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Uma visita a uma loja da Patagonia

Dia desses, escrevi esse post para o trabalho. Ele foi editado para ficar no padrão. Segue agora a versão redux, sem cortes (a melhor parte do blog é que você é o seu próprio editor – para o bem e para o mal!)

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Sou fã de carteirinha, como se diz, de uma empresa chamada Patagonia (uma fabricante de roupas e equipamentos esportivos com um modelo de negócios sustentável – LEIA MAIS). Busco sempre informações sobre esse incrível caso de empreendedorismo, de negócios sustentáveis. O fundador Yvon Chouinard não abre mão de valores para fazer seu negócio prosperar. E no lugar de isso ser um problema, acabou se tornando um diferencial para o negócio. É um excelente exemplo para aqueles que acham que precisa passar a perna na concorrência, ‘molhar’ a mão do fiscal ou ter práticas “agressivas” (no pior sentido do termo) para fazer bons negócios.


Chouinard é bem radical em suas posições (veja matéria no site Treehugger, em inglês). Acredito que seja a maneira que encontrou para manter vivos os ideais do negócio, que continua extremamente inspirador. Quando hoje vemos empresas dizendo que são sustentáveis, logo ficamos com aquele pé atrás. É tanta gente sustentável que já não sabemos mais quem é, quem não é. Assim, para quem se importa com isso, fica um tanto difícil ter certeza de que o que você está comprando (produto ou serviço) vem mesmo de uma empresa que se preocupa sustentabilidade. Ainda mais quando vemos a pesquisa britânica que diz que 98% dos produtos dito sustentáveis pela própria propaganda, na verdade não o são (veja notícia no site TreeHugger).


Recomendo algo para quem quer ter certeza sobre as práticas da empresa. Fale com quem está no balcão. Vá até a loja, ligue para o call center, faça perguntas e você descobrirá facilmente se o que a empresa está falando em 30 segundos na televisão ou na página dupla da revista resiste a cinco com o funcionário na linha de frente.


Foi o que fiz na Patagonia, há cerca de um mês, em São Francisco, Califórnia (EUA). Quando pisei lá, vou exagerar um pouco, foi como entrar em um templo — no sentido de ser um lugar que carrega valores em que você acredita. E que no fundo é o que todas as marcas pregam e buscam, relacionamentos baseados em sentimentos e valores comuns.


A Patagonia fabrica roupas com algodão orgânico, reutiliza fibras de roupas usadas, busca diminuir o uso de químicos na produção da roupa e faz até fibras a partir de reciclagem de garrafas PET. É um jeito de fazer negócios em que eu acredito e por isso meu contentamento ao entrar lá. Fui logo apresentando as credenciais para o vendedor: disse que era do Brasil, já havia lido o livro “Let my people go surfing (foto abaixo), de Chouinard, e tinha ido até a loja só para conhecê-los e que acreditava muito nos valores da Patagonia.

O livro de Yvon Chouinard, com a história da Patagonia

O vendedor ficou para lá de feliz e começou a falar da empresa. Diz que realmente acreditavam naquelas coisas, começou a me apresentar os benefícios do produto e — melhor de tudo — me deixou totalmente à vontade para olhar as coisas, sem ficar ao meu lado perturbando e dizendo: “Essa fica bem em você, ou então temos essa e mais essa e mais essa.” Em certo momento, um deles me perguntou se eu estava precisando de alguma ajuda. Respondi que o outro vendedor estava me atendendo. Ele respondeu: “Pode perguntar para qualquer um. Não trabalhamos por comissão aqui e todos se ajudam.” Me senti um babaca…


Eu queria ficar lá meia hora. Acabei ficando 1 hora e meia. Por três motivos: vi praticamente todas as peças de roupa, tocando, vendo a etiqueta, checando como cada palavra era colocada para apresentar o produto. Segundo, não resisti às compras… Ok, podem me chamar de consumista, mas quem não precisa de camiseta, uma blusa mais quente e um casaco? E quem não gosta de dar presentes para alguém? Ninguém anda nu por aí e uma das principais vantagens dos produtos da Patagonia são sua durabilidade. Ou seja, você compra roupas e não precisa renová-las com frequencia. Por outro lado, são mais caras. Mas, obviamente, não se pode ter tudo (ainda, já que poucas empresas fabricam produtos dessa maneira).


E o terceiro motivo da demora foi o melhor de todos: a conversa que tive com os vendedores. A Patagonia prevê em seu modelo de negócios tempo para que as pessoas possam fazer atividades das quais gostam. Como nasceu de um montanhista e surfista e faz roupas e aparelhos para quem pratica esses esportes, quem trabalha lá também gosta disso. Diz o livro que nos dias de melhores ondas, o pessoal pode largar as coisas e ir para o mar, surfar! A conversa girou em torno de viagens, lugares que eles tinham visitado em função de viagens de bicicleta ou escalada.


Conversamos sobre Olimpíadas, sobre as condições (segurança, infra-estrutura) de o Brasil sediar os jogos. O vendedor não estava preocupado com isso. Dizia apenas que tinha chegado a hora de um país “diferente” sediar os jogos. E ali ficamos por quase 20 minutos jogando conversa fora.  Uma conversa bem animada, com consistência e valor, emoldurada por um quadro maravilhoso com uma onda perfeita quebrando embaixo da ponte Golden Gate. O bate-papo teve a cara da marca agradável da Patagonia, refletindo as práticas sustentáveis da empresa. Saí de lá ainda mais fã e com a certeza de que a motivação das pessoas em trabalhar por uma causa é mais um benefício de que vale a pena investir em práticas sustentáveis


Leia mais: “Deixe as pessoas surfarem”

Teste in loco

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Paredes e vitrines de San Francisco

São Francisco

Com câmera nova na mão, fiz algo que gosto muito, mas que raramente acho tempo para fazer: tirar fotos erraticamente por cidades.

Em São Francisco, consegui explorar dois bairros dessa maneira, Mission, comunidade de latinos (preciso confessar que me senti em casa com a bagunça e com as pessoas cruzando olhares!) e Nob Hill, bairro que começou a receber os ricos da cidade depois que o bondinho (cable car) ficou pronto.

As máscaras de bruxas estavam em toda a parte, assim como as pinturas na parede. No bairro Mission, principalmente. Muitas mensagens de sustentabilidade, ecologia e consumo local, reforçando a fama progressista da cidade. E até pinturas no chão, retratando o cosmopolitanismo de uma cidade nem tão grande assim, cerca de 800 000 habitantes, sem contar as cidades satélites.

São Francisco recebe de braços abertos.

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São Francisco, bege e outras

Tirava a foto e algo estava estranho. Os tons eram sempre de bege. Mexi na luz, mexi na lente e mexi na câmera. Continuou estranho. E não poderia ser diferente. Vista de Mission Dolores Park, San Francisco é bege. Uma cidade grande, bege. E não cinza.

São Francisco, cidade grande e bege

E também azul, para pássaros equilibristas.

Passáros equilibristas em 25th St, São Francisco

E também de cores quentes do pôr-do-sol.

Pôr do sol no Pier 39, São Francisco

E do prata da lua também.

Lua nascendo no Pier 39, São Francisco

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American Way of flying

A bit of American Way of life today. Um brioche cheio de açúcar, com uma manteiga para passar no pão. Três pedaços de fruta. Melancia, melão e laranja. Mas podia ser laranja, melancia e melão —  o gosto era quase igual. Chafé no lugar de café. Tinha esquecido como é ruim esse costume de colocar muita água para pouco café. E fome para passar na alfândega. Como em qualquer aeroporto do mundo (ainda vão inventar um design inteligente – não criacionismo, pelo amor de Deus!), filas na imigração.

– O que vc vai fazer nos Estados Unidos?

– Onde você vai ficar?

– Até quando vai ficar?

– O que você faz no Brasil?

– Já esteve aqui antes?

– Quando foi a última vez?

A tensão paira no ar. É preciso concentração para não gaguejar.

Pá, pá, pum (sons de carimbo). Passaporte jogado na bancada. E um seco “Have a good Day.” “Thank you. Bye.” Não fui capaz de desejar um bom dia a ele. Até que deveria, mas tenho a impressão de que não ia fazer diferença…

Uma caminhada até a área de bagagens. Os carrinhos são bem melhores e inteligentes que os brasileiros. Uma rodinha só na frente faz uma grande diferença na agilidade. Hello, alguém aí da Infraero já pensou nisso antes?

Um cachorro dentro de uma gaiola late desesperado pelo dono. Sorte (ou azar) dele que não precisa passar pela imigração. Dois caras chegam, param ao lado do cachorro e perguntam. “Are you ok, buddy?” E pegam uma maleta verde, grande, pesada e dão tchau para o cachorro. Três passos depois, e o bicho já está latindo de novo.

Logo na saída da área de coleta de bagagem está o ‘recheck’. E lá vai a mala de Dallas para San Francisco.  Queria ser a mala agora, assim não precisaria passar pela segurança de vôo.

O banheiro com a água quente de sempre. Não posso regular. E se eu quiser água fria? O quanto se gasta de energia para aquecer a água que eu nem quero quente?

Do banheiro para o portão C21. Procedimento de segurança. Laptop separado. Líquidos num saco plástico. Policial negra com olhar fixo no meu. Faço cara de tranqüilidade e tiro meus tênis. E o cinto. E o relógio. E o blackberry. E, por fim, a jaqueta. Laptop em uma bandeja com relógio e cinto. O americano atrás de mim aponta o sinal na minha frente. Meu filho de 5 anos entenderia mais fácil e rápido do que eu. Laptop em uma bandeja em uma imagem. E na outra um laptop, com relógio e celular. Com um ‘x’ bem grande de proibido. Mais preocupado em ver a cena, esqueci do detalhe. E lembrei que na América é melhor você focar no que está a sua frente do que olhar à frente, se é que me entendem. É tudo muito arriscado para fazer diferente. Ah, ninguém vá voar com a meia furada, hein?  Além de ter que tirar os sapatos ainda ter meia furada é humilhação demais para um vôo só.

(O comandante avisa que acabamos de passar por Ship Rock, no Novo México. Uma formação rochosa na paisagem surrealista sobre a qual sobrevoamos, onde as plantações são interrompidas por uma escarpa abruta, uma erosão gigante que faz lembrar que a superfície da terra é uma casquinha nas dimensões avantajadas de nosso planeta.)

Ship Rock, no Novo México

A policial me olha de novo. Será que ela adivinhou que meu sobrenome é sírio-libanês?

Na frente do portão, um buldogue de 1,85m com cara de mau. Aposto que nos finais de semana ele faz barbecue na grelha e toma cerveja dando risadas com os amigos. É só parte do trabalho dele essa cara de mau. Tenho certeza.

(Mais uma chamado do comandante para ver o Glen Canyon – com visibilidade infinita praticamente, o vôo é maravilhoso).

Glen Canyon, variação geológica do Grand Canyon!

Passei, mesmo sem acondicionar meus líquidos (pasta de dente, remédio para nariz) em um saco plástico. Já estava preparado para dizer que fazia muito tempo que eu não viajava para cá, não sabia das novas regras etc.

Agora, Skylink, o trem para o outro terminal. Um lindo dia raia pelas janelas do SkyLink. Nenhuma nuvem no céu. Uma armada de pássaros passa elegante em pequeno plano. Um jumbo pesado rompe o ar, apontando o infinito em segundo plano, sem a menor graça perto do balouçar errático das asas dos pássaros que revezam na liderança da armada.

Starbucks na entrada do vôo. Um cookie para não morrer de fone. Por trás das grades do corredor, brilha o logotipo da American, refletindo o sol nascente. Uma metáfora perfeita para as salas da imigração. O sol da América brilhando tão perto e tão longe do desejo de muitos. A fronteira do México está logo ali.

Em São Francisco, surpresa, a mala não está. Vou esperar no hotel para ver se a recuperam. Duas horas de sono para recuperar da noite na classe econômica antes de reencontrar a cidade, 11 anos depois da última vez que estive aqui.

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