Arquivo do dia: junho 26, 2009

A luta – ou da relação entre fonte e jornalista

Qual a semelhança entre a famosa luta de Muhammad Ali vs Goerge Foreman (sim, o cara que hoje vende grills) e uma entrevista para um jornalista? Aparentemente, nenhuma. Mas, como tudo na vida fica mais claro, bonito e poético com um boa metáfora, o media training que participei hoje foi uma experiência memorável. Logo no início, a instrutora colocou para rodar um trecho do filme “When we were kings”, que conta os bastidores e o passo a passo comentado da luta. Os cinco minutos exibidos mostraram como Ali construiu sua tática para enfrentar o campeão – e até então considerado imbatível — Foreman. Em seu processo de treinamento na África, onde foi realizada a luta graças a um golpe de marketing genial do empresário do boxe Don King, Ali enfrentou sparrings que batiam forte. Batiam até não poder mais. E ele apanhava, apanhava, apanhava (ou assim parecia). E batia também.

Foreman, enquanto isso, treinava batendo até dizer chega. Pobres dos sparrings que o enfrentavam. Para ele, Foreman, seu adversário ria dançar na pista, como sempre fazia. Ali era conhecido por ser um peso-pesado leve, com um jogo de pernas incrível, que o fazia rodar pelo ringue, desnorteando os adversários. Ali, resolveu mudar a estratégia na luta, como só se pode descobrir – da forma mais bizarra possível – no dia.

Nos quatro primeiros rounds, Foreman o massacrou. Na maior parte da luta, Ali ficou esmagado nas cordas levando porrada. Ele ia para frente, para trás, para o lado, sempre protegendo o rosto (órgãos vitais no combate), enquanto Foreman desferia potentes bombas no rim e nos braços. A grande e esperada luta mais parecia um acerto de contas de moleques do colégio. E para saborear ainda mais a cena, durante a pancadaria Ali provacava Foreman dizendo que não estava batendo forte, que ele podia mais etc. E assim foi a luta por quatro rounds – o limite dos adversários de Foreman. Era o máximo que agüentavam. De tanto bater, Foreman cansou. E Ali reagiu levemente no quinto assalto, acertando alguns socos no campeão. A luta seguiu naquele curso até o oitavo assalto, quando Ali emergiu do nada, encaixou seqüências perfeitas até derrubar Foreman. O improvável virou realidade enquanto Foreman tentava se levantar do solo do ringue. Ali venceu a luta e tudo o que ele não tinha se tornado aos olhos americanos. Tinha dito não à guerra do Vietnã e perdeu tudo, inclusive o nome Cassius Clay, que trocou pelo muçulmano Muhammad Ali. E, só de birra, quis enfrentar o campeão. A contracultura contra o status quo. O povo contra a guerra. Os negros contra a elite.

Mais tarde, em entrevista sobre a luta, foi perguntado como tinha apanhado tanto e não tinha caído. Ali respondeu que não, claro que ele não tinha apanhado. Na verdade, havia absorvido golpes. Sim, isso foi verdade. No seu treinamento, ele ficava nas cordas levando soco de toda sorte, para exercitar a musculatura e agüentar melhor o impacto. Na sua estratégia para a luta, Foreman imaginava que Ali ficaria vagando pelo ringue. No início, parecia melhor do que ele imaginava. Afinal, estava do jeito que um boxeador em vantagem gosta, prensando o adversário contra as cordas. O que ele não esperava era aquela postura improvável — e vencedora — de Ali. Uma luta para não esquecer.

E a relação entre fonte e jornalista, tem o quê a ver com isso? Uma entrevista é um embate intelectual entre fonte e jornalista. Se a fonte tiver musculatura (ou seja, credibilidade, referência, pontos positivos na imprensa), vai absorver melhor os golpes. Uma bela metáfora. Valeu o dia.

Antes de acabar, indico um livro genial que conta a história dessa luta. Chama-se “A Luta” e foi escrito por Norman Mailer, genial escritor americano que morreu recentemente. A luta é só um pretexto para Mailer contar o contexto e tudo o que essa incrível luta que representou.

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Arquivado em Jornalismo, Literatura