Arquivo do mês: fevereiro 2011

O futuros dos TEDx

A chegada em Palm Springs é meio estranha. A vista do avião mostra um monte de  lagos em meio a campos de golfe em pleno deserto. No aeroporto, o visual brega/kitsch/retrô dos anos 50 causa um pequeno choque. Mas é na saída do aeroporto que a vista enche os olhos. Montanhas gigantescas com picos cobertos de neve em meio ao deserto! A natureza não engana e ajuda a entender porque cerca de 50 mil pessoas vieram viver aqui. Palm Springs tem várias atrações para adultos e crianças. Esportes outdoor, cassinos e artes e cultura. Palm Springs é terra de índios. Há mais de 2 000 anos, os primeiros moradores que se tem registro eram da tribo Agua Caliente Cahuilla, índios pacíficos e caçadores, capazes de se adaptar ao clima tórrido do verão e gelado do inverno. A foto abaixo da montanha árida com a neve no topo ajuda a entender este contraste.

A neve e a aridez do deserto na California

Como não poderia ser diferente, os americanos conseguem capitalizar e marquetear em cima de qualquer coisa. Aqui, há alguns lugares onde se pode conhecer esta herança indígena. Como no lugar onde aconteceu o workshop do TED Active com mais de 160 organizadores de TEDx de todo o mundo! Senegal, Colômbia, Inglaterra, República Dominicana, Arábia Saudita, Coréia do Sul, Índia, entre outros. Ao ar livre, em meio a um frio de rachar cedo pela manhã e um sol de rachar ao meio-dia, cerca de 20 participantes contaram suas experiências na organização de TEDx pelo mundo e ouviram as dicas da equipe do TED sobre como conduzir os eventos, lidar com parcerias e treinar os palestrantes.

 

Workshop do TEDx na terra dos índios

Ampulheta do tempo correndo: 3 minutos por apresentação

Giorgio Ungania, do TEDx Dubai, fez um video bacana, capturando a essência do evento.

Ao final do dia, depois de uma conversa muito produtiva com os organizadores de TEDx da América Latina, fiquei com a clara impressão de que o futuro do TED está na capacidade destes grupos auto-organizados levarem adiantes estas ideias. O grande desafio que vive o TEDx agora é a capacidade de conciliar quantidade e qualidade. Somente na Índia são mais de 100 TEDx. Na Coreia do Sul, com apenas 50 milhões de habitantes, já são 63 TEDx. A brincadeira é que na Índia, por mais que existam regras, o pessoal faz do jeito que achar melhor! O que nem sempre é o melhor jeito para o TED…

O futuro do TED pode estar na capacidade dos grupos auto-organizados de espalhar ideias

Existe um ponto de saturação? Quantos TEDx a comunidade internacional e brasileira pode suportar? Na minha visão e vendo a energia de tanta gente reunida pelo mundo fazendo estes eventos incríveis acontecerem, ainda tem muito espaço. Eventos menores sempre serão mais fáceis (e baratos) de serem realizados. Encontrar patrocínios é um problema comum pelo mundo. Então, cada vez mais e dada a quantidade (mais do que bem-vinda) de TEDx que teremos neste ano no Brasil, o segredo será a criatividade e a persistência para colocar eventos de excelente qualidade de pé.

Conversando com os colegas chineses que organizaram o TEDx Taipei e TEDx Shanghai, chegamos à conclusão que os melhores palestrantes são sempre os locais. A turma da cidade, da comunidade. Aqueles que conseguem maior conexão com a plateia. Fica a dica para a incansável turma de organizadores de TEDx pelo Brasil! O movimento TED e global, mas o impacto pode ser muito maior se tiver tempero local.

http://www.visitpalmsprings.com/page/about-palm-springs/6375

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A verdade da internet

Passei a mensagem abaixo para alguns amigos. Nem todos entenderam. Quem não tinha Twitter ou Facebook, não pescou a piada. Então, aí vai para aqueles que em algum momento já se acharam isso e já desenvolveram o senso de noção! (risos)

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A superpotência do amor

Brasil, acordando para o seu potencial

Quem ainda não viu, precisa ver o documentário da CBS com a visão americana sobre o Brasil. São 13 minutos falando sobre o despertar do país. Foi ao ar no final do ano passado e virou uma espécie de viral agora. É curioso ver o ponto de vista dos gringos sobre as terras tupiniquins. O tom é até meio festivo, em alguns momentos superficial (e dificilmente seria diferente em uma reportagem de 13 minutos para a televisão) e por isso é que vale a pena ver. Nossa imagem no final das contas é positiva.

Há entrevistas com Eike Batista, Lula e Eduardo Bueno (o jornalista também conhecido como Peninha).

O tom é o de que o país do futuro está se tornando o país do presente.

A certa altura, Eike Batista diz: “Hello, americans, you need to wake up”.

Lula, para dizer que o Brasil está bem, diz que os bancos nunca ganharam tanto quanto no governo dele, que as montadoras nunca venderam tantos carros, e que os trabalhadores nunca tiveram tanto dinheiro. De tão confiante, ele até dá a receita do sucesso para liderar!

Lula descobriu o receito para governar: fazer o óbvio

“O sucesso de um governante é fazer o óbvio, mas que alguns insistem em fazer o diferente”, diz Lula.  Para ele, uma das coisas era diminuir a diferença entre ricos e pobres.

Eduardo Bueno, o Peninha, diz que o sucesso de Lula está no fato de ele ser “streetwise”, sabe como se virar. Um cara que fala com o povo, banqueiros e com Obama.

Sobre o futuro, o programa fala que Dilma foi eleita porque Lula não podia ir para o terceiro mandato.

“Nós não somos cidadãos de segunda classe. Podemos acreditar em nós”, fala Lula.

A CBS até arrisca a falar no jeitinho brasileiro, o “Brazilian way”. Na tradução, dizem que jeitinho brasileiro siginifica se perguntar: “porque fazer algo hoje se pode ser feito amanhã.”

Ao Eduardo Bueno, a TV pergunta sobre a frase de De Gaulle, que dizia que o Brasil não era um país sério. Peninha diz que ainda não somos em vários aspectos. Dá como exemplo o fato de que as pessoas combinam de ir uma na casa das outras, mas acabam não aparecendo. E aí ele pergunta: “Como fazer negócios deste jeito?”

Aí, a CBS faz o contraponto, mostrando as favelas e traficantes derrubando helicóptero policial com metralhadoras. Para em seguida, voltar ao tom positivo, dizendo que já são 13 unidades pacificadas e muitas outras por vir.

As favelas começam a ganhar a cara de Tarsila do Amaral

O repórter lembra da Copa do Mundo e que a Fifa está dizendo que o Brasil está atrasado para a Copa. “Temos que tomar cuidado com o perfeccionismo europeu porque eles acham que tudo o que fazem é bem mais feito do por aqui. Podem ficar tranqüilos, que organizaremos tudo a tempo”, diz Lula.

Em seguida, Peninha diz: “Querem fazer em quatro anos o que não foi feito em 500 anos. É claro que não vamos estar prontos.

A entrevista continua: Qualquer coisa que acontecer no Brasil, não podem dizer que foi por falta de dinheiro. E fala-se da mina de ouro, o pré-sal. “São trilhões de dólares lá embaixo. Significa que o Brasil será o 3º ou 4º maior produtor de petróleo”, diz Eike.

Para finalizar, a reportagem diz que Brasil, China, Russia e India (BRICs) serão as próximas potências, de acordo com estudos de especialistas.

E aí, vem a pérola: “Brasil será um tipo diferente de potência nuclear, fazendo amor e não guerra.” Afinal, lembra a reportagem, o Brasil é um país pacífico desde 1870.

Brasil: superpotência do amor

“Porque lutar, se podemos ir para a praia, jogar ou assistir futebol? Let’s drink a beer”, diz o bon vivant Eike Batista.

Só faltou mesmo falar do Plano Real e que o Brasil não começou com Lula, apesar de todos os méritos de seu exitoso governo que foi coroado com a eleição da sucessora Dilma.

De qualquer maneira, o Brasil está conquistando seu lugar ao sol apostando no soft power (cultura, relacionamento) e não no hard power (poder bélico, guerra, economia). É um jeito de ganhar espaço no mundo. Mais ou  menos como aquele cara na escola que por não poder ganhar na força,  vai levando na simpatia e no bom-papo. Somos nós. “É nóis!”. Veja o vídeo:

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Os movimentos avançam mais rápido com a internet

Internet foi útil para a revolução no Egito

Recentemente, o brilhante jornalista Malcolm Gladwell, autor de Blink e Outliers, escreveu no blog da revista New Yorker dizendo que o Twitter e Facebook foram menos importantes na revolução do Egito do que se faz crer. Gladwell escreveu um parágrafo que é de encher os olhos dos românticos que acham que revolução de verdade eram aquelas que aconteceram na Europa por mobilizações espontâneas, como a turma que derrubou o muro de Berlim ou antes disso o pessoal da Revolução Francesa. Ninguém vai desmerecer o fato e a importância dos movimentos e que isso se deu sem telefone ou Facebook e mesmo assim fizeram a revolução.

Mas discordo que no Egito o fato menos importante de tudo é o quanto as pessoas que estavam na rua foram ou não mobilizados por alguma rede social.

Right now there are protests in Egypt that look like they might bring down the government. There are a thousand important things that can be said about their origins and implications: as I wrote last fall in The New Yorker, “high risk” social activism requires deep roots and strong ties. But surely the least interesting fact about them is that some of the protesters may (or may not) have at one point or another employed some of the tools of the new media to communicate with one another. Please. People protested and brought down governments before Facebook was invented. They did it before the Internet came along. Barely anyone in East Germany in the nineteen-eighties had a phone—and they ended up with hundreds of thousands of people in central Leipzig and brought down a regime that we all thought would last another hundred years—and in the French Revolution the crowd in the streets spoke to one another with that strange, today largely unknown instrument known as the human voice. People with a grievance will always find ways to communicate with each other. How they choose to do it is less interesting, in the end, than why they were driven to do it in the first place.

Brian Solis, um expert em redes sociais e relações públicas, autor do livro Engage, argumentou que Gladwell perdeu o ponto da discussão. Para Solis, o que está por trás do uso das redes sociais neste momento é o poder de ativação. E nisso eu concordo mais com ele do que com Gladwell.

O fato de as pessoas estarem em contato constante umas com as outras sem dúvidas nenhuma ajuda um movimento a ganhar força rapidamente. Há pensadores argumentando que se não fosse pelo fato de que há crise econômica no Egito, ninguém se mobilizaria para sair às ruas para derrubar um ditador. Ok, mas vamos juntar então a insatisfação pela crise econômica, com a velocidade de tráfego de informação com a abertura ao mundo exterior e ver o que acontece: mobilizações potencializadas pela velocidade. Queiram ou não os regimes, as pessoas sabem na velocidade da luz que há uma crise no país vizinho (como a população do Egito soube da revolução na Tunísia).

Queda do acesso na internet no Egito. Fonte: NY Times

Verdade seja dita que os governos não ignoram mais esse poder. Ou o Egito não teria derrubado a internet do país na vã tentativa de estancar o descontentamente que já havia vazado do mundo online para o real (que no fundo, hoje, já são na grande maioria dos casos a mesma coisa). Também a China não teria proibido a busca pela palavra Egito nas ferramentas de busca que aos trancos e barrancos funcionam no país (o Google ameaçou deixar a China, lembram?).

Também por saberem deste potencial, os ditadores podem usar as ferramentas sociais ao seu favor. Na Síria, Bielo-Rússia e Irã, o governo está perseguindo ativistas pelo que eles dizem nos seus perfis no Facebook, Twitter ou qualquer outro. É o outro lado da moeda. Você tem liberdade para se expressar, mas saiba que alguém do outro lado está lendo. Scott Shane escreveu no NY Times sobre isso e o Estadão reproduziu aqui.

O ponto em questão é o quanto as possibilidades de informação se expandem e como se faz importante saber o potencial que oferecem. E aqui vale falar da teoria dos laços fracos, de Mark Granovetter. Os laços fortes são aquelas pessoas que você conhece muito bem e os laços fracos são representados por aquele colega de trabalho que você encontra de vez em quando em uma reunião ou mesmo um ex-colega de escola. Pois bem, as ferramentas sociais de mais sucesso hoje são Facebook, Orkut, MySpace, Twitter etc, porque se apóiam nos laços fracos.

A lógica é a seguinte: os laços fortes pensam exatamente como você, têm os mesmos interesses, portanto, não agregam muito valor sob o ponto de vista do conhecimento. Já os laços fracos têm um incrível potencial de agregar mais conhecimento, assim como o de ampliar a disseminação de qualquer mensagem. Exemplo: quão poderosa e importante para a sensação de que está dando certo um movimento a distribuição de um video destes pela internet, sem filtros, sem interferência do governo, apoiada na distribuição via laços fracos?

Os laços fracos catalisam movimentos à medida que ajudam a disseminar informações mais rapidamente. Aumentam o potencial de qualquer ideia, tema ou projeto. Iniciativas como Kiva e Kickstarter se apóiam nisso para dar visibilidade e viabilidade a projetos do mundo inteiro financiados por pessoas do mundo inteiro.

E, sem dúvidas, tem o potencial de causar terremotos políticos e até de derrubar governos linha-dura que limitam a liberdade (e portanto o potencial) de milhares de pessoas. O video abaixo é um exemplo primoroso da manifestação desta vontade de liberdade.

Tá, pode ser que o Twitter e o Facebook não tenham sido cruciais nestas mobilizações, mas o fato é que minimizar — ou tentar ridicularizar — o seu efeito se presta a duas coisas, na minha opinião: 1) criar polêmica e 2) criar polêmica. Não consigo acreditar que alguém com o calibre intelectual de Gladwell não queira aceitar os efeitos da sociedade conectada em rede.

A pergunta está na direção errada. Não deveria ser se o Egito precisa de Twitter. Mas quando o Twitter e outros ajudaram a disseminar a mensagem de modo mais veloz entre a sociedade.

(Atualização – 10/02/11)

O Estadão de hoje publicou artigo de Thimothy Phelps, do Los Angeles Times, lembrando o quanto as redes foram importantes em 2008, nas raízes do movimento que se alastrou pelo Egito.)

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