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De onde vem tanta safadeza? Da moral de cuecas…

É sempre surpreendente a habilidade que os cartunistas têm de retratar o mundo com poucos traços.

Abaixo, Amarildo captou o maior paradoxo da sociedade brasileira. A culpa é sempre do outro. A culpa da corrupção é toda dos políticos, sem saber que a sociedade é formada por cada de um de nós, com nossas escolhas, principalmente as do dia-a-dia. 

Mais abaixo, o que os gaúchos chamam de “moral de cuecas”, a lição de moral de quem não tem moral para falar. 

A safadeza nossa de cada dia

 

"O que pretende fazer a respeito?"

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Na dúvida, pergunte à natureza

Emergência, Sociedade em Rede, swarm-effect (enxames), existem algumas palavras para falar da cada vez mais articulada sociedade  da era da informação. O caso que estamos vivenciando do WikiLeaks  é um excelente exemplo disso. (É um divisor de águas na maneira da sociedade lidar e se organizar com informações confidenciais – sem julgar a questão ética do que estão fazendo, tendo a achar que o movimento é bom para o jeito de nos organizarmos em sociedade, ainda que possa ser dolorido no início. Leia mais no post anterior). Assim que a PayPal, Visa e Mastercard bloquearam o fluxo de recursos para o WikiLeaks, hackers de todo o mundo se organizaram rapidamente para atacar estas empresas. Hackers independentes organizados sob um guarda-chuva chamado Anonymous, um caso exemplar de funcionamento de rede (de novo, sem julgar se o que fazem é certo ou errado).

Com a velocidade das mudanças, fica cada vez mais necessário ter velocidade para reagir rapidamente. Dentre as imagens para representar isso, conheci ontem esta abaixo, dos pássaros Starlings, da Inglaterra. Eles voam em bando ao final do dia com uma beleza estonteante. E é estonteante mesmo, inclusive porque este movimento também serve para afastar predadores (falcões). Até parecem os hackers do Anonymous confundindo os governos que aparentemente tentam bloquear o WikiLeaks a todo custo.

Mais: os starlings neste movimento trocam informações sobre onde podem encontrar alimentos durante um dia. Fazem isso com movimentos precisos, tanto que o responsável pelo registro dos vídeos disse que não viu nenhuma colisão em todas as vezes que observou os pássaros. É a rede, estúpido.

Ontem na palestra onde mostrou este vídeo @ricardo_thymus disse:

“Isto é sociedade em rede, não tem pirâmide, não tem um líder, mas cada um é líder dependendo da situação. Nesta sociedade, não há controle, e o dilema é como lidar com este mundo onde perdemos completamente o controle”

O maior impacto do vazamento do WikiLeaks foi até agora no governo americano, que está tentando se virar com o vazamento de informações. Inclusive este recente, grave, sobre o acordo EUA e China contra a Europa para boicotar Copenhague. Na sociedade em rede, vale quem você é e não quem você diz que é.

O mundo sem controle funciona? “Na dúvida, pergunte à natureza”, disse @ricardo_thymus. Pergunte aos Starlings.

 

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A origem da Devassa

Na semana passada, o post sobre a Devassa deu o que falar offline (engraçada a dicotomia e a discussão que gera um assunto em meios diferentes. Me pergunto porque os comentários não aparecem online, mas sim offline – mas isso é outro assunto). Chegaram a dizer que o post foi reacionário, mas talvez eu não tenha me explicado direito.

Não sou necessariamente contra a propaganda em si (abaixo). Meu ponto era outro, uma pergunta: com tanto dinheiro para investir em campanhas, seria o caso de fazer uma deste naipe, vulgarizando o erotismo para vender cerveja? Haveria outro jeito de posicionar uma marca de cerveja. Deveria haver?

Eis que com uma clareza cristalina encontrei na Folha de São Paulo deste domingo, no caderno mais, uma excelente reflexão do filósofo Renato Janine Ribeiro. Ele começou assim:

“Provei a cerveja Devassa num dia no aeroporto. Mas quando na TV sua propaganda com norte-americana rica que deve a fama a um vídeo pornô que circulou na internet, achei de mau gosto e perdi a simpatia pela bebida. Ponto. Agora, quando o Conar retira a propaganda do ar, vale a pena discutir um pouco o assunto.”

O autor envereda no texto questionando a decisão sob diferentes pontos de vista e leva à conclusão de que quanto mais mobilizados forem os grupos ofendidos, mais fácil a chance de tirar o comercial do ar. Como quando aconteceu quando algumas propagandas colocavam enfermeiras como mulheres fáceis. Ao contrário do que aconteceu quando psicólogos reclamaram duas vezes de que sua profissão estava sendo ridicularizada, citando dois exemplos levantados pelo autor.

Segundo Janine Ribeiro, se as mulheres, mobilizadas, recusam o papel de objeto, a decisão do Conar pode ser uma conquista delas. Que estão tentando colocar limites a uma exploração vulgar do corpo. Esse é o ponto, a vulgarização. Tudo para vender cerveja. No mesmo caderno há ainda a citação de um estudo que fez uma comparação de propagandas de cerveja alemãs com as brasileiras. Os alemães teriam ficado chocados com outdoors gigantes de mulheres “gostosas” espalhadas pela cidade.

O estudo mostrava o quanto a publicidade estava entranhada nos valores culturais do país. Na Alemanha, os anúncios ressaltavam a origem natural dos produtos ou no prazer socializador da bebida, o de beber junto com os amigos.

A autora do texto, a professora da PUC-SP Lucia Santella afirma que o tiro do Conar saiu pela culatra, “como todo tiro moralista”. Isso porque, segundo ela, chamou mais atenção do que deveria para o comercial, que acabaria virando paisagem nos anúncios sem-fim de mulheres gostosas desfilando pela areia.

Vale a reflexão e a discussão volta ao ponto que levantei: fazer esse tipo de comercial só reforça valores ‘fracos’ no meu ponto de vista. Beber cerveja = mulher gostosa desfilando na areia. Que tipo de sociedade se constrói reforçando esses valores? Não se trata de tirar do ar o comercial, mas sim refletir sobre as escolhas – inclusive essa mesma do Conar.

Vale então reproduzir aqui o argumento da professora Santella:

“(…) às vésperas do Dia Internacional da Mulher (nesta 2a feira, 8 de março), é preciso lembrar que o respeito às mulheres e aos méritos — que vão além da superfície de suas curvas e recheios – não é algo que se incorpora na cultura por meio de decretos, censuras nem por seu oposto — as festividades –, mas pela educação e — acima de tudo -, pelo apreço à dignidadeque deve brotar da força íntima e das ações das próprias mulheres. Homens machistas só vicejam onde mulheres ainda não cresceram diantes de si mesmas e para o outro.”

É quase dizer que uma campanha como a Devassa só poderia surgir num ambiente em que as mulheres permitem. Neste sentido, a reação à propaganda (independente da ação do Conar) é um bom sinal.

PS: Um ponto interessante sobre a questão em si. A equipe da Paris Hilton declarou à Folha que o termo devassa para eles significa sexy… Tá bom…

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Devassando os limites?

A polêmica da cerveja Devassa dá muito pano para manga. Sob o ponto de vista de marketing, a marca que contratou a atriz-barra-modelo Paris Hilton fez um golaço. Conseguiu a atenção de todos: no youtube, no twitter, no jornal, na boca das pessoas. Perfeito. Alguns dias depois, passada a ressaca do Carnaval, veio a ressaca do anúncio. O jornal de hoje traz a notícia de que algumas pessoas estão tentando tirar o anúncio do ar, sob a pecha de sexista, com apelo à sensualidade e apelo imperativo ao consumo. Em suma: perturbador da moral. E é mesmo?

Foi interessante acompanhar reações no Twitter, onde a palavra #devassa se tornou trending topic (entre as mais citadas):

@lalcubierre: O anúncio da Devassa tem a ver com um Brasil de fachada. O Brasil real é moralista enrustido.

@mulhermidia: Se queremos um mundo mais humano e justo, como podemos aceitar que comparem uma cerveja com nome Devassa ás mulheres?

@andrelalves: Mais uma vez o Brasil dá provas de sua HIPOCRISIA!! #Devassa não pode mas o apelo sexual que vemos em tudo é “normal”! http://bit.ly/akryOp

@Marcello_Serpa: Devassa perseguida pelo ministério Público? Se eu fosse uma cervejaria lançaria hj a cerveja “Santa”, “Recatada” , “Virtuosa” ou “Virgem”.

@Evalenesilva: Conar qr tirar Paris H. da propag.”cerveja Devassa”alegando apelo à sensualidade e apelo imperativo ao consumo. http://tinyurl.com/ycbuqwt

@fabiobetti O Brasil pode ser moralista enrustido, mas nunca proibiu a bunda de fora e nem a grana na cueca.

Falei com um amigo (@umlitrodeletras ) sobre sobre isso. Ele ligou para dar a dica de fazer esse post. Começou questionando se eu não achava muito moralista essa repercussão da mídia. Eu disse que achava, sim, mas que queria fazer uma ponderação. A seguinte: a sociedade precisa de limites para a vida ser aceitável coletivamente. Talvez a Devassa não seja tão devassa assim (apesar de que a Paris Hilton é para lá de devassa, como vocês devem ver nas fotos abaixo e lembrar do vídeo quente que retratava ela em ação com o namorado), mas ela está beliscando alguns limites.

O Brasil não é tão moralista como a reação das pessoas. Porém, se uma mensagem que testa os limites não tiver repercussão, provavelmente a próxima dará um passo além. Foi assim com a novela quando a Flavia Alessandra testava os limites do pole dancing, não foi? Foi assim quando a atriz Lilian-alguma-coisa apareceu com a periquita de fora ao lado do nada saudoso Itamar Franco.

Durante os quatro dias do Carnaval, tudo pode. Até vagabunda sem calcinha ao lado do Presidente. Mas aí, a ressaca passa e a vida volta ao normal.

Lembro do vocalista de uma banda gringa (não lembro o nome…) que tocou pelado em um show aqui no Brasil e foi parar na delegacia. O sujeito se saiu com essa: “Vejo pela TV todo mundo pelado no carnaval no Brasil. Por que eu também não poderia?” Não sei se alguém explicou para ele, mas isso só vale no Carnaval….

O calor dos trópicos, a diversidade, a sensualidade da mulher brasileira, a cordialidade do homem brasileiro são lados positivos de uma cultura que tem uma grande liberalidade política, uma semi-barbárie no trânsito, uma condescendência com os ídolos como jogadores de futebol que aprontam de tudo e nada pagam. Essa antropologia rasa como uma boa conversa de botequim regada a cerveja Devassa são algumas das faces de uma vida atraente que os brasileiros levam. Estrangeiros que provam desse paraíso ou ficam por aqui ou dão um jeito de voltar. É bom viver na liberalidade do Brasil. Mas há limites. Como sociedade em processo de amadurecimento, ainda estamos descobrindo quais são eles.

Deixo uma pergunta: com toda a verba publicitária de uma marca de cerveja, com o poder de escolher o que colocar no ar e com uma agência de publicidade na mão, a coisa a se fazer é uma campanha tipo “Devassa”? Sei lá… cada um trabalha para construir a sociedade que acha melhor. Ou para encher os bolsos e só. Só lembrando, a dona da marca é a Schincariol, que recentemente teve diretor preso em operação de sonegação da Polícia Federal.

Para ler mais:

https://afichacaiu.wordpress.com/2009/09/04/dm9ddb-and-their-video-for-wwf-on-vimeo/

Alguns anúncios criativos de cerveja

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“Eu Diário” — ou você mesmo edita suas notícias

Recentemente, o NY Times publicou uma coluna do Nicholas D. Kristof (a quem sigo no Twitter), falando do Daily Me (O “Eu Diário”, em tradução livre, um conceito criado por Nicholas Negroponte). O argumento do autor é que “quando vamos para a internet, cada um de nós se torna seu próprio editor, seu próprio vigia. Nós selecionamos o tipo de notícia e de opiniões que mais nos interessam”.

Kristof repercute alguns estudos que confirmam que “nós geralmente não queremos de fato boa informação – mas, antes, informação que confirme nossos preconceitos. Podemos acreditar intelectualmente no choque de opiniões, mas, na prática, gostamos de nos abrigar no útero reconfortante de uma câmara de eco.”

Ou seja, a internet está potencializando os efeitos do Ego, em prejuízo da diversidade de opiniões.  A receita para isso? Ler jornal e revistas semanais, na minha opinião. E confiar no trabalho dos jornalistas e editores (que sempre vão manipular a edição e blablabla, escrevendo o que querem e blablabla, mas sempre vão fazer melhor do que quem não está treinado para isso).

Vale ler o artigo. Aqui o original. E aqui republicadoem português no blog do Noblat.

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