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Os movimentos avançam mais rápido com a internet

Internet foi útil para a revolução no Egito

Recentemente, o brilhante jornalista Malcolm Gladwell, autor de Blink e Outliers, escreveu no blog da revista New Yorker dizendo que o Twitter e Facebook foram menos importantes na revolução do Egito do que se faz crer. Gladwell escreveu um parágrafo que é de encher os olhos dos românticos que acham que revolução de verdade eram aquelas que aconteceram na Europa por mobilizações espontâneas, como a turma que derrubou o muro de Berlim ou antes disso o pessoal da Revolução Francesa. Ninguém vai desmerecer o fato e a importância dos movimentos e que isso se deu sem telefone ou Facebook e mesmo assim fizeram a revolução.

Mas discordo que no Egito o fato menos importante de tudo é o quanto as pessoas que estavam na rua foram ou não mobilizados por alguma rede social.

Right now there are protests in Egypt that look like they might bring down the government. There are a thousand important things that can be said about their origins and implications: as I wrote last fall in The New Yorker, “high risk” social activism requires deep roots and strong ties. But surely the least interesting fact about them is that some of the protesters may (or may not) have at one point or another employed some of the tools of the new media to communicate with one another. Please. People protested and brought down governments before Facebook was invented. They did it before the Internet came along. Barely anyone in East Germany in the nineteen-eighties had a phone—and they ended up with hundreds of thousands of people in central Leipzig and brought down a regime that we all thought would last another hundred years—and in the French Revolution the crowd in the streets spoke to one another with that strange, today largely unknown instrument known as the human voice. People with a grievance will always find ways to communicate with each other. How they choose to do it is less interesting, in the end, than why they were driven to do it in the first place.

Brian Solis, um expert em redes sociais e relações públicas, autor do livro Engage, argumentou que Gladwell perdeu o ponto da discussão. Para Solis, o que está por trás do uso das redes sociais neste momento é o poder de ativação. E nisso eu concordo mais com ele do que com Gladwell.

O fato de as pessoas estarem em contato constante umas com as outras sem dúvidas nenhuma ajuda um movimento a ganhar força rapidamente. Há pensadores argumentando que se não fosse pelo fato de que há crise econômica no Egito, ninguém se mobilizaria para sair às ruas para derrubar um ditador. Ok, mas vamos juntar então a insatisfação pela crise econômica, com a velocidade de tráfego de informação com a abertura ao mundo exterior e ver o que acontece: mobilizações potencializadas pela velocidade. Queiram ou não os regimes, as pessoas sabem na velocidade da luz que há uma crise no país vizinho (como a população do Egito soube da revolução na Tunísia).

Queda do acesso na internet no Egito. Fonte: NY Times

Verdade seja dita que os governos não ignoram mais esse poder. Ou o Egito não teria derrubado a internet do país na vã tentativa de estancar o descontentamente que já havia vazado do mundo online para o real (que no fundo, hoje, já são na grande maioria dos casos a mesma coisa). Também a China não teria proibido a busca pela palavra Egito nas ferramentas de busca que aos trancos e barrancos funcionam no país (o Google ameaçou deixar a China, lembram?).

Também por saberem deste potencial, os ditadores podem usar as ferramentas sociais ao seu favor. Na Síria, Bielo-Rússia e Irã, o governo está perseguindo ativistas pelo que eles dizem nos seus perfis no Facebook, Twitter ou qualquer outro. É o outro lado da moeda. Você tem liberdade para se expressar, mas saiba que alguém do outro lado está lendo. Scott Shane escreveu no NY Times sobre isso e o Estadão reproduziu aqui.

O ponto em questão é o quanto as possibilidades de informação se expandem e como se faz importante saber o potencial que oferecem. E aqui vale falar da teoria dos laços fracos, de Mark Granovetter. Os laços fortes são aquelas pessoas que você conhece muito bem e os laços fracos são representados por aquele colega de trabalho que você encontra de vez em quando em uma reunião ou mesmo um ex-colega de escola. Pois bem, as ferramentas sociais de mais sucesso hoje são Facebook, Orkut, MySpace, Twitter etc, porque se apóiam nos laços fracos.

A lógica é a seguinte: os laços fortes pensam exatamente como você, têm os mesmos interesses, portanto, não agregam muito valor sob o ponto de vista do conhecimento. Já os laços fracos têm um incrível potencial de agregar mais conhecimento, assim como o de ampliar a disseminação de qualquer mensagem. Exemplo: quão poderosa e importante para a sensação de que está dando certo um movimento a distribuição de um video destes pela internet, sem filtros, sem interferência do governo, apoiada na distribuição via laços fracos?

Os laços fracos catalisam movimentos à medida que ajudam a disseminar informações mais rapidamente. Aumentam o potencial de qualquer ideia, tema ou projeto. Iniciativas como Kiva e Kickstarter se apóiam nisso para dar visibilidade e viabilidade a projetos do mundo inteiro financiados por pessoas do mundo inteiro.

E, sem dúvidas, tem o potencial de causar terremotos políticos e até de derrubar governos linha-dura que limitam a liberdade (e portanto o potencial) de milhares de pessoas. O video abaixo é um exemplo primoroso da manifestação desta vontade de liberdade.

Tá, pode ser que o Twitter e o Facebook não tenham sido cruciais nestas mobilizações, mas o fato é que minimizar — ou tentar ridicularizar — o seu efeito se presta a duas coisas, na minha opinião: 1) criar polêmica e 2) criar polêmica. Não consigo acreditar que alguém com o calibre intelectual de Gladwell não queira aceitar os efeitos da sociedade conectada em rede.

A pergunta está na direção errada. Não deveria ser se o Egito precisa de Twitter. Mas quando o Twitter e outros ajudaram a disseminar a mensagem de modo mais veloz entre a sociedade.

(Atualização – 10/02/11)

O Estadão de hoje publicou artigo de Thimothy Phelps, do Los Angeles Times, lembrando o quanto as redes foram importantes em 2008, nas raízes do movimento que se alastrou pelo Egito.)

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Só PIB maior não é receita de sucesso

Atenção, pessoal de Davos, só um PIBão não basta

Em um momento em que todo mundo comemora em Davos que a “a recuperação pegou” e que há muito dinheiro em caixa para a retomada, a minha questão é a mesma de sempre: dinheiro é fundamental para gerar valor. Mas qual o tipo de valor que queremos gerar?

Por isso, veio em hora superoportuna o artigo de André Lara Resende, publicado no Valor Econômico na sexta-feira passada. O ponto principal é que somente o crescimento, a geração de renda, não é suficiente para aumentar a qualidade de vida. Não é uma equação óbvia ou fácil, mas fica claro que a redução da desigualdade é o grande ponto a ser atacado.

Hoje mesmo li no jornal que o Brasil tem fundos de investimento em vinho e arte. Muito bem. Mostra pujança econômica e que há cada vez mais espaço para cuidar e investir no prazer – o que só acontece depois de cumpridas as necessidades básicas. Enquanto isso, no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, o Brasil ocupa a 73a posição entre 169 países (leia aqui).

Pior: o Brasil tem o terceiro pior índice de desigualdade do mundo, de acordo com o Gini, índice criado para medir distribuição de renda (leia aqui).

O modelo mental econômico que faz a economia girar passa ao largo das questões que são importantes para o planeta. Só que uma coisa não está separada da outra, como muito bem lembrou o Hugo Penteado, no TEDx Amazônia.

Vale a pena ler o texto abaixo para entender como as coisas funcionam ou não para continuar achando que o PIB maior é a salvação da lavoura.

Desigualdade e bem-estar — Portal ClippingMP.

Por André Lara Resende, economista

1 – O crescimento sempre foi o objetivo da política econômica. A teoria associa o crescimento ao aumento da renda e ao aumento do bem-estar. Até muito recentemente, utilizar o crescimento como o objetivo primordial de uma economia bem administrada não merecia maiores explicações. O aumento da renda nacional estava de tal forma associado a uma vida melhor que não era preciso introduzir indicadores de bem-estar entre os objetivos da política econômica. Se a economia crescesse e a renda aumentasse, todos os demais indicadores de bem-estar acompanhariam. Tão alta era a correlação entre o crescimento e o aumento de bem-estar que não se perdia grande coisa ao simplificar a análise e definir o crescimento como o objetivo da política econômica. Como crescimento econômico é um conceito simples e as estatísticas da renda nacional estão disponíveis, é uma grande vantagem, tanto teórica como empírica, utilizar o crescimento como a variável-objetivo da teoria e da política econômica.

Diante da evidência de que o estrago da atividade econômica sobre o planeta se aproxima do limite do tolerável, a identificação do crescimento econômico com o aumento do bem-estar tornou-se obrigatoriamente questionável.

Transformar a preservação ambiental num objetivo em si, como tão frequentemente se vê entre grupos mais aguerridos de críticos do crescimento econômico, não é uma resposta aceitável. O desafio de continuar a elevar a qualidade de vida, o bem-estar, de uma forma sustentável – palavra que se tornou um horrível lugar comum – continua tão relevante como sempre foi. Assim como a imposição de sacrificar a contínua melhora da qualidade de vida em nome dos limites ecológicos parece irrealista, mais irrealista ainda, absurdo mesmo, é imaginar que a mera incorporação do neologismo “sustentável”, aposto a crescimento, a consumo ou ao que quer que seja, nos permitirá seguir o curso do aumento dos níveis de consumo observados no século passado. Se estivermos necessariamente obrigados a crescer e a enriquecer, para continuar a melhorar a qualidade de vida, estaremos diante de um impasse, pois é evidente que não será mais possível crescer, enriquecer e, sobretudo consumir, nos padrões de hoje, por mais muito tempo, sem esbarrar nos limites físicos do meio ambiente. Será preciso encontrar uma outra forma de prosseguir com a melhora progressiva da qualidade de vida, que não dependa do crescimento econômico ou, sobretudo, do aumento do consumo.

Mas é possível melhorar a qualidade de vida sem aumentar os níveis de consumo? É possível melhorar a qualidade de vida sem crescer? A resposta não é simples nem evidente. Há, entretanto, indícios de que, a partir de um determinado nível de renda, a correlação entre crescimento e bem-estar se enfraquece. Até um determinado nível de renda, a melhora da qualidade de vida é indissociável do crescimento econômico. Não há como melhorar a qualidade de vida de comunidades excessivamente pobres sem aumentar a sua renda, mas, a partir de um patamar mínimo, capaz de assegurar as necessidades básicas, o aumento da renda não está necessariamente associado à melhora da qualidade de vida. Mais renda nem sempre significa mais bem-estar. O debate no plano individual – riqueza garante ou não garante felicidade? – pode não estar resolvido, mas, no plano social, parece que sim: a partir de certo nível, riqueza não garante qualidade de vida.

Ainda que se dê o devido desconto ao saudosismo, à natural tendência de romancear o passado, não há como negar, por exemplo, o efeito deletério sobre a qualidade de vida do crescimento econômico, com o seu impacto sobre o trânsito, em particular, nas grandes cidades. Pode-se sempre argumentar que o problema não é o crescimento propriamente dito, mas o automóvel, as grandes aglomerações urbanas, o estilo de vida, mais do que o enriquecimento diretamente, que podem reduzir a qualidade de vida. Correto, mas crescimento e enriquecimento são hoje indissociáveis do estilo consumista que, a partir de certo ponto, contribui para a redução do bem-estar.

2 Dois médicos infectologistas ingleses, Richard Wilkinson e Kate Pickett, em livro publicado em 2010, “The Spirit Level”, organizam as evidências e chegam a conclusões que, se não totalmente contraintuitivas, surpreendem pela amplitude: a partir de um nível de renda, a redução das desigualdades contribui mais para o bem-estar do que o crescimento. No limite, a desigualdade é evidentemente detratora do bem-estar, até mesmo dos mais afortunados, como demonstram o aumento da criminalidade, a necessidade de se viver confinado em condomínios fortificados e se locomover em carros blindados, cercado de seguranças privados. Mas não é óbvio que a redução da desigualdade, mesmo longe dos extremos, contribua para o aumento do bem-estar. É, entretanto, o que afirmam de forma peremptória Wilkinson e Pickett.

Seu trabalho é fruto de anos de estudos dedicados inicialmente a entender as diferenças de saúde, medidas por expectativa de vida, entre grupos de diferentes estratos nas sociedades modernas. O foco inicial era compreender por que a saúde piora a cada degrau inferior na escala social. Como infectologistas, utilizaram a metodologia dos que trabalham com os determinantes sociais da saúde para explicar por que alguns grupos são mais propensos a certas doenças do que outros, ou por que certas doenças se tornam mais frequentes em determinados grupos. Perceberam que poderiam generalizar o método, para compreender não apenas questões ligadas à saúde física, mas também à saúde emocional e a outros determinantes da qualidade de vida, do bem-estar ou da felicidade.

Ora, melhorar a qualidade de vida, ou aumentar o bem-estar, é o objetivo da atividade econômica. Por se tratar de uma variável com um grande coeficiente de subjetividade, sua mensuração exige a coleta de dados sobre múltiplas dimensões da vida de uma população. Até algumas décadas atrás, isso não era factível e, portanto, os dados não estavam disponíveis. A utilização do crescimento econômico como o objetivo primordial da atividade econômica, como uma “proxy” para o bem-estar, além de não sofrer séria contestação teórica, era uma imposição da prática. Não mais. Os avanços da tecnologia e os esforços de pesquisa social das últimas décadas criaram um formidável banco de dados acessível a todos.

3 A primeira constatação é que o crescimento econômico, por tanto tempo o motor do progresso e da melhora de vida, já não o é mais. A expectativa de vida aumenta com a renda per capita nos países pobres, mas, a partir de um determinado nível – acima do qual já estão todos os países latino-americanos, por exemplo – já não há mais aumento da expectativa de vida com o aumento da renda. Não por que a expectativa de vida tenha atingido o limite fisiológico, pois continua a elevar-se para todos com o passar do tempo e a melhora tecnológica. Apenas, deixa de haver correlação observável entre os dois indicadores.

Saúde e longevidade são excelentes indicadores de bem-estar, mas não esgotam, evidentemente, os componentes determinantes da qualidade de vida e da felicidade. Estudos recentes, que procuram correlacionar felicidade com o nível de renda, chegam a resultados semelhantes aos encontrados para a expectativa de vida: a felicidade aumenta com a renda, mas só até um determinado nível, a partir do qual, assim como para a expectativa de vida, o aumento da renda não tem mais efeito. A expectativa de vida deixa de estar associada ao aumento da renda antes que da percepção de ser feliz, mas os dois indicadores de qualidade de vida se tornam igualmente insensíveis ao aumento da renda a partir de certo ponto.

A evidência de que o aumento da renda torna-se incapaz de melhorar a qualidade de vida pode ser constatada, tanto num determinado momento no tempo, entre países de diferentes níveis de renda, quanto para um mesmo país ao longo do tempo. O que não chega a ser totalmente surpreendente, pois, à medida que se tem mais gratificação adicional, ou marginal, como gostam de dizer os economistas, o benefício torna-se decrescente. A contribuição marginal da renda de uma sociedade para o bem-estar e a felicidade de sua população torna-se praticamente insignificante a partir do ponto em que as necessidades básicas estão satisfeitas. Países pobres se beneficiam extraordinariamente com o crescimento econômico e com o aumento da renda, mas, a partir de certo ponto, o aumento da renda tem resultados decrescentes, que se tornam muito rapidamente nulos, em relação à melhoria da qualidade de vida.

4O que, então, explicaria o aumento da qualidade de vida a partir do patamar mínimo de renda que a grande maioria dos países já atingiu? Qual o mais importante fator para a melhoria do bem-estar nos países que já saíram da pobreza absoluta? Segundo “The Spirit Level”, a resposta é uma só: a redução das desigualdades. A melhor distribuição de renda é o mais importante fator determinante da melhora da qualidade de vida, do bem-estar, da felicidade, de um país.

Sempre se soube que redução das desigualdades é desejável. Não a qualquer custo, nem necessariamente através da intervenção desastrada do Estado, protestarão sempre os que acreditam que a igualdade de oportunidades é mais importante do que a igualdade de resultados, que defendem que não se deve sacrificar o sistema de estímulos da meritocracia em nome do ideal igualitário. De toda forma, uma melhor distribuição de renda, embora o tema tenha saído de moda na discussão teórica, sempre esteve entre os objetivos da boa política econômica. A incontestável vitória do capitalismo de mercado como sistema produtor de riqueza explica, em grande parte, a perda de importância do tema da distribuição de renda, apesar de nos países centrais, especialmente nos Estados Unidos, ter havido uma significativa deterioração da distribuição de renda, nas três últimas décadas.

Nos países em desenvolvimento, como no caso do Brasil, onde a desigualdade sempre foi e ainda é extraordinariamente alta, a ênfase no esforço de redução das desigualdades deslocou-se para a elevação do poder aquisitivo das camadas mais pobres da população. O capitalismo competitivo tornou-se indissociável, ao menos na imaginação pública, de um sistema que exige grandes vitoriosos. Incensados pela mídia, os novos ricos, milionários, bilionários, são promovidos a ícones da prosperidade recém-descoberta, modelos das novas possibilidades, em tese, acessíveis a todos os de espírito empreendedor.

O fato é que, justificada ou injustificadamente, a equanimidade tornou-se percebida como incompatível com o sistema de mercado competitivo. A pujança geradora de riquezas do capitalismo não apenas exigiria a tolerância com a existência de extraordinariamente ricos, como deles dependeria como elemento indispensável de seu sistema de incentivos. Desde que os muito pobres deixassem de ser muito pobres, tivessem acesso a um nível de vida minimamente condizente com as necessidades essenciais de nosso tempo, a existência de uma péssima distribuição de renda não deveria ser motivo de preocupação. Ao contrário, se as oportunidades fossem igualmente acessíveis, a existência de remediados, ricos, muito ricos e riquíssimos apenas refletiria o sistema de incentivos e premiação indispensável para o bom funcionamento do capitalismo competitivo.

Deixemos de lado, por um momento, a suposição de que o sistema de mercado competitivo exige má distribuição de renda. O fato é que uma sociedade iníqua, em que a distribuição de renda é excessivamente desigual, independentemente do seu nível de renda, é uma sociedade em que o nível de bem-estar é inferior ao de uma sociedade mais equânime, em que a renda é mais bem distribuída.

Nada de novo, exclamarão alguns. Uma sociedade em que há menos pobres é uma sociedade mais feliz. Sim, mas atenção: não por que os pobres são menos pobres e, portanto mais felizes. Estaríamos de volta à correlação entre riqueza e bem-estar. O ponto crucial do argumento é que, independentemente do nível de renda, a pobreza relativa contribui para a perda de bem-estar. Infelicidade está associada a renda, mas também à renda relativa.

5 A evidência dos estudos feitos nas últimas décadas, em universidades e institutos de pesquisa por toda parte no mundo, sugere que todos os possíveis indicadores de bem-estar, sejam relativos tanto à saúde, física e mental, quanto a questões sociais, como delinquência juvenil, gravidez adolescente, desempenho escolar, criminalidade, entre muitos outros, estão invariavelmente correlacionados com o nível de desigualdade social.

Willkinson e Pickett utilizaram dados para cinquenta países ricos da OCDE e também para os cinquenta estados americanos. A desigualdade da renda está associada à piora de todos os indicadores de bem-estar. Maior desigualdade está correlacionada com menor expectativa de vida, maior incidência de doenças físicas e mentais, maior taxa de homicídios, maiores índices de delinquência juvenil, de gravidez adolescente, maior percentual da população encarcerada, maiores índices de “stress” e obesidade, maior índice de crianças que abandonam a escola, piores índices de aprendizado escolar. A lista é impressionante, mas não são apenas os indicadores objetivos e quantificáveis de bem-estar que estão negativamente correlacionados com a desigualdade. Também aqueles com maior dose de subjetividade, como a sensação de felicidade ou o grau de confiança nos outros, medidos através de questionários, em que diferenças culturais, até mesmo sobre o dever de se declarar feliz, por exemplo, poderiam mascarar os resultados, são fortemente correlacionados com a desigualdade.

Todos esses indicadores, como era de se esperar, são invariavelmente piores para os estratos mais pobres da sociedade. Esta é uma das razões que nos levam a inferir que o aumento da renda levaria a uma melhora do bem-estar em todas as camadas da população. Mas não é o que ocorre. Os indicadores de bem-estar continuam muito piores para os mais pobres, independentemente do nível médio de renda da sociedade, porque não é a baixa renda absoluta, mas sim a baixa renda relativa, que reduz a saúde e o bem-estar. Não é o fato de ser pobre que faz alguém infeliz, mas o fato de ser mais pobre do que seus pares.

Há algo profundamente corrosivo na desigualdade. O crescimento econômico, nas sociedades em que existe grande desigualdade, não aumenta o bem-estar. Ao contrário, substitui as doenças e as dificuldades da pobreza absoluta pelas doenças e as infelicidades da afluência. Nas sociedades desiguais, o crescimento transfere para os pobres as doenças anteriormente associadas ao ricos, que se tornam muito mais frequentes nos pobres do que nos ricos.

Os indicadores de bem-estar permanecem sempre piores para os pobres do que para os ricos, em qualquer nível de renda, mas o ponto fundamental é que maior desigualdade piora tanto a qualidade de vida dos pobres como a dos ricos, qualquer que seja o nível médio de renda de uma sociedade, depois de ultrapassado o patamar mínimo capaz de garantir as necessidades biológicas básicas para todos. Wilkinson e Pickett sustentam que não são apenas os pobres, que, por serem menos pobres, numa sociedade mais igualitária, são mais felizes. Também os ricos são mais felizes numa sociedade mais equânime.

6 – A conclusão é tão surpreendente quanto polêmica. Comprende-se a repercussão de “The Spirit Level”, sobretudo na Inglaterra, onde o livro foi originalmente publicado e onde a desigualdade aumentou significativamente nas últimas três décadas. Uma coisa é defender a redução das desigualdades em nome de um ideal de justiça social ou de empatia pelos menos favorecidos. Outra é defender a redução das desigualdades com base na evidência empírica de que a desigualdade reduz o bem-estar, não apenas dos mais pobres, mas de todos, os ricos inclusive.

A econometria de Wilkinson e Pickett é relativamente primária. As corrrelações estão lá, mas não são devidamente trabalhadas para testar quão robustas são suas conclusões. Os críticos não perdoaram. Um trabalho de 2010, publicado pelo instituto inglês Policy Exchange, faz uma dura e bem formulada crítica das conclusões de “The Spirit Level”. O ponto central da crítica é que a maioria das conclusões, no caso da análise internacional, depende de alguns casos extremos. No caso da análise dos estados americanos, argumenta-se que há uma variável excluída – o percentual de negros na população – que explicaria bem melhor os resultados. As correlações entre bem-estar e igualdade seriam, portanto, frágeis. Infelizmente, por mais que a base de dados tenha crescido e melhorado, em relação à grande maioria dos temas sócio-econômicos, não há como pretender declarar vitória incontestável, com base exclusivamente na evidência empírica. As grandes questões, ainda que iluminadas pela evidência empírica, a qual não se pode desrespeitar, exigirão sempre algum julgamento de valor. Negar o elemento valorativo das questões econômicas, políticas e sociais, pretender que seriam passíveis de tratamento científico, à semelhança das ciências naturais, é um equívoco quase tão sério como pretender desconsiderar integralmente a evidência empírica.

Policy Exchange é uma instituição que se define como um centro de reflexão que tem como “missão desenvolver e promover novas ideias de políticas, com o objetivo de promover uma sociedade livre, baseada em comunidades fortes, liberdade individual, governo limitado, autoconfiança nacional e uma cultura empresarial.” Não surpreende que não tenham gostado do livro de Wilkinson e Pickett, e o título do trabalho, “Beware of False Prophets”, não deixa dúvidas sobre as intenções dos autores. Depois das experiências comunistas de inspiração marxista do século XX, há uma justificada desconfiança, a priori, dos que defendem os princípios liberais clássicos, em relação a toda proposta de corte igualitário. A defesa da igualdade está quase sempre associada à maior intervenção do governo para implementá-la. As implicações negativas sobre as liberdades individuais são as tradicionalmente associadas aos Estados fortes com ideias redentoras. A experiência do século XX, à esquerda e à direita, com o comunismo, o fascismo e o nazismo desmoralizou as propostas idealistas totalizantes. Para o liberalismo contemporâneo, a única igualdade desejável é a de oportunidades. Garantir a igualdade de oportunidades não é questão trivial, assim como, com certeza, também não exclui a intervenção do Estado.

A maior igualdade dos padrões de consumo parece ser desejável para o bem-estar de todos. Mais importante do que isso, entretanto, é compreender que é essencial para compatibilizar os atuais níveis da população mundial com os limites físicos e ecológicos do planeta. É possível transitar para uma sociedade de padrões de consumo menos extravagantes e mais igualitários, sem comprometer o dinamismo das economias de mercado e as liberdades individuais? Creio que sim. Este é o desafio de nosso tempo.

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Na dúvida, pergunte à natureza

Emergência, Sociedade em Rede, swarm-effect (enxames), existem algumas palavras para falar da cada vez mais articulada sociedade  da era da informação. O caso que estamos vivenciando do WikiLeaks  é um excelente exemplo disso. (É um divisor de águas na maneira da sociedade lidar e se organizar com informações confidenciais – sem julgar a questão ética do que estão fazendo, tendo a achar que o movimento é bom para o jeito de nos organizarmos em sociedade, ainda que possa ser dolorido no início. Leia mais no post anterior). Assim que a PayPal, Visa e Mastercard bloquearam o fluxo de recursos para o WikiLeaks, hackers de todo o mundo se organizaram rapidamente para atacar estas empresas. Hackers independentes organizados sob um guarda-chuva chamado Anonymous, um caso exemplar de funcionamento de rede (de novo, sem julgar se o que fazem é certo ou errado).

Com a velocidade das mudanças, fica cada vez mais necessário ter velocidade para reagir rapidamente. Dentre as imagens para representar isso, conheci ontem esta abaixo, dos pássaros Starlings, da Inglaterra. Eles voam em bando ao final do dia com uma beleza estonteante. E é estonteante mesmo, inclusive porque este movimento também serve para afastar predadores (falcões). Até parecem os hackers do Anonymous confundindo os governos que aparentemente tentam bloquear o WikiLeaks a todo custo.

Mais: os starlings neste movimento trocam informações sobre onde podem encontrar alimentos durante um dia. Fazem isso com movimentos precisos, tanto que o responsável pelo registro dos vídeos disse que não viu nenhuma colisão em todas as vezes que observou os pássaros. É a rede, estúpido.

Ontem na palestra onde mostrou este vídeo @ricardo_thymus disse:

“Isto é sociedade em rede, não tem pirâmide, não tem um líder, mas cada um é líder dependendo da situação. Nesta sociedade, não há controle, e o dilema é como lidar com este mundo onde perdemos completamente o controle”

O maior impacto do vazamento do WikiLeaks foi até agora no governo americano, que está tentando se virar com o vazamento de informações. Inclusive este recente, grave, sobre o acordo EUA e China contra a Europa para boicotar Copenhague. Na sociedade em rede, vale quem você é e não quem você diz que é.

O mundo sem controle funciona? “Na dúvida, pergunte à natureza”, disse @ricardo_thymus. Pergunte aos Starlings.

 

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WikiLeaks: a transparência veio para ficar

A transparência na era 2.0

A nova revelação dos documentos secretos do WikiLeaks trouxe uma discussão excelente à tona. O pano de fundo é a transparência, ainda que por vezes o foco fique na relevância ou não dos documentos revelados.

Em uma carta ou e-mail, ninguém envia informações que não gostaria que fossem passadas adiante. Quando alguém está falando ao telefone, só fala tudo o que pensa para alguém muito confiável e quanto tem certeza que não está sendo gravado. Os diplomatas expostos no caso dos diplomatic cables (mensagens diplomáticas) estavam falando em uma via confiável e – aparentemente – segura. E aí falavam tudo o que pensavam, mas não necessariamente aquilo que fariam em público. Ou seja, nem sempre de maneira ética ou transparente.

A sociedade é baseada em pequenas mentiras (white lies) alguns vão pensar. Sem elas, as relações não se sustentariam. Sim, mas white lies não fazem mal a ninguém. Neste caso, estamos falando de assuntos sérios, que envolvem milhões de vidas. Em alguns casos revelados, as informações ajudam a entender melhor o mundo e em outros dão a origem correta para algumas questões. Em outras, revelam planos de assassinatos. As fontes são os diplomatas, que podem ter interesses próprios ou usar informações a seu favor. Mas como estavam falando em um canal que consideravam seguro, falavam tudo o que pensavam. Por isso, as informações críveis. É o sol como desinfetante.

A transparência, que está no centro do debate, chegou para ficar. Queira-se ou não. O WikiLeaks se propõe a receber arquivos confidenciais para depois disponibilizá-los para grandes veículos. (O primeiro estrago do site foi a revelação de diálogos escrachados de soldados americanos matando civis iraquianos.)

No TED Global, em julho passado, Julian Assange, o responsável pelo serviço/site foi o convidado surpresa e expôs suas convicções. Na época, ele havia revelado o assassinato de civis iraquianos no caso que ficou mais conhecido. Chris Anderson, do TED, estava conduzindo a entrevista e em certo momento perguntou para a plateia se achavam Assange um perigo à ordem pública ou um herói. A esmagadora maioria falou que ele era um herói.

Não é o que estão pensando os governantes americanos, que estão buscando censurar o WikiLeaks e nem mesmo a justiça Sueca, que fez uma acusação de que Assange teria cometido estupro. O certo é que a verdade dói muitas vezes. Mais certo ainda é que daqui para frente, se você não quiser que alguma posição seja pública, não emita. O mundo em off é cada vez mais um anacronismo das relações entre jornalistas e fonte. Um segredo quando contado deixa de ser segredo. Off is off now.

No fundo, o WikiLeaks representa os maiores dilemas que vivenciamos hoje, com o excesso de informações (foram 250 000 e-mails vazados!), abertura cada vez maior, interdependência e velocidade trafegando à velocidade da luz.

Fui conversar com um jornalista amigo em quem confio muito sobre a opinião dele em relação ao WikiLeaks. A resposta foi primorosa. Vou reproduzir:

“Sobre o WikiLeaks, acho que transparência é bom, Rodrigo. Mas, pergunto eu, qual valor pode ser defendido de forma incondicional e irrestrita? Eu procuro, procuro, e não acho um que seja: nem liberdade, nem verdade, nem transparência. Todos estes valores admitem algum nível de restrição que é arbitrado pelo interesse coletivo. Creio, meu amigão Rodrigo, que qualquer tipo de fundamentalismo é potencialmente perigoso — inclusive o da transparência. Eu só admitiria rever esta minha opinião se o homem, e as comunidades humanas, fossem, enfim, perfeitas. Perfeitas na ação e no pensamento. E não são.”

Julian Assange: ativista ou jornalista?

Assange, mais do quem jornalista, está sendo visto como um ativista. Sua teoria sobre o que o WikiLeaks pode cumprir é interessante:

“Quanto mais secreta ou injusta uma organização é, mais os vazamentos causarão medo e paranoia na sua liderança. Isso minimiza da eficiência dos mecanismos de comunicação internos (aumentando o custo da “taxa de segredo”) e do conhecimento do sistema, resultando numa perda da habilidade de se agarrar ao poder à medida que o ambiente exige adaptação. Assim, num mundo em que os vazamentos são fáceis, sistemas secretos ou injustos são mais impactados do que em sistemas abertos e justos. Os sistemas injustos são, por isso, extremamente vulneráveis a vazamentos em larga escala.”

Há quem considere o WikiLeaks apenas uma pequena vitória da transparência, mas na verdade um tiro no próprio pé. A Economist disse que no final das contas, ao querer lutar por transparência, Assange vai causar uma diminuição na circulação de informações.

Enfim, uma discussão apaixonante, típica de um momento de intensa transformação e adaptação da sociedade. Para ajudar a entender melhor, segue aqui uma coletânea de notícias recentes para entender melhor o impacto do WikiLeaks nos últimos dias, com ajuda na curadoria do meu colega @dkeichi

WikiLeaks ataca de novo

Comentário do Noam Chomsky

Time já está considerando Assange para personalidade do ano:

Risco de vida

Assange é um ativista mais do que jornalista

Gráfico interessante que mostra os documentos por país

Irlanda foi contra e bloqueou o fornecimento de armas americanas na guerra de Israel x libano

Guerra Russia x Georgia – na época todo mundo condenou a Russia, quem na verdade começou foi a Georgia

Thy The Wikileaks Document Release Is Key To A Functioning Democracy:

How Wikileaks Changes Things For Us All

From WikiChina (Thomas Friedman, to NY Times)

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Causa e efeito – nossa maneira de se relacionar e pensar a vida – como foi o bloco 3 do TEDx Amazônia

(Fotos de Bruno Fernandes)

Design thinking é uma expressão que começa a ganhar força fora dos círculos onde ela nasceu. É a ideia de desenhar melhor o mundo em que vivemos. Cidades com trânsito caótico, superpopulação, lixo exacerbado, filas em aeroportos, desperdícios de logística etc – a lista é imensa – são todos problemas de desenho mal feito ou pouco pensado, sem visão de longo prazo.

Como tornar melhor nossas experiências de vida? Como aproveitar melhor nossos recursos naturais? Como viver colaborativamente devolvendo à natureza de maneira inteligente aquilo que produzimos? Há muita gente se preocupando com isso e a segunda metade do primeiro dia do TEDxAmazônia trouxe muitos insumos para esta discussão. Paul Bennett, diretor da Ideo falou do óbvio: a natureza é a maior fonte de inspiração, afinal “a Amazônia é a maior escola de Design Thinking do mundo”. Bennett não falou, mas poderia ter falado de biomimética, a nova disciplina que busca se inspirar na natureza como fonte de design. Isto não é novo, claro que não. As asas de aviões, por exemplo, foram inspiradas no vôo das aves. Há também uma borboleta do gênero Morpho que serve de inspiração para uma linha de maquiagem da L’Oreal . O próprio velcro foi criado pelo engenheiro suíço George de Mestral inspirado na natureza. O Estadão deu boa matéria sobre isso nesta semana.

O ponto é que ainda temos muito para aprender. O ecoeconomista Hugo Penteado foi ao palco depois de Paul Bennett para dizer que os economistas estão errados. Fiquei com a impressão de que a economia é o maior problema de design thinking já criado, à medida que impacta a maneira como vivemos há centenas de anos. “A economia é um bicho que não tem boca e não tem intestinos. Nada entra e nada sai”, disse Penteado para exemplificar que nos modelos econômicos não são considerados os recursos naturais como finitos. “Não existe jogar fora. O sistema é fechado (fechado nas fronteiras do planeta – debati recentemente esta questão no ResultsOn > veja aqui). O resultado é que transformamos o planeta numa grande lixeira, com a gente dentro”. E a pelo crescimento desenfreado que vivenciamos só tem feito piorar essa relação.

Não conhecemos a Amazônia, não conhecemos o fundo do mar, não conhecemos os limites de nossa relação com o planeta. E também pouco sabemos do que somos feitos, ainda que tenhamos avançado nessa descoberta nos últimos anos. Paulo Arruda falou da quebra do código da bactéria Xyllela Fastidiosa, responsável pela doença do amarelinho nos laranjais brasileiros. Os avanços da pesquisa genética, iniciados por Craig Venter com a primeira quebra de código de DNA ao custo de 2 bilhões de dólares em 2000 (fonte: Ciência Hoje), têm sido muito rápidos, ajudando a humanidade a se conhecer melhor. A previsão é de que em pouco tempo seja possível seqüenciar o genoma de uma pessoa por meros mil dólares. Que avanço! Paulo Arruda, assim como Venter, são entusiastas do que fazem, transformando a ciência com base no que acreditam.

Os palestrantes do TED e TEDx são escolhidos pela motivação, pelo entusiasmo, pela vontade e pelo que conseguem fazer com base nisso. Alguns nomes incríveis surgem nesta busca, como o de Zach Liebermann, uma das palestras que mais me prendeu a atenção. Liebermann costuma dizer que usa a tecnologia como forma de quebrar barreiras entre o visível e o invisível. O trabalho do qual mais se orgulha é o Eye Writer, que criou para ajudar um amigo, o artista plástico conhecido como Tempt1, que foi vítima de esclerose lateral amiotrófica e perdeu todos os movimentos do corpo, com exceção dos olhos (ele respira com ajuda de aparelhos). Com o Eye Writer, Liebermann conseguiu fazer com que Tempt1 voltasse a desenhar por meio dos olhos. Mais do que criar um aparelho, Liebermann ajudou a dar um novo sentido para a vida de Tempt1. Todo o esforço colocado no projeto se deu por uma causa simples e poderosa: a amizade.

Causas são incríveis combustíveis de mudança. Quando o castanheiro Zé Cláudio Ribeiro da Silva subiu ao palco e disse que enquanto tivesse força e vontade para andar e falar, ele não deixaria quieta sua indignação contra a derrubada da floresta. Jurado de morte algumas vezes, disse que cada vez que vê uma árvore sendo carregada em um caminhão era como se um membro da família estivesse sendo carregada em um cortejo fúnebre. A emoção da voz de Zé Claudio e sua conexão com a natureza têm a incrível força de mostrar o quando estamos longe da floresta nos centro urbanos. Não só fisicamente, mas emocionalmente também. A floresta é algo muito remoto para a vida urbana. Mas isso é só aparente. De onde vêm as madeiras das mobílias. A maioria da da madeira consumida no Brasil é ilegal, diz o Greenpeace. Quer dizer que provavelmente veio da natureza, sem qualquer controle. “Se as pessoas começaram a perguntar sobre a origem da madeira e rejeitar o que for ilegal, os madeireiros vão parar de derribar (sic) as árvores”, disse numa variação de português ingênuo, simples , mas com mensagem madura.

Depois da simplicidade de Zé Cláudio, veio a sofisticação escatológica de Michael Braumgart, se é que este oximoro é possível. O alemão subiu ao palco com uma cadeira simulando que ia ao banheiro. Um dos mandamentos para uma boa TED Talk é “começar forte”. Mais forte do que isso, impossível. Braumgart queria com isso ilustrar que o cocô, a merda, a bosta, é uma engenhosidade da natureza para realimentar o sistema. Então, num acesso de assertividade, Braumgart levantou da cadeira, pegou o crachá do evento, cheirou e disse num inglês com o cortante sotaque alemão: “This stinks. This is shit”, e jogou no chão. Não satisfeito com o choque que queria causar, fez o mesmo com o catálogo do evento. Chamou de merda o que na verdade não tem o mesmo sentido da merda. Uma confusão mental escatológica. E um posicionamento cristalino como a água de uma privada pós-descarga para dizer que nosso modelo de produção está errado. Os produtos que fabricamos não voltam à biosfera ou ao solo. Em suma: não são merda. Bom seria que fossem. Na minha opinião, a apresentação de Braumgart foi lendária, folclórica. Memorável. Assim como o terceiro bloco do TEDxAmazônia.

(CONTINUA)

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Um mundo sem palavras e outras

O mundo sem palavras

Um video incrível sobre como seria feito o mundo sem palavras.

Governos, empreendedores sociais e interdependência

Na semana passada, a revista Economist publicou uma matéria que fala da aproximação cada vez maior entre governos e empreendedores sociais. A matéria diz que os governos estão pedindo ajuda para resolver seus problemas. Tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, esta tendência está em alta. O governo de Barack Obama listou os 11 primeiros programas que serão apoiados pelo novo Fundo de Inovação Social. No total, cerca de US$  50 milhões se juntarão ao aporte de US$ 74 milhões de grandes ONGs para expandir o trabalho em saúde e para criar empregos para apoiar jovens. É uma grande notícia, que deixa claro a importância do envolvimento de todos na solução de problemas. Afinal, ninguém faz nada sozinho. A matéria da Economist: http://www.economist.com/node/16789766

Life is good lab

É cada vez mais comum a vontade das empresas de construirem algo em conjunto com os consumidores. Estamos saindo das interações entre marcas e consumidores para um diálogo mais profundo, que visa construir algo. O problema é que poucas empresas estão conseguindo fazer isso na prática, além do discurso…

Bem, a LG acaba de criar o LG Life’s Good LAB, uma plataforma colaborativa criada e desenvolvida pela LG do Brasil. Usando o Facebook, a empresa quer atrair ideias para o desenvolvimento de produtos. As ideias serão avaliadas e poderão virar projetos na LG. Eis o vídeo de divulgação do projeto.

O mapa das redes sociais

O mapa das redes sociais

As grandes marcas e o mundo 2.0

Este blog traz alguns exemplos de como grandes marcas estão se movendo no mundo 2.0 e aproveitando o seu tamanho para potencializar os efeitos. O gráfico abaixo mostra um De – Para e aqui neste link é possível explorar os exemplos. Trata-se da concretização daquela máxima de que se você for fazer depois, faça bem-feito. Com o tanto de experiências que já existem e pisadas na bola de muitas empresas, fazer depois já não é tanto um problema nas redes sociais. O problema é não fazer…

O "De-Para" das grandes empresas nas redes sociais

TED Talk da semana – Sheena Yvengar, sobre a Arte de Escolher (aqui em português)

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As cinzas do vulcão no caminho

Lisboa, abril, 2010, upload feito originalmente por Rodrigo VdaC.

O plano era visitar o Tâmisa e o Siena, mas acabamos foi no Tejo. A erupção do impronunciável vulcão Eyjafjallajokull, na Islândia, fez com que até 20 000 voos fossem cancelados na Europa. Dentre eles, o nosso.

Depois de confirmado o cancelamento, em pouco menos de 4 horas, refizemos totalmente o roteiro. Foram os dois lados da mesma moeda, a interdependência global. Se os impactos das cinzas do vulcão fizeram com que o prejuízo fosse estimado em 200 milhões de dólares por dia aos países europeus, somente a interdependência possibilitou que as reservas de um hotel fossem derrubadas e novas fossem feitas em 4 horas. Do outro lado do Atlântico.

Mas isso é pouco perto dos impactos que o vulcão islandês causou.
Um casal que viajaria conosco estava indo para um casamento na França, dia 23, 6a feira. Só que havia um detalhe: o casamento era da irmã desta nossa companheira de viagem. E ela também estava no Brasil!. Ela deve conseguir embarcar nos próximos dias.

No site My Way, havia alguns relatos de como a interdependência fica clara com eventos extremos como estes.

Uma mãe na Romênia fica preocupada por ter de organizar o casamento do filho no Texas. Um florista em Nova Iorque se preocupa com os produtos que podem não chegar. Pacientes esperando tratamento na Nigéria precisarão esperar pelos médico por outra semana.

E não há nada que se possa fazer. A natureza ainda é muito mais forte que a vontade dos homens. E provavelmente sempre será.

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Atualização, 6h15, 19 de abril: o NY Times publicou hoje um editorial falando sobre isso, sobre a interconectividade crescente do mundo e sobre o fato de que nossas vidas ainda serem comandadas pela natureza. Clique aqui

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