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De onde vem tanta safadeza? Da moral de cuecas…

É sempre surpreendente a habilidade que os cartunistas têm de retratar o mundo com poucos traços.

Abaixo, Amarildo captou o maior paradoxo da sociedade brasileira. A culpa é sempre do outro. A culpa da corrupção é toda dos políticos, sem saber que a sociedade é formada por cada de um de nós, com nossas escolhas, principalmente as do dia-a-dia. 

Mais abaixo, o que os gaúchos chamam de “moral de cuecas”, a lição de moral de quem não tem moral para falar. 

A safadeza nossa de cada dia

 

"O que pretende fazer a respeito?"

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Temos jeito, sim

O resgate da civilidade? foto: Agencia Estado

Outro dia, quis enviar uma frase para um amigo para ajudá-lo a passar um momento difícil e fui na minha coleção de frases destacadas dos livros. Acabei esbarrando em um aforismo genial.

Esta frase fez especial sentido ao ler hoje de manhã a notícia de que a presidente Dilma Rousseff está em plena lua-de-mel com o governador de São Paulo Geraldo Alckmin. (Leia matéria aqui no Estadão.)

Há quem diga que isso é extremamente interesseiro de ambas as partes. Isso porque Dilma precisa de um alívio da oposição neste momento em que perde apoio da base aliada em função da limpeza que promove em quatro ministérios e porque Alckmin quer levar dinheiro do governo para seus projetos.

Independentemente disso, vejo isso como uma demonstração de maturidade. Principalmente porque estamos falando do combate a miséria. Como diz a matéria:

Alckmin e Dilma firmaram acordo de unificação dos programas de transferência de renda paulista e federal. Os beneficiados, cerca de 1 milhão de famílias, terão um mesmo cartão para sacar os recursos do Bolsa Família, do governo federal, e do Renda Cidadã, do Estado.

Assim como no momento em que FHC passou a faixa para Lula em 2002 – mesmo que no segundo seguinte já tenha começado a ser bombardeado sobre herança maldita – esta busca de entendimento tem como pano de fundo a união de ideais na construção de um Brasil melhor. A carreira política para mim é um tanto binária nas motivações: 1) você está lá para isso, para servir a uma causa, ao seu País ou 2) você está lá para servir a sua causa, valorizar os seus próprios interesses.

Obviamente, há tons de cinza no meio da história e às vezes é preciso ceder para chegar onde se quer (alguns utilizando valores morais como critério, outros valores financeiros…), mas a motivação inicial vai continuar sendo uma das duas – e você vai persegui-las, desviando dos obstáculos no caminho.

Quando a presidente Dilma manda para casa ou inviabiliza a permanência de ministros que pedem demissão, vejo-a a serviço de uma causa. Não votei nela e tinha muito pouca esperança no que ela poderia fazer à frente do governo, mas preciso confessar que estou muito positivamente surpreendido.

São de pequenos sinais que precisamos para construir um país mais decente para se viver. Reconhecer o trabalho bem-feito de quem foi peça-fundamental na construção deste Brasil cheio de oportunidades que temos hoje faze parte disso. Foi o que Dilma fez na comemoração de 80 anos de FHC. Mandar sinal de que não tolera corrupção em troca de apoio em votação no Congresso é também outro sinal.

E isso, não tenho dúvida nenhuma, influencia a atitude dos cidadãos. Há cerca de 15 dias, Gilberto Dimenstein capturou muito bem um sua coluna na Folha de São Paulo um momento de resgate da cidadania que estamos passando no Brasil. A campanha em São Paulo para respeitar a faixa de pedestres (com multas, sim, mas isso faz parte) é um bom exemplo. Agora à noite fui parado numa blitze de direção segura, soprei o bafômetro e por sorte o vinho do almoço já tinha zerado no organismo. Fazia cerca de três anos que não passava por isso em São Paulo. A proibição do fumo em restaurantes é outro exemplo. Quem reclama hoje de uma medida assim, vai olhar para trás daqui a três anos assim como olhamos para o fato de que era permitido fumar em aviões!

Enfim, acho que temos jeito, sim. Podemos ser um país civilizado. As pessoas que acham bonito atravessar na faixa na Europa e nos Estados Unidos não vão mais esquecer que os pedestres daqui são iguais a elas quando são turistas em férias.

É dever de cada um de nós respeitar as regras básicas de convivência. Assim como é o de votar e exigir os direitos como cidadãos. E aí deixo aqui a frase que mencionei no início do texto:

“O maior castigo para aqueles que não se interessam por política, é que serão governados pelos que se interessam”– Arnold Toynbee.

Florença, berço de Maquiavel. Foto: Rodrigo V Cunha

Pouco interessa, para alguns, o que os políticos estão fazendo. No caso da aproximação de Dilma e Alckmin, por mais Maquiavélica que seja, vejo mais do que um tom episódico. Vejo um instantâneo de um momento épico pelo qual passamos como nação. Com o ideal de um país melhor atropelando a mesquinhez humana, que tanto aparece na política, que no fundo é a essência da nossa alma. A política. Quer gostemos dela ou não.

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A superpotência do amor

Brasil, acordando para o seu potencial

Quem ainda não viu, precisa ver o documentário da CBS com a visão americana sobre o Brasil. São 13 minutos falando sobre o despertar do país. Foi ao ar no final do ano passado e virou uma espécie de viral agora. É curioso ver o ponto de vista dos gringos sobre as terras tupiniquins. O tom é até meio festivo, em alguns momentos superficial (e dificilmente seria diferente em uma reportagem de 13 minutos para a televisão) e por isso é que vale a pena ver. Nossa imagem no final das contas é positiva.

Há entrevistas com Eike Batista, Lula e Eduardo Bueno (o jornalista também conhecido como Peninha).

O tom é o de que o país do futuro está se tornando o país do presente.

A certa altura, Eike Batista diz: “Hello, americans, you need to wake up”.

Lula, para dizer que o Brasil está bem, diz que os bancos nunca ganharam tanto quanto no governo dele, que as montadoras nunca venderam tantos carros, e que os trabalhadores nunca tiveram tanto dinheiro. De tão confiante, ele até dá a receita do sucesso para liderar!

Lula descobriu o receito para governar: fazer o óbvio

“O sucesso de um governante é fazer o óbvio, mas que alguns insistem em fazer o diferente”, diz Lula.  Para ele, uma das coisas era diminuir a diferença entre ricos e pobres.

Eduardo Bueno, o Peninha, diz que o sucesso de Lula está no fato de ele ser “streetwise”, sabe como se virar. Um cara que fala com o povo, banqueiros e com Obama.

Sobre o futuro, o programa fala que Dilma foi eleita porque Lula não podia ir para o terceiro mandato.

“Nós não somos cidadãos de segunda classe. Podemos acreditar em nós”, fala Lula.

A CBS até arrisca a falar no jeitinho brasileiro, o “Brazilian way”. Na tradução, dizem que jeitinho brasileiro siginifica se perguntar: “porque fazer algo hoje se pode ser feito amanhã.”

Ao Eduardo Bueno, a TV pergunta sobre a frase de De Gaulle, que dizia que o Brasil não era um país sério. Peninha diz que ainda não somos em vários aspectos. Dá como exemplo o fato de que as pessoas combinam de ir uma na casa das outras, mas acabam não aparecendo. E aí ele pergunta: “Como fazer negócios deste jeito?”

Aí, a CBS faz o contraponto, mostrando as favelas e traficantes derrubando helicóptero policial com metralhadoras. Para em seguida, voltar ao tom positivo, dizendo que já são 13 unidades pacificadas e muitas outras por vir.

As favelas começam a ganhar a cara de Tarsila do Amaral

O repórter lembra da Copa do Mundo e que a Fifa está dizendo que o Brasil está atrasado para a Copa. “Temos que tomar cuidado com o perfeccionismo europeu porque eles acham que tudo o que fazem é bem mais feito do por aqui. Podem ficar tranqüilos, que organizaremos tudo a tempo”, diz Lula.

Em seguida, Peninha diz: “Querem fazer em quatro anos o que não foi feito em 500 anos. É claro que não vamos estar prontos.

A entrevista continua: Qualquer coisa que acontecer no Brasil, não podem dizer que foi por falta de dinheiro. E fala-se da mina de ouro, o pré-sal. “São trilhões de dólares lá embaixo. Significa que o Brasil será o 3º ou 4º maior produtor de petróleo”, diz Eike.

Para finalizar, a reportagem diz que Brasil, China, Russia e India (BRICs) serão as próximas potências, de acordo com estudos de especialistas.

E aí, vem a pérola: “Brasil será um tipo diferente de potência nuclear, fazendo amor e não guerra.” Afinal, lembra a reportagem, o Brasil é um país pacífico desde 1870.

Brasil: superpotência do amor

“Porque lutar, se podemos ir para a praia, jogar ou assistir futebol? Let’s drink a beer”, diz o bon vivant Eike Batista.

Só faltou mesmo falar do Plano Real e que o Brasil não começou com Lula, apesar de todos os méritos de seu exitoso governo que foi coroado com a eleição da sucessora Dilma.

De qualquer maneira, o Brasil está conquistando seu lugar ao sol apostando no soft power (cultura, relacionamento) e não no hard power (poder bélico, guerra, economia). É um jeito de ganhar espaço no mundo. Mais ou  menos como aquele cara na escola que por não poder ganhar na força,  vai levando na simpatia e no bom-papo. Somos nós. “É nóis!”. Veja o vídeo:

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O matador e os filmes de matadores

Sempre tem discussão boa com as pessoas com quem trabalho. É um ótimo jeito de formar opinião sobre assuntos relevantes para a época em que vivemos. Qualquer coisa é motivo de discussão: wikileaks, política, jeito de usar redes sociais e impactos na imagem e, obviamente, futebol. Mas o assunto de hoje pela manhã foram as mortes nos Estados Unidos. Surgiram bons e argumentos e reflexões a partir do texto abaixo, de Eugenio Bucci, sobre possíveis causas sociológicas dos matadores casuais americanas, que se repetem como avassaladoras chuvas de verão na região Sudeste do Brasil.

O sempre atento @dkeichi enviou o vídeo abaixo, de Charlie Broker, que tem um programa na BBC, em que faz análise da mídia

]

Resumidamente, Daniel elencou abaixo o que dizem os especialistas em relação a como a imprensa deve tratar estes casos:

1) Tratar a notícia da maneira mais entediante possível, sem nenhum sensacionalismo.

2) Não mostrar cenas, reconstituições, depoimentos de pessoas, etc

3) Não divulgar o nome do atirador, puxar perfis do facebook, posts de blogs pessoais, etc.

4) Não mostrar a foto do atirador.

E a conclusão: “É exatamente o que a imprensa não faz, e esses mesmos especialistas dizem que tal prática só incentiva que mais mass shootings aconteçam. Tudo que um louco desses quer é a glória de uma frontpage e sentir que “I showed the world my feelings”.

Btw, não sei se concordo muito com a influência dos filmes.”

Bom, concordo com tudo que @dkeichi diz, só não com a visão sobre os filmes. Enquanto pensava na argumentação, não pude deixar de lembrar do

Jack Bauer, do seriado 24 horas. É o louco com a arma na mão que faz tudo por justiça. (O seriado é legal, vi algumas temporadas, mas há questões éticas envolvidas.) No final das contas, ele é o herói justiceiro. E no imaginário entorpecido destes matadores (cujo nome não digo aqui também e aliás, nem sei…), isso é o jeito de se fazer justiça.

Estes filmes de heróis justiceiros desde sempre povoam o imaginário coletivo americano. Dirty Harry, Duro de Matar, Chuck Norris, Rambo, Cobra, Exterminador do Futuro. A lista é gigantesca. São filmes famosos, que vendem muito e devem passar toda hora na sessão da tarde americana. Dá nisso. O cinema, a arte, ajuda a moldar a cultura e influenciar atitudes. Se a família estiver por perto e ajudar a contextualizar a violência (“Isso é só um filme!), acredito que ajude a colocar o filme no seu lugar certo. É só um “achismo” e eu adoraria ver algum estudo sobre isso. Portanto, se alguém o tiver aí ou algo para colaborar na discussão, por favor.

Segue o artigo publicado no Estadão hoje.

”Be a killer, be a star

Eugênio Bucci – O Estado de S.Paulo

O leitor haverá de perdoar o título em inglês, mas isso nem é bem um título de artigo – é, isso sim, um imperativo, uma lei não escrita e, não obstante, reiterada diariamente pelos mil alto-falantes da indústria de entretenimento, na língua dos filmes de guerra de Hollywood, com sabor de bombardeio: é um mandamento que tem gosto de slogan publicitário e de sentença de morte. Por isso vai no título assim mesmo, em inglês. Fica mais claro. A adoração da violência, da qual o espetáculo que nos cerca não consegue mais escapar, ordena, todos os dias, a todos os adolescentes que não veem sentido na vida: “Be a killer, be a star.” Mate e fique famoso. Se viver é uma tolice, matar será a sua trilha para o estrelato.

As evidências surgem em profusão. Agora, no fim de semana que passou, explodiu mais uma. Em Tucson, no Arizona, um rapaz de 22 anos, cujo nome não será digitado neste texto, disparou a sua arma contra inocentes aglutinados num evento público. Matou seis pessoas e feriu gravemente a deputada democrata Gabrielle Giffords, que tem chances de sobreviver. Sim, o roteiro é conhecido. Essa modalidade de crime vem se banalizando nos Estados Unidos, num script sempre idêntico, no qual só varia o nome das cidades, dos assassinos e de suas vítimas – o resto é igual: um jovem que, segundo depoimentos dos professores e vizinhos, era “estranho” e “desequilibrado”, tanto que cultuava ideais nazistas ou análogas, sofre um revés na escola, vai a uma loja do bairro, compra um fuzil ou uma garrucha e mata meia dúzia de conterrâneos.

Por quê? Aí está o ponto: as evidências são clamorosas e repetitivas, mas a compreensão do que se passa é mínima, quase miserável.

A maior parte das explicações faz referência ao fetiche que a cultura americana desenvolveu pelas armas de fogo. Alegam que espingardas e pistolas são objetos de desejo e, mais grave, estão à venda em qualquer esquina dos Estados Unidos. Um bom exemplar dessa linha de explicações pode ser visto no filme Tiros em Columbine, de Michael Moore, que levou o Oscar de melhor documentário em 2003. A partir de um caso semelhante a esse de Tucson, o filme de Michael Moore critica acidamente o fascínio da sociedade americana por equipamentos bélicos em geral. É claro que Michael Moore aponta um dado real, mas não resolve a charada. Proibir o comércio de armas de fogo não solucionaria a questão; a causa não é apenas essa e talvez não seja fundamentalmente essa. Há mais fatores a considerar.

Agora, no crime de Tucson, em que uma bala atravessou a cabeça da deputada Gabrielle Giffords, que é odiada pelos republicanos linha-dura, aparece com mais clareza outro ingrediente: as ideologias intolerantes, quase sempre de corte ultraconservador, comparecem como um denominador comum entre esses criminosos. Outra vez, o dado é real, mas parcial e perigosamente enganoso, pois pode levar a crer que esse tipo de crime é coisa de gente “de direita” – e não é, ou não é só de gente “de direita”.

O que falta ser levado em conta, aí, é o papel estruturante da indústria do entretenimento, tal como ela foi moldada pelo mercado americano. É essa indústria que fornece o repertório de signos, símbolos e narrativas pelo qual os valores da violência, da xenofobia e da intolerância ganham sentido. O fetiche da arma de fogo só virou uma categoria sólida na sociedade americana – e na sociedade global, por extensão inevitável – porque encontrou lugar nuclear no modelo do herói consagrado pelo entretenimento. Esse herói é o indivíduo solitário que, com sua integridade (ou turrice) e sua força, moral e física, enfrenta o “sistema”. Para ele, a acusação de ser desajustado é bobagem. Ele não liga. Ao contrário, ele até se sente fortalecido quando cai no estereótipo de “incompreendido”. O herói de Hollywood, tal como foi esculpido ao longo do século 20, é aquele que, em nome do bem, que só ele sabe qual é, recorre à violência mais selvagem; é aquele que se mata em nome de sua própria teimosia. Então, a mocinha que o ignorava irá chorar por ele. É nesse modelo de herói, precisamente nele, que se refugia o psiquismo desse tipo de criminoso. As mesmas manchetes (de jornais, revistas, rádio, televisão e internet) que o denunciam, expondo sua foto, sua biografia e suas esquisitices, fazem com que ele se sinta glorificado, num tempo em que é glamouroso, como nunca foi, fazer o papel de bandido corajoso. São essas as manchetes que ordenam: “Be a killer, be a star.”

Antes que se pense, então, que a saída estaria num recuo da imprensa, que teria de deixar dar destaque aos assassinos, é bom avisar: também nesse ponto existe uma armadilha. Assim como a raiz do problema não está na venda de armas nem nas ideologias “de direita”, ela também não está na tal “mídia”. Ela está, antes, na combinação dos três fatores que foram listados aqui: a idolatria das armas e de seus senhores, a intolerância extremada e, finalmente, o fator que articula os outros dois, o chamado “star system”, no qual ser estrela vale mais do que viver ou deixar viver. Essa é uma combinação poderosa, profunda, que não se resolve com proibições burocráticas. O público deseja (com um ardor demasiado, é verdade) ver de perto essas tragédias reais, e tem o direito de vê-las. Aos jornais cabe narrar as tragédias. A pergunta é: por que o jornalismo não tem sido capaz de ajudar o público a compreender essas tragédias?

Em parte, porque a imprensa se tornou parte da indústria do entretenimento e, com isso, perdeu distanciamento para criticar os fundamentos dessa indústria. Ela vê criticamente o mercado de armas e o obscurantismo das ideologias, mas não visualiza direito como entretenimento e violência se entrelaçam. Sem se dar conta, a imprensa é o céu estrelado pelos assassinos que ela ajudou a convocar.

JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP E DA ESPM”

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A onda verde veio para ficar

Crescimento do Partido Verde mostra que país amadureceu

E  a grande vitória nas eleições de 2010 no Brasil foi a de uma nova visão de mundo. Marina Silva começou tímida, nos 9% e encerrou a votação com 20% dos votos válidos. Dobrou de tamanho no período.

Marina trouxe com ela muita gente boa, com muitas ideias. Nem tão revolucionárias, simplesmente modernas, alinhadas com o espírito do tempo, sintonizadas com as mudanças que a sociedade deseja.

Lembro de no dia seguinte a ela ter anunciada sua candidatura, muitos jornalistas de grandes veículos tentando entender e explicar o que era sustentabilidade ambiental, social, às vezes confundindo todos os conceitos.

Marina venceu preconceitos sobre criacionismo, evangelismo e aborto. Nunca fugiu do debate e sempre mostrou que sua visão de mundo era maior do que todas estas questões somadas.

Há pouco, na TV, disse que não era ela que definiria sozinha para quem seus votos iriam. Lembrou que os votos são dos eleitores e que há muita gente envolvida para decidir. Não importa bem para quem vai. O fato é que o Partido Verde ganhou musculatura. Ganhou força para levar adiante uma visão de mundo mais integrada, interdependente, que mostra que o bagre da Amazônia interessa, sim, quando se vai construir uma hidrelétrica. Tá, é um exemplo bobo, mas serve para ilustrar o preconceito que se carrega contra quem foge da corrente e diz que há coisas mais importantes no mundo do que lucrar, conquistar e acumular poder.

A esperança que Marina acendeu não é pequena. E suas ideias ficarão vivas ainda nesta eleição. Não é questão de escolha. É fato, referendado por quase 20 milhões de eleitores. Não é pouco não. Dobrou de tamanho em algumas semanas.

E não vou falar do Tiririca. Prefiro falar que Collor, Netinho e Romeu Tuma ficaram de fora. Foi, portanto, grande também a vitória da democracia e o fato de termos o segundo turno nestas eleições.

Daqui para frente, só tende a melhorar. E o Brasil é cada vez mais o país do presente. Com inequidades continentais (vale ler o texto abaixo, de Clóvis Rossi, publicado na Folha de São Paulo de hoje), o que nos faz querer acompanhar de perto o debate do segundo turno.

Acho que a onda verde veio para ficar.

CLÓVIS ROSSI

Brasil vota, pobre mas feliz

SÃO PAULO – O Brasil que vai hoje às urnas é, na essência, do seguinte tamanho social: metade dos eleitores (67,5 milhões) ganham, no máximo, até dois salários mínimos.
Seria preciso torturar os fatos para dizer que pertencem à classe média, esse paraíso a que foram conduzidos 30 milhões de brasileiros segundo o ufanismo em voga.
Dos eleitores brasileiros, 13 milhões (10%, pouco mais ou menos) é pobre, pobre mesmo. Ganham menos de um salário mínimo. Figuram entre os 28 milhões excluídos do sistema público de aposentadoria e auxílios trabalhistas.
São, portanto, ninguém.
Também no capítulo educação, a pobreza é radical: 49% dos eleitores fizeram, no máximo, o curso fundamental.
Nesse país que tanto seduz a mídia estrangeira, mais de 60% de seus alunos não têm a capacidade adequada na área de ciências. No exame mais recente, o Brasil ficou em 52º lugar entre 57 países, no quesito ciência.
Alguma surpresa com o fato de que a sétima ou oitava potência econômica mundial é apenas a 75ª colocada quando se mede o seu desenvolvimento humano?
Não tenhamos medo das palavras: o Brasil que vai às urnas é um país pobre, obscenamente pobre para o seu volume de riquezas naturais, território e população.
É também obscenamente desigual, apesar da lenda de que a desigualdade se reduziu. É impossível reduzir a desigualdade em um país que dedica ao Bolsa Família (12,6 milhões de famílias) apenas R$ 13,1 bilhões e, para os portadores de títulos da dívida pública (o andar de cima) a fortuna de R$ 380 bilhões, ou 36% do Orçamento-2009.
Ainda assim, é um país mais feliz do que era há oito anos ou há 16 anos. Fácil de entender: “O pobre quer apenas um pouco de pão, enquanto o rico, muitas vezes, quando encosta na gente, quer um bilhão”, já ensinou mestre Lula.

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Debate 2.0, sustentabilidade bem comunicada, surfe na lona etc.

Comunicação bem-feita sobre sustentabilidade

Filme sobre gás natural – há cada vez mais exemplos bacanas de comunicação inovadoras no tema da sustentabilidade. Este filme estimulando o uso de gás natural é um excelente exemplo disso.

Aproveitando, vale conhecer esta seleção dos melhores anúncios de sustentabilidade feito pelo jornal inglês Guardian. Consta lá uma peça do Instituto Akatu (abaixo).

 

A peça do Akatu escolhida uma das melhores do mundo pelo Guardian

 

Crescimento vs desenvolvimento

Dei um curso de 7 horas de duração sobre Sustentabilidade e Comunicação neste final de semana em Porto Alegre. Em uma das dinâmicas, os alunos estudam alguns textos sobre o debate entre crescimento vs desenvolvimento. Ou seja, é possível desenvolver cidades, localidades, países, sem necessariamente precisar de crescimento econômico? Há uma série de economistas que dizem que sim. Um dos mais renomados pesquisadores deste tema é Herman Daly, que deu uma entrevista para a Revista Época Negócios. Seguem uma pergunta e o link para a entrevista completa: (Para os alunos que passarem por aqui, eis uma complementação ao curso!)

Mas o senhor vê alguma mudança na postura dos economistas mais ortodoxos?

De certa forma sim, porque as pessoas estão vendo com mais clareza as consequências da mentalidade do crescimento ilimitado. A economia de cada nação está limitada pelo seu pedaço na biosfera, mas elas ainda estão tentando crescer além disso, passando para o espaço ecológico de outros países. Essa é a mentalidade da globalização, que está agora chegando aos seus limites. Creio que essas ideias estão ganhando atenção por que de forma crescente elas parecem mais congruentes do que o crescimento para sempre. Claro que para os políticos, e para muitos economistas, ainda é venenoso falar sobre os limites ao crescimento.

Debate 2.0

A semana que passou teve o incrível debate dos candidatos à presidência do Brasil. Não que o debate tenha sido lá estas coisas, mas a repercussão via twitter foi a grande novidades. A baixa audiência na TV foi compensada pela grande quantidade de mensagens nas redes sociais. O candidato Plínio Sampaio virou trending topic no Twitter e no dia seguinte saíram análise sobre quem teria vencido o debate na visão dos usuários de redes sociais. Esta matéria no M&M online diz que Marina Silva saiu vencedora na discussão virtual.

Surfe na lona

O skate nasceu da vontade de surfistas californianos deslizarem em dias de verão, com poucas ondulações na costa oeste americana. E como surfe sem tubo não é a mesma coisa, eis que deram um jeito de trazer o tubo para o skate também. O tarp surfing, ou surfe na lona, já começa a ganhar alguma visibilidade. Um caso interessante de inovação no esporte.

TED Talk da semana – Jill Bolte Taylor

Foi uma das primeiras que vi e é uma das mais clássicas, disparado. Jill Bolte-Taylor, neurocientista, teve um derrame e virou seu próprio objeto de estudo. Esta é uma fala com alto nível de emoção. Vale a pena. (Veja aqui no site do TED, com legendas em português)

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Webcidadania, WikiLeaks, e webjornalismo in loco

A Webcidadania ganha força

Com a largada da campanha eleitoral e com a crescente mobilização e conscientização da sociedade (ainda que tenhamos muito a percorrer), vale falar um pouco de política.

No dia 29 de julho passado foi lançado o site Ficha Limpa, pela  Articulação Brasileira contra a Corrupção e a Impunidade (Abracci), com o apoio do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE). O site  apresenta um cadastro voluntário e positivo de candidatos que atendem à Lei Ficha Limpa e se comprometem com a transparência de sua campanha eleitoral. Trata-se de uma referência de candidatos que, além de se posicionarem de acordo com a lei, mostram compromisso com a transparência através da prestação de contas semanal de sua campanha eleitoral, informando a origem dos recursos obtidos e os gastos.

O site ainda não tem nenhum político cadastrado, mas essa iniciativa é parte de um movimento maior que começa a emergir na sociedade brasileira, e que atende pelo nome de webcidadania.

Vou citar dois que valem a pena e que já estão bem mais avançados:

Vote na web – para acompanhar de perto os projetos de lei  e dar uma prévia do voto da sociedade antes que os políticos se encarreguem de decidir por todo. Entre os destaques desta semana estão a “lei da palmada”, sobre castigos físicos impostos por pais aos filhos e uma lei que permite políticos a se candidatarem a cargos eletivos mesmo que não residam no domicílio eleitora.

Cidade Democrática – para criar e apoiar propostas para uma cidade melhor. Permite que se identifique pessoas com mesmos interesses para fortalecer o apoio a causas.

A arte de procrastinar

Esse é um vídeo muito legal, praticamente uma obra de arte digital sobre o que fazemos quando não estamos fazendo aquilo que deveríamos estar fazendo. Ou simplesmente aproveitando o não fazer nada.

A polêmica capa da Time

Esta capa deu o que falar durante a semana. Lembra uma clássica foto da National Geographic. Segundo o editor da revista, houve uma grande reflexão sobre colocar ou não a foto e se decidiu que sim para chamar a atenção do que pode acontecer se o Afeganistão for deixado para os talibãs. Houve até uma consulta a psicólogos infantis para saber o tamanho do trauma que poderia causar a crianças que veriam a capa da revista nas bancas. Há quem diga que é jogo baixo para convencer os americanos que o país deve continuar enviando tropas ao Afeganistão, mas algo não se pode negar: a jovem em questão teve o nariz cortado por ter fugido dos sogros, que a maltratavam. Uma barbárie em pleno século 21.

A capa da Time da semana passada e a clássica da NatGeo, de 1985

O penar de Palmares

Excelente post no blog Sustentável é Pouco do jornalista Denis Russo Burgierman sobre o que restou de Palmares depois dos estragos causados pela chuva. Traz um olhar novo para uma tragédia que foi coberta aquém do que deveria pelos grandes veículos da imprensa. Denis foi até lá, lembrando que jornalismo de verdade se faz no local e não pelo telefone.

O que sobrou de Palmares (AL)

WikiLeaks – o jornalismo nunca mais será o mesmo

O site voltou a ser notícia com o vazamento de milhares de documentos relativos ao Afeganistão. A pressão está forte sobre a estratégia americana, mas não parece que sairão do Afeganistão tão cedo. De certeza, fica a grande complexidade e irracionalidade da guerra, tão bem expressa nesta resposta de Eric Stover à repórter Carolina Rossetti em entrevista no Estadão:

O que significa contar a verdade sobre a guerra?

É o papel da inteligência – e dos jornalistas – penetrar o nevoeiro da guerra. Mas não existe uma coisa como total transparência em tempos bélicos. A névoa sempre ganha. Para citar McNamara: “A guerra é tão complexa que ultrapassava a habilidade da mente humana de compreender todas as suas variáveis. Nosso julgamento, nosso entendimento, não são adequados. E nós matamos pessoas sem necessidade.” Essa é a verdade da guerra.

Vale ainda conferir o post de Sergio Abranches com reflexão sobre o WikiLeaks

TED Talk da semana – Julian Assange

A entrevista surpresa com um dos líders do WikiLeaks, no TED Global (legendas em espanhol). Sua frase no dia, que já virou clássica e retuitada aos montes: “Homens capazes e generosos não criam vítimas, eles cuidam das vítimas.”

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