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Liberdade e endorfina

“A espécie humana não aceita lidar com a realidade.” – T.S. Eliot

Ontem li uma matéria na revista Trip que perguntava para as pessoas qual tinha sido o momento em que elas haviam sido mais livres. Lembrei de alguns momentos na hora e de outros depois. Mas só há pouco caiu a ficha do momento em que me senti mais livre. Meu amigo Marcelo, que vai casar nesse final de semana (e está deixando a ‘liberdade’ para trás, na visão de alguns, mas não na minha), deve lembrar.

Estávamos em uma surftrip no Farol de Santa Marta, em Santa Catarina. Para quem nunca foi para lá, o farol me lembra a imagem dos filmes de Hollywood sobre a Baja California. Uma vegetação meio rasteira com bastante areia para todo o lado. Só faltariam aqueles fuscas com rodão, que não por acaso se chamavam Baja. É um lugar atípico no litoral de Santa Catarina, que é farto em vegetação da Mata Atlântica. Tem uma paisagem lunar, com praias belíssimas. Uma delas, a Galheta Norte, é a que a gente estava nesse dia.

A viagem desde Porto Alegre durou 3 horas e meia. Fomos  no Uno Mille preto de guerra, com vários quilômetros rodados atrás da onda perfeita. Fomos direto para a praia, depois de ultrapassar as dunas que teimavam em invadir a estrada de terra. Não havia absolutamente ninguém. Era um final de tarde. Ainda deveria ter no máximo mais 30 minutos de surfe. Desci do carro, olhei para um lado: só mar. Olhei para o outro: um morro verde, enorme. Olhei para trás, algumas casas, quase soterradas pela areia, todas fechadas. Olhei para o outro lado, a imensidão da baía que se perdia centenas de metros adiante. Tive uma vontade súbita de gritar e pular. Uma catarse estimulada pela sensação gostosa de estar ao ar livre. Um minuto de insanidade, com gritos, pulos e uma euforia inexplicável.

Um dia desses ainda vou encontrar um pouco dessa substância que meu cérebro gerou naquele momento. Endorfina pura. Tá quase ali com a sensação de uma onda bem surfada. O problema é experimentar essa sensação uma vez. A vontade de encontrar de novo fica sempre, sempre por ali.

Lembrei disso esses dias, quando o Gutão disse que o espaço em casa era muito curto e que isso era ruim porque ele queria correr muito. “Não pode ter nada ali”, disse apontando para o sul, “nem ali, nem ali, nem ali”, virando o braço para leste, norte e oeste. “Quero correr, correr, correr. Para todas as direções.”

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Mais uma do Gutão: cheguei em casa hoje, falei com a Ju, com o Zé, amigo nosso e colega dela e fui para o quarto dar um alô para ele. Disse, com a maior cara de quem esperava eu entrar no quarto: “Papai, tava pensando em você. Vi uma foto sua e te lembrei!

Parabéns para meu irmão Brunildo, que fez 29 anos hoje e se diz mais experiente! Dá-lhe, cineasta!

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