzamento de uma mulher com um pombo. Isso é futuro?
 Números brasileiros:
 O lucro do Banco do Brasil em 2009 chegou a R$ 10.148 bilhões. Ou 15,2% acima do lucro de 2008.
 O consumo industrial de energia subiu 13,2% em janeiro.
 De rabo de boi congelado a jatos da Embraer, abrimos o leque de exportações, passando de 15% para 25,8% nossas vendas ao Continente asiático.
 A Usiminas anuncia plano estratégico com investimentos de R$ 3,2 bilhões.
 O salário mínimo, que comprava 0,9% da cesta básica em 2003, hoje compra 1,8 cestas.
 E até o Fundo Previ teve crescimento real considerável: os ativos, em bilhões de Reais, saltaram de 116 em 2008 para 142 em 2009.
 O Carrefour anuncia que o Brasil passa a ser praça vital para as atividades (e sobrevivência) do grupo.
 Os investimentos em infra-estrutura para os próximos quatro anos devem chegar a R$ 274 bilhões.
 Botecos, quitandas, restaurantes e lojinhas da cidade estão repletos de anúncios “precisa-se”.
 São números que impressionam a todos e deixam a oposição completamente sem discurso. E sem discurso, meu caro, nenhuma causa sai vencedora.
 Fulano de Tal”

 

jornalista

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Marina Silva 2.0

Em agosto passado, fiz uma brincadeira aqui no blog, falando da “Obama Brasileira”. Foi uma alusão aos primeiros ensaios de candidatura da Marina Silva à presidência. De longe, na época, parecia que Marina ia tentar trilhar os passos de Obama, no sentido de promover o novo, resgatar a esperança na política e mobilizar as pessoas para uma visão diferente de País.

Nitidamente, Marina está querendo seguir estas pistas. No conteúdo, com as devidas diferenças de envergadura de país e background político, e também na forma.

Na semana passada, Marina Silva lançou seu twitter (www.twitter.com/silva_marina) e o blog Minhamarina.org.br. Achei interessante no texto que ela admite não ser nenhuma supermulher e que obviamente contará com ajuda para manter o diário atualizado.

No Twitter, uma matéria do Estadão dava conta que em apenas 14 dias, Marina chegou a 1 300 seguidores no Twitter. Comparava com José Serra, que já está há muito mais tempo e conta com mais de 160 mil seguidores. (Números atualizados:

O balança da campanha virtual de Barack Obama à presidência america, apresenta números de peso, conforme compilados no livro “Um voluntário na campanha de Obama”, de César Busatto, Editora Coletiva:

  • a lista de e-mails de Barack Obama é formada por mais de 13 milhões de endereços  – e mais 5 milhões de apoiadores se reuniram em diversas redes de relacionamento;
  • a assessoria do candidato enviou mais de sete mil diferentes mensagens ao longo da campanha;
  • o número de e-mails encaminhados superou a 1 bilhão;
  • o número de pessoas que se inscreveram para receber mensagens de texto por telefone chegou a 1 milhão;
  • no dia da eleição, pelo menos 3 mensagens de texto foram enviadas a cada eleitor inscrito no programa;
  • os apoiadores de Obama recberam, em média, entre 5 e 20 mensagens por mês, dependendo de onde viviam;
  • foram escritas cerca de 400 mil postagens de blog;
  • mais de 5,4 milhões de ususários clicaram o botão “Eu votei”, no dia da eleição, para avisar seus amigos do Facebook que eles haviam comparecido às urnas.

Será que a equipe de Marina vai ter o mesmo fôlego. Dados os percentuais nas pesquisas eleitorais, vai ser preciso muito fôlego para ter chances reais de concorrer à Presidência. Principalmente porque no Brasil apenas 30% da população tem acesso à internet, enquanto nos EUA são 74%, de acordo com http://www.internetworldstats.com/ .

Se depender da mobilização individual, estamos aí para fazer a diferença. Por enquanto, pelo que fez, pensa e traz, meu voto é da Marina Silva. Vamos ver a equipe e o plano de governo.

PS: A mesma matéria falava que Marina Silva é mantenedora de utopias. Acredito que seja mesmo. E utopia, na minha visão, é algo extremamente útil, para dar uma direção de mundo para a sociedade.

Sustentabilidade, por exemplo, é uma grande utopia. Nenhuma empresa, País ou sociedade será extremamente sustentável como os Na’Vi, de Pandora, no filme Avatar. É impossível no jeito em que aprendemos a pensar e a conceber o mundo (Einstein: “Não dá para resolver os problemas do mundo com a mesma mentalidade que usamos para criá-los). Sustentabilidade é uma utopia, sim, que aponta caminhos e possibilidades de se construir uma relação mais estável, segura e viável com o planeta em que vivemos.

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Entenda o impacto da construção da usina de Belo Monte

Artigo muito relevante sobre a construção da hidrelétrica de Belo Monte, escrito por Marina Silva.
É um projeto que pode ter um grande impacto ambiental e social, mas que está caminhando sem a devida atenção de quem pode influenciar. É a velha discussão do progresso e desenvolvimento, mas os tempos são novos.
Precisa mesmo construir algo nesses moldes e com o impacto que terá, sabendo que desperdiçamos boa parte da produção da energia do país graças a uma rede de distribuição obsoleta e cheia de falhas. Realmente não sei a resposta, mas talvez não estejamos discutindo o suficiente.

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Quinta, 4 de fevereiro de 2010 Pandora é aqui?

Marina Silva
De Brasília (DF)

Pandora é aqui?

O Ibama concedeu a licença prévia para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Trata-se de um projeto muito polêmico, localizado no rio Xingu, no Pará, próximo ao município de Altamira, numa região conhecida como Volta Grande do Xingu. O nome deve-se ao desenho do rio que, visto de cima, assemelha-se a uma “ferradura”.

Por meio de barragens, as águas do rio serão desviadas para um canal que unirá as pontas mais próximas dessa “ferradura”. Ao final desse canal, as águas passarão pelas turbinas antes de retornarem ao seu curso normal.

Como tudo na Amazônia, os números que envolvem a obra são gigantescos. A quantidade de terra e pedra que será retirada na escavação do canal é cerca de 210 milhões de m³ – um pouco menor da que foi removida na construção do Canal do Panamá. E ainda nem se definiu qual a destinação desse material.

Pelo leito do rio Xingu passa uma vazão de 23.000 m³/s de água no período de cheia. Um volume correspondente a quatro vezes a vazão, também nos períodos de cheia, das Cataratas do Iguaçu.

Os impactos socioambientais também terão essa mesma ordem de grandeza. E ainda não foram concluídos. Só sobre a fauna, segundo dados coletados durante o Estudo de Impacto Ambiental, podemos ter uma idéia. Na área existem 440 espécies de aves (algumas ameaçadas de extinção, como a arara-azul), 259 espécies de mamíferos (40 de porte médio ou grande), 174 de répteis e 387 de peixes.

Apenas a eficiência energética da usina não será tão grande. Uma obra colossal que custará certamente mais de R$ 30 bilhões – se somados todos os gastos, como o custo e a extensão da linha de transmissão, por exemplo – terá uma capacidade instalada de gerar, em média, 4.428 MW, em razão do que poderá ser suportado pelo regime hídrico do rio, nesta configuração do projeto. E não os 11.223 MW que estão sendo equivocadamente anunciados.

A energia média efetiva entregue ao sistema de distribuição será de 39% da capacidade máxima de geração, enquanto a recomendação técnica indica que essa eficiência seja de pelo menos 55%.

Para que Belo Monte possa apresentar um grau de eficiência energética
compatível com as recomendações técnicas, seria necessária a construção de outras três hidrelétricas na bacia do rio Xingu, que teriam a função de regularizar a vazão do rio. Por ora, a construção dessas usinas foi descartada pelo governo porque estão projetadas para o coração da bacia, onde 40% das terras pertencem aos indígenas.

No entanto, a insistência em manter o projeto nessa dimensão (apesar de haver alternativa de barragem com quase metade da capacidade instalada e perda de pouco mais de 15% na potência média gerada) provoca forte desconfiança, tanto dos analistas como das comunidades e dos movimentos sociais envolvidos, de que a desistência de construir as outras três hidrelétricas seja apenas temporária.

A população indígena – são mais de 28 etnias naquela região – ficará prensada entre as cabeceiras dos rios que formam a bacia, hoje em processo acelerado de exploração econômica e com alto nível de desmatamento acumulado. E a barragem, além de interromper o fluxo migratório de várias espécies, vai alterar as características de vazão do rio.

É incrível que um empreendimento com esse nível de interferência em ambientes sensíveis seja idealizado sem um planejamento adequado quanto ao uso e à ocupação do território.

A solução de problemas dessa dimensão não pode ser delegada exclusivamente a uma empresa com interesse específico na exploração do potencial hidrelétrico, com todas as limitações conhecidas do processo de licenciamento.

Com a obra, são esperadas mais de 100 mil pessoas na região. Não há como dar conta do adensamento populacional que será provocado no meio da floresta amazônica, sem um planejamento para essa ocupação e um melhor ordenamento do
território. Isso só pode ser alcançado através da elaboração de um Plano de Desenvolvimento Sustentável na região de abrangência da obra.

Essa foi uma grande omissão nesse processo, mas não a única. Não temos como deixar de indagar se não há outros aproveitamentos hidrelétricos que seriam mais recomendados, sob o ponto de vista dos impactos ambientais ou da eficiência energética.

No entanto, não há projetos com estudo de viabilidade técnica e econômica prontos para serem submetidos ao licenciamento ambiental. Apesar de o diagnóstico ser conhecido desde 2003, apenas em meados do ano passado foram finalizadas as primeiras revisões de inventário de bacia hidrográfica, como a do Tapajós.

Com isso, projetos polêmicos e com grandes impactos têm que ser analisados em prazos muitas vezes incompatíveis com o grau de rigor que deveriam ter, numa clara demonstração de como, muitas vezes, os ativos ambientais são afetados pela falta de planejamento de outros setores de governo.

Porém, nada foi mais afetado do que nosso compromisso ético frente à responsabilidade com o futuro de povos e culturas. Não foram sequer feitos estudos sobre os impactos que os povos indígenas terão. Só para exemplificar, o que significará para eles ter a vazão reduzida significativamente num trecho de 100km em função do desvio das águas para o canal? O plano de condicionantes tampouco menciona a regularização de duas Terras Indígenas (Parakanã e Arara), já bastante ameaçadas.

Estas e outras comunidades indígenas manifestam inconformidade por não terem sido ouvidas adequadamente, segundo os preceitos da Resolução 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil, mas nunca implementada para valer.

O Brasil possui um importante potencial de geração de energia hidrelétrica a ser desenvolvido. Mas as dificuldades em retomar o planejamento do setor na velocidade que possibilite escolhas e uma análise segura por parte do setor ambiental, somada à indisposição em discutir uma proposta de desenvolvimento sustentável para as obras de infraestrutura localizadas na Amazônia, à percepção de que o governo não faz o suficiente para melhorar a eficiência energética do sistema (não só na geração) e para desenvolver as energias alternativas, acaba por produzir conflitos agudos e processos equivocados, que poderiam ser evitados.

Apesar dos discursos em contrário, ainda estamos operando no padrão antigo, que considera o meio ambiente como entrave ao desenvolvimento. Temos ainda um longo dever de casa a ser feito para ingressarmos definitivamente no século 21. Quem pensa que a história relatada no filme Avatar só pode ocorrer em outro planeta, engana-se: Pandora também pode ser aqui.

* Marina Silva é professora de ensino médio, senadora (PV-AC) e ex-ministra do Meio Ambiente.*

*Fale com Marina Silva:
marina.silva08@terra.com.br<%20marina.silva08@terra.com.br>

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Independência do marasmo

Em homenagem ao dia da Independência, que já está se indo, segue uma reflexão sobre a candidatura da Marina Silva, uma independência do marasmo político-intelectual que nos tem assolado. Em tempos de incríveis mudanças no mundo, assistir a toda a discussão em torno do pré-sal sem nenhuma reflexão de qual seria o impacto disso na qualidade do ar, na atmosfera, na saúde pública, é dureza. Pelo menos agora a Dilma ‘teve’ que falar em meio ambiente. Se não pensava, agora é obrigada ao menos a falar sobre isso.

Vamos lá, Independência da mesmice, ou morte!

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Marina Silva, um futuro sustentável para o Brasil
Por Denise Ribeiro, especial para a Envolverde
No sábado, dia 29 de agosto, um grupo se reuniu, sem alarde, num hotel paulistano para pensar o Brasil. E contribuir com ideias para a plataforma de um eventual governo da candidata do PV.
Que o sistema político brasileiro está vencido não é novidade alguma. Que a polarização da próxima disputa à presidência da República provoca bocejos, idem. Serra, o mal humorado, ou Dilma, a destemperada? Você prefere um gerente burocrata para nosso país que use calças ou saias? Totalmente inconformado com esse cenário desolador, que se pretende inescapável, um grupo de pessoas se reuniu nesse sábado no hotel Georges V, em São Paulo, disposto a interferir nessa paisagem.
Durante o sábado inteiro empresários, economistas, cientistas sociais, professores, lideranças políticas e sindicais, jovens estudantes, catedráticos da GV e da USP, jornalistas – éramos cerca de 40 pessoas – vivenciamos, num ambiente informal, denso de ideias e superdemocrático, um debate de princípios seguido da firme convicção de que podemos mudar o Brasil.
A saída para essa mesmice política, que nos envergonha e paralisa, para nós tem um nome: Marina Silva. Principalmente porque carrega uma história de 30 anos, marcada pelo bom combate em defesa dos princípios socioambientais. A trajetória brilhante da senadora a credencia para o cargo mais alto do país, porque hoje, mais do que nunca, precisamos da expertise de Marina. Porque, qualquer que seja o presidente escolhido, ele terá de enfrentar um dos maiores desafios da humanidade, desde que passamos a habitar e a modificar a Terra: o aquecimento global. E nos parece extremamente sintomático (e alarmante!), que nem Serra, nem Dilma – e nem FHC e nem Lula – tenham dado ao tema o sentido de urgência que ele traz embutido.
Como 95% da comunidade científica mundial não têm dúvida de que só decisões políticas sérias poderão nos tirar dessa bela enrascada em que nos metemos, é preciso coragem para tomá-las. E não podemos esperar 30 anos mais, embalados pela desfaçatez de interesses escusos, até que nossa classe política responda aos anseios da sociedade civil.
Queremos seriedade, honradez, ética, solidariedade; educação e saúde de qualidade; segurança, inclusão e justiça social; o fim da prevaricação, do nepotismo, da subserviência aos lobbies corporativos, do butim aos cofres públicos, da locupletação. Queremos a restauração do verdadeiro espírito
democrático, uma máquina estatal eficiente e transparência na distribuição dos tributos – afinal, para onde vão os 40% arrecadados de nossa renda?
Queremos discutir uma agenda que transcenda a pequenez de interesses meramente partidários ou eleitoreiros. Queremos uma campanha moldada por um ideário consistente, que resulte num novo perfil para o Brasil a longo prazo.
Queremos tudo isso, porque é isso o que a sociedade almeja. Uma amostragem de 500 mil brasileiros deixou bem claro o que deseja, na campanha Brasil Ponto a Ponto, capitaneada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Pessoas de diferentes faixas etárias, classes sociais e de todos os cantos do país responderam à seguinte questão proposta: “O que precisa mudar no Brasil para a sua vida melhorar de verdade?”. Em primeiro lugar, como sempre, ganhou Educação, mas em segundo, terceiro e quarto aparecem, respectivamente, Política Pública, Violência e Valores.
Foi consenso, na reunião, que os últimos 16 anos serviram para colocar o Brasil nos trilhos. FHC nos deu o prumo econômico, Lula deu ênfase à agenda social. Agora é hora de saber a direção que queremos dar para esse trem. Se queremos, de fato, ser exemplares no cenário de transição para o baixo carbono – inevitável nos próximos cinco anos –, precisamos, também, de uma sólida agenda ambiental. É hora de redefinir nosso modelo de desenvolvimento, de repensar nosso pacto federativo, de disponibilizar ferramentas para que a economia verde deslanche. Trazer para o centro da estratégia de governo a ciência e a tecnologia, para que a “química verde” prospere. É preciso investir em políticas públicas – como a criação de uma estrutura de incentivos – que proporcionem uma relação salutar entre a sociedade e o meio ambiente.
Por que não ter, a exemplo da Lei de Responsabilidade Fiscal, uma Lei de Responsabilidade Socioambiental? Por que não cruzar todos os indicadores produzidos por ONGs, Oscips e outras entidades, correlacioná-los, interpretá-los e usá-los como instrumentos de mudança? Por que não incluir na formação do preço do aço, dos minérios, do petróleo (e toda sua cadeia produtiva), da carne o custo da água, da degradação do homem e dos recursos naturais?
Não queremos um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), cuja finalidade é o “crescimento econômico”, em detrimento ao bem-estar do conjunto da sociedade. Na reunião, foi consenso que o Brasil vive um momento histórico único, em que pode desfrutar do protagonismo no cenário mundial. Temos uma matriz energética limpa, moeda estabilizada, pesquisas avançadas em biocombustíveis, um mercado interno de 100 milhões de pessoas. E ainda exportamos tecnologia em gestão social.
Para não perder o bonde da história nos próximos 10 anos, é preciso capacidade de enxergar o futuro. Aceitar a idéia de governança global, que vem ancorada num conceito mais amplo de soberania. Repensar o papel do mercado e o perfil de consumo. Enfrentar com mão forte a inércia dos burocratas educados sob a visão do controle e do planejamento centralizado.
A nova agenda brasileira pede a reestruturação da sociedade e a construção de uma competitividade autêntica. Será que é autêntica a pujança da indústria paulista que gasta mais energia hoje, por unidade de produto, do que gastava há 20 anos atrás? É uma boa escolha, para a maioria dos brasileiros, privilegiar o transporte individual e investir num trem-bala que consumirá recursos suficientes para construir 45 km de linhas de metrô? Enquanto patinamos em nossas escolhas, a China começa a ampliar sua rede ferroviária, que deverá se espalhar por 13 mil km até 2020.
Como disse um economista em sua exposição, “os próximos 10 anos serão estratégicos para calibrar nosso otimismo em relação ao século 21”. As dificuldades são imensas, mas também representam enorme abertura para negócios inovadores.
Para implantar a “economia do meio ambiente” a sociedade precisa se unir, se mobilizar na direção dessas oportunidades. As propostas serão legitimadas pela ampliação do raio de alianças. O desafio é sensibilizar sindicatos, entidades e associações, cooptar a imprensa, motivar os jovens. Usando para isso todos os fóruns de discussão disponíveis: blogs, sites, redes sociais, reuniões paroquiais, universidades, centros culturais, sedes de associações representativas. Vamos identificar “curadores de ideias”, homens e mulheres capazes de levar informação para as pessoas comuns. A degradação de valores na sociedade ocidental chegou a um ponto que preferimos a alienação – nos retirando do cenário – à tentativa de lutar em favor de um novo modelo de vida.
Marina Silva aparece não como salvadora da Pátria, mas como a curadora-mór, a que fará a ponte entre as inevitáveis regras políticas e os anseios da população. A senadora tem biografia e autoridade suficientes para liderar esse processo de construção de uma nova visão de desenvolvimento. Em que o crescimento elimine as mazelas da nossa crônica desigualdade social e da nossa aguda falta de sensibilidade em relação à diversidade cultural e biológica do país.
(Envolverde) * Denise Ribeiro é jornalista.
(Agência Envolverde)

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