Arquivo do mês: agosto 2009

O mundo do ‘e’ e não do ‘ou’

Gosto muito da expressão “Vivemos no mundo do ‘e’ e não do ‘ou'”. Significa dizer que vivemos em uma era em que é necessário acomodar questões diferentes em busca das melhores decisões, atitudes ou posturas. Por exemplo: as empresas podem buscar lucro E cuidar de questões sociais e ambientais. As pessoas podem trabalhar E conciliar a vida em família. Soa cada vez mais estúpida a expressão: “Abri mão de tempo com minha família para ter uma carreira de sucesso.” Aprendi (o que não fazer) com pessoas que já me disseram isso. A frase vem carregada de uma certa amargura, sem deixar de transparecer um certo orgulho. Perfeitamente paradoxal pois carreira não é antagônica à vida pessoal. Geração Y. Já ouviram falar? É a tal da geração (turma da década de 80) para quem não faz o menor sentido a pergunta: “Você consegue equilibrar vida pessoal e trabalho?”. Simplesmente porque não existe essa divisão.

E digo tudo isso (em jornalismo se chamaria ‘nariz de cera’) para falar da entrevista da Marina Silva à Veja desse final de semana. Ficou evidente que ela aposta no mundo do ‘e’ e não do ‘ou’. Vale a pena destacar algumas passagens:

No período em que comandou o Ministério do Meio Ambiente, a senhora acumulou desavenças com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Como será enfrentá-la em sua eventual campanha à Presidência?
Não vou me colocar numa posição de vítima em relação à ministra Dilma. Quando eu era ministra e tínhamos divergências, era o presidente Lula quem arbitrava a solução. Não é por ter divergências com Dilma que vou transformá-la em vilã. Acredito que o Brasil pode fazer obras de infraestrutura com base no critério de sustentabilidade. Temos visões diferentes, mas não vou fazer o discurso fácil da demonização de quem quer que seja.

Um de seus maiores embates com a ministra Dilma foi causado pelas pressões da Casa Civil para licenciar as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira. A senhora é contra a construção de usinas?
No Brasil, quando a gente levanta algum “porém”, já dizem que somos contra. Nunca me opus a nenhuma hidrelétrica. O que aconteceu naquele caso foi que eu disse que, antes de construir uma usina enorme no meio do rio, era preciso resolver o problema do mercúrio, de sedimentos, dos bagres, das populações locais e da malária. E eu tinha razão. Como as pessoas traduziram a minha posição? Dizendo que eu era contra hidrelétricas. Isso é falso.

Se a senhora for eleita presidente, proibirá o cultivo de transgênicos?
Eis outra falácia: dizer que sou contra os transgênicos. Nunca fui. Sou a favor, isso sim, de um regime de coexistência, em que seria possível ter transgênicos e não transgênicos. Mas agora esse debate está prejudicado, porque a legislação aprovada é tão permissiva que não será mais possível o modelo de coexistência. Já há uma contaminação irreversível das lavouras de milho, algodão e soja.

A senhora poderia se apresentar como uma candidata negra na campanha presidencial?
Não. É legítimo que as pessoas decidam votar em alguém por se identificar com alguma de suas características, como o fato de ser mulher, negra e de origem humilde. Mas seria oportunismo explorar isso numa campanha. O Brasil tem uma vasta diversidade étnica e deve conviver com as suas diferentes realidades. Caetano Veloso (cantor baiano) já disse que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Nós temos de aprender a nos relacionar com as diferenças, e não estimular a divisão. A história engraçada é que, durante as prévias do Partido Democrata americano, quando a Hillary Clinton disputava a vaga com Obama, um amigo meu brincou comigo dizendo que os Estados Unidos tinham de escolher entre uma mulher e um negro, e, se eu fosse candidata no Brasil, não teríamos esse problema, porque sou mulher e negra.

A senhora é mesmo partidária do criacionismo, a visão religiosa segundo a qual Deus criou o mundo tal como ele é hoje, em oposição ao evolucionismo?
Eu creio que Deus criou todas as coisas como elas são, mas isso não significa que descreia da ciência. Não é necessário contrapor a ciência à religião. Há médicos, pesquisadores e cientistas que, apesar de todo o conhecimento científico, creem em Deus.

O criacionismo deveria ser ensinado nas escolas?
Uma vez, fiz uma palestra em uma escola adventista e me perguntaram sobre essa questão. Respondi que, desde que ensinem também o evolucionismo, não vejo problema, porque os jovens têm a oportunidade de fazer suas escolhas. Ou seja, não me oponho. Mas jamais defendi a ideia de que o criacionismo seja matéria obrigatória nas escolas, nem pretendo defender isso. Sou professora e uma pessoa que tem fé. Como 90% dos brasileiros, acredito que Deus criou o mundo. Só isso.

Acho que o mais importante e relevante para a ascensão de Marina na política é a pluralidade de ideias. Não existe um só lado da moeda. Não existe verdade absoluta. (Eu mesmo, por exemplo, sou evolucionista, mas acho que houve alguma força superior – Deus? – que deu origem ao mundo.

Mundamente falando no mundo 2.0, acredito que ele não é preto no branco. É,  sim, é cheio de nuances, de tons de cinza. É essa novidade que Marina vem acrescentar no debate político e na discussão sobre desenvolvimento no Brasil. Não é minha candidata (ainda e até porque não se lançou ainda), mas sou partidário de suas ideias.

E ideias são capazes de mudar o mundo.

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O surfe 2.0 e a causa ambiental

Desde que conheci o amigo Oswaldo Pepe @oswaldopepe, tenho acompanhado as previsões de surfe pelo Liquid Dreams, o melhor boletim de surfe do mundo! Sem brincadeiras, ajuda bastante na tarefa cada vez mais fácil de achar o melhor dia de surfar, com as melhores condições de tamanho e direção de ondas e com os ventos certos. Lembro de como isso funcionava 20 anos atrás. Saíamos de Porto Alegre rumo a Capão da Canoa no frio do inverno, sem saber o que esperar. Roleta russa total. Agora, isso ficou muito diferente no surfe 2.0. Os surfistas estão cada vez mais organizados e se reunindo em causas comuns. A web 2.0 vem facilitando muito esse movimento. É o caso do abaixo –assinado pelo não ampliação do porto de São Sebastião (abaixo).

Desde sempre, temos nos preocupados com a questão ambiental e agora há mais elementos para dar corpo ao movimento. Juba e Lula já falavam disso na Armação Ilimitadas. O surfista sempre esteve muito perto do meio-ambiente porque é ali que ele tem seu prazer. É na água limpa, nas ondas intocadas, no vai-e-vem das areias que interferem no fundo do mar e na formação das ondas.

E como está cada vez mais presente na sociedade a preocupação ambiental, de uns tempos para cá virou chic ser surfista. Estereótipos foram empurrados de lado. O divisor de águas foi o estúpido outdoor da revista Veja, que falava no lançamento do Houaiss – algo como: “o dicionário Houaiss continha 228.500 palavras, inclusive as oito que os surfistas conhecem”. A repercussão foi incrível nas páginas da revista (clique aqui) o que mostrava um movimento que já estava em curso. Era cada vez mais legal ser surfista. O surfe chegou nas passarelas de moda (existem lojas de surfe em cidades a milhares de quilômetros de uma praia) e mais recentemente até em novela da Globo. Natureza, saúde, diversão. O fim da era industrial valoriza a conexão do ser humano com a natureza. E o surfe desliza bem nessa onda – com trocadilho e tudo. Há até palestras corporativas pregando o surfe. E um livro genial de um empresário vanguardista Ivon Chouinard, da empresa Patagonia, cujo título é “Let my people go surfing” (veja post sobre isso).

O lado negativo é que há cada vez mais gente disputando as ondas. O positivo é que há cada vez mais pessoas na causa ambiental. E se mobilizando para a causa abaixo. Eu já coloquei meu nome no abaixo-assinado.

ps: Está cada vez mais difícil fazer bobagens no mundo 2.0. Sarney e pessoas com idéias egoístas e de curto prazo que o digam. A sociedade está mesmo melhor. Com tudo o que ainda há de errado…

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ATENÇÃO TOTAL

O negócio da Liquid Dreams é previsão, e não é de nosso costume utilizar a LD para tratar de outros assuntos, mas desta vez é uma QUESTÃO IMPORTANTÍSSIMA. Estamos falando da AMPLIAÇÃO DO PORTO DE SÃO SEBASTIÃO!

Tal obra ameaça São Sebastião, Ilhabela e Caraguatatuba, entre outras cidades litorâneas, e mesmo que você não seja frequentador dessas regiões, é imprescindível nosso envolvimento agora, ou poderá ser tarde demais PARA A NOSSA E AS PRÓXIMAS GERAÇÕES!

Imagine um navio cargueiro de 400m de comprimento, capaz de carregar 123 mil toneladas de carga (net) e que queima 6,3 mil litros de diesel por hora frequentando nosso litoral. Para se ter uma idéia de sua dimensão, esse monstro dos mares seria capaz de bloquear um swell de uma praia inteira se posicionado paralelo a costa. Ele não consegue passar pelo Canal do Panamá e nem pelo de Suez, mas poderá ser visto com freqüência no Litoral Norte paulista caso as obras de ampliação do Porto de S. Sebastião se confirmem. E esse é só um dos inúmeros nefastos efeitos colaterais, que incluem devastação da Mata Atlântica, novas estradas cruzando áreas de preservação, aumento da ocupação desordenada, poluição das águas, piora no quadro de produção de lixo sem destino adequado, aterro de mangues, aumento absurdo no tráfego de caminhões e assim por diante. Nós não precisamos disso! O Porto de Santos está sendo redimensionado, e o estado de SP não vai deixar de crescer sem esta obra.

Por essas e por outras, NÃO A AMPLIAÇÃO!

NÃO CUSTA NADA FAZER PARTE DO ABAIXO-ASSINADO! NO MOMENTO, ELE TEM POUCO MAIS DE 2 MIL ASSINATURAS, E ISSO É MUITO POUCO PARA IMPEDIR ESSE DESASTRE.

VAMOS MOSTRAR NOSSA FORÇA E SALVAR O QUE É NOSSO ANTES QUE SEJA TARDE. UMA VEZ CONCLUÍDA ESTA OBRA, JÁ ERA! Demora menos de um minuto pra assinar e alguns segundos para passar adiante. NOSSOS NETOS AGRADECEM!

Para aderir ao abaixo-assinado, acesse o link :

http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/4705

Para entender o impacto que as grandes obras podem causar, acesse: http://www.nossailhamaisbela.org.br/novo2009/?modulo=biblioteca&codigo=6

Esse link contém vários vídeos, apresentações, matérias e as fotos e detalhes do cargueiro citado acima.

Liquid Dreams

Sonhando acordado, mas jamais dormindo no ponto

Previsão de verdade? Cadastre-se gratuitamente: www.ldsurf.com.br

O projeto de ampliação do porto apresentado pela Companhia Docas
de São Sebastião pode trazer graves conseqüências para Ilhabela:

Ainda há tempo de pressionar o Governo do Estado de São Paulo para modificar o projeto. Para isso, precisamos do seu apoio!

É preciso mobilização para manter nosso
paraíso, impedindo o porto de containeres e
o aterramento do Mangue do Araçá.

Vamos nos unir por uma ilha mais
bela, justa e sustentável.

Para aderir ao abaixo-assinado, acesse o link :

http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/4705

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A Obama brasileira?

Será que teremos uma Obama brasileira (no sentido de criar novas possibilidades, horizontes e visão de país)? Marina Silva está “causando” somente com sua possível candidatura. A turma da sustentabilidade já está feliz da vida, os comentaristas econômicos e políticos já estão aventando possibilidades para o xadrez da eleição. E agora o PT está para lá de preocupado com o que pode acontecer.

Independente do desdobramento, uma coisa é certa: a discussão é mais do que bem-vinda e Marina já conseguiu muita coisa.

Vejam o que Sérgio Abranches falou em sua coluna, no blog ecopolítica. (Valeu pelo texto, Gabi – http://gabiindeutschland.blogspot.com/)

O fator Marina influi nas candidaturas do PT e do PSDB

Sérgio Abranches

“Marina Silva (PT-AC) deixou em todos os interlocutores a certeza de que será mesmo candidata a presidente da República, durante as 32 horas que permaneceu em Rio Branco (AC) para ouvir familiares, amigos e aliados políticos a respeito do convite para trocar o PT pelo PV”, informa o jornalista acreano Altino Machado, em seu blog.

Entre os interlocutores, muitos eram emissários do presidente Lula, tentando convencê-la a não sair. De repente, a certeza na candidatura Dilma Roussef (PT-RS) parece ter ficado meio abalada. Lula falou em, reunião recente, que seria preciso “consagrar todas as políticas em uma lei para que nenhum engraçadinho venha destruir essas coisas”. Referia-se aos programas sociais do governo. Sinal de insegurança sobre o resultado eleitoral? Ele vinha dizendo que tinha certeza que elegeria sua candidata. Recentemente, em mais de um momento, deu sinais de que percebe uma disputa mais difícil do que imaginava a princípio. Será que tem pesquisas, mostrando problemas na candidatura de Dilma Roussef? Que o Planalto tem pesquisa, certamente. O que elas realmente estão indicando tem sido um segredo compartilhado apenas pelos íntimos da campanha.

A perspectiva da candidatura de Marina Silva acendeu a luz amarela no painel de controle político do Planalto. Dilma Roussef sentiu-se confortável para dizer que Marina Silva não deveria sair. Como ela é candidata em exercício, não é opinião que a ex-ministra do Meio Ambiente fosse ouvir. Era mais um recado ao PT, para sair em campo e evitar a candidatura. Mas, ao que tudo indica, nem mesmo os interlocutores do presidente que têm a amizade de Marina Silva estão conseguindo demovê-la.

Hoje na Bahia, segundo se lê também no blog de Altino Machado, o jornalista Vitor Hugo Soares, no Bahia em Pauta, registra a seguinte declaração do governador Jaques Wagner: “Tenho que ser sincero: a luta da Marina tem ganhado um projeção cada vez maior no cenário nacional e mundial. Nós não temos a menor possibilidade de pressioná-la para mudar o que pensa e faz”. O contexto era solenidade na UFBA, hoje, em Salvafor,  à qual compareceu, em que Marina Silva recebeu o título de doutora Honoris Causa.

Altino Machado diz, no Blog da Amazônia, que Marina Silva, deu a alguns interlocutores a chave que desfaz a dúvida sobre sua decisão. Teria dito a eles, todos petistas, que: “vocês não precisam me acompanhar. Permaneçam no PT e mantenham a coesão da Frente Popular do Acre, para que possam ser ampliadas as conquistas até aqui alcançadas nos três mandatos consecutivos de nosso partido. Esse é um projeto político que tem dado certo no Estado.”

Poder ser uma despedida, um conselho político e uma liberação de compromissos dos mais chegados a ela no PT, com seu novo caminho.

Os proto-candidatos do PSDB, José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) comemoraram. Serra, com parcimônia, porém falando de afinidades com a plataforma verde de Marina e que o PV é seu aliado em São Paulo. Aécio, apesar de ser o mineiro, foi mais explícito, especulou sobre a possibilidade de aliança com Marina Silva no segundo turno.

Se ela for para o segundo turno contra Dilma Roussef, o PSDB provavelmente a apoiaria. Se for uma disputa PSDB x PT, tenho dúvida se Marina ficaria contra seu partido de vida e de coração.

É claro que as razões que a levam a deixar o PT estão fundadas na frustração com a agenda ambiental atrasada do presidente Lula e o desrespeito representado por entregar a condução da política para a Amazônia ao ex-ministro Mangabeira Unger. Mas também deve pesar a decepção com o comportamento ético da cúpula petista, quase sempre do lado errado, como no caso agora com José Sarney, que a constrange por ser da bancada petista no Senado.

O PSDB não tem melhores credenciais para apresentar, em várias áreas. Foi leniente com seu ex-presidente Eduardo Azeredo, no caso do mensalão. Abriga aliados de ruralistas, que defendem trabalho escravo e o fim da legislação de proteção à Amazônia. Muitos de seus parlamentares usam e abusam da privatização dos recursos do legislativo e praticam o nepotismo. É do PSDB, aliás do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), a lei mais atrasada e obscurantista sobre controle da internet.

Tanto José Serra, quanto Aécio Neves, têm muito bons secretários de Meio Ambiente. Mas a questão ambiental e climática ainda permanece como um acessório nos dois governos e não como vetor principal das decisões, como Marina Silva pensa que deva ser. Marina está em boa companhia nessa convicção: concordam com ela as principais lideranças social-democráticas européias, o presidente Obama, do EUA, o primeiro-ministro Gordon Brown, do Reino Unido, e lideranças mais conservadoras como Angela Merkl, da Alemanha, e Nicholas Sarkozy, da França.

Muitos setores petistas vêem, equivocadamente, a candidatura de Marina Silva, como uma espécie de linha auxiliar da candidatura tucana de José Serra. Sua função seria tirar votos de Dilma para ajudar a eleger Serra. Fora a visão conspiratória, essa análise não tem fundamento.

Essa eleição tem tudo, menos resultado certo no momento. A vantagem de Serra nas pesquisas é recall, terá que ser confirmada na campanha. Se ele for candidato e conseguir converter os 30% de pesquisa que tem hoje em voto, pode se qualificar para o segundo turno. Tanto Dilma, quanto Marina, quanto Ciro Gomes têm, em princípio, condições de se qualificar também. Se o candidato for Aécio, todos ficam mais ou menos nivelados na partida. É claro que Marina Silva aumenta a competição e ocupa espaço próprio, podendo tirar votos tanto de quem disputar representando o status quo do PT, quanto de quem disputar pelo PSDB. Não há favoritos hoje nessa disputa ainda longínqua.

Em que espaços ela disputa com Dilma, podendo levar vantagem? Entre os eleitores petistas – e não são poucos – desencantados com o comportamento ético do partido; entre os ambientalistas do PT; no eleitorado feminino; no eleitorado jovem, muito mais simpático a uma mensagem ambientalista que tenha credibilidade; no eleitorado negro; no eleitorado com preocupações sociais; no Norte.

Mas ela disputa espaço também com os tucanos, Serra ou Aécio: no eleitorado jovem; no eleitorado feminino; no eleitorado negro; no eleitorado com preocupações sociais; no eleitorado ambientalista não-petista (existem e não são poucos); no Norte-Nordeste.

Marina Silva não fará o discurso da eficiência, embora possa ficar tentada a fazê-lo em relação à sua gestão no Meio Ambiente. Mas o centro de sua campanha será uma proposta sócio-ambientalista. Se ela puxar muito para o lado extrativista e comunitário, perde espaço junto à classe média urbana, que quer ver uma proposta com maior conteúdo científico e tecnológico para o enfrentamento da questão climática e proteção da Amazônia. O discurso extrativista tem força no Norte-Nordeste e em parte da esquerda do Centro-Sul, mas deixaria o eleitorado urbano dessas regiões, com preocupações ambientalistas, porém mais ao centro do espectro ideológico, aberto à pregação dos tucanos.

A agenda mundial imporá a todos os candidatos o discurso ambiental e climático. A questão-chave será a credibilidade dele. Como o carro-chefe da campanha de Dilma é o PAC, totalmente anti-ambiental e contrário à redução do teor de carbono da economia, sua credibilidade nesse tema será muito baixa. Ficará entre Marina Silva e os tucanos.

É evidente que essa eleição não será decidida pela questão ambiental. Mas ela terá peso porque sensibiliza a parte mais educada – e formadora de opinião da classe média – especialmente os mais jovens, com menos de 40 anos. Não é uma fatia desprezível do eleitorado. Numa eleição muito competitiva, pode ser um fator significativo.

Outra vantagem de Marina Silva é ser um fator novo. Novidades sempre atraem o eleitor indeciso, sobretudo em momentos de profundo desencanto político como o que se vive hoje. Aconteceu com Obama. Ele acendeu a chama da esperança em eleitores que, provavelmente, não votariam naquela eleição. Aqui, seriam os 20% de votos nulos e brancos, mais um percentual que não é possível estimar, de faltosos. Pode chegar a algo como 25%. Imaginemos que uma candidatura nova, icônica, como a de Marina Silva, com uma biografia que, como expressão de superação pessoal, de auto-desenvolvimento, valorização da educação como instrumento de ilustração e mobilidade, não tem paralelo na política brasileira, consiga reverter metade dessa alienação eleitoral. Captaria em torno de 12% de eleitores que, em outras circunstâncias, por desencanto anulariam o voto, votariam em branco ou viajariam para não votar e poder justificar a ausência. Se, naquelas fatias do eleitorado, conseguir 14%, como diz o PV que ela teria, estamos falando de uma candidatura de 25%, arredondando. Não precisão em pesquisas, tão distantes da disputa, sem a campanha começar e que ainda podem nem passar de rumor. Nessa hipótese, com todas essas cautelas, poderia ser bastante competitiva no quadro de 2010.

É claro que há outros fatores, como o tempo de TV, reação dos setores mais conservadores do empresariado, do mercado e da sociedade, que operam contra Marina. Mas, esses, ela pode, ainda superar. Marina pode obter a adesão de outros partidos. Na TV, há um tempo mínimo necessário. Além dele, o programa eleitoral começa a ficar cansativo e perde audiência. A eficácia do tempo de TV é crescente até esse limite e cadente, a partir dele.

Também é preciso lembrar que, com muito pouco tempo de TV, Heloisa Helena (PSOL-AL) ficou em terceiro lugar, porque captou exatamente uma parte do voto dos desencantados. A campanha dela acabou perdendo fôlego porque foi se afastando do discurso crítico e indignado que esses eleitores esperavam dela. Tampouco ela tinha uma proposta programática abrangente como a que Marina Silva pode ter, mas o fato de ela ter hoje intenções de votos perto dos 10%, sem ter mandato e sem exposição na mídia, mostra que há demanda para uma candidatura alternativa “às que estão aí”.

Para não enfrentar bloqueio de setores mais conservadores, Marina Silva terá que apresentar assessores econômicos que sejam confiáveis. Tem a vantagem de que não precisam ser o que a esquerda chama de “neoliberais”. A crise econômica e as mudanças na política econômica na Europa e no EUA, superaram essa fase. Hoje a doutrina dominante é mais regulatória, até por causa da centralidade da questão climática. Ela deixaria de ser competitiva se reproduzisse a visão econômica atrasada do governo, um modelo requentado dos anos 60 e 70, de alto carbono, que não tem qualquer viabilidade no século XXI. Mas esse modelo é antagônico à pauta ambiental, já foi apropriado por Dilma Roussef, pode até ser adotado também pelo PSDB, hoje vazio de idéias novas, mas não caberia jamais no figurino de Marina.

Em resumo, a candidatura de Marina Silva, se acontecer mesmo, não é um fator desprezível e influi na competitividade tanto da candidatura do PT, quanto do PSDB.

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O que fizemos de errado?

Muito interessante essa reflexão do Oscar Arias, presidente da Costa Rica, na Cúpula das Américas, em Abril passado. Ao ler, lembrei do livro “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Foi minha primeira leitura mais crítica (sei lá tinha, 15 – 16 anos) sobre as relações entre países. É claro que fiquei chocado com o que li, pois não tinha muita base para avaliar. Foi importante, sim, mas hoje vejo com reservas pelo tom panfletário que carrega, ainda que tenha visões muito interessantes.

Com o tempo, me identifico mais com visões mais pragmáticas como a de Oscar Arias. Jogar a culpa nos outros é fácil. Difícil é reconhecer os próprios erros, a falta de foco, de propósito e — ouso dizer — de perspicácia. Ver o Sarney tentando se equilibrar na corda bamba para ‘agarrar’ o poder é triste demais. Parece que ainda estamos parados no tempo — ou andando para trás.

A Costa Rica, para constar, aboliu o  éxercito na década de 40, e investiu toda a grana em saúde e educação. Será que foi por acaso escolhido o país mais feliz do mundo segundo o Happy Planet Index? Acredito que não. Estive duas vezes lá (para surfar – porque ninguém é de ferro) e vi na prática o quanto o país respira bons ares. Para se ter uma ideia, todos repetem incessantemente o “Pura Vida”, para dizer que tudo bem. É uma saudação, praticamente.

Dito isso, recomendo a leitura do discurso abaixo (recebi por e-mail da colega Andyara Santis, valeu!).

E pura vida para vocês.


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Palavras do Presidente Oscar Arias da Costa Rica na Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, 18 de abril de 2009.
“Tenho a impressão de que cada vez que os países caribenhos e latino-americanos se reúnem com o presidente dos Estados Unidos da América, é para pedir-lhe coisas ou para reclamar coisas. Quase sempre, é para culpar os Estados Unidos de nossos males passados, presentes e futuros. Não creio que isso seja de todo justo.
Não podemos esquecer que a América Latina teve universidades antes de que os Estados Unidos criassem Harvard e William & Mary, que são as primeiras universidades desse país. Não podemos esquecer que nesse continente, como no mundo inteiro, pelo menos até 1750 todos os americanos eram mais ou menos iguais: todos eram pobres.
Ao aparecer a Revolução Industrial na Inglaterra, outros países sobem nesse vagão: Alemanha, França, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e aqui a Revolução Industrial passou pela América Latina como um cometa, e não nos demos conta. Certamente perdemos a oportunidade.
Há também uma diferença muito grande. Lendo a história da América Latina, comparada com a história dos Estados Unidos, compreende-se que a América Latina não teve um John Winthrop espanhol, nem português, que viesse com a Bíblia em sua mão disposto a construir uma Cidade sobre uma Colina, uma cidade que brilhasse, como foi a pretensão dos peregrinos que chegaram aos Estados Unidos.
Faz 50 anos, o México era mais rico que Portugal. Em 1950, um país como o Brasil tinha uma renda per capita mais elevada que o da Coréia do Sul. Faz 60 anos, Honduras tinha mais riqueza per capita que Cingapura, e hoje Cingapura em questão de 35 a 40 anos é um país com $40.000 de renda anual por  habitante.
Bem, algo nós fizemos mal, os latino-americanos.
Que fizemos errado?
Nem posso enumerar todas as coisas que fizemos mal.
Para começar, temos uma escolaridade de 7 anos.
Essa é a escolaridade média da América Latina e não é o caso da maioria dos países asiáticos.
Certamente não é o caso de países como Estados Unidos e Canadá, com a melhor educação do mundo, similar a dos europeus.
De cada 10 estudantes que ingressam no nível secundário na América Latina, em alguns países, só um termina esse nível secundário.
Há países que têm uma mortalidade infantil de 50 crianças por cada mil, quando a média nos países asiáticos mais avançados é de 8, 9 ou 10.
Nós temos países onde a carga tributária é de 12% do produto interno bruto e não é responsabilidade de ninguém, exceto nossa, que não cobremos dinheiro das pessoas mais ricas dos nossos países. Ninguém tem a culpa disso, a não ser nós mesmos.
Em 1950, cada cidadão norte-americano era quatro vezes mais rico que um cidadão latino-americano.
Hoje em dia, um cidadão norte-americano é 10, 15 ou 20 vezes mais rico que um latino-americano.
Isso não é culpa dos Estados Unidos, é culpa nossa.
No meu pronunciamento desta manhã, me referi a um fato que para mim é grotesco e que somente demonstra que o sistema de valores do século XX, que parece ser o que estamos pondo em prática também no século XXI, é um sistema de valores equivocado. Porque não pode ser que o mundo rico dedique 100.000 milhões de dólares para aliviar a pobreza dos 80% da população do mundo “num planeta que tem 2.500 milhões de seres humanos com uma renda de $2 por dia”.
e que gaste 13 vezes mais ($1.300.000.000.000) em armas e soldados.
*Como disse esta manhã, não pode ser que a América Latina gaste $50.000* milhões em armas e soldados.
Eu me pergunto: quem é o nosso inimigo?
Nosso inimigo, presidente Correa, desta desigualdade que o Sr. aponta com muita razão, é a falta de educação; é o analfabetismo; é que não gastamos na saúde de nosso povo; que não criamos a infra-estruturar necessária, os caminhos, as estradas, os portos, os aeroportos; que não estamos dedicando os recursos necessários para deter a degradação do meio ambiente; é a desigualdade que temos que nos envergonhar realmente; é produto, entre muitas outras coisas, certamente, de que não estamos educando nossos filhos e nossas filhas.
Vá alguém a uma universidade latino-americana e parece no entanto que estamos nos sessenta, setenta ou oitenta.
Parece que nos esquecemos de que em 9 de novembro de 1989 aconteceu algo de muito importante, ao cair o Muro de Berlim, e que o mundo mudou.
Temos que aceitar que este é um mundo diferente, e nisso francamente penso que os acadêmicos, que toda gente pensante, que todos os economistas, que todos os historiadores, quase concordam que o século XXI é um século dos asiáticos não dos latino-americanos.
E eu, lamentavelmente, concordo com eles.
Porque enquanto nós continuamos discutindo sobre ideologias, continuamos discutindo sobre todos os “ismos” (qual é o melhor? capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, neoliberalismo, socialcristianismo…)
os asiáticos encontraram um “ismo” muito realista para o século XXI e o final do século XX, que é o *pragmatismo*.
Para só citar um exemplo, recordemos que quando Deng Xiaoping visitou Cingapura e a Coréia do Sul, depois de ter-se dado conta de que seus próprios  vizinhos estavam enriquecendo de uma maneira muito acelerada, regressou a Pequim e disse aos velhos camaradas maoístas que o haviam acompanhado na Grande Marcha: “Bem, a verdade, queridos camaradas, é que a mim não importa se o gato é branco ou negro, só o que me interessa é que cace ratos”. E se Mao estivesse vivo, teria morrido de novo quando disse que “a verdade é que enriquecer é glorioso”.
E enquanto os chineses fazem isso, e desde 1979 até hoje crescem a 11%, 12% ou 13%, e tiraram 300 milhões de habitantes da pobreza, nós continuamos discutindo sobre ideologias que devíamos ter enterrado há muito tempo atrás.
A boa notícia é que isto Deng Xiaoping o conseguiu quando tinha 74 anos.
Olhando em volta, queridos presidentes, não vejo ninguém que esteja perto dos 74 anos.
Por isso só lhes peço que não esperemos completá-los para fazer as mudanças que temos que fazer.
Muchas gracias.”

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Algo de novo no ar

Já devo ter falado sobre isso aqui, mas volto a repetir. Excelente  a cobertura que a Miriam Leitão está dando à questão da sustentabilidade. Madura, sem preconceitos e muito antenada com o que está acontecendo.

A mais boa nova do front é a possível candidatura de Marina Silva à presidência. Não que ela tenha grandes chances de mudar, mas a boa notícias são os novos ares que ela traz para a política, para a modernidade do Brasil — a qual tantos esperamos e nos decepcionamos ao ver Sarney e sua turma em peso no Senado.

Vejam abaixo o que diz a Miriam Leitão (ou clique aqui para ler no site d’O Globo). Serra, Dilma e Aécio, renovem-se ou a sociedade os obrigará a tal. Os ventos já estão soprando!

Para além do verde

Espaço existe. Pode aparecer uma candidatura ou um programa de governo que vão além da mesmice dos potenciais candidatos a presidente em 2010. Marina Silva pode ou não ser essa pessoa, mas, ao surgir, ajuda a vislumbrar como pode ser verde o eixo de uma campanha. Hoje, a questão ambiental virou climática, ganhou dramaticidade, urgência e transbordou. Foi além do verde.

Pode ser outra candidatura, ou uma transformação convincente de um atual candidato. Mas espaço existe. Hoje, o desafio posto sobre o planeta e sobre o Brasil é como construir a saída da crise ficando diferente; como injetar dinamismo na economia por mudar o modelo. Isso leva a programas transformadores e escolhas novas em todas as áreas. O desafio climático atingiu o patamar de dar coerência a um novo programa de desenvolvimento.

O desenvolvimentismo do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) tem vários problemas. O mais grave dele é ser velho. Ele ecoa ainda um “governar é abrir estradas”, do mais remoto e arcaico Brasil; recorda a ideologia dos “projetos de impacto” do governo Médici. Não há, nunca houve, no programa de obras com o qual a possível candidata Dilma Rousseff pretende concretar sua subida pela rampa do Planalto, a menor sombra de atualidade. É impossível conciliar a esta altura o carro-chefe da ministra Dilma com o crescimento sustentável. Eles são opostos.

Um exemplo: a BR-319 tem sido defendida com o mesmo autoritarismo e falta de sentido da Transamazônica do governo militar. Não se sabe por que fazer a estrada, não se conhece estudo de modal alternativo, nem de viabilidade econômica. A ideia é apenas rasgar a floresta, num ponto nevrálgico, para levar as hordas de sempre de grileiros, especuladores, que abrirão novas cidades, que viverão dos repasses da União e repetirão a tragédia de atraso e violência. Está sendo usada a mesma técnica de pôr o Exército, como se fosse uma empreiteira, para tocar a obra enquanto a licença não vem. É a estratégia do fato consumado usada na transposição do Rio São Francisco. Dilma ainda vê o ambientalismo como inimigo a ser derrotado.

O dilema hamletiano da oposição tucana se agrava. O ser-não-sendo-candidato do governador de São Paulo, José Serra, tem vários defeitos. O pior deles é deixar espaço vazio, o que em política pode ser fatal. Se Serra tem uma ideia na cabeça, se ele tem um programa diferente, não se sabe. Ele vai disputar a mesma embalagem de bom gerente na qual se enrola a ministra da Casa Civil. Com uma vantagem: Serra já testou com sucesso o modelo da pessoa que faz acontecer em vários níveis de governo, em vários cargos. A Dilma é mais recente nesta vestimenta e tem contra si as evidências dos erros gerenciais do governo e as estatísticas de baixo desempenho do PAC. Se o candidato tucano for o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, ele também, até agora, mostrou que quer disputar o modelo do bom gerente com obras a apresentar. A grande divergência que Serra tem com o governo é a política cambial e monetária. A mesma que tinha quando as bases dessa política foram implantadas no governo tucano. Isso já era velho em 2002 e apequena qualquer campanha.

Houve um tempo em que o verde era apenas verde e o tema só fazia sucesso no gueto. Hoje, mudou radicalmente o conceito de progresso. Hoje, ele se desdobra em várias áreas: uma política externa que dará ao Brasil liderança na questão climática; uma política econômica de desenvolvimentismo moderno que mude a forma de produzir e usar energia; novas escolhas nos financiamentos públicos; na transformação da indústria. Significa ainda mudança de comportamentos; investimentos maciços em ciência e tecnologia; novos eixos da política de saúde pública; uma educação voltada para o que será exigido no futuro que começa agora, um mercado de trabalho que criará empregos ligados a novas tecnologias de energia e produção.

Uma proposta de governo que trate a questão climática-ambiental com a seriedade devida terá de enfrentar a falta de respeito à lei na Amazônia e isso será um avanço civilizatório. O combate ao atraso de uma parte do agronegócio abrirá novos mercados ao Brasil. O verde pode ser o veio central de uma proposta coerente em todas as áreas e atualizada com o que de mais moderno se conversa no mundo. O conhecimento do assunto se aprofundou tanto que os candidatos que usarem o nome da “sustentabilidade” em vão serão desmascarados como impostores. Não há clima para improvisos e maquiagem.

Se a senadora Marina Silva (PT-AC) for a candidata deste programa tem muito a fazer. Primeiro, precisa ir além da própria origem. Os passos que a levaram à militância política partiram do extrativismo. Isso é pequeno. Não dá nem para o começo da construção de um programa robusto. Precisará absorver o que está acontecendo no mundo e terá sim “enfrentamento”. Inevitável. O Brasil atrasado e arcaico está em plena ofensiva contra o meio ambiente, como a própria senadora denunciou na aprovação da MP da grilagem. Não há composição possível com quem acha natural um programa decenal de energia que prevê 82 termelétricas a combustível fóssil. É preciso denunciar o que já caducou, contrariar interesses, enfrentar o velho.

Essa possibilidade pode não ser percebida pelos partidos que estão muito ocupados com as cenas de pugilato verbal e de degradação em que se transformou o ambiente político. Se a questão climática não tiver a atenção que merece, o Brasil terá uma campanha eleitoral, na segunda década do século XXI, discutindo ainda o século XX.

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