Arquivo do mês: março 2011

As marcas e o dilema da transparência

Vida corrida depois de uma mudança de trabalho. Para não deixar o blog parado, segue um link sobre o texto que escrevi recentemente sobre marcas, transparência e sustentabilidade para a revista Amanhã.

http://www.amanha.com.br/home-2/1619-as-marcas-e-o-dilema-da-transparencia

 

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As marcas e o dilema da transparência

Em um mundo em que os consumidores querem cada vez mais serem ouvidos e dialogar, um bom jeito de gerar confianca é pela transparência

por Rodrigo Vieira da Cunha
Na última edição do TED, conferência americana sobre inovação e ideias, no início deste mês, duas grandes empresas protagonizaram um momento muito interessante na gestão de suas marcas. Os líderes da Ford e da Pepsi  subiram ao palco do TED para falar de seus trabalhos à frente destas empresas, ícones do capitalismo.

TED_bill_ford350Não é muito comum ver CEOs no palco do TED. Não há uma razão específica (ou talvez haja), mas o fato é que é assim. E desta vez, foram dois CEOs na sequência. Primeiro, falou Bill Ford (neto de Henry Ford), que pareceu à vontade no palco para mostrar que a Ford está olhando para o impacto ambiental causado pelos carros. De acordo com ele, temos hoje 800 milhões de carros, número que saltará para algo entre 2 e 4 bilhões em 2050! Bill Ford mencionou isso para falar de uma série de iniciativas para melhorar a eficiência dos carros e diminuir o impacto no meio ambiente.

Depois dele, falou Indra Nooyi, CEO da Pepsi. Ela começou dizendo que pediu a sua secretária que fizesse uma pesquisa e com isso descobriu que apenas um pequeno percentual dos palestrantes do TED eram CEOs e que achava isso curioso. Segundo ela mesma, a explicação poderia ser o fato de que os CEOs em geral não são confiáveis… Então, falou como uma grande empresa pode contribuir com o mundo e conquistar confiança dos consumidores desta maneira. Daí em diante, Indra apresentou detalhes sobre Pepsi Refresh, um projeto inteligente que patrocina ideias com o potencial de mudar o mundo. O PepsiRefresh começou com uma ótima sacada de marketing: em vez de colocar milhões para fazer anúncios no tradicional SuperBowl, final do campeonato de futebol americano, a Pepsi utilizou este dinheiro para financiar ideias e lançou o projeto no início do ano passado.

O mérito é indiscutível e aqui chego ao ponto que gostaria de abordar. Com a mensagem que passaram, Ford e Pepsi realmente pareceram empresas preocupadas com o impacto que causam e também em fazer negócios melhores. Mas parece que não estão exercendo todo seu potencial. As grandes empresas têm um poder enorme de mudar o mundo. São elas que se relacionam com milhões de consumidores, milhares de fornecedores, acionistas, governos e sociedade em geral. As decisões das empresas impactam a maneira como o mundo funciona. Levando isso em conta, possivelmente Ford e Pepsi perderam chances relevantes de ganhar pontos e confiança dos consumidores em suas falas no TED, que sempre aponta tendências e reverbera por meio de formadores de opinião no mundo inteiro.

Bill Ford deixou de passar uma visão mais ampla ao mostrar que está preocupado em melhorar o transporte como um todo, não apenas a parte que na sua visão lhe cabe, a dos carros. Talvez a grande oportunidade do futuro para a Ford seja a de integrar os automóveis com outros meios de transporte, pois é bem possível que em um mundo com 4 bilhões de carros não exista espaço físico para circular… Já Indra provocou sentimentos mistos na plateia do TED. Pelo twitter, as pessoas reclamavam da onipresença da marca Pepsi na apresentação e da falta de informações sobre como a empresa está transformando o negócio em busca da sustentabilidade. Um projeto social relevante como o Pepsi Refresh é muito legal, mas é paralelo ao negócio. Como a Pepsi faz para diminuir o impacto da logística? Como diminui a quantidade de água usada na produção dos refrigerantes? O que faz para estimular práticas de alimentação mais saudáveis?

São questões que ficaram sem respostas nas falas dos CEOs. E este é o problema. Em um mundo em que os consumidores querem cada vez mais serem ouvidos e dialogar, um bom jeito de gerar confianca é pela transparência. E mostrando resultados: alguns anos antes, no próprio TED, outro CEO falou e ajudou a fixar sua mensagem de reinvenção dos negócios. O nome dele é Ray Anderson e o que ele fez foi transformar sua empresa, a Interface, ao criar um dos modelos de negócios mais sustentáveis do mundo, diminuindo muito o impacto desde o início do processo em 1996. De lá para cá, a empresa reduziu em 43% a quantidade de energia necessária para fabricar carpetes, diminuiu 44% a emissão de gases (ou 94% se considerar a compensação) e ao mesmo tempo aumentou a receita líquida em 27% no mesmo período. Os resultados estão lá, de maneira transparente, no site da empresa.

Talvez os CEOs (nem todos) incomodem em suas mensagens porque está todo mundo cansado de monólogos. Regimes ditatoriais estão caindo no oriente médio e no mundo árabe por conta disso. Iniciativas como Wikileaks ganham projeção por causa disso.  É muito melhor as marcas admitirem que nem tudo é perfeito, que existem falhas e que o processo é evolutivo, do que pegar o microfone para dizer: “olha como somos legais”.  Isso não gera relevância, mas afastamento. Não se trata de um dilema sobre abrir ou não fraquezas, mas sim de admitir que há o que melhorar.

A transparência não é um dogma e  mais do que um momento, é um movimento da sociedade. Lento, mas em pleno avanço. Só quem estiver disposto a pedir ajuda, a ouvir, vai perceber a oportunidade que isto traz. E quem não estiver, pode ficar para trás.

Assista Ray Anderson falando sobre a lógica de mercado da sustentabilidade

 

 

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Um homem de bem

Há pessoas que passam brevemente pela nossa vida e mesmo assim conseguem deixar marcas e liçōes profundas. Foi isso que me veio à mente quando recebi a notícia do falecimento do Sidnei Basile, um grande jornalista, que — tenho certeza — foi inspirador para muitos jornalistas que cresceram com ele e depois de “passarem” por ele.

O falecimento de Sidnei foi a primeira informação que tive hoje, recebida da boca de minha esposa. Não poderia ser diferente e aqui vai a 1a lição das três que recebi dele e que compartilho aqui. Quando comecei a namorar minha esposa, nós trabalhávamos juntos. Tentávamos lidar com o fato com a maior maturidade possível para quem está na casa dos 20 anos. Entretanto, nem todos na equipe aceitavam, principalmente porque minha esposa era na época minha chefe! Quando a situação ficou realmente tensa, Sidnei agiu para desanuviar. Contou histórias de casais que se conheceram nas redaçōes (jornalistas têm destas manias) e disse que isso era normal ao reconhecer que com maturidade isso era possível. A tensão se dissipou e aí percebi claramente um líder em ação.

A segunda lição que recebi de Sidnei foi quando pedi um horário para informar a ele que estava deixando a revista para trabalhar em outra empresa, não-jornalística. Sua frase foi lapidar e memorável. “Vai lá, aprende e volta para o jornalismo. Afinal, jornalistas são como comunistas, prostitutas e ladrōes: nunca desistem, só descansam!” Sidnei, ainda não voltei para o jornalismo, mas tenha certeza que nunca desisti! Jornalismo é algo que se nasce com. Não há escolha. Há, sim, jeitos de se trabalhar com a informação, a alma do jornalismo.

E no final de 2009, a última vez que tive a sorte de encontrar e aprender com o Sidnei, caminhávamos em busca de um café no Parque Ibirapuera, no intervalo de uma atividade do Planeta Sustentável, projeto importante e de vanguarda da Editora Abril. O Planeta Sustentável trata de construir um mundo melhor. Como não poderia ser diferente, Sidnei estava diretamente envolvido. Cuidar das coisas e das pessoas estava na sua índole. Então, a caminho do café, Sidnei comentava da viagem que havia feito com sua família. Refletindo sobre a vida, disse que, mais do que trabalho ou cargos ou posiçōes, o que ficava da existência eram os bons momentos curtidos com pessoas queridas.

E ali caiu minha ficha: Sidnei sabia aproveitar a vida, fazendo o bem para quem estava por perto. Mais do que tudo, a lembrança que guardarei dele é a de que foi um homem de bem. Descanse em paz, Sidnei. E esta lágrima é um ponto final.

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Transparência e diálogo: tendências do TED2011

Nesta era de dados que trafegam na velocidade da luz, ainda estamos tentando dar vazão e compreender o que se faz com tanta informação. Principalmente quando ela é capaz de derrubar regimes e sistemas complexos e estabelecidos há anos. Não à toa, o tema transparência esteve muito presente no TED 2011.

Ainda no primeiro bloco, Wadah Khanfar, diretor da Al-Jazeera, falou sobre a revolução na Tunísia, e como a transparência sobre o que estava acontecendo via disseminação da mensagem pela televisão e outros meios ajudou a dar força ao movimento. Emocionado, ele disse que: “uma nova geração conectada e inspirada por valores comuns criou uma nova realidade para nós. Estamos testemunhando história, o nascimento de uma nova era”.

O executivo do Google Wael Ghonim, que teve papel-chave na mobilização via redes sociais que acelerou a queda do ditador egípcio é um exemplo marcante do nascimento desta nova era. Ele repetiu sua frase que já se tornou a marca desta revolução colaborativa: “Não houve um herói, porque todos foram heróis.” E também disse: “O poder das pessoas é muito mais forte do que as pessoas no poder”.

As marcas e a transparência

Morgan Spurlock, o autor do filme SupersizeMe, foi direto ao ponto transparência. Sua nova empreitada que vai sacudir o mercado publicitário, que não é o que se pode chamar de grande exemplo de transparência… A ideia foi criar um filme chamado “The greatest movie ever sold”, ou o “maior filme já anunciado”. O objetivo foi fazer um filme cujo único propósito era anunciar o próprio filme. Uma grande sacada. Ele foi atrás de marcas para ajudar a financiar, mas obviamente ninguém topou. É claro que durante todo o processo, Spurlock abusou do bom humor para mostrar como funciona o mundo da publicidade. Hoje, em média, uma pessoa recebe cerca de 1500 mensagens publicitárias por dia (procurei estudos sobre isso, quem quiser pode me pedir a fonte que variavam entre 800 a 3000 mensagens por dia – fiquemos na média). Faz-se de tudo para chamar a atenção para uma marca, muitas e muitas vezes prometendo aquilo que não pode ser cumprido… Spurlock disse que tem esperança que seu filme faça com que as companhias pratiquem mais a transparência, um elemento que ele disse ter sentido falta em suas viagens pelos Estados Unidos na produção.

Spurlock e sua nova empreitada: uma balançada no mercado publicitário

No mesmo bloco de Spurlock, coincidentemente ou não, falaram dois executivos responsáveis por grandes empresas, Indra Nooyi, da PepsiCo, e Bill Ford, da Ford. Bill Ford estava mais à vontade do que Indra, mas só no início da palestra. Bill mostrou que a Ford está sim preocupada com o impacto ambiental dos carros, mas partiu da premissa que o número de carros não vai deixar de crescer exponencialmente. Fiquei um pouco frustrado. Achei que ele apresentaria opções para um transporte mais eficiente e não apenas para carros mais eficientes. Segundo ele, temos hoje 800 milhões de carros, número que saltará para algo entre 2 e 4 bilhões em 2050. Assustador.

Indra perdeu uma grande oportunidade também ao focar demasiadamente no seu negócio. Ironicamente, ela começou dizendo que fez uma pesquisa e descobriu que apenas um pequeno percentual dos palestrantes do TED eram CEOs e que achava isso curioso e cuja explicação pode ser o fato de que os CEOs em geral não são confiáveis. Então, começou a falar (bem) sobre sua visão de negócio, sobre como uma grande empresa pode contribuir com o mundo e conquistar confiança dos consumidores desta maneira . E aí no segundo terço em diante, a palestra desandou. Indra se pôs a falar do Pepsi Refresh, um projeto muito bacana, mas que não tem nada a ver sobre a reinvenção do negócio em busca de sustentabilidade.

A plateia do TED não gostou nem ao vivo e nem nas redes sociais. Muitos criticaram a visão excessiva do produto. Eu fiquei particularmante incomodado com a visão onipresente da marca Pepsi nos slides. Enquanto muitas pessoas estão lá falando de projetos incríveis de vida ou da construção de um mundo melhor, o foco excessivo em um projeto de uma marca não caiu bem. No último bloco, num primor de transparência e abertura ao feedback, Chris Anderson deu espaço para que as pessoas fizessem falas de feedback de 1′. Uma delas foi dirigida à Ford e outra a Indra. A crítica à Ford foi a que mencionei (falta de visão do todo) e a da PepsiCo foi mais dura. No lugar de chamar a atenção para a reinvenção do processo produtivo, ao expor a marca em demasia, Indra atraiu a antipatia das pessoas. Então alguém disse que por mais que falasse bem da marca, não tinha como amenizar o fato de que a PepsiCo vendia água açucarada para as crianças.

Críticas à Pepsi: água açucarada para crianças

 

O caminho: diálogo

A mensagem foi mesmo dura, até radical, mas o ponto nem é este. O ponto é que as marcas e empresas ainda estão aprendendo a lidar neste mundo. O fato de um CEO do porte da Pepsi não entender como fazer uma fala em um evento de vanguarda como o TED mostra uma certa desconexão com o momento. E até explica porque não há tantos CEOs por lá. Será pelo fato de não falarem a mesma língua? A cobrança e interação das pessoas será cada vez maior. Definitivamente não será fácil a vida das grandes marcas daqui para frente se não conseguirem provar sua relevância.

O importante, principalmente para as marcas, é manter o diálogo. Depois de sua fala, o documentarista Spurlock ainda disse ao Huffington Post, que acredita que a transparência será algo cada vez mais necessário frente à vontade de as pessoas em saberem e trocarem mais informações via redes sociais. E de novo caímos no tema redes sociais e web. A crescente procura por transparência está crescendo graças à web e ao momento da civilização. Um site como o Wikileaks não existiria se não fosse tão fácil espalhar informações. As revoluções no Oriente Médio têm muto de sua força e rapidez graças à troca de informações. Apesar de ainda não ser livre e transparente em todos os lugares, como na China, por exemplo, de onde veio um vídeo gravado por Ai Weiwei, artista dissidente chinês cujo nome foi banido dos serviços de busca na web chinesa.

Ai Weiwei fez uma das reflexões mais profundas, que toca diretamente também no tema da transparência. Sobre sua situação e de outros na China, ele disse que as nações ocidentais estão tolerando aquilo que está acontecendo. “É uma visão curta. (…) Todo o sistema está se tornando corrupto e nossa sociedade está sacrificando o meio-ambiente, nossa cultura, para se tornar rica.” A frase de Ai Weiwei traz muitas reflexões. Uma delas pode ser a própria capa da Wired que está nas bancas neste mês, questionando o modelo de produção chinês para produzir gadgets como iPods e iPads, entre outros. A revista questiona qual a responsabilidade de cada um neste processo e se já não é hora de olhar mais a sério para isso.

Wired e a capa polêmica: você deve se preocupar?

Vício de jornalista, fui conversar com o outro lado, um amigo chinês que fiz lá em Palm Springs. Professor de universidade importante, intelectual, não bateu palmas ao final do vídeo gravado clandestinamente por Ai Weiwei e enviado ao TED. Aquilo me intrigou e mais tarde, em uma festa de confraternização da conferência, fui perguntar a opinião dele sobre o vídeo. Com semblante sério, disse que não gostou de ver “roupa suja sendo lavada em público”. Segundo ele, o governo chinês está fazendo tanta coisa, tirando tanta gente da miséria, que achava melhor dar crédito e tratar estas questões internamente antes de expôr o país nesta situação. Confesso que fiquei surpreso com esta reação, que carrega um sentimento de patriotismo maior até que a causa da liberdade de expressão. Respeito, mas acho difícil entender.

Países como a China abusam dos filtros na internet, mas eles não estão presentes apenas nas escolhas de agentes do governo. Eli Pareser, autor do livro “The Filter Bubble” fez uma fala bastante intrigante sobre este assunto. Segundo ele, os algoritmos que filtram as buscas do Google, Yahoo ou de qualquer outro serviço que apresente informações a seu pedido ou não, estão filtrando a realidade, escondendo informações desconfortáveis. “Os algoritmos não tem a mesma ética que os editores. Nós precisamos que os editores de informações coloquem um senso de responsabilidade nos algoritmos”, disse. “Eles mostram o que queremos ver e nem sempre o que precisamos ver.” Numa época em que se vive a busca por maior transparência, sem nem mesmo sabermos onde isso vai nos levar, não será surpresa a emergência de realidades mais cruas. É o que Morgan Spurlock falou em relação à transparência das marcas e o que começou a explorar em SupersizeMe e agora irá mais fundo no novo documentário. O mundo está cada vez mais em ON e com a definição de telas HD. Está cada vez mais difícil esconder as coisas.

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“Imagine se…”: o melhor do TED 2011 – parte 1

“Imagine se…” são as palavras que mais recheiam as conversas entre as pessoas que já participaram de um TED ou TEDx pelo mundo, os chamados TEDsters. Por mais maluca que seja a ideia de alguém, logo em seguida alguém vai construir em cima desta ideia para talvez transformá-la em algo melhor ou mesmo viável. Não à toa, a conferência tem fama de revelar as próximas grandes ideias (big ideas). Por isso, não se encontra por lá gente dizendo: “isto não vai dar certo”.  Aliás, em uma brincadeira, esta frase (a número 1 de burocratas) foi rebatizada em uma palestra no TEDActive, por Jack Sim, o fundador da World Toilet Organization (sim, a Organização Mundial dos Toaletes). Ele chamou este tipo de atitude de “bureaucrap”, em um trocadilho com com burocracia e merda, o que ele tenta tratar em seu trabalho…

A astronauta Cady Coleman abriu o TED 2011 falando do espaço. Foto do flickr, by Cr8it

Pois foi chutando a bureaucrap para longe que o TED começou. Falando enquanto girava em torno da órbita de seu próprio corpo, a partir da Estação Espacial internacional, a astronauta Cady Coleman  abriu o TED 2011. Uma bela ideia de abertura de evento! Em seguida, começou a falar a física Janna Levin, que estudo o som que os buracos negros fazem. E do espaço, o número 1 do TED Chris Anderson conectou a plateia com Sarah Marquis, exploradora que está caminhando da Sibéria para a Austrália e até hoje já caminhou 30.000 km. Marquis perguntou em determinado momento por qual motivo  não conseguimos nos conectar à natureza e teimamos em viver de maneira independente.

O colunista do NY Times David Brooks  subiu ao palco para falar do desenvolvimento de consciência e trouxe dois insights importantes:

1) as emoções estão no centro de nossos pensamentos e portanto não estão separadas da razão. São, sim, a fundação da razão porque nos falam aquilo que devemos valorizar. 2) Nós não somos indivíduos auto-resolvidos, mas sim animais sociais e não racionais. Assim, estamos profundamente interconectados uns com os outros. E Brooks falou ao final que “a eficiência de um grupo não é determinada pelo seu QI, mas sim por quão bem conseguem se comunicar”, algo que estaria bastante presente nas palestras seguintes.

Linguagem e comunicação

A curadoria do TED deste ano trouxe vários exemplos de trabalhos que tentam enxergar sentido na quantidade absurda de informações que trafega em nosso dia-a-dia. Padrões, signficado, relevância – o que importa realmente em tudo aquilo que recebemos de informação? Carlo Ratti, do MIT, mostrou o trabalho baseado em sensores para entender a atividade humana, como por exemplo mapear o que acontece com o lixo. No livro Cidades Invisíveis, Ítalo Calvino já lembrava da enorme quantidade de resíduos que é coletada todo dia, mas que precisa parar em algum lugar. Se ninguém mostrar, fica difícil de ver… No site TrashTrack está a pergunta: “por que sabemos tanto sobre a cadeia de suprimentos e tão pouco sobre a cadeia de remoção de lixo?”


Deb Roy do MIT fez uma das falas que mais me chamou a atenção. Durante os três primeiros anos da vida de seu filho ele gravou 24 horas do que se passava na sua casa com câmeras espalhadas por todos os cômodos da casa. 90 000 horas de video. O objetivo foi aprender o processo de aprendizado da linguagem. A primeira palavra que seu filho disse foi água (“water“). Não à toa, a babá andava atrás dele o dia todo pela casa perguntando se queria água, mostrando o quanto o ambiente influencia no aprendizado! À medida que ia crescendo e aprendendo novas palavras, ele buscou interpretar padrões de conversas e em torno de que elas aconteciam. A palavra “bye”, por exemplo, acontecia com muito mais frequência na sala, perto da porta de saída. A experiência de Roy também pode ser aplicada, como ele mostrou ao final, no entendimento dos padrões que emergem de na discussão de temas como eleições, política e futebol. Entendendo isso, é possível, por exemplo, poder influenciar ou ajudar a dar sentido às conversas que emergem na internet a partir de programas de televisão. Ao final, Roy mostrou que tecnologia pode, sim, ter emoção, quando exibiu os primeiros passos da vida de seu filho.

Milagres”

A emoção da descoberta apareceu outras vezes no TED, como no projeto do carro desenvolvido para ser guiado por cegos, de Dennis Hong.

Teve também o trabalho de exoesqueletos da Universidade de Berkeley, para aumentar o potencial de soldados e — muito melhor que isso — para fazer cadeirantes andarem, como Amanda, que caminhou no palco do TED.

O escavador de dinossauros Jack Horner foi ao palco em uma palestra divertida para mostrar como ele está reconstruindo o DNA de dinossauros a la Jurassic Park. Só que no lugar de pegar amostras de sangue de mosquitos presos em âmbar como no filme, ele está utilizando galinhas para reconstruir a sequência genética. Segundo ele, galinhas são bichos pré-históricos e que podem muito bem ajudar a construir o Galinhossauro. Ainda faltam alguns anos de pesquisa, mas o caminho já está sendo percorrido (veja mais).

E depois disso veio um dos momentos mais incríveis do TED 2011, quando o cirurgião Anthony Atala apresentou seu trabalho de medicina regenerativa e impressão de órgãos humanos. Sim, é isso mesmo. Nenhuma das pessoas com quem conversei nos últimos dias sobre isso conseguia acreditar no que ouvia. Para alguns, tive que enviar o link da palestra de Atala (abaixo), que já está no ar. É isso mesmo, já estamos conseguindo imprimir órgãos humanos. Atala fez duas coisas para deixar claro que não estava de bravata. 1) Ele terminou a impressão de um rim em pleno palco, ao final de um processo de 7 horas. Na definição dele, no lugar de tinto, o cartucho da impressora libera células humanas preparadas para este fim. Atala já desenvolveu a tecnologia para irrigar o rim com veias, mas o website da universidade informa que a tecnologia de impressão de órgãos humanos é promissora, mas que ainda existe muito a ser feito até que não se precise mais de doação de órgãos, por exemplo. 2) Atala levou ao palco um de seus pacientes que recebeu há 10 anos uma bexiga redesenhada em laboratório. O rapaz disse no palco com voz embargada que sua vida foi salva pelo cirurgião.

No dia seguinte a este choque o especialista em saúde pública Harvey Finneberg falou sobre evolução. Lembrou Darwin ao dizer que a sobrevivência depende de quem souber se adaptar melhor e não necessariamente aos mais fracos. E aí veio com sua tese: a “neoevolução˜. Com os avanços da medicina, ele falou que este novo tipo de evolução não será natural, mas sim guiado por nós humanos. Foi impossível não lembrar dos experimentos nazistas de Josef Mengele e conectar com o recém-mostrado poder de criar órgãos humanos. A pergunta de Finneberg ao final continua ressoando para mim: “Será que conseguiremos desenvolver a sabedoria para fazer as coisas certas para nossa evolução?”

Resposta: Humildade

Talvez a resposta estivesse no último bloco, que se chamou “Only if. If only”, mas podia muito bem ser chamado de humildade. Começou com a autodefinida “wronglogist” Kathryn Schulz, na que foi para mim uma das palestras mais sensíveis e delicadas dos quatro dias. Ela escreveu um livro sobre o “errado”, cujo título é “Being wrong: adventures in the margin of error” e será lançado em maio aqui no Brasil. Schulz diz que por volta dos 9 anos, aprendemos que as pessoas que fazem coisas erradas são irresponsáveis ou preguiçosas, mas que na verdade há muito mais sobre o erro do que este preconceito. “Santo Agostinho já dizia, ‘erro, portanto existo'”. Estar errado, para ela, faz parte de nossa humanidade e que isso é fonte de criatividade. “Abrace o erro e aprenda com ele. Faz mal confiar demais no sentimento de estar sempre “do lado certo” das situações. Olhe para a vastidão do e complexidade do universo e tenha a coragem de dizer ‘não sei’ ou ‘talvez eu esteja errado”.

O educador John Hunter veio em seguida. Dono de voz acolhedora transpirando sabedoria, ele mostrou o jogo “The World Peace Game”. Uma espécie de War ao contrário, falando da interdependência de países e do uso compartilhado de aspectos sociais e ambientais. Hunter sempre fala para as crianças durante o jogo, aplicado em escolas: “desculpem, meninos e meninas, nós deixamos o mundo em um estado tão ruim que vocês terão que consertar”.

E ao final, Hunter (com quem tive a sorte e inspiração de trocar rápidas palavras no corredor do hotel onde fiquei em Palm Springs) permaneceu no palco para a última e incrível fala de Robert Ebert, crítico de cinema americano que perdeu a fala graças a um câncer na tireóide. Com a mandíbula reconstruída, mas sem a possibilidade de articular sons, Ebert deu um show de bom humor e amor à vida ao sorrir incontáveis vezes pelos olhos durante a leitura de sua fala, ora pelo computador que simula sua voz, ora por sua esposa, ora por Hunter, ora por um terceiro amigo que dividia o palco. Em certo momento, sua esposa travou ao ler algo que ele tinha escrito. Ela não concordava e chegou a dizer: “desculpa, mas ele não quis  dizer isso.” E começou a chorar. Com dois dedos, Ebert fez o sinal característico para ela continuar e como já estava demorando, pediu que ela passasse o texto para Hunter. Então ela disse: “nunca peça a sua esposa ler algo assim”. E continuou o discurso de celebração da vida que Ebert preparou.

Tenho certeza que durante a preparação desta fala, alguém disse: imagine se outros falassem por Ebert, representando sua voz. Assim como muitos outros imaginaram as invenções, engenhocas e inovações que preencheram o palco de Long Beach nesta edição: impressão de órgãos, galinhossauro, exoesqueletos, carros guiados por cego etc. De Long Beach a Oxford, passando por Palm Springs e por mais de 1 000 TEDx ao redor do mundo, a comunidade TED é repleta de pessoas de perfis empreendedores. A mágica de fazer e contar é o que mantém unida uma comunidade que só faz aumentar ano a ano. Com tanta gente pensando e trocando ideias com o ˜imagine se”, não tenho dúvidas que será possível trocar conhecimento para termos um lugar melhor para se viver. Sem “bureacrap”.


PS: ainda há mais a ser dito sobre o TED 2011. Virá nos posts seguintes.)

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O TED 2011 em 280 tweets

TED 2011 e a redescoberta do encantamento

Enquanto continua o processo digestivo das falas do TED (que às vezes duram meses!), aí vai a cobertura completa via twitter (em português e inglês). Está cheia de links para os principais momentos das palestras. Quem tiver paciência, vai garimpar muita coisa boa. E quem não tiver, em breve vou começar a colocar aqui alguns posts com os assuntos “curados” com o que achei de conexões e relevância.

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Ajuda: como fazer o movimento de sustentabilidade crescer?

Ontem no TED Active aconteceu a primeira discussão do projeto de Sustentabilidade. Neste ano, a pedido dos 500 participantes, a equipe do TED criou diferentes projetos com o objetivo de aproveitar a energia criativa de todos em discussões relevantes.

A pergunta do projeto de sustentabilidade era: como identificar práticas de criação de comunidade para fazer avançar o movimento de sustentabilidade. Logo no início, a discussão caminhou para deixar a pergunta mais simples possível. Ao final, ficou: “como fazer o movimento de sustentabilidade crescer”.

Considero que ficou de bom tamanho, visto o caminho que a discussão estava  tomando. Os participantes tinham as mais variadas experiências com o tema. Alguns até envolvidos em discussões mais abrangentes como o protocolo de Kyoto e até em organizações de megashows de popstars para ajudar a disseminar a causa.

Quem era de certa maneira `novo` na história, se mostrou um pouco mais para o lado de querer mudar pela inspiração, pela criação de compromissos em torno da causa.

Nesta hora, argumentei que isso já temos. São vários livros, dicas, sites e até filmes (Verdade Inconveniente, por exemplo) falando da possível mudança e o que cada um pode fazer para mudar o mundo.

Acredito que esta mudança deve passar pela criação de incentivos comuns que ajudem as pessoas se relacionar em torno do tema sustentabilidade. Por exemplo, uma cadeia de negócios relacionada ao tema. Gente querendo comprar, gente querendo vender…

Se há algo que aprendi em sete anos trabalhando com o tema, é que a grande maioria das pessoas a serem impactadas por mudanças querem saber como serão beneficiadas.

Após o workshop, saímos (os integrantes do grupo) perguntando às pessoas como o movimento de sustentabilidade poderia crescer.

Tivemos boas respostas:

–       colocar iniciativas em espaços públicos de forma a inspirar

–       criar incentivos financeiros

–       tornar tangível

–       deixar o tema mais sexy

Curioso foi que nenhuma das pessoas de fora do grupo falou em criar compromissos ou fazer campanhas de comunicação sobre o tema. Pelo menos não para mim.

O segredo talvez seja aproximar esta visão pragmática de quem não está “emocionalmente envolvido” com o entusiasmo de quem está mais diretamente conectado na causa.

Teremos nova discussão no final do dia, em volta de uma fogueira. Aceito sugestões para levar ao grupo! Alguém?

 

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